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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

É proibido caminhar

Na primeira temporada de Mad Men, há um escândalo na vizinha em que mora o protagonista: uma mulher é separada (é o começo da década 1960). Dada a estrita etiqueta da época e determinadas necessidades sociais de uma vizinhança sem internet, as pessoas convivem com a separada, mas em baixíssima tolerância.

Assim, a amiga da esposa do sujeito pode flertar violentamente com ele na frente da mencionada esposa, mas quando esta vê a separada meramente em pé ao lado do seu marido, fica com ciúmes e trata de pedir um favor para ele (favor a ser feito bem longe dali). Como se observa que essa mulher separada caminha pela rua (!), começa-se a especular aonde ela vai, e o fato de ela responder claramente que gosta de caminhar e o faz por lazer apenas piora as especulações a seu respeito.

Parece-me que toda a situação na série motiva pensamentos sobre grandes avanços da sociedade em relação à mulher, mas isso é chover no molhado de conquistas já feitas, o que raramente me parece o melhor aproveitamento de qualquer obra artística. O que é interessante, a meu ver, não é o que já mudou ali, ainda que seja bom lembrar quantos direitos femininos foram conquistados e quão idiotas costumamos (homens e mulheres) ser desde que boa parte da sociedade concorde com a gente.

Ainda assim, o que acho mais interessante é o que não mudou. Ainda hoje, decidimos os grupos que prestam e os que não prestam majoritariamente por motivos idiotas. O apoio de alguns amigos (se não de grande parte da população) é necessário para a ideia ganhar realmente mínimo mérito. Então, racionalizações vêm fazer o seu papel para crermos que não estamos sendo idiotas, mas extremamente lógicos. O próximo passo, ainda hoje, é não perdoar nem por andar na rua as pessoas que discordam de nossa visão.

domingo, 4 de novembro de 2012

Internetês como analfabetismo

É verdade que o internetês tem sua graça, seu estilo, suas potencialidades, até poéticas - se quiserem. E é verdade que é possível escrever internetês e saber escrever conforme a Gramática Normativa ao mesmo tempo.

Também é verdade que as duas afirmações, como todas as defesas ideológicas do que é obviamente um problema, referem-se às exceções das exceções.

Praticamente não se usa o internetês para se fazer firulas que não se pudessem fazer com a Gramática - nada dessa poesia cotidiana e espontânea com que sempre se sonha; quase ninguém sabia escrever conforme a Gramática já quando ela só competia com uma Norma Culta, sobre a qual tinha extremo poder, quem precisa da Gramática agora, que existe um campo livre de todo e qualquer domínio dela?

O problema do internetês nem é, aliás, seus potenciais, o problema é do que ele é sintoma. Observe-se o que se escreve na internet, particularmente o que pessoas com menos de 20 (para ser mais extremo) escrevem, e compare-se isso a textos até o fim da Idade Média. O internetês é a escrita de uma cultura oral.

Nossas regras mais cotidianas, como pontuação, separação de palavras, uso de minúsculas e maiúsculas, vêm de problemas que as cópias de textos foram gerando conforme se perdia noção do contexto original (em muitos casos, tratava-se de uma defasagem de séculos). É realmente possível escrever quase sem regras, quando o texto é praticamente uma anotação para servir como apoio à fala, quando as duas pessoas que se comunicam compartilham de quase todas as referências em questão, quando todos sabem exatamente os mínimos detalhes do contexto relevante ao texto. Soma-se a isso o clichê e a frase-feita.

No momento em que o texto passa a ser útil por mais que um dia, ou seja, no momento em que a tecnologia da escrita passa a ter algum valor de acordo com todo o seu poder, esse texto de mera anotação moral passa a não satisfazer mais. E o internetês é só esse texto. Muito pouco dele pretende ser útil por mais que um segundo.

O único detalhe é que escrever assim é a única forma reconhecidamente necessária para uma multidão de gente. Assim, a famosa língua que brota suas regras das necessidades de comunicação em grupo, sem um poder autoritário por trás como é o caso da Gramática Normativa, não gera o estilo rico, delicado e bonito dos sonhos de um Marcos Bagno (em que ele inconscientemente só parece supor pessoas minimamente treinadas na língua culta como ele próprio), mas sim um texto tão pobre quanto possível, tão isolado quanto possível. As riquezas que as novas ferramentas permitem não entram em uso sem, como no caso da Gramática, o poder de algumas pessoas muito talentosas, tradicionalmente chamadas de poetas. O detalhe é que esses poetas não podem afetar o internetês da mesma forma, porque seus usos e estilos não podem ser ensinados nem passados adiante; isso dependeria de um sistema de regras e controle, como na tão temida e (blergh) adulta Gramática.

Dessa forma, só o que resta são pequenas firulas que só parecem grande coisa a uma leitura de quem não tem noção tanto das capacidades da língua quanto de reconhecer os trejeitos da fala em toda suposta novidade do internetês. E os motivos não são misteriosos: uma sociedade de cultura puramente oral é uma sociedade analfabeta; uma sociedade analfabeta só tem cultura oral.

domingo, 8 de julho de 2012

Interpreta pra mim?

Tem sido ainda uma experiência curiosa ver jovens (nesse caso, pessoas com menos de 17 anos) assistindo a filmes. Em primeiro lugar, vê-se que estão bem acostumados aos preceitos dos produtores e, noutra direção, que estes têm razão: a ação é a única coisa que concentra. A agitação e o barulho é o fundamental. As falas não ganham grande respeito ou interesse, o que faz pensar que Wall-e ter feito sucesso não indica que, como antigamente, ainda é possível prender sem o apelo a diálogos, mas sim que o que os personagens têm a dizer recebe tão pouca atenção nos filmes em geral que se pode mesmo tirar todo tipo de expressão verbal do filme. Isso é, aparentemente, o supérfluo. 

Por outro lado, as expressões faciais lhes dizem muito! Disney, Pixar e Dreamworks têm mesmo razão em apostar tanto nos olhares e na linguagem corporal extremamente didática de seus personagens. O entendimento com meias-palavras é bem mais expressivo que o diálogo - talvez combinando com o que eu disse no parágrafo anterior, pois ainda são, em certo sentido, ação, movimento.

Mesmo assim, olhares e gestos podem ser interpretados de formas muito diferentes e, como palavras e grandes partes do filmes são ignoradas em prol de celulares, comentários, lembranças ou coisas do tipo, muito do essencial do filme é perdido. Além disso, o detalhe pode se destacar por uma bobagem qualquer (como criticar a cor do vestido da fulana, ou o fato de que o personagem NÃO resolveu algo com porrada), mas isso não é interpretado com coerência em relação ao conjunto. Não há atenção suficiente para se pegar esse conjunto, por isso os pedidos para que a pessoa do lado (colega, amigo, parente, professor...), qualquer pessoa do lado, explique o que está acontecendo realmente (além do que vai acontecer, claro) são incessantes. 

Devo dizer que isso até contribui com o senso comum atual de que mulheres tendem à multitarefa. Vejo gurias confirmando mais o que estão pensando ou não entendendo bem, porque pulam entre o filme e a realidade constantemente. Os caras tendem a pretar bastante atenção ou ignorar o filme completamente. Há meios-termos em todos os sexos - a natureza, desde bem antes do politicamente correto, paga seu tributo às cotas de alteridade -, mas a tendência a esse padrão me parece bastante interessante. Seja um macho uma fêmea querendo lidar com várias coisas ao mesmo tempo, no entanto, (adolescentes não parecem saber a diferença entre escutar ou olhar e "prestar atenção") a multitarefa naufraga quase sempre. Apenas "quase", porque há sempre exceções, como bem se sabe. Às vezes inclusive o sujeito até se interessa tanto pelo filme que assiste tudo e descobre-se pronto para entendê-lo (interpretá-lo). Mesmo assim, algumas confirmações tendem a ser pedidas.

De qualquer forma, até a adolescência, raras parecem ser as pessoas que entendem realmente a trama principal - e uma que outra paralela, quem sabe? - porque simplesmente não há atenção mantida por tempo suficiente para tal. Curiosamente, esse empecilhos para a interpretação em nada batem com a falta de espírito crítico que tanto se cola (em campanhas ideológicas) à capacidade de interpretação. É claro que uma crítica sem interpretação é infértil em muitos sentidos, mas quero chamar atenção para o fato de que a dificuldade de interpretação, seja qual for, não indica um espírito passivo ao conteúdo real ou pressuposto daquilo que é visto, como geralmente se quer pregar quando se diz que é preciso ensinar a população a interpretar para "ter espírito crítico", o que significa votar na mesma bandeira que a pessoa fazendo o alarde. Como vou comentar, é verdade que o espírito crítico em questão não é o ideal, mas ele está longe de indicar passividade e, mesmo que equivocado, não tende a ser muito apefeiçoado pela vida.

Depois da espécie de crença pétrea em bem e mal, certo e errado, a que se tende em determinada fase da infância (particularmente, não apenas de que isso existe mas de que se sabe exatamente quando estamos em frente a um ou outro), caminha-se para a adolescência, fase em que o voluntarismo infantil sobrevive, mas (porque já se sabe mais do que se sabia poucos anos antes) uma sensação de extremo conhecimento do mundo e da vida conquista a mente humana. O adolescente tende a um cálculo assustadoramente errado da cultura que recebe, interpretando "amor", "ódio", "vingança", "decepção", "nostalgia" e muitos outros sentimentos e conceitos cantados com louvor e ânimo por todos os lados restritamente conforme sua parca experiência, que lhe parece tão grande por ele já ter perspectiva para entender o quanto o horizonte das crianças é pequeno. Por contraste consigo mesmo, um adolescente parece ter pulado, em dois anos, de Sam Gamgee para Gandalf. Por isso mesmo, se julga mais conhecedor do que é. Por isso mesmo, de novo, acha que sabe do que sua cultura está falando. E assim sai errando cada passo e julgamento que dá, com exceção, é claro, daquilo que realmente entendeu por experiência própria, não por "herança discursiva", digamos.

Acima de tudo, é a partir da adolescência que conseguimos confundir o que queremos com termos como "justiça", "lei", "correção", "adequação", "respeito", entre outros, e fazemos tudo com alguma capacidade retórica. Dessa forma, nosso mundo autocentrado já passa a ter a possibilidade de, pela nossa palavra, passar por um descentrado, honesto, respeitoso, justo. Tudo que o filme, retalhado pela falta de atenção do espectador, apresentar e que, de alguma forma, contrarie o mundo ou interesse do jovem de qualquer forma, receberá uma crítica bastante sincera e enérgica. 

O objeto cultural em geral só será aceito nos termos em que ele confirme o que o jovem quer (espaço aqui para desejos inconscientes, é óbvio). De resto, apresenta-se espontaneamente o espírito crítico que tanto se deseja ver criado por educadores perfeitos que amam as crianças acima da própria vida, dispostos portanto a salvar a nação em troca de migalhas - ou seja, o espírito crítico como a postura que pressupõe a dúvida frente ao que se assiste e que coloca questões fortíssimas a tudo que lhe parece equivocado. 

Assim, não é preciso professores para isso; o adolescente é um animal extremamente "conservador", no sentido de desejar o seu conforto psicológico acima de tudo, portanto disposto a renegar tudo, esquerdista ou direitista, que o tire do lugar. Professores seriam necessários, talvez, para questionar esse espírito crítico, para provocar uma interpretação embasada e coerente, para mostrar que a coerência que interessa construtivamente é aquela que se pauta pelos elementos do que é analisado - não pelos nossos desejos, ou seja, que é preciso ser coerente com critérios lógicos ou objetivos de alguma forma, em vez de se ser coerente com o que queremos e ponto. (Professores, portanto, poderiam ser importantes para mostrar que muitas vezes o espírito crítico do aluno é o que está completamente equivocado, que ele ainda tem muito a aprender antes de negar tudo o que vê pela frente só porque quer, que é preciso escutar - postura aparentemente passiva - para se pensar como o outro a fim de poder questionar com razão, que o espírito crítico não é um valor se é infundado, autoelogioso e autocondescendente.)

Parece-me ficar claro, assim, que o humano tende a se manter adolescente pela vida afora. Não precisamos dos outros para sermos críticos, apenas de nossa própria cabeça. Precisamos dos outros, em geral, para entender que alguém pode ter razão além de nós mesmos e dos heróis que dizem aquilo em que queremos acreditar.

domingo, 17 de junho de 2012

Negar a verdade por medo das consequências

"A escola é o último lugar para o jovem não se tornar um marginal"

A ideia é mais ou menos essa, mas foi resumida numa frase semelhante, que infelizmente não consegui encontrar na internet para citar aqui. De qualquer forma, o espírito da coisa é esse. Recentemente a vi citada para uma plateia de professores. Todos aqueles que não estavam apaixonados pelos clichês falados pela palestrante (e que estavam perto de mim, pelo menos) nitidamente se sentiam desconfortáveis com a ideia.

O problema, pelo jeito, não seria por constatar algo supostamente falso. O problema mesmo é que, se a afirmação for correta, a escola tem uma gigantesca responsabilidade... a mais. É uma daquelas situações clássicas ("das Humanas" eu ia dizer, mas nas Exatas isso também é verdade...) em que uma afirmação sobre a realidade é negada não por constatar uma falsidade, mas porque, como uma performativa, a consequência da frase é complicar ainda mais a vida da gente, então é melhor negar a proposição como ato, sem nem mesmo entrar no mérito de ela ser verdadeira ou não. Posto de outra forma: não se questiona a veracidade de uma afirmação que, se verdadeira, exige mais da gente.

Infelizmente, uma verdade não deixa de ser verdade apenas porque nos é desconfortável confrontá-la. Classicamente, aliás, uma verdade ignorada é exponencialmente mais perigosa que uma verdade enfrentada, pois continuamos combatendo as consequências dela como se fossem causadas por outros motivos, portanto atiramos para todos os lados, apenas com a garantia de nunca mirar no alvo real.

A ideia pode ser complicada, ou verdadeira apenas em alguns casos, mas a solução ainda é assumir que isso pode ser verdade e se analisar realmente o quanto a ideia funciona, não ignorar o que se constata para seguir com a cabeça enfiada na terra.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

O barateamento da igualdade

Não basta vestir a camiseta do momento para se ter razão.

Ouvi hoje numa minidiscussão sobre sexualidade que "tudo é invenção". Infelizmente, a discussão era mini não porque envolvia poucas pessoas, mas porque tinha pouco tempo para se desenvolver e morrer. O grupo era de mais de 30 pessoas.

Nada de produtivo e inovador, portanto, resultou dali, claro. No entanto, devo admitir que estou cansado demais desse tipo de comentário, então pretendo retomar, no momento certo, com o grupinho que trouxe à baila o senso comum politicamente correto de hoje: de que todos somos iguais e a cultura sozinha nos diferencia, sem base alguma a não ser preconceitos politicamente malvados e conscientemente desenvolvidos por uma máquina ideológica de dominação masculina.

O problema desse raciocínio é que ele postula a natureza num vazio, ou seja, para suprimi-la imediatamente da realidade. A "natureza" serve aqui, sem ser mencionada diretamente, de base para fornecer o ser que será distorcido pela cultura, mas não pode ser retomada como conceito porque negaria que "tudo é invenção". Afinal, se há uma natureza anterior à cultura, ela não foi inventada. Ainda que pudesse ser retomada somente pela cultura, teria voz (eco) dentro dessa própria cultura, à revelia do poder que quiséssemos conferir a esta. 

A única forma de sermos iguais e, ao mesmo tempo, "distorcidos" pela cultura (por exemplo, transformados em "homens" e "mulheres") é que houvesse um estado anterior à cultura, uma situação-base em que a mesma igualdade pudesse existir. Ou ainda, teríamos de postular que um estado futuro de pura igualdade já existe, e retrospectivamente avançamos, pois estamos nos "desenvolvendo" (o que em si é duvidoso) em direção a essa igualdade adiante de nós no tempo, mas já estabelecida ontologicamente.

Ou seja, "tudo ser invenção" é uma impossibilidade para seres históricos - aqueles que vivem no tempo, como nós, não fora dele, como as... leis matemáticas?

É ÓBVIO que ser "homem", "mulher", "gay", "travesti"... só é possível em sociedade. Portanto, ser qualquer um deles depende dessa mesma sociedade. Só se entra em qualquer uma dessas categorias, pelo menos da forma que interessa, como um papel social. Dizer que um papel social varia conforme a sociedade é uma tautologia.

Essa tautologia é importante para se discutir certas naturalizações obtusas, como se acreditar que um "homem" o é porque deseja transar com mulheres - se não deseja mulheres nem tem útero, não pode ser homem ou mulher e, portanto, "não existe". No entanto, superada essa fase de negação dos fatos que estão por todos os lados, a "desnaturalização" tem de ir baixando a marcha, ou a inércia desse movimento leva ao extremo oposto e se cria essa natureza mágica que nos pariu iguais e, ao mesmo tempo, não existe, pois nada pode ser natural. 

Por outro lado ainda, se assumimos que "tudo é invenção", devemos concluir, por exemplo, que um homem (aqui referido biologicamente como um ser humano com pênis, testículos, organização característica de músculos e gordura, incapaz de engravidar...) pode, algum dia, se descobrir uma lésbica. Se essa afirmação é impossível, alguma natureza há. Se esse raciocínio parece muito literal, "tudo é invenção" também precisa ser retomado com a mesma crítica. Se homens e mulheres (de novo, em relação a estrutura biológica) não têm diferenças naturais, não pode haver bactérias que atacam só seres humanos com vagina, não pode haver diferenças de hormônios nos seres humanos que têm útero em comparação com os que têm testículos... e não pode haver estranhamento (científico) quando as variações características de uns se apresentam nos outros. Supor que tais diferenças biológicas não provocam pelo menos tendências psicológicas ou sociais também é tapar o sol com a peneira, tanto quanto se dizer que "homens" SÓ podem querer transar com "mulheres".

Se a natureza existe, mas não pode ser recuperada fora de uma cultura (pois não acessamos nada do mundo de forma conceitual e racional sem refratá-la por nossa... cultura!), então a relação entre natureza e cultura deve ser dialeticamente considerada, mas não negada plenamente. A natureza não pode ser esquecida só porque é difícil, só porque ela não aparece sem a camisa da cultura em que se está discutindo, só porque não pode surgir em nenhuma conversa livre de ideologias.

Debater sexualidade, um assunto centralmente constitutivo da identidade de cada um de nós, é difícil, porque complexo. Isso não é desculpa para se escapar por caminhos fáceis, absolutistas, simplistas e redutores só porque a frase de efeito ou a palavra de ordem é "bonita" ou dá uma visão do mundo como queremos que ele seja. Não é porque um chavão nos tranquiliza que ele é verdade. Palavras de ordem cabem em passeatas, e olhe lá. Não numa discussão racional.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Educação na Cracolândia

Conforme Haddad, nosso queridíssimo ministro da Educação, a ação da polícia na cracolândia foi "desastrada".

Que vergonha! Que vergonha nosso ministro ter de ver tais resultados onde quer concorrer a prefeito, após uma carreira tão brilhante no MEC, em que não houve desastre algum, em que todas as suas ações foram bem pensadas e em que já começou a revolução educacional que vai colocar (e já está colocando) o Brasil entre os primeiros do mundo. Primeiros na economia, que importa que também primeiros em custo de vida e últimos nas salas de aula? O projeto Escola sem Homofobia não foi nenhum desastre! Não houve desastre em nenhum ENEM! Haddad fala por si e para si: a Educação anda a passos largos.

A polícia pode, afinal, aprender muito com o MEC, com certeza. Um dos grandes segredos da Educação é fazer planos lindos, mesmo que só na teoria, de preferência nem tentando colocar os melhores em prática (não, ao menos, sem antes buscar cortes para afunilar a demanda do serviço pelo Estreito da Falta de Verba). Ah, Segurança, aprenda com a Educação: plano bom mesmo não sai do papel - de preferência já sendo bolado sem contato com a realidade! Foram se meter a encarar um problema real e tentar agir no mundo! Não, isso é uma cena forte demais para o ministro!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

"Humano"

Um ser humano é carinhoso, compreensivo, ético, um pouco relativista, usa o bom senso (seja lá o que isso for), gosta de crianças, especialmente dos próprios filhos, respeita as instituições legítimas e resolve os problemas das "ilegítimas", entre tantas outras qualidades. Ao menos, é o que uso do adjetivo "humano" parece indicar. Juro que esse uso tem me perseguido de uma formação profissional em janeiro aos últimos comentários em dezembro sobre o ano que vem aí. Aliás, isso é significativo: que "humano" possa querer dizer qualidades que um ano possa ter. Muita gente desejou aos quatro ventos um 2012 mais humano. Ora, o que isso quer dizer afinal?

Para muito além da incomodação universal com o termo jurídico "pessoa humana", esse adjetivo está fora do lugar em absolutamente todo contexto em que é usado! Um professor deve ser muito humano... ora, seria ele canino, equino, carvalhal? E ser humano não inclui defeitos? Um professor desrespeitoso, impaciente, arrogante, orgulhoso, vaidoso, autoritário... não é humano? Parece-me que a espécie humana indicaria, por média, antes o contrário.

E a ética? Esta eu adoro: uma ética humana! Conhecem a ética dos mosquitos? Mais ainda, a associação implítica entre "humanidade" e ética. Só humanos podem ser éticos, mas não há nada garantido que um ser humano seja ético como nós entedemos a palavra, como nós queremos que o outro se porte.

Não entendo mesmo como se pode achar ainda que o uso do bom senso ou um certo relativismo sejam características humanas, no sentido extremamente elogioso. Pessoas firmes em seus ideias, fanáticas até, não nos caracterizam muito bem? 

E o que é o bom senso? Tecnicamente, é a capacidade de bem julgar de acordo com uma norma compartilhada socialmente, mas não explícita, que obedece uma lógica capaz de adequar a regra universal ao caso particular, calibrando o uso de qualquer lei. No entanto, numa comunidade bastante individualista (não estou xingando), multicultural (como tanto se quer) e aberta a comunidades de diferentes cantos do mundo, não vejo esse norma com que "pessoas com bom senso" concordem. Não vejo como bater ou não bater, punir ou não punir, aliviar uma lei ou aplicá-la sejam casos de bom senso, de julgamento pessoal de acordo com uma norma implícita e pré-estabelecida que permita que um sujeito "humanamente" julgue o que é adequado de acordo com os outros "humanos" que não estão ali presentes.

O uso da palavra "humano" assim positiva, libertária e universal me parece tanto uma falta de vocabulário e de definição ética (de modo que as pessoas não sabem nem o que querem dos outros, mas têm a sensação de lembrar de uma certa norma que todos pareciam ou deveriam obedecer há muito tempo e que de alguma forma vem sendo esquecida, ainda que pareça, em seu íntimo, que deveria ser algo essencial a todo ser humano); ou obstinação a não se ver que justamente essa essência humana carrega também todo o oposto do que se quer ver nela. Um 2012 mais humano pode muito bem ser um ano com mais bolsas quebrando, mais guerras, mais fome, mais manipulação política, mais corrupção, mais exploração, mais maldade, mais crueldade, enfim, mais destruição em todos os sentidos que se possa imaginar. 

Tanto a vítima quanto o executor do atentado são humanos. Não estamos fugindo de nada alheio a nós. Ser humano pode ser um elogio, mas é simultaneamente um insulto, e não há nada pacífico em se supor qual lado pesa mais. Por isso mesmo, é quase sempre um adjetivo inútil, costumando vir acompanhado pela qualificação daquilo que a pessoa acha que é "humano" e pelo silêncio de todas as nossas características que, em desserviço geral, querem tanto esquecer debaixo do tapete.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Fugindo da realidade uma frase de cada vez

Como eu dificilmente poderia descrever muito melhor, e não passaria o tom de fala através do texto, meu post de hoje tem de ir por este vídeo um pouco antigo. Lamento que não tenha achado com legenda.


segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Do descaso: in memoriam

Uma lei específica para a violência contra professores (por alunos, pais, terceiros... ou seja, todo o mundo) está sendo julgada e calibrada. Trata-se de uma daquelas tentativas de governo de ser ultra-didático, sua forma de responder ao fato de que a proibição por lei da violência contra qualquer tipo de pessoa aparentemente é muito genérica, não cai a ficha nos criminosos. 

Bom, o caso é que já estão a cunhando de Lei Carlos Mota, porque este foi morto combatendo o tráfico em sua escola. Nesse caso, eu entendo uma homenagem ao morto. Mais ainda, na verdade, no caso da Lei Maria da Penha, em que a mulher lutou por uma causa e seguiu viva para contar a história. Não entendo quando a "homenagem" é feita a vítimas no sentido estrito, ou seja, pessoas que morreram em momento de passividade ou tranquilidade, menos ainda quando é culpa do Estado.

Os mortos por aquele doido no Rio de Janeiro, o "caso de bullying", já viraram nomes de diferentes escolas infantis ou creches. Em que isso ajuda os pais que perderam seus filhos para uma loucura, um acidente estranho e idiota? Dá algum sentido para mortes sem sentido ter o nome da criança estampada, ironicamente, numa instituição de ensino? 

Em Porto Alegre ocorreu uma homenagem, a meu ver, pior ainda: há uma parada de ônibus com o nome do aluno eletrocutado por uma carga que estava sendo liberada no metal da estrutura. A Prefeitura havia sido avisada, de modo que a morte se deu por absurdo descaso. Resposta da prefeitura? Colocar o nome do garoto na parada! Para todos que passarem ali lembrarem sempre como têm sorte de não estarem mortos por irresponsabilidade pública? A única compensação talvez seja que os políticos responsáveis terão seus nomes "eternizados" em ruas, quando morrerem, como é destino de todas figuras públicas numa república. Assim, pelo menos, graças a tal homenagem, até os anônimos pisarão em seus nomes.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Sociedade, a eterna malvada

Acho que vou criar o Greenpeace... desde que eu não vá à escola, não tenha amigos e não escute o que meus pais me disserem, claro!

'Para o professor de sociologia Fábio Medeiros, a ignorância é a raiz do preconceito: “O ser humano não nasce preconceituoso. Ele desenvolve isso no hábito cultural. O conhecimento dá a possibilidade de superação desse preconceito e dessa discriminação' (De notícia no G1).

Por quê? Se o ser humano não nasce preconceituoso e a ignorância é a raiz do preconceito, isso quer dizer que o ser humano não nasce ignorante, mas se torna assim ao longo do início da vida? A cultura em que é inserido nos primeiros anos de vida vai o tornando mais ignorante, destruindo um ser igualitário que nasceu pronto para orgulhar os movimentos sociais e as ONGs que lutam por minorias? E, se o conhecimento dá a possibilidade de superação do preconceito, então esse conhecimento não conta como cultura?

Talvez o professor tenha sido mal citado. Com certeza não descarto a possibilidade, mas, infelizmente, talvez não tenha sido. De qualquer forma, a opinião dele, ou do jornalista que, por cacoete, transformou o que ouviu, representa uma opinião extremamente bem representada entre ativistas, interessados ou profissionais de movimentos contra preconceitos, uma opinião que eu acho bem difícil de engolir.

O problema dessa tese é reforçar o lado errado da ignorância, digamos. É claro que muito preconceito nasce daquilo que não se sabe sobre outra pessoa ou grupo. No entanto, isso não quer dizer, como geralmente se conclui automaticamente, que o preconceito é sem sentido e inútil. O preconceito é o produto de um esquema absolutamente útil, até fundamental para a nossa boa vida cotidiana. O esquema é: a pouca informação que tenho, relativa, sobre o mundo precisa me servir de base para sobreviver a cada novidade que a vida joga na minha frente. 

Eu não posso conhecer todas as pessoas, todos os materiais, todos os fenômenos da natureza, então aqueles que encontro me servem de base para os outros que venham pela frente, até que eu tenha fortes motivos para diferenciá-los. Rapidamente, graças aos deuses, nossa mente começa a agrupar os fenômenos, processos e seres. Ora bolas, se centenas de milhares de anos de adaptação nos serviram para alguma coisa, tanto esse processo quanto seu sucedâneo (fazer isso em relação a grupos de seres, humanos ou não) foram tão úteis quanto fixados, ao que tudo indica. 

Para dar um exemplo simplório, se alguém associa pobreza e roubo e onde o sujeito vive a maioria da população negra é mais pobre, uma associação que ligue cor de pele e roubos é algo que facilmente surgirá de forma espontânea. A valorização do que se tem, claro, alimenta a associação, mas quantos seres humanos não valorizam aquilo que possuem?

Caso a associação seja feita, será necessária uma experiência marcante ou uma ação cultural que lhe demonstre a falibilidade desse raciocínio (a menos que o coitado tenha tendências a elocubrações lógicas, isso sim um traço raro), mas o sujeito está associando ideias como nos é natural para evitar riscos ao seu bem-estar. A "inocência" do sujeito está agindo aqui justamente para construir um preconceito. Não é da nossa natureza supor que estamos errados sobre o que nos parece fundado em experiência, especialmente porque não paramos para pensar a fim de criar um preconceito, ele nasce de um tipo de raciocínio como que instintivo. 

Discriminar nos é fundamental. Discriminamos amigos de inimigos, familiares de estranhos, homens de mulheres, crianças de adultos... Isso é dizer apenas que cada um desses grupos têm características diferentes naquilo que nos interessa de cada um deles. O problema é que a nossa discriminação pode estar errada e, mais do que isso, pode se manifestar de forma violenta no mundo, violência esta que passamos (pelo menos parte da sociedade) a discriminar como errada e nociva.

Claro que a tendência de um preconceito desses se desenvolver torna-se particularmente visível quando a comunidade em que vivemos compartilha e reforça esses preconceitos. A enorme importância que os grupos de parceiros representam no nosso desenvolvimento torna-nos até seres predispostos a nos apropriarmos de novos que nos sejam úteis socialmente. Discriminamos para passar bem, nesses casos. Como o status é importantíssimo para nós, em particular na proporção inversa à nossa maturação, todo pária do grupo e todo grupo oposto ao nosso serão desmerecidos em diversos sentidos, e participar disso, manifestando às vezes até ódio e afronta física ao outro grupo, são barcos em que a maioria entra com a maior boa vontade e na mais estúpida ingenuidade, muitas vezes.

Talvez o professor de sociologia considere que isso justifica a afirmação de que o preconceito é social, no entanto o fato de essa valorização social ser da nossa natureza me parece indicar o contrário: é um impulso em cada indivíduo (de sobrevivência física e social) que motiva cada um a ser preconceituoso, de alguma forma. Trata-se de um processo espontâneo individualmente: criamos preconceitos por um cacoete de sobrevivência, seja para sobreviver ao mundo ou diretamente no grupo de que tentamos fazer parte. Tanto que algumas pessoas resistem a isso e outras ainda conseguem se questionar e voltar atrás, enquanto outras seguem seu desenvolvimento tranquilíssimas com seus preconceitos. Por que a "sociedade" capturou uns e não outros? Por que ela variou o esforço ou por que cada membro do grupo é um indivíduo, com suas ideias, tendências e valores?

Colocar a culpa na cultura, como "sociedade", uma força estranhamente exterior, parece criar uma barreira entre sujeitos inocentes que nascem para o bem e uma herança social malévola que nasceu de pessoas que não puderam ler os mesmos livros que nós, ou que "não sabiam o que sabemos hoje". O que, diga-se de passagem, me parece uma postura preconceituosa.

Não basta que a postura anti-sociedade e a postura mais hobbesiana que estou pondo concordem que o preconceito é ruim e precisa ser combatido, porque são combates postos de forma diferente, implicando táticas diferentes e só tendo esperança de dar certo aquela que estiver correta. Se eu acho que os sujeitos no fundo são puros e dispostos a conhecer cada ser humano como um único e especial floquinho de neve, sujos por uma sociedade que lhes ensinou a discriminar, tanto a minha política de combate ao preconceito não será eficiente quanto eu serei confrontado por afirmações honestíssimas de preconceitos daquelas pessoas mesmas que achava vir salvar, e a insistência delas me parecerá apenas o impressionante poder da "sociedade" para fazer lavagem cerebral. Eu vou investir de novo, mas o ataque seguirá sem efeito, por eu estar supondo que o preconceito que ataco não tenha raízes na mente mesmo daquele que o expressa, ser este capaz de, aprendendo a não falar mal de homossexuais, repetir o processo de discriminação contra mulheres ou quem mais lhe for útil, daí a alguns dias.

Não entendo como se pode trabalhar com seres humanos e supor que o mal de nossas personalidades venham sempre da sociedade. Se nascemos para viver, e a vida é toda a violência que bem se pode ver, como supor que nascemos puros? Ou, se puros, como passamos do paleolítico?

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Capitalismo nosso de cada dia

Que feio, Pelé... tu assim, competindo?!


Na ânsia de ditar a única ordem possível e fundá-la na natureza humana, defensores cotidianos do capitalismo (e alguns teóricos) buscaram a todo custo identificar (literalmente) esse sistema e a competitividade, a meritocracia, o esforço individual e a relação entre egocêntricos que se aliam pelo próprio bem e terminam por gerar o bem de ambas as partes.

Perdidos em palavras de ordem, uma série de iconoclastas da boca para fora, revoltados sempre com a palavra "capitalismo", acreditaram na associação íntima, essencial e absoluta entre essas forças e esse sistema econômico. Sempre que lhes é útil, ou sempre que se cai em alguma situação previamente cunhada, qualquer competitividade ou esforço individual pode ser tachado de "capitalista" e desmerecido automaticamente por isso. Nem mesmo o esporte poderia resistir a isso, creio, apesar de que essas pessoas precisariam de alguém que lhes apontasse para o fato de que um nadador se esforça individualmente contra todos os outros a fim de vencer um prêmio em dinheiro. Isso pode muito bem não resumir o esporte, mas seria suficiente para evocar o clássico "Nossa, que coisa horrível isso, né?" que aparece frente às práticas "capitalistas" do ser humano.

Como dito, porém, essa associação pejorativa com a palavra tabu tende a ser feita quando a competitividade se encontra onde não a querem. Cai-se no mesmo problema que em qualquer situação de preconceito com objeto: como circundar um tabu para que se possa lidar honestamente com o problema?

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Projeções que cabem num vampiro

- Oh, meu amor, vocè... é tão diferente dos garotos da escola!

Eu nunca me atentei muito à literatura vampiresca recente, então talvez eu esteja dizendo aqui algo batido demais, mas, enfim, me ocorreu agora e há séculos procrastino outros posts. Então este vem como está.

Para fazer uma redação nos moldes em que pedi, uma aluna resolveu praticamente escrever sua versão dos atuais dramas adolescentes com vampiros. Ao que me parece, pelo menos, ela não estava copiando nenhuma das séries famosas, mas percorria, claro, todos os clichês adequados. Pois bem, lendo sua história (que se desenvolveu muitas páginas além da narrativa dos colegas, como seria de se esperar em tal empreitada), pareceu-me vislumbrar um motivo curioso a mais para que essas séries tenham feito sucesso.

Não é só que o herói e a heroína são "diferentes" e "incompreendidos", nem só o revival do amor platônico (muito útil para a porcentagem de leitores virgens), nem que sua "nobre" luta por ideais pacifistas possa estourar em manifestações de força absurda, que indicam que sua "diferença" é tanto uma força (ironicamente um valor, então) quanto a chave de uma postura ética (ou seja, que eles são muito, mas muito melhores do que os babacas da escola). Os enredos vampirescos invariavelmente caem em melodramáticas cenas de dúvidas e erros, em que os "demônios internos" (não consigo me referir a quase nada psicológico desses personagens sem colocar aspas, desculpem-me) e as confusões adolescentes fazem com que troquem os pés pelas mãos em proporções épicas. Personagens mais velhos (o vampiro mais experiente, o adulto...) tentam ajudar as heroínas (é algo particular com elas, creio), mas isso não as impede de errar por rebeldia mal direcionada.

Esse traço francamente me parece indicar que um elemento importante do sucesso desses esquemas narrativos é que o leitor-adolescente saiba ou suspeite de alguma forma que está errado em grande parte de suas próprias reclamações. Parte da masturbação mental dessas séries recentes de vampiros (suponho que as de anjos vão por aí também) é ver a adolescente perdida ser revoltada sem causa e, em especial, ingrata - para ser, é claro, relativamente redimida, mas não demais porque tira a graça de ser "culpada", ou seja, "especial". Quanto será que demora para a projeção na literatura provocar consciência na vida real?

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Façamos nossas as palavras do ministro

Falando sobre a desistência de levar às escolas o "Escola sem Homofobia", o ministro Gilberto Carvalho afirmou categoricamente que, por compromisso pessoal de Dilma, daqui para a frente "todo material sobre costumes será feito a partir de consultas mais amplas à sociedade".

A ideia parece boa. 

Pensando bem, quem sabe o mero fato de se governar sobre "costumes" devesse ser posto em discussão com a sociedade? Creio que um grupo muito grande de brasileiros tem reservas a esse respeito. Na verdade, talvez a possibilidade de gastar dinheiro público com projetos que não passaram por essa consulta devesse ser posta em questão, não apenas quando o assunto é costumes, já que tanta gente parece ignorar as decisões no Código Florestal, por exemplo, ou simplesmente ser contra o que foi aceito. Algumas pessoas são a favor, é verdade, mas houve algum debate? Talvez devesse haver, já que é o destino de todos, de forma bastante drástica e irreversível que está em jogo.

Pensando bem, será que a população não deveria ser consultada sobre assuntos a respeito de que se manifesta publicamente tanta resistência, como a construção da Usina de Belo Monte (ela em si ou a forma como está sendo feita)? Ou pelo menos sobre a escolha das pessoas que decidem os pormenores a seu respeito? Não são apenas políticos eleitos que são importantes para isso. Muitas das decisões que mais nos afetam, na verdade, são responsabilidades de detentores de cargos por nomeação. Talvez a existência desses cargos devesse depender de "consultas mais amplas à sociedade".

Pensando bem, os políticos eleitos manterem esse sistema que nada tem a ver com a opinião popular talvez devesse provocar certas reservas também ao nosso "sistema representativo". Parece que o governo não dirige o país a contento, conforme "consultas mais amplas à sociedade".

terça-feira, 24 de maio de 2011

O fingido e masturbatório apoio à Educação

É tão bonito ver a população de Porto Alegre apoiando a professora Amanda Gurgel. É claro que a cidade segue em greve por propostas cada vez mais insultantes da Prefeitura. É claro que as pessoas continuam falando que professor ganha muito e que não podia estar em greve, como se o salário de alguém justificasse o governo não pagar suas dívidas, como se o salário verdadeiro dos professores fosse realmente alto e como se os demais serviços de Porto Alegre não precisassem da união dos municipários para conseguir também suas exigências. É claro que, depois de Cézar Busatto, José Fortunati (prefeito) foi à imprensa inventar salário dos professores. 

Mas é lindo as pessoas elogiando a professora Amanda Gurgel. Nossa, como se preocupam e valorizam a Educação...

Todos na prefeitura estão tentando entrar em contato com o prefeito para a cobrar a dívida ainda maior se ESTE é o salário que deveriam estar recebendo! (Correio do Povo de hoje)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Autonomia teísta aplicada

"Aliás, falando em decisões e coisa e tal ... Não posso deixar de comentar isso aqui apesar de ser um tema polêmico ... Outro dia uma moça escreveu que estava em dúvida sobre a técnica cirúrgica (sleeve ou capella), mas que aí sonhou com a Lilith e isso foi um sinal de Deus para ela fazer Capella. People ... Ter fé é muito bom, mas olha, nem Deus deve aguentar esses papos ... Esse é um dos muitos casos em nossas vidas que devemos ser responsáveis pelas nossas escolhas, ser maduros, o corpo é nosso, Deus deu ele pra gente, nos gerou inteligentes para decidirmos por nós mesmos o que fazer com ele. Quando vc comeu e engordou não foi Deus que levou o garfinho na sua boquinha ... Então, conserte isso sozinho, assuma a sua responsabilidade com o seu próprio corpo, não jogue nas costas de outros uma decisão que é sua, até porque o sucesso a longo prazo vai depender exclusivamente dos seus atos ! Se apegue a Ele, peça proteção, força, coragem, mas não mete Deus numa escolha que é de sua responsabilidade."

Trecho de  http://mulherpneu.blogspot.com/ - neste post.

domingo, 24 de abril de 2011

Rebeldia implica autoridade

Sempre que novos casos de violência contra professores, supervisores ou diretores ganham as notícias, é comum que alguns lamentem a falta de autoridade do "professor" atual, ou o fato de que os alunos não reconheçam mais tal autoridade. Eu não conheço grandes estudos específicos a esse respeito, mas a impressão que tenho é bem diversa. Os alunos reconhecem professores como figuras de autoridade, o que acontece é que esses alunos que atacam os profissionais da escola têm uma enorme revolta contra o poder que reconhecem manifesto ou simbolizado no professor, identificado exatamente como "autoridade". Ou seja, sua resposta violenta não surge porque não veem autoridade no professor, muito pelo contrário: é exatamente por a enxergarem que são violentos.

Essa revolta não é a importante manifestação de um "espírito crítico voltado contra o sistema", nem pode ser chamado ainda de uma crítica ingênua. Não vou enveredar pelo caminho dos que acham que isso é bom, porque creem que toda revolta seja boa. Claro que não: se fundamentadas em ilusões ou se desprovidas de causa, críticas são simplesmente asneiras destrutivas. Mas é preciso reconhecer a rebeldia desses alunos, em vez de subestimá-la como ignorância, ausência, fruto de uma simples não-educação. 

Eles não precisam aprender uma cultura submissa para ver autoridade nos profissionais do colégio. Eles conseguem chegar a essa conclusão sozinhos, ainda que muitos possam ter dificuldades para expressá-la verbalmente. Um dos grandes problemas, aliás, é que aprendam isso sozinhos, porque então reconhecem no professor o único tipo de autoridade que geralmente conseguimos enxergar quando somos jovens: a autoridade da violência. Não por acaso, já que autoridades são pais, policiais, professores... ou seja, unicamente pessoas que têm poder de sanção sobre nosso poder de ir e vir. Mais ainda, todos estão numa mesma cadeia de autoridade. Por exemplo, os professores, sem saída diplomática, chamam os pais (o que pode levar a surras em casa ou, no mínimo, castigos). Se os pais não resolvem o problema, a questão será tratada com Conselho Tutelar, na visão deles uma antecâmara para o problema ser levado à polícia. Tanto pais quanto policiais, se afrontados por uma revolta inflexível, tendem a apelar para a violência, e o discurso positivo ou interessado de alguns professores não podem esconder que, no quadro geral pragmático, são figuras de negociação que tentam resolver a crise antes que uma das outras autoridades tenha de ser chamada para, se quiserem, usar de violência. Além de tudo isso, professores tendem a não ser fisicamente violentos, a não ser com seu domínio sobre portas da escola ou com gritos, mas a possibilidade de um ataque físico nunca pode ser totalmente descartada, tanto que a televisão comprova que alguns se passam.

Os alunos entendem, portanto, que professores estão numa determinda posição de autoridade, e isso quer dizer que usam formas mitigadas de violência e podem apelar para pessoas que não têm as mesmas restrições, independente do que diz a lei (geralmente desconhecida dos alunos). A possibilidade de autoridades serem de outro tipo, como a intelectual, é basicamente alienígena para nossa cultura. Mesmo as pessoas que a reconhecem costumam fazê-lo depois (às vezes bem depois) dos 20 anos de idade, e muitas vezes ela é de fato apenas uma máscara para idolatria simples. O que poderia ser reconhecimento de autoridade moral também tende mais para a tietagem e submissão dogmática.

Nesse quadro geral, a posição entre violências (ou de violência mitigada) ocupada pelo professor coloca-o, para a percepção do aluno, como uma espécie de elo fraco da corrente. Ali há mais espaço de negociação do que com pais ou policiais, assim como a possibilidade de resposta direta do professor é mais fraca e lenta. De forma um tanto amadora, mas com suficiente clareza, a maioria dos alunos reconhece que é com o professor que seus estouros podem se dar de forma mais clara e aberta, ou que o número de "perdões" na escola supera imensamente o número que poderia receber de quaisquer outras autoridades.

Se vamos nos revoltar contra alguma autoridade, costumamos investir contra a mais fraca e menos violenta delas, lógico! O problema não é ensinar aos alunos brasileiros que professores são autoridades, mas ensinar uma relação completamente diferente com a autoridade em si, para muito além da escola. Isso exige, pelo outro lado, que nossas autoridades mudem. E alguém acha que uma mudança de postura das autoridades (pais, policiais, legisladores, conselheiros...) será atacada por projetos de educação (exceto leis que decretam novas formas de comportamento e que, por isso, não têm eficiência)? Ora, pense-se no irracionalismo da resposta dos governantes aos tiros em Realengo e se terá uma medida do tipo de raciocínio que assola nossas políticas públicas. 

Esses casos de violência são preocupantes de fato porque o problema das escolas é bem mais profundo do que temos coragem de questionar politicamente. Ele é, no mínimo, três vezes maior do que cabe no atualmente restrito conceito de "Educação". Se permissividade não é um caminho plausível, pesar mais ainda a mão, procurar simplesmente novas formas de repressão e supor que se precise reinjetar autoridade num professor supostamente esvaziado é só botar mais lenha na fogueira, ignorar que o comportamento do aluno é uma rebeldia.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Hipócrita para o teu próprio bem

Nunca tinha visto Glee até hoje. O primeiro episódio a que assisti foi "Blame It on the Alcohol", um dos dois que me foram indicados numa discussão recente a respeito de escola. Bom, apesar de ter entendido o porquê da fama do seriado, o que me chamou a atenção é algo que dificilmente deve justificar a preferência da maioria de seus fãs: a relação entre a escola e o moralismo que geralmente se quer encarnar nela está particularmente bem representada. 

Parece que um encaixe mal feito entre escola e "sociedade" (situação que caracteriza a instituição, pelo jeito, no mínimo desde os anos 1970) cria uma pressão constante para que não apenas tratemos de assuntos morais com os alunos, mas que cheguemos ao extremo de sermos hipócritas. A maioria dos professores (que conheço) tenta resistir, mas o ataque ou a pressão para que atinjamos a hipocrisia na sala de aula é tão variada e vem de tantos lados que às vezes não vemos saída em determinadas conversas com alunos a não ser ceder e declarar um moralismo simplista e exagerado que não poderíamos, em sã consciência, aplicar a nós mesmos.

Na verdade, essa hipocrisia me parece herança antiga; o que se estabeleceu por aqui mais ou menos nos anos 1970, provavelmente só ganhando peso significativo no seu fim, foi nossa visão de escola aderir a uma verdade bastante difundida no resto da cultura brasileira: não existem posições de autoridade monolítica (nas instituições brasileiras) - o que eu acho bom, aliás. Mas isso faz com que mesmo o mais passivo ser humano seja um aluno com mínimo senso crítico (pelo menos) quando o assunto é "afirmações de professores". O que acontece é que essa nossa fraqueza momentânea, esse ceder à hipocrisia que nos é exigida, vem nos atazanar no futuro, quando descoberta pelo estudante (e, mais cedo ou mais tarde, será). - É possível também que ele ou ela nos largue de mão de vez e nem venha nos cobrar por nossas palavras, o que é pior ainda, claro.

Enfim, há uma coisa estranha entre valores que a sociedade prega sem praticar e as cobranças e fantasias do senso comum (que governa, é claro, muitos professores, pedagogos e diretores ou vices) a respeito de como acreditamos querer educar as "crianças". O episódio do Glee em questão pega o problema do álcool e cria a situação ridícula (no sentido de cômica, além de absolutamente veraz) de adultos (que bebem, dã) querendo que os alunos encontrem uma música (!) para assustar toda a escola a respeito do consumo de álcool, a ser apresentada numa assembleia da escola. É claro que as bobagens de pessoas alcoolizadas e as mentiras que se contam cotidianamente sobre ou para o "controle" do uso de drogas em escolas figuram no roteiro. A série pode ter um aspecto de ficção em todos os detalhes, mas a estrutura e o tema são incrivelmente relevantes e complexos, o que foi uma muito grata surpresa.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Autogratulação lexical e os bons sentimentos

Dizem sempre que "empatia" etimologicamente quer dizer "sofrer com", mas foi uma liberdade poética formar essa palavra, né? A gente "sofre com" alguém? Claro que certos acontecimentos muito violentos podem nos provocar a sensação de "sofrer com", quase que exclusivamente se vemos um sofrimento muito próximo de nós, mas é justamente essa sensação que é curiosa: sentimos que "sentimos com" a outra pessoa. Sabemos que não sentimos o mesmo que o outro, nem mesmo em escala menor. Nosso sentimento é outro, exatamente esse "outro" é chamado de empatia, porque lamentamos e dor alheia em parte sofrendo pela pessoa, mas um sentimento distinto e de escala tão diferente, que me pergunto se não podíamos ter encontrado outro termo. Imaginem, literalmente, "sofrer com" uma criança que perdeu o braço numa mina terrestre.

Essa busca de um termo verdadeiramente preciso implicaria, claro, que fôssemos menos autocondescendentes. Como muito já se repetiu, gostamos de sofrer pelos outros, porque é "bonito", "humano" (ou cristão, para alguns). Empatia, geralmente considerado um termo preciso ou direto, é na verdade uma catacrese (uma metáfora para a qual não temos termo não-figurado, como "pé da mesa"), uma figura de linguagem que usamos quando nos condoemos. Como "condoer"... nossos termos empáticos estão cercados de exageros elogiosos aos nossos próprios sentimentos "nobres" - outro autoelogio.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A estética de mandar para o inferno

"Odeio comunista. Detesto comunistazinho."

Assim repete periodicamente um aluno do Ensino Fundamental de uma escola particular de Porto Alegre. Seu "ódio" não vem da formação da escola (ao menos, eu não tenho nenhuma informação que justifique acreditar nisso), nem de informação ou conhecimento do assunto, como é típico. O ódio do rapaz se justifica pelo mesmo esquema que organiza e promove a maioria dos ódios: treino.

O que é mais significativo, porém, é que alguém com grana em Porto Alegre continue acreditando que é necessário educar "ódio" a "comunistas" a ponto de doutrinar o filho (sobrinho, afilhado, sei lá) dessa forma. Parece-me que existem duas possibilidades, no entanto, que fazem isso ser compreensível (não justificável): a pessoa que treinou esse ódio acha que Lula-Dilma são literalmente comunistas e acredita que o governo federal do PT é anti-burguês numa oposição burguês-povo; a pessoa acredita que existem comunistas outros, não necessariamente no governo, que ameaçam a estabilidade de sua vida a ponto de tomar a clássica medida defensiva do Ataque Ferrenho.

Só que os dois sentidos têm algo de irreal, e a irrealidade de ambos, ainda que desigual, carrega o mesmo problema das definições indefinidas do senso comum político: só atrapalham. O problema de se xingar todo grupo por definições extremas e superficiais, ou de se assumir que alguém tem determinada postura só porque a pessoa diz tê-la, é que se pinta a realidade em dois tons e espera-se que tudo se resolva por medidas binárias. Existem "comunistas" e "burgueses" e ponto. Quem determina algo é ditador e quem elogia a liberdade sem fazer nada é liberal (o não fazer nada reforça a liberdade que a pessoa garante aos outros).

Xingamentos pasteurizados e clichês são a coisa mais fofa do papai quando o assunto é propaganda política, um must irresistível a militantes e contra-militantes, bem como a marketeiros, mas quando o assunto é análise política, são tão úteis quanto os socos num laboratório de genética. Quanta falta de informação uma pessoa precisa ter para valorizar ou promover ódios ignorantes em outrem? Especialmente em alguém por quem é responsável, se esse for o caso do rapaz, como suponho. Por que nossos ódios políticos dominaram o discurso e ninguém mais lembra da complexidade dos fatos? 

Quando toda falha é um "absurdo", então não existem termos para os absurdos. Quando qualquer arranhão é uma mutilação, não há diferença entre ambos. É divertido e engraçado xingar a plenos pulmões cada passo do "adversário", talvez se ache também divertido afirmar que todo o mundo que discorda da gente é adversário, mas se nunca se para para pensar, se nunca se pensa que trabalhar junto, ou próximo, pode ser mais produtivo que atirar pedras a cada oportunidade, então a realidade vai seguir sozinha, independente, enquanto os nossos discursos nos divertem com simplismos e ignorâncias, com times e panelinhas. Oposicionistas e apoiadores, no entanto, não reclamem quando a realidade vier explodir na nossa cara quando menos esperarmos. Ninguém queria saber dela, só queriam saber do prazer de se xingar.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A verdade dói

"If you were always right, then you wouldn't have just been wrong."
House (algumas pessoas só respeitam críticas vindas da ficção).

"O menor insulto, o termo mais leve, a coisa mais... assim... para dar um exemplo suave, o menor insulto que usaram foi dizerem que nossos alunos são semi-analfabetos!"

Constatar a verdade constitui insulto? É mentira que basta evitar os termos politicamente corretos para não se cair nesse modus operandi. A postura politicamente correta não existe só em sua expressão mais clara, mas denota geralmente medo frente à realidade, dificuldade de se lidar com os fatos. Tanto que a pessoa que produziu essa frase acusou o golpe: desmereceu as críticas recebidas para imediatamente tomar medidas que tinham as mesmas críticas como base. 

Se uma parte significativa dos alunos que encontrei no fim do ano passado não eram semi-analfabetos, então nenhuma política nem postura minha a respeito seriam necessárias, e seria possível partir para desenvolvimentos mais arrojados da língua portuguesa. Mas a realidade não permite. Ninguém teria coragem de ignorar uma realidade tão poderosa, porque, pasmem, o "alfabeto" faz falta! Poucas pessoas, porém, têm coragem de assumir a realidade, qualquer realidade, verbalmente. Essa resistência vem de gente que está trabalhando com os mesmos alunos há muito mais tempo que eu, claro, e que não quer assumir grandes erros, ou mesmo que deixaram de trabalhar bem uma capacidade por estarem trabalhando outras (como combatendo a evasão ou o tráfico).

Não é possível assumir erros publicamente, porque a competição vem antes de qualquer responsabilidade. A imagem é tudo em empresas, e tudo no Estado é um ato político-partidário. Cada erro conta na hora de serem publicados superficialmente e sem contexto para a briga por votos, bem como para serem distorcidos, aumentados ou só servirem de base em que se inspirarão mentiras deslavadas. É a mentira mais repetida entre TODOS os profissionais da educação que o aluno seja a primeira responsabilidade, o primeiro motivo de se trabalhar, o grande foco a que todos os esforços convergem. O primeiro alvo da educação é o mesmo de todas as outras profissões, o próprio profissional, o próprio umbigo, a própria vaidade. E que as pessoas saibam mentir bem para si próprias, assumindo os sacrifícios e não assumindo que estes são feitos para se atingir um prazer vaidoso muito maior depois ou para se manter uma boa imagem no emprego é uma postura politicamente correta tão mentirosa quanto as outras. Quando essas vaidades estão sob controle, ou seja, quando lidamos com adultos suficientemente maduros, não há problema, não mais do que se tem por exemplo entre garis, secretários e bombeiros. Nada disso torna os professores piores que os outros seres humanos, e é triste que esse medo mesmo exista entre eles. Mas quando essa vaidade bem alimentada garante contratos ou vantagens partidárias, aí a coisa complica, e professores passam a lembrar não profissionais, mas políticos ou palestrantes de auto-ajuda administrativa.

Esse problema é ainda maior, porque os profissionais da educação, talvez sem se tocarem, já saíram do jardim de infância. Viver num mundo em que as pessoas não mentem para si e não têm a própria vaidade como grande motivador pode ser uma agradável fantasia, mas afasta da realidade. E é possível lidar com a realidade sempre se fugindo dela? Bem, algo se faz. Nada, no entanto, que dependa de se admitir os próprios erros. Os erros crassos, os erros que são cometidos pela maioria, e pelos quais a maioria apedrejaria quem os admitisse. A postura politicamente correta, como sempre, denota um tabu.