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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Mais Mafalda!!!

Um exemplar mais a mão, entre outros possíveis...

Eu sou um fã atrasado de Mafalda. Fiquei sabendo da personagem no início da faculdade, ou um pouco antes. Todo o mundo falava muito bem, ou ficava quieto por não achar, aparentemente, que poderia falar mal ou demonstrar indiferença. Não observava o mesmo silêncio de ignorância como o meu. Consegui ler realmente mais coisa do Quino apenas depois de um bom tempo - afinal, entrar em Letras é também descobrir que toda a literatura que já lemos não é nada nem para uma simples conversa de bar.

Como foi verdade com outras leituras, fui gostando mais e mais, com o tempo. Nunca conseguia, mesmo assim, localizar por que achava essa graça tão particular nas tirinhas. Agora, acho que encontrei: gosto do problema proposto, que é, a meu ver, a dificuldade de se comunicar em outra língua. Mafalda não fala "sucesso" quando abre a boca, nem todas as coisas atreladas a isso geralmente. Ou seja, ela questiona a ordem do mundo, sem confundir as pessoas que realizam essa ordem no microuniverso do dia-a-dia com a ordem em si - ainda que reconheça que tais pessoas possam se tornar meras ferramentas, esquecendo elas próprias outros aspectos de sua existência. Ela pressupõe que exista um ser humano (no sentido rico, variado, do humanismo) no policial, ou até mesmo no político, e sente seu direito de cobrar dignidade e juízo desses indivíduos.

Com exceção do momento em que decidi fazer Letras e de quando me encaminhei a dar aulas, poucos confrontos tive com o discurso do sucesso ou da ordem das coisas - dos desejos que devemos ter, das ordens que devemos seguir sem questionamento possível. Geralmente eu parecia ir nessa direção, porque o que eu queria coincidia com a ordem óbvia. Procurar emprego, por exemplo, faz as pessoas acharem que estamos querendo "crescer na vida" e coisas tais. Mas é possível procurar emprego, sei lá, para se sustentar, sem confundir carreira com vida, nem trabalho com única possibilidade de realização pessoal. Eis que agora sou todo dia confrontado com a exigência ou pressuposição de que eu deveria querer dinheiro, tanto por ele próprio como para fazer coisas que propagandas de margarina e filmes de Sandra Bullock implicam ser o ideal universal. Estou impressionado com a força e a acriticidade desse discurso nessa minha pacata cidade, tão longe de Hollywood... E me surpreende que eu precise desenhar para as pessoas que, a Sandra Bullock, prefiro Mafalda.

terça-feira, 12 de junho de 2012

A legítima defesa da velha e a depressão do policial

Recentemente, uma mulher de 87 anos matou um assaltante em Caxias do Sul. O cara estava em condicional, recém liberado, era reincidente, aquela coisa toda que a gente conhece... A mulher ontem foi presa por homicídio e posse ilegal de armas.

A princípio, esse fechamento é irritante, não? A defesa por legítima defesa e as outras razões legais para soltá-la virão depois. No momento, a polícia agiu conforme a lei, com um preciosismo típico de quando a pessoa (vítima ou agressor) não tem dinheiro demais. Exatamente essa diferença, nossa tendência a nos condoer pela velha e nosso constante susto ou opressão sob a violência das cidades (e Caxias é uma cidade muito violenta) nos levam a pensar que é injusto a mulher ser tratada dessa forma.

Mas eu vim aqui falar um pouco pelo diabo (no caso, a polícia), a fim de chegar ao meu ponto. 

Em primeiro lugar, eu me sinto, por um lado, feliz pela velha. Melhor seria não passar por algo do tipo, mas, tendo passado, antes se ver com a polícia e ter sobrevivido a um confronto com um assaltante que poderia atacá-la em sua própria casa que ser vítima desse cara e ter de esperar dias para a polícia, quem sabe, aparecer. Afinal, é mais fácil ser preso que ser socorrido por policiais.

Além da sobrevivência ao confronto, ela dificilmente será incriminada. A polícia não está exatamente procurando sarna para se coçar e reconhece, suponho, que a tal mulher não é exatamente o que está errado com Caxias.

Ainda assim, nos vem a ideia de que ela não deveria ser nem acusada. Tendemos a pensar que a mulher deveria ser ouvida pela polícia, receber um tapinha nos ombros por congratulação e voltar ao seu dia-a-dia, nem que fosse para lidar com o assassinato de outro ser humano como quiser, se isso é o tipo de coisa que incomoda aquela senhora. Bom, isso me parece otimismo desmedido, motivado pelo que consideramos hoje um final feliz: se o bandido na situação está morto, estamos satisfeitos, e supõe-se que nenhum problema advirá disso.

A polícia, no entanto, não pode partir de nenhum desses pressupostos. Em primeiro lugar, estão em frente a uma mulher que demonstrou que, aos 87 anos, é capaz de matar outro ser humano. Em segundo lugar, se a polícia acreditasse em aparências e primeiras versões, a impunidade seria ainda mais fértil que já é. Em terceiro, a arma ilegal estava na casa, mas supostamente não era da velha. Era de quem? Por que estava ali, se ilegal? (É possível entender que a arma era legal, mas ela não tinha direito de empunhá-la - a notícia, como é comum, não foi clara nessa parte.) Como disse, Caxias é uma cidade violenta, e não se pode dar ao luxo de não investigar questões como essas. Então, dessa vez, o "bandido" morreu? Isso não garante que, na próxima, o morto não seja um bandido, mas outro qualquer, ou a vítima se passando por bandido (que ainda seria incriminado por homicídio, claro). 

Ou seja, quando alguém morre, está certo a polícia parar tudo e lidar com muito cuidado com o assassino, mesmo que seja uma senhora de 87 anos que ia ser assaltada por um criminoso reincidente. Não é o contexto, mas a morte de outro ser humano que motiva o estancamento do cotidiano e o pisar em ovos frente às evidências do crime, até que tudo esteja bem claro. O problema é ainda quando a polícia NÃO age, e deveria. Agora, não é porque a polícia tende a ser ausente, pobre, desrespeitosa, corrupta ou incompetente que, quando ela não o é, deve ser acusada. Deixemos as críticas para quando ela está errada! 

O meu ponto, em tudo isso, era que, mesmo com as razões que aprensentei (sei que um juiz ou advogado incluiria muitas mais), o policial em geral deve sentir pelo menos uma tendência a essa empatia que nos faz reclamar da polícia por incriminar a velha (note-se, incriminá-la pelo que ela fez!). O policial, além disso, tem conhecimento da falência da polícia com uma profundidade que nem suspeitamos e precisa conviver com as ironias de ver tanta miséria na profissão e, ao mesmo tempo, uma velha sendo presa por defender sua casa. 

Escrevi este post para dizer, então, que é nesses dias que o cara precisa amar demais o seu trabalho. Pois é preciso ser muito ético, ou gostar demais da profissão, ou as duas coisas, para prender uma velha nessa situação e não se deprimir com o que se escolheu fazer da vida.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Entre a palmada e a realidade

Hoje eu vi uma sequencia de cenas que me lembraram demais a lei contra a palmada.

Estávamos três, nitidamente não moradores da vila, num bar e entraram dois garotos de mais ou menos 15 anos. Um comprou um cigarro, o outro uma cerveja. Acenderam e abriram ali mesmo, saíram bebendo e tragando. Na hora de pedir a tal bebida, aliás, o diálogo foi este:

- Me vê uma bebida aí, X.
- Pode ser "guaraná", cara?
- Pode.

A nomenclatura veio por nossa presença, suponho. Muitas coisas pareciam fora do lugar por nossa conta, os estrangeiros, como sempre acontece em vilas (ou em shoppings, invertendo o público), bem se sabe. 

Mesmo assim, foi curioso que esse pessoal, muito ressabiado a nosso respeito, foi unânime ao falar sobre violência na região: a grande fonte são questões domésticas. Duas posturas: não se meter ou pensar que mais policiamento seria bom. 

É óbvio que a polícia só aparece lá se chamada, horas depois, claro. No resto do tempo, não há ronda, visita, ou mesmo delegacia perto. Faz-se de conta que esse região, bastante violenta, vive na paz das árvores e morros que existem na volta.

Aliás, essa vila, marcada pela violência doméstica, acaba de derrubar a administração da creche estadual que existe bem na sua entrada. Motivo? Violência com as crianças. Pode-se imaginar uma postura hipócrita como "no meu filho só bato eu", mas, pelas descrições, não foi nada disso...

É claro que o tráfico também contribui com a violência no local. Trata-se de uma região controlada agora por uma gangue originária (e sediada) num bairro bem distante: se fosse possível seguir em linha reta entre os dois pontos, ignorando morros, ruas e quadras, poderíamos dizer que há 8km entre eles. De ônibus, num trânsito bom, leva-se duas horas entre as duas vilas. Mas eles chegaram lá, brigaram e venceram (rapidamente).

No entanto, o governo fez a sua parte contra a violência. Proibiu a palmada.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Mortes em perspectiva

As aulas estão voltando e, por algum motivo, elas me inspiraram um cálculo: turmas brasileiras costumam ter mais ou menos 30 alunos (em geral mais, ok). Isso significa que, durante os poucos dias de greve (ou motim, se preferem) da polícia baiana, morreram o equivalente a 6 turmas inteirinhas de uma escola qualquer.

Bom Carnaval.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Baianos morrendo para o governo ganhar negociação

Vou falar de longe em relação à greve dos policiais da Bahia, no calor do momento, então me perdoem qualquer equívoco, mas queria comentar umas coisas que me parecem bizarras na história toda.

Para início de conversa, comentou-se muito sobre seis dias de greve terem provocado tantos porcento das mortes que aconteceram em Salvador, no ano passado. O que não vejo ninguém comentar é que isso indica, de fato, que houve 175 homicídios no mês de fevereiro de 2011. Como diria o Faustão, "pora, meu!". 

É mesmo o caso de se supor que, se a polícia parar, vai feder. E fedeu. Tudo bem que muitos casos de vandalismo estão sendo contados como provocados por agitadores, baderneiros, comparsas e até grevistas. Vamos supor que sim: e daí? Isso não quer dizer que os grevistas ou comparsas sairiam por aí matando pessoas por Salvador, só para fazer pressão. A criminalidade aumentou absurdamente, o que é de se esperar com ou sem ajuda consciente do movimento. A posteriori, isso seria relevante, num país com polícia moderna. Como não é o caso...

Eu, pessoalmente, sou muito cético a respeito de grevistas sendo acusados. Particularmente porque eu sei bem quão baixas e falsas são as acusações que políticos e comparsas (sim, todos os têm) fazem quando qualquer grupo de trabalhadores pára a fim de exigir o óbvio ululante. Meu ponto, no entanto, é que, mesmo que as acusações fossem verdadeiras, existem questões mais terríveis a serem focadas.

Por exemplo, quantos dos 175 assassinatos de 2011 foram desvendados? Quantos assassinos foram presos? Quantos vocês acham que serão investigados e concluídos dessa vez?

O crime, em amplo espectro, aumentou. Como o governo reage? Da MESMA FORMA que reage quando absolutamente qualquer profissional pára: acusações clássicas, ofertas ridículas (para fingir negociação) e exigências de quem se coloca no lado forte da queda-de-braço. 

Em termos de disputa, beleza, o governo precisa sempre se manter retoricamente como figura forte. Qual o problema nesse caso então? O problema é que a cidade, no mínimo, está sendo violentada e quase 100 pessoas já morreram. E o governo responde com táticas de negociação de greves de professores (retórica irritante também nesse caso, mas, digamos, com efeitos colaterais menos trágicos)! "Vamos negociar se pararem a greve", "oferecemos o reajuste que sabemos que vocês não querem", "estamos preocupados com a nossa segurança"...

Isso sem contar, claro, o que nunca consigo perdoar em nenhuma situação de greve: que os políticos deixam uma crise virar paralisação. Sindicatos estão sempre negociando com o governo. Em geral, é possível prever uma greve há muitos meses de distância, se se está dentro da brincadeira. Mas o governo deixa rolar, se faz de forte, brinca de roleta russa com a cabeça do trabalhador em questão, de suas famílias e da população.

Nisso, preocupações emergiais do governo baiano (e federal): turismo empacado e imagem ruim para a Copa... E a população morrendo? A população que morra! 

Nada de novo no front.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Estupro e Cotas ou Crime nem Sempre é Crime

(Há apenas suspeita de estupro no BBB, mas a maioria das pessoas que vi comentarem ou compartilharem mensagens de facebook a respeito consideram que houve estupro, então vou indicar quase sempre como fato, já que o que rola na mente das pessoas é mais importante neste post do que a solução do caso, já veremos o porquê. Estive longe do computador por muitos dias, então lucro com a persistência do assunto para ainda deixar um comentário.)

A ideia de que crime é crime, no Brasil, não fez sucesso. Não digo que tenha feito sucesso em ALGUM lugar, mas só posso falar com convicção daqui...

Uma das principais críticas a cotas e leis "específicas", como para o caso de homofobia, é que a lei deveria ser para todos e que (por exemplo), se é crime bater em cidadão, que o cidadão seja homo ou heterossexual não deveria fazer diferença. Ou ainda, preconceito poderia agravar o crime, mas não poderia ser um crime específico bater em homossexual, porque isso seria uma espécie de discriminação compensatória: não quero que tratem homossexuais de forma diferente, então eu, como juiz, trato-os de forma especial, ou seja, diferente). 

Cotas têm uma "problemática" semelhante. "Eu não quero que discriminem negros", por exemplo, "então vou eu mesmo tratá-los como diferentes dando certas vagas para as quais não foram selecionados, assim eu mesmo tratando-os de forma diferente".

Vamos aceitar esse ponto de vista temporariamente. Pois bem, supomos então que se está lutando por que as pessoas sejam tratadas de forma semelhante. Todos iguais perante a lei. O que o BBB tem a ver com isso? Que ele ilumina o quanto essa igualdade é problemática por aqui.

A mulher supostamente estuprada tem algumas características-chave: é vista como vagabunda (para a média de comportamento brasileiro - variando, ao que percebo, entre o "normal" e "muito vagaba", mas apenas em casos de exceção), conseguiu participar do BBB, havia bebido numa festa e contradiz-se todas as vezes que pôde, dando uma resposta diferente sempre que lhe perguntaram algo sobre aquela noite. Que o BBB seja um programa da Globo também é uma informação crucial.

Supomos, como avisei, que o estupro tenha acontecido. É crime, hediondo (graças à luta legal de um pai), por enquanto. Reações: achar absurdo, culpar a Globo, culpar o Bial, culpar a mulher, culpar a vagabunda, culpar a vítima, culpar a bebida, culpar o telespectador, culpar quem achou que houve estupro.

Talvez se observe que listei a vítima mais de uma vez, mas isso porque as pessoas a culparam das formas mais inventivas, talvez numerosas demais para este post. Racionalmente, nenhuma delas merece respeito nem muito assunto porque são aquelas variações das velhas respostas machistas: se a mulher fez qualquer coisa que seja atraente para um homem, "estava pedindo". Às vezes isso se disfarça melhor, considerando que a vítima poderia ter tido mais cuidado (o que não desculpa nenhum crime, como talvez um momento de raciocínio revele a todo leitor), às vezes essa postura é franca: "é uma vagabunda mesmo", "tava se engraçando toda na festa", "são dois adultos" (??), "o que um não quer dois não fazem" (?!?!?!), "quem tá na chuva é pra se molhar"...

Todas as vezes que a vi acusada - de aproveitar a aparência de estupro (?) ou de ser culpada mesmo - o fato de ser uma pessoa buscando celebridade, de estar no BBB, de ser considerada burra, puta ou qualquer combinação das características acima era fundamental para desculpar o suposto estuprador. Ou para apoiá-lo! Espero francamente não ter de alongar o post apontando como essa lógica ser comum é preocupante.

Um dos piores aspectos da história toda, no entanto, foi o quanto as pessoas passaram a criticar ou compartilhar (no facebook) contra quem comentou o assunto como uma situação grave (celebridades, amigos ou anônimos). Mensanges como "Eu sei que ninguém vai compartilhar (essa acusação sobre violência contra cachorro, ou esse exemplo de um prisioneiro de tal lugar, ou sei lá) pq n tá no BBB", ou ainda "se estivesse no BBB, tava todo mundo compartilhando o exemplo desse político (bem conhecido muito antes do escândalo)" abundam nos últimos dias, uma grande crítica à média da população por quê? "Porque as pessoas se importam com um caso de estupro..." Não, claro! Trata-se de uma grande e pomposa crítica a alguém se importar com BBB, AINDA que role um estupro lá!

Eu sei que, parando para pensar, muita gente diria que não é isso que está tentando apontar, e acharia uma racionalização meio moralista e meio cult, mas é isso que está sendo dito, das mais diferentes formas. Acontecer um estupro no BBB é assunto menor porque o programa é uma fábrica de celebridades que "corrompe" o país, sua população, e toda essa boa gente que está desculpando ou diminuindo a importância de um estupro para mostrar como é superior e informado, só porque não curte o programa.

Quer dizer: onde o estupro acontece, com quem acontece, quais as consequências de sua investigação (vai sobrar para a Globo ou não? ela vai posar pra Paparazzo ou não?) são fundamentais para que um "crime hediondo" seja relevante.

O que isso tem a ver com cotas e homofobia e os assuntos citados no começo? É o seguinte: o caso do BBB é mais um exemplo de que a lei é para uns, em certas situações e dependente do resultado previsto para o caso (facultativo) de ser exercida. Assim é com as coisas mais estranhas possíveis, até mesmo com o prototabu do estupro. Seria legal se homossexuais pudessem lucrar com a lei e responder a ela da mesma forma que os heterossexuais, a ponto de não precisarem ser diferenciados legalmente (o casamento gay, aliás, é uma equalização que já não se aceita...)? Seria. Mas isso exigiria que se entendesse que lei é lei, independente de gostarmos ou não da vítima, independente que gostarmos ou não do resultado do cumprimento da Constituição. 

Não estou querendo apontar que essas diferenciações legais resolvem o mundo, apenas indicar que elas combatem/refletem a forma como se entende justiça por estas bandas. A "justiça" atualmente não é apenas para uns, ela tem diferentes graus em cada contexto, a ponto de poder ser meio ignorada e, em alguns casos, absolutamente não valer. Aí é complicado.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Educação na Cracolândia

Conforme Haddad, nosso queridíssimo ministro da Educação, a ação da polícia na cracolândia foi "desastrada".

Que vergonha! Que vergonha nosso ministro ter de ver tais resultados onde quer concorrer a prefeito, após uma carreira tão brilhante no MEC, em que não houve desastre algum, em que todas as suas ações foram bem pensadas e em que já começou a revolução educacional que vai colocar (e já está colocando) o Brasil entre os primeiros do mundo. Primeiros na economia, que importa que também primeiros em custo de vida e últimos nas salas de aula? O projeto Escola sem Homofobia não foi nenhum desastre! Não houve desastre em nenhum ENEM! Haddad fala por si e para si: a Educação anda a passos largos.

A polícia pode, afinal, aprender muito com o MEC, com certeza. Um dos grandes segredos da Educação é fazer planos lindos, mesmo que só na teoria, de preferência nem tentando colocar os melhores em prática (não, ao menos, sem antes buscar cortes para afunilar a demanda do serviço pelo Estreito da Falta de Verba). Ah, Segurança, aprenda com a Educação: plano bom mesmo não sai do papel - de preferência já sendo bolado sem contato com a realidade! Foram se meter a encarar um problema real e tentar agir no mundo! Não, isso é uma cena forte demais para o ministro!

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Fuzilando e apedrejando enquanto o governo dorme

Pode ser preconceito, estatismo ou esquerdismo da minha parte, mas eu sempre achei que certas instituições são interceirizáveis. Segurança, por exemplo. Do meu ponto de vista, o governo existe para que a população possa ser gerida e organizada, tendo-se em vista o bem da própria população. 

Tenho certeza de que esta definição é absolutamente demodé e totalmente contrária às crenças de políticos eleitos ou nomeados, mas é mais ou menos a que usam para justificar seus próprios cargos, ao que me parece. Como é impossível manter o povo com paz e trabalho sem que alguém garanta a proteção dessa mesma população contra uma série de ameaças, muitas vindas de seus concidadãos, é imprescindível que o Estado forneça segurança. Logo, esta é um "serviço fundamental" de qualquer nação, não podendo ser confiado a poderes e responsabilidades terceirizadas. Mesmo porque qualquer problema gerado por esses mesmos grupos terceirizados teria de ser resolvido por pessoas igualmente armadas e preparadas para violência, ou seja, a única forma de conviver com força armada terceirizada é ter uma força armadada estatal que consiga controlá-la.

Pois bem, educação também é um "serviço fundamental", conforme a própria definição da lei, não? Em parte pela importância dos jovens para qualquer país. Então segurança para educandos é duplamente "fundamental", certo?

Então por que os alunos da Escola Estadual de Ensino Médio Oscar Pereira precisaram bloquear por duas horas a Avenida Oscar Pereira hoje de manhã, a fim de provocar alguma reação do governo a respeito de atiradores que atacaram a escola de moto e carro, além de apedrejamentos e ameaças de invasão?

É óbvio que deveria haver uma investigação a respeito do que diabos está acontecendo lá, o que será encaminhado, espero, por diretora, vice ou alguém do tipo. Ninguém mais se mobilizará adequadamente. Mas, além disso, estando a situação montada, por que esse tipo de ataque foi possível à escola? Porque o (ÚNICO) guarda da escola era terceirizado. A empresa contratada pelo governo do estado decretou falência, de modo que a escola ficou sem seu (ÚNICO) guarda. Mas, conforme a Secretaria Estadual de Educação, tudo bem: um outra "prestadora de serviços" foi contratada por uma licitação "de urgência" (o que implica, infelizmente, tanto pressa quanto corrupção). Na semana que vem, a escola deve receber algum guarda de novo. E ponto final para a história, no que diz respeito à publicidade da situação. Não, é claro, um ponto final para a história no que diz respeito a seus alunos e profissionais.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Ato reflexo



Os grevistas ainda precisam ficar incomodando na frente da prefeitura, já que o Buzatto não apresenta nada de novo. Então, lá estava a galera, municipários fazendo barulho, trazendo novas notícias dos andamentos nas secretarias e recebendo médicos vindos das manifestações no HPS e apoio de ainda mais cidades que se preparam para entrar em greve.

Como em todos os dias em que houve manifestações na frente do Paço, lá estavam vários guardas municipais (que estão em greve - mesmo os em serviço estavam com os mesmos adesivos que os manifestantes) na frente da porta da prefeitura, o que não deixa de ser engraçado. Os grevistas não tinham a menor intenção de invadir. São muito comportados, infelizmente. Às vezes alguém usava o banheiro da prefeitura, inspirados com certeza no melhor uso que políticos conseguem dar ao prédio, mas, fora isso, lá estavam todos, manifestando-se ultrapacificamente.

Eis que, pelo fim da manhã, surgiu um grupo um tanto inesperado, que vinha fazer sua própria manifestação, instalar-se na prefeitura, e tanto pedir quanto oferecer ajuda aos grevistas na pressão ao governo: famílias ligadas ao Movimento Nacional de Luta pela Moradia. Vieram com cartazes, discurso claro e bem informado (ainda que, perdoem, não fosse na norma culta...). Como muito dessa greve, a crise das famílias começou devido às mudanças na cidade para a Copa (a greve dos municipários também estourou por isso, mas explico em outro post).

No caso, são 48 famílias. Algumas foram desalojadas e mantidas agora sem água, luz e saneamento no Lami (situação "temporária" que dura 6 anos - além do prazo, é tão significativo que alguém possa ser "temporariamente" deixado sem esses serviços de forma declarada pela Prefeitura...). Outras vivem em condomínio na Restinga construído para o Minha Casa, Minha Vida. Aí, o problema é que o governo não restringiu o esquema da Auxiliadora Predial, que agora cobra um condomínio abusivo tanto para o local em que moram quanto para um programa popular de moradia (R$ 300 mensais). Outras famílias ainda (não contadas nas 48) vivem em local também "provisório" há 4 anos e serão novamente deslocadas para as obras da Copa. A prefeitura encaminhou início das obras, só faltou preparar para onde pretender "mover" a galera.

Enfim como eu disse, eram crianças, velhos, mães, famílias mesmo. Eles foram lá fazer uma manifestação junto dos municipários, sendo (é óbvio) recebidos e agregados imediatamente. Mas, assim que chegaram, os guardas municipais que estavam na frente da prefeitura fecharam uma das folhas da porta principal. Imediatamente um grupo bem maior de outros policiais fechou apenas o lado da entrada em que as famílias recém chegadas estavam posicionadas.Os municipários gritarem que a polícia abrisse a porta e os tratasse de forma igual (sem pressupor que eles tentariam algum tipo de violência) obviamente não gerou efeito algum. A polícia não abriu a porta. 

Cá entre nós, por que abririam? Tudo que os municipários fariam seria mesmo gritar e seguir sua manifestação ultrapacífica. Grevistas ainda não aprenderam que nenhum governo tem medo de cara feia. Por que sua polícia teria?

domingo, 24 de abril de 2011

Rebeldia implica autoridade

Sempre que novos casos de violência contra professores, supervisores ou diretores ganham as notícias, é comum que alguns lamentem a falta de autoridade do "professor" atual, ou o fato de que os alunos não reconheçam mais tal autoridade. Eu não conheço grandes estudos específicos a esse respeito, mas a impressão que tenho é bem diversa. Os alunos reconhecem professores como figuras de autoridade, o que acontece é que esses alunos que atacam os profissionais da escola têm uma enorme revolta contra o poder que reconhecem manifesto ou simbolizado no professor, identificado exatamente como "autoridade". Ou seja, sua resposta violenta não surge porque não veem autoridade no professor, muito pelo contrário: é exatamente por a enxergarem que são violentos.

Essa revolta não é a importante manifestação de um "espírito crítico voltado contra o sistema", nem pode ser chamado ainda de uma crítica ingênua. Não vou enveredar pelo caminho dos que acham que isso é bom, porque creem que toda revolta seja boa. Claro que não: se fundamentadas em ilusões ou se desprovidas de causa, críticas são simplesmente asneiras destrutivas. Mas é preciso reconhecer a rebeldia desses alunos, em vez de subestimá-la como ignorância, ausência, fruto de uma simples não-educação. 

Eles não precisam aprender uma cultura submissa para ver autoridade nos profissionais do colégio. Eles conseguem chegar a essa conclusão sozinhos, ainda que muitos possam ter dificuldades para expressá-la verbalmente. Um dos grandes problemas, aliás, é que aprendam isso sozinhos, porque então reconhecem no professor o único tipo de autoridade que geralmente conseguimos enxergar quando somos jovens: a autoridade da violência. Não por acaso, já que autoridades são pais, policiais, professores... ou seja, unicamente pessoas que têm poder de sanção sobre nosso poder de ir e vir. Mais ainda, todos estão numa mesma cadeia de autoridade. Por exemplo, os professores, sem saída diplomática, chamam os pais (o que pode levar a surras em casa ou, no mínimo, castigos). Se os pais não resolvem o problema, a questão será tratada com Conselho Tutelar, na visão deles uma antecâmara para o problema ser levado à polícia. Tanto pais quanto policiais, se afrontados por uma revolta inflexível, tendem a apelar para a violência, e o discurso positivo ou interessado de alguns professores não podem esconder que, no quadro geral pragmático, são figuras de negociação que tentam resolver a crise antes que uma das outras autoridades tenha de ser chamada para, se quiserem, usar de violência. Além de tudo isso, professores tendem a não ser fisicamente violentos, a não ser com seu domínio sobre portas da escola ou com gritos, mas a possibilidade de um ataque físico nunca pode ser totalmente descartada, tanto que a televisão comprova que alguns se passam.

Os alunos entendem, portanto, que professores estão numa determinda posição de autoridade, e isso quer dizer que usam formas mitigadas de violência e podem apelar para pessoas que não têm as mesmas restrições, independente do que diz a lei (geralmente desconhecida dos alunos). A possibilidade de autoridades serem de outro tipo, como a intelectual, é basicamente alienígena para nossa cultura. Mesmo as pessoas que a reconhecem costumam fazê-lo depois (às vezes bem depois) dos 20 anos de idade, e muitas vezes ela é de fato apenas uma máscara para idolatria simples. O que poderia ser reconhecimento de autoridade moral também tende mais para a tietagem e submissão dogmática.

Nesse quadro geral, a posição entre violências (ou de violência mitigada) ocupada pelo professor coloca-o, para a percepção do aluno, como uma espécie de elo fraco da corrente. Ali há mais espaço de negociação do que com pais ou policiais, assim como a possibilidade de resposta direta do professor é mais fraca e lenta. De forma um tanto amadora, mas com suficiente clareza, a maioria dos alunos reconhece que é com o professor que seus estouros podem se dar de forma mais clara e aberta, ou que o número de "perdões" na escola supera imensamente o número que poderia receber de quaisquer outras autoridades.

Se vamos nos revoltar contra alguma autoridade, costumamos investir contra a mais fraca e menos violenta delas, lógico! O problema não é ensinar aos alunos brasileiros que professores são autoridades, mas ensinar uma relação completamente diferente com a autoridade em si, para muito além da escola. Isso exige, pelo outro lado, que nossas autoridades mudem. E alguém acha que uma mudança de postura das autoridades (pais, policiais, legisladores, conselheiros...) será atacada por projetos de educação (exceto leis que decretam novas formas de comportamento e que, por isso, não têm eficiência)? Ora, pense-se no irracionalismo da resposta dos governantes aos tiros em Realengo e se terá uma medida do tipo de raciocínio que assola nossas políticas públicas. 

Esses casos de violência são preocupantes de fato porque o problema das escolas é bem mais profundo do que temos coragem de questionar politicamente. Ele é, no mínimo, três vezes maior do que cabe no atualmente restrito conceito de "Educação". Se permissividade não é um caminho plausível, pesar mais ainda a mão, procurar simplesmente novas formas de repressão e supor que se precise reinjetar autoridade num professor supostamente esvaziado é só botar mais lenha na fogueira, ignorar que o comportamento do aluno é uma rebeldia.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Polícia - ainda o problema da educação

O caso do Bruno vai seguir um caminho conhecido: será contestado por conduta inadequada na investigação. George Sanguinetti, assistente técnico da defesa, vai levantar uma série de problemas técnico-burocráticos. O que me faz pensar: uma grande vantagem de melhorar a educação no Brasil será tornar bem mais comum que possoas que se responsabilizam por encontrar culpados sejam tão minuciosas, obsessivas, dedicadas e irritantemente profissionais quanto o pessoal que busca defender acusados. Então, nos casos realmente polêmicos e complicados, finalmente será possível confrontar provas e versões e não ficar discutindo se o delegado devia ou não ter pedido desculpa por ter espirrado antes de fazer tal pergunta. 

Não é que as contrariedades que o Dr. George vai levar sejam picuinhas, mas é extremamente cansativo essa coisa de toda pessoa rica, famosa e acusada de crime hediondo (técnica ou popularmente), seja violência física ou política (corrupção, formação de quadrilha, espionagem, censura), seja inocentada porque as condutas técnicas e legais não foram seguidas de forma adequada. Para traduzir em termos que no Brasil importam: imagine-se que gols fossem perdidos por juízes cometendo infração técnica. Goleiro e atacante, bola e rede fazendo seu serviço, anula tudo porque o juiz estava com chuteira ilegal.

Compare-se com o caso da família Nardoni, também contestado pelo mesmo George. Acabou em punição à revelia das críticas do médico, mas justamente foi uma situação em que ele questionou a ciência criminal. Ele discutiu Física, não procedimento de investigação. Aí ele (ou seu argumento) perdeu. Não só isso, claro, a família não tinha ninguém famoso, e as dúvidas de Sanguinetti eram sobre o autor específico do crime, a forma como a criança seria lançada... coisas que deixavam margem demais para outras interpretações. Veremos o que acontece com o Bruno. E se, capaz de duvidar da culpa, ele será capaz de provar inocência (desnecessário pela nossa lei, mas seria um avanço sobre os argumentos burocráticos e poderia pelo menos convencer de que não estão soltando um assassino violentíssimo).

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Outro post roubado

Eu ia falar sobre essa coisa de desculpar os candidatos de uma eleição por santinhos "apócrifos" (como se houvesse uma pá de brasileiros superpolitizados, temendo botar a cara a tapa por medo de algum coronel em plena São Paulo ou outra metrópole e sempre com uma gráfica nos fundos), mas a Polícia Federal foi lá e coletou provas, a Isto É passou à minha frente estampando na capa, e o post morre apenas neste registro de intenção... Ah, a matéria é interessante, se não deram uma olhada!

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O Estado não mata quem?

Talvez existam linhas que defendam que não é característico do Estado, tal como o conhecemos na Europa e nos países colonizados por ela, implantar o monopólio da violência. Por exemplo, é proibido no Brasil, seja lá por que termos queiram, matar outra pessoa. Existe o caso da legítima defesa, mas ela existe como exceção bem estabelecida, em parte porque nossa sociedade não despreza o assassinato tanto quanto professa, então fazer uma lei que proíba 100% dos assassinatos seria romantismo demais até para a demagogia política. De qualquer forma, mesmo com essa exceção aberta, particularmente útil para defender aquelas pessoas que juízes não vão querer colocar atrás das grades, a posição default do Estado é a de que tirar a vida é crime. Ainda assim, todos conhecemos duas instituições, classicamente chamadas de polícia e exército, que andam para cima e para baixo com armas e que são treinadas em diversos tipos de violência. Parece-me então que, se alguma teoria nega que o governo queira o direito da violência só para si, deve ter uns argumentos bem interessantes e inusitados.

Ok. Agora, essa gente armada está preparada e treinada para defender o cidadão. Defender o cidadão de quem? Inevitavelmente, de outros cidadãos (o exército pode se preocupar com estrangeiros muitas vezes, mas parece-me que esse problema é muito raro no Brasil, a não ser, talvez, na Amazônia, ou no Pantanal, por questões que não vêm ao caso agora). E armas servem para quê? Dar beliscão? Ou matar? Um tiro na perna não mata? Às vezes sim. E quando o policial acerta na perna? Quando o militar não atira para matar? Quantas vezes consegue fazer esse belo tiro? Imagino que as pessoas ainda lembrem daquele franco-atirador que foi louvado em mil noticiários há alguns meses porque deu um tiro certeiro no crânio de um cara que segurava uma mulher refém com a arma grudada no pescoço da moça. Nesse caso, o tiro "perfeito" foi matar o criminoso sem que este matasse a refém por reflexo resultante do tiro.

Por questões históricas, não é coincidência que a antiga posição política da Igreja, na Europa, sirva de analogia para explicar como nosso Estado se posiciona em relação à violência. O "não matarás" foi argumentado em segmentos na Igreja, particularmente os que defendiam as Cruzadas, exatamente como domínio e direcionamento da violência. Se é para matar, é preciso que se ataque aqueles a quem a Igreja também quer mortos ou derrotados. Matar estes, aliás, até mesmo salva a alma. O Estado não quer que ninguém que paga seus impostos seja morto, a menos que o sujeito esteja atrapalhando o próprio Estado, e, nesse caso, o assassino ganha até uma medalha (a alma talvez valesse mais, mas lembremos que nosso Estado flerta com a ideia de ser laico).

Daí que, ok, o aborto levanta mil questões éticas, mas “Nunca poderemos dar ao estado o poder de matar!" não é uma delas. Tê-lo é fundamental ao próprio conceito de Estado que exercitamos todo dia. E, não em teoria, na prática, a maioria dos cidadãos concordam com esse conceito, em sua fala e/ou em seus atos. Muitos, aliás, desejam-no ainda mais violento. Para seguir a crítica de Luiz Bassuma, seria preciso parar o mundo neste segundo e fazer a revolução política mais radical da História.


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Olha só. A revolução não aconteceu... O Estado segue tendo o poder de matar e desejando mantê-lo. Por exemplo, hoje em dia, quem monopoliza o poder de decidir quem pode ou não matar seu feto é o Estado. O argumento de Luiz, propenso a um curto-circuito retórico ao tocar na realidade, serve contra ele próprio.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

As mil faces do trabalho

Estava eu trabalhando em turno inverso na escola para lidar com burocracia. Fiquei sozinho na sala dos professores (tinha até outra professora lá, mas ela estava com a preguiça do almoço e não abria a boca por nada no mundo), e a chatice rendia bem. Num determinado momento, a dorminhoca que estava ali sentada foi para a porta e, saindo, cumprimentou duas pessoas que responderam com voz ostensivamente educada. Os dois entraram. Eram PMs. Deram um solene "Boa tarde" para mim e já se serviram do café. Começaram a conversar... sobre trabalho. Malharam a Brigada Militar tudo que puderam. Ou melhor, malhOU, porque eram aquela dupla clássica em que um chato não para de falar nunca enquanto o outro mantém apenas a expressão facial afirmativa para que o primeiro possa fingir que ambos contribuem para formar um "diálogo". Falou, falou, falou sobre emprego, produtividade, posturas de empresas, problemas administrativos, e em nenhum momento suspeitou que aquele professor cercado de folhas e checando documentos de todos os lados para canetear este e fechar aquele estivesse TRABALHANDO.

Enfim, depois de semi-atrapalhar (por algum motivo, consegui manter a concentração mínima necessária) meu trabalho falando sobre qualidade de trabalho, foi convidado pelo amigo para que fossem embora. Não resisti, então, a contabilizar o que eles tinham feito ali: entrado na sala dos professores, tomado café, comido bolachas e ido embora. Não tinham feito nem uma social com a diretora, nada. Não passa uma enorme sensação de segurança saber que os dois policiais na área vêm apenas fazer um lanche num estabelecimento público (muito cuidado no sentido desse "público") e vão embora sem mais? E ainda me disseram depois que é um comportamento típico em qualquer escola pública. Eu nunca tinha visto. Sorte?

terça-feira, 13 de julho de 2010

2014, Brasil e nossa guerra civil "em desenvolvimento"

Vocês já imaginaram a polícia brasileira (imaginem ainda mais a paulista, a carioca e os grandes traficantes do Rio) com a tecnologia policial que se está e se irá importar para a "segurança na Copa de 2014"? É de se pensar se, mesmo com potenciais ameaças de terrorismo, os países desenvolvidos não precisam arcar com um sistema de segurança menor do que os em desenvolvimento. Na verdade, como todo mundo vai pra Copa, os em desenvolvimento têm de arcar tanto com as ameaças próprias quanto com as classicamente dirigidas a seus convidados. Interpretação paranóica para as "benesses trazidas aos países pelo esporte": levar a Copa aos países em desenvolvimento não é um fomento econômico generalizado, é uma tática de mercado da indústria armamentista.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Liberdade provisória e a Lei de Talião

Não sendo profissional de Direito, sinto-me livre para definir "liberdade provisória" como a condicional no início do encarceramento, enquanto a condicional com que estamos popularmente acostumados ocorre após o indivíduo passar um certo tempo na prisão.

Quando parece ao juiz que o detido agiu por necessidade, legítima defesa, exercício regular de direito ou estrito cumprimento do dever legal, este deve ser solto, ficando em liberdade provisória. Ou seja, ele fez algo que não devia, mas o sujeito espiritualmente de toga julgou que ele poderia vir a ser inocentado. Melhor soltar. Mas é só por um tempo, enquanto não se sabe bem o que aconteceu. Obviamente, isso é uma forma de se manter a ideia de que ninguém é culpado até que se prove o contrário. Se o juiz não sabe bem se alguém roubou um pão, por exemplo, ou se matou 10 pessoas, talvez seja o caso de libertar a pessoa, até porque ela deve assumir o compromisso de se apresentar em caso de convocação. Bah, quem mentiria para um juiz, né? Nem o ladrão de padaria nem o genocida, que não devem ser diferenciados, pois "a lei é igual para todos".

Até ontem, por exemplo, morava um sujeito aqui no bairro que tinha, como tantos, sido agraciado com o benefício da dúvida. Tratava-se de um cara que andava de mochila rosa. Menciono o detalhe por ele ter ficado justamente famoso como o "estuprador da mochila rosa". Durante sua liberdade provisória, estuprou pelo menos cinco moradoras do bairro. Como muita gente o conhecia, havia certa vigilância voluntária, cada um fazendo a sua parte pela comunidade. Pego em flagrante pelos próprios moradores, foi surrado até a polícia chegar. A gana por que fosse preso era tanta que alguém até chamou a polícia, mas a surra tanto aliviava os moradores que a PM foi recebida com pesar, pois o espancamento não fora fatal. Com aquela libertação provisória, o sistema judicial mais uma vez motivara que a galera a mantivesse o sistema de justiça tribal. O zelo exagerado pela lei sempre dando espaço para a lei do povo se manifestar com toda a fúria e pragmatismo.

A prisão foi efetuada por policiais da 20a delegacia, mas a 18a foi acionada, pois os desta vinham investigando uma série de estupros na região, iniciados, aliás, pelo da mochila rosa ou por seu precursor justamente atrás da 18a. a investigação, infelizmente, não havia andado em nada significativo ao longo de meses, tanto que foram moradores que pegaram o sujeito no flagra. Porém, como eu disse, a polícia chegou durante a surra, não o prendendo em flagrante. Será que uma turba raivosa de moradores é confiável? Será que o juiz não vai temer que inocentem o preso em seguida, afirmando-se que foi um caso de preconceito contra homens usando rosa? Na verdade, pelo teor do crime, ele não deveria (nada é impossível) se beneficiar com "liberdade provisória", pelo conceito desse direito, mas será, enfim, que quem confiou nele na primeira vez vai sofrer alguma consequência pelos cinco ou mais estupros ocorridos desde então?

domingo, 4 de julho de 2010

Faísca atrasada: as reações de professores e prefeitura contra a violência nas escolas

Como comentei há uma semana, o assassinato de uma professora na saída de um colégio do meu bairro gerou algumas reações atípicas em comparação com os roubos e latrocínios costumeiros da região. Na verdade, o que comentei foi apenas o início de uma cadeia de resultados curiosos. Tendo ocorrido na sexta-feira, na frente de centenas de pessoas e de uma equipe de TV que filmava qualquer coisa na escola, a tentativa frustrada de assalto não foi incompetente o suficiente para que os policiais prendessem os reconhecidos crimonosos. Primeiro prenderam uma dupla errada de suspeitos, no domingo e na segunda, até que o caminho correto lhes foi apontado e um dos verdadeiros assaltantes praticamente se entregou, apresentando a arma utilizada para matar a professora. Observe-se que os garotos, ambos menores, não foram exatamente fugitivos discretos, tendo tentado assaltar um casal, ainda naquela sexta-feira, e tendo falhado de novo, mas não ocasionando mortes desta vez.

Na segunda-feira, a escola onde ocorrera o fato não abriu, um dia de luto; e uma escola literalmente no outro extremo da cidade fechou as portas indefinidamente. Conforme a diretora, a violência dos alunos estava demais: o consumo de drogas ilícitas era costume diário e generalizado, e poucos alunos não iam para as salas de aula armados.

E precisou uma professora morrer do outro lado da cidade para ela achar que essa violência era excessiva?! Só vamos descobrir que seus alunos comiam merenda estragada quando alguém vomitar em Alvorada?

Já a escola vizinha à que ficou de luto decidiu fazer uma visita prestando seu apoio e seus pêsames, mas deixaram para a tarde em que tinha jogo do Brasil. A escola não tem nenhum professor homem (ou um, a averiguar) e, pelo jeito, nenhuma das moças gosta de futebol. Viram então a possibilidade de se resolver dois problemas de uma só vez: oferecer ajuda logo após a morte da professora poderia ser um pouco mórbido, desagradável; assistir ao jogo com o maridão e os filhos ia ser aquela mesmice de sempre. Seus problemas acabaram: assassinatos geram oportunidades para expressar calor humano e compaixão. Nada melhor que a capacidade de ser altruísta e compadecido aproveitando ao máximo a agenda da semana.

Mas a mais bizarra consequência disso tudo foi a decisão de que uma dupla de policiais ficaria do lado de fora de cada escola nas entradas e saídas dos alunos. O primeiro mérito dessa decisão é cumprir a meta da polícia de chegar sempre tarde demais. Agora eles protegeriam as escolas, já que obviamente nenhum assaltante vai querer cometer os erros bem noticiados daqueles amadores: assaltar numa situação difícil de pegar o carro, abordando a pessoa na saída para uma rua movimentada, com centenas de testemunhas na volta, ou seja, numa saída de alunos da escola. O segundo mérito foi a presença simbólica de não uma, mas duas duplas de policiais na escola em que a tentativa de assalto aconteceu. Onde é menos provável que a burrada se repita, a guarda deve ser dobrada.

Essas duplas de policiais, pior ainda, quebram a estética do bairro. Sabe-se há séculos que o fundamento de nosso senso estético está associado a experiências agradáveis e costumeiras que tivemos nos primeiros anos, então acho que minha reação negativa aos policiais se deve em parte a eu nunca os ver por aqui, nem mesmo quando eu era pequeno e, dizem, o mundo era melhor. Fora essa presença estranha, sua indumentária quebra algumas tradições do bairro. Não usam tênis supercaros. Ora, aqui só se adquire tênis de formas bastante específicas. Ou eles são comprados por preços exorbitantes, exigindo sacrifícios nas compras de coisas bem mais essenciais, ou são roubados, ou ainda são comprados daquelas pessoas que revendem calçados roubados na Rua da Praia e no Terminal Parobé, pertinho da prefeitura. Além disso, os policiais andam sempre calmos e eretos, quando o gingado é a forma correta de se proteger a coluna contra calçadas destruídas e terrenos baldios. Porém o maior pecado é, definitavamente, a ostentação de suas armas na cintura. Ninguém os avisou que, no Jardim Leopoldina, arma é um acessório que vai "disfarçado" dentro da mochila?!

Felizmente, esse insulto estético logo acabou. Nem uma semana se passou do crime e, claro, os policiais já tinham sumido do bairro, deixando todos em paz novamente. Bem, não em paz exatamente.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Coisas para não fazer em Porto Alegre quando se está morto

Ingenuamente, eu descartei que alguém pudesse suspeitar seriamente que Eliseu Santos (assassinado por tiros certeiros, numa situação claramente premeditada) fora morto simplesmente porque queriam roubar seu carro. Não: a Polícia Civil "concluiu" oficialmente que roubo havia sido mesmo o motivo de sua morte. Felizmente o Ministério Público discordou e seguiu uma investigação ligando sua morte a um dos vários motivos por que se poderia imaginar que pessoas estupidamente ricas o queriam mandado para uma melhor.

O Correio do Povo diligentemente noticiou a "virada" no caso, arrolando consequências da morte de Eliseu: o assassinato pode ter intimidado outras pessoas que poderiam contribuir no caso a ficarem quietas e também "impediu, acima de tudo, qualquer depoimento de Eliseu Santos."

Uau! É mesmo! Será que nossos repórteres realmente conseguem tirar conclusões tão geniais, ou será que a promotora de Justiça explicou isso para eles?

terça-feira, 2 de março de 2010

Otimismo provinciano

Se não me engano, já comentei aqui sobre o romantismo de nossa polícia. Trata-se de uma instituição tão idealista e sonhadora que é difícil crer que ainda seja parte do Estado. Pois a polícia porto-alegrense acaba de dar nova demonstração de sua faceta mais querida: Eliseu Santos, que acabara de ser vice-prefeito e agora era Secretário da Saúde, foi assassinado com 3 tiros fatais (dos quatro disparados, um no coração, outro genericamente no tórax e outro no pulmão), na frente da filha mais nova (6 anos) e da esposa, por dois homens que vieram com outros dois num carro, estacionado logo antes da rota traçada por Eliseu para sair da igreja em que era pastor. Os tiros foram dados e os quatro criminosos foram embora.

A polícia considerava a possibilidade de ter sido um assalto.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Milhões à educação! Paciência, a postos!

A nossa querida governadora, aclamada pelos gaúchos, declarou que "investirá" 143,4 milhões na rede pública de Educação. Metade dessa quantia vai para atravancar terrenos baldios e sujar as escolas com madeira e serragem (ou, no dialeto governamental, "obras"). O secretário estadual de Educação louva o governo pelas reformas já realizadas na Escola Antão de Faria, que corria risco de desabar, o que demonstra claramente o que os últimos anos de investimento têm a revelar sobre a ação do governo estadual. A quantia de quase 150 milhões equivale a tudo que foi aplicado na área nos últimos 3 anos. Esse despertar repentino de administração tão capenga e desigual deve-se ao déficit zero do RS. Ou seja, o governo deixou policiais e professores fazendo sopa de pedra no ano passado para dizer que sanou as finanças e poder aplicar, só então (mais perto das eleições), nos educadores que sobreviveram. É a qualificação profissional no melhor estilo "seleção natural": quem não morre de fome por 3 anos de displicência tem a chance de ver o governo meter os pés pelas mãos com uma bolada violenta no ano seguinte.