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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Poema do mau cotidiano

Às vezes eu paro o que estou assistindo,
ou deixo muda a música que ouvia.

É uma propaganda política que passa
entrando estridente pela janela.

Ela deve ser honrada com o silêncio,
como uma má notícia.

domingo, 8 de julho de 2012

Interpreta pra mim?

Tem sido ainda uma experiência curiosa ver jovens (nesse caso, pessoas com menos de 17 anos) assistindo a filmes. Em primeiro lugar, vê-se que estão bem acostumados aos preceitos dos produtores e, noutra direção, que estes têm razão: a ação é a única coisa que concentra. A agitação e o barulho é o fundamental. As falas não ganham grande respeito ou interesse, o que faz pensar que Wall-e ter feito sucesso não indica que, como antigamente, ainda é possível prender sem o apelo a diálogos, mas sim que o que os personagens têm a dizer recebe tão pouca atenção nos filmes em geral que se pode mesmo tirar todo tipo de expressão verbal do filme. Isso é, aparentemente, o supérfluo. 

Por outro lado, as expressões faciais lhes dizem muito! Disney, Pixar e Dreamworks têm mesmo razão em apostar tanto nos olhares e na linguagem corporal extremamente didática de seus personagens. O entendimento com meias-palavras é bem mais expressivo que o diálogo - talvez combinando com o que eu disse no parágrafo anterior, pois ainda são, em certo sentido, ação, movimento.

Mesmo assim, olhares e gestos podem ser interpretados de formas muito diferentes e, como palavras e grandes partes do filmes são ignoradas em prol de celulares, comentários, lembranças ou coisas do tipo, muito do essencial do filme é perdido. Além disso, o detalhe pode se destacar por uma bobagem qualquer (como criticar a cor do vestido da fulana, ou o fato de que o personagem NÃO resolveu algo com porrada), mas isso não é interpretado com coerência em relação ao conjunto. Não há atenção suficiente para se pegar esse conjunto, por isso os pedidos para que a pessoa do lado (colega, amigo, parente, professor...), qualquer pessoa do lado, explique o que está acontecendo realmente (além do que vai acontecer, claro) são incessantes. 

Devo dizer que isso até contribui com o senso comum atual de que mulheres tendem à multitarefa. Vejo gurias confirmando mais o que estão pensando ou não entendendo bem, porque pulam entre o filme e a realidade constantemente. Os caras tendem a pretar bastante atenção ou ignorar o filme completamente. Há meios-termos em todos os sexos - a natureza, desde bem antes do politicamente correto, paga seu tributo às cotas de alteridade -, mas a tendência a esse padrão me parece bastante interessante. Seja um macho uma fêmea querendo lidar com várias coisas ao mesmo tempo, no entanto, (adolescentes não parecem saber a diferença entre escutar ou olhar e "prestar atenção") a multitarefa naufraga quase sempre. Apenas "quase", porque há sempre exceções, como bem se sabe. Às vezes inclusive o sujeito até se interessa tanto pelo filme que assiste tudo e descobre-se pronto para entendê-lo (interpretá-lo). Mesmo assim, algumas confirmações tendem a ser pedidas.

De qualquer forma, até a adolescência, raras parecem ser as pessoas que entendem realmente a trama principal - e uma que outra paralela, quem sabe? - porque simplesmente não há atenção mantida por tempo suficiente para tal. Curiosamente, esse empecilhos para a interpretação em nada batem com a falta de espírito crítico que tanto se cola (em campanhas ideológicas) à capacidade de interpretação. É claro que uma crítica sem interpretação é infértil em muitos sentidos, mas quero chamar atenção para o fato de que a dificuldade de interpretação, seja qual for, não indica um espírito passivo ao conteúdo real ou pressuposto daquilo que é visto, como geralmente se quer pregar quando se diz que é preciso ensinar a população a interpretar para "ter espírito crítico", o que significa votar na mesma bandeira que a pessoa fazendo o alarde. Como vou comentar, é verdade que o espírito crítico em questão não é o ideal, mas ele está longe de indicar passividade e, mesmo que equivocado, não tende a ser muito apefeiçoado pela vida.

Depois da espécie de crença pétrea em bem e mal, certo e errado, a que se tende em determinada fase da infância (particularmente, não apenas de que isso existe mas de que se sabe exatamente quando estamos em frente a um ou outro), caminha-se para a adolescência, fase em que o voluntarismo infantil sobrevive, mas (porque já se sabe mais do que se sabia poucos anos antes) uma sensação de extremo conhecimento do mundo e da vida conquista a mente humana. O adolescente tende a um cálculo assustadoramente errado da cultura que recebe, interpretando "amor", "ódio", "vingança", "decepção", "nostalgia" e muitos outros sentimentos e conceitos cantados com louvor e ânimo por todos os lados restritamente conforme sua parca experiência, que lhe parece tão grande por ele já ter perspectiva para entender o quanto o horizonte das crianças é pequeno. Por contraste consigo mesmo, um adolescente parece ter pulado, em dois anos, de Sam Gamgee para Gandalf. Por isso mesmo, se julga mais conhecedor do que é. Por isso mesmo, de novo, acha que sabe do que sua cultura está falando. E assim sai errando cada passo e julgamento que dá, com exceção, é claro, daquilo que realmente entendeu por experiência própria, não por "herança discursiva", digamos.

Acima de tudo, é a partir da adolescência que conseguimos confundir o que queremos com termos como "justiça", "lei", "correção", "adequação", "respeito", entre outros, e fazemos tudo com alguma capacidade retórica. Dessa forma, nosso mundo autocentrado já passa a ter a possibilidade de, pela nossa palavra, passar por um descentrado, honesto, respeitoso, justo. Tudo que o filme, retalhado pela falta de atenção do espectador, apresentar e que, de alguma forma, contrarie o mundo ou interesse do jovem de qualquer forma, receberá uma crítica bastante sincera e enérgica. 

O objeto cultural em geral só será aceito nos termos em que ele confirme o que o jovem quer (espaço aqui para desejos inconscientes, é óbvio). De resto, apresenta-se espontaneamente o espírito crítico que tanto se deseja ver criado por educadores perfeitos que amam as crianças acima da própria vida, dispostos portanto a salvar a nação em troca de migalhas - ou seja, o espírito crítico como a postura que pressupõe a dúvida frente ao que se assiste e que coloca questões fortíssimas a tudo que lhe parece equivocado. 

Assim, não é preciso professores para isso; o adolescente é um animal extremamente "conservador", no sentido de desejar o seu conforto psicológico acima de tudo, portanto disposto a renegar tudo, esquerdista ou direitista, que o tire do lugar. Professores seriam necessários, talvez, para questionar esse espírito crítico, para provocar uma interpretação embasada e coerente, para mostrar que a coerência que interessa construtivamente é aquela que se pauta pelos elementos do que é analisado - não pelos nossos desejos, ou seja, que é preciso ser coerente com critérios lógicos ou objetivos de alguma forma, em vez de se ser coerente com o que queremos e ponto. (Professores, portanto, poderiam ser importantes para mostrar que muitas vezes o espírito crítico do aluno é o que está completamente equivocado, que ele ainda tem muito a aprender antes de negar tudo o que vê pela frente só porque quer, que é preciso escutar - postura aparentemente passiva - para se pensar como o outro a fim de poder questionar com razão, que o espírito crítico não é um valor se é infundado, autoelogioso e autocondescendente.)

Parece-me ficar claro, assim, que o humano tende a se manter adolescente pela vida afora. Não precisamos dos outros para sermos críticos, apenas de nossa própria cabeça. Precisamos dos outros, em geral, para entender que alguém pode ter razão além de nós mesmos e dos heróis que dizem aquilo em que queremos acreditar.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

House, over and out!

Como tantas vezes disseram Wilson e Cuddy, "Goodbye, House"
 
*Não há nenhum spoiler do último episódio neste post.

House foi a primeira série adulta que vi. Digo exatamente assim, que vi, não que "assisti", porque nunca tinha visto um seriado em que bobagem não precisava de piada e drama não precisava de choro. 

Na verdade, a única série de que tinha realmente gostado desde ter desenvolvido suficientemente a razão fora Friends. Family Ties, Full House, Punky, Alf e algumas outras fizeram parte da minha infância, mas daquela forma intermitente que séries passavam na TV aberta na época. Note-se que só falei de sitcoms, com a exceção de Punky que passeava entre isso e o "drama", obviamente na abordagem mais infantil.

Friends foi uma revolução. Tanto para mim quanto para os seriados, de comédia ou não, para a indústria de DVD de séries, para a equipe envolvida, enfim, para tudo que pudesse ter alguma conexão com o fenômeno, inclusive para meus amigos e, como a série começou em 1994, devo dizer para a maioria das pessoas que viriam a se tornar meus amigos enquanto a série esteve no ar.

As séries que já tinha assistido até então ficaram ofuscadas na minha memória e eu passei a considerar Friends a única produção seriada americana que eu já tinha curtido. Tanto que não assistia a nada paralelamente nem depois que a série acabou.

Um contexto bem específico fez com que eu me encontrasse com House, aos poucos, lá pelo fim da 2a temporada, dois anos depois do fim de Friends, que assistia religiosamente. Logo, o diferencial (racional) que mencionei começou a me chamar a atenção, e resolvi conferir a 1a temporada para ter certeza (odeio explorar uma série pelo meio e só depois assistir o começo). Como todo mundo, também me impressionei com a atuação de Hugh Laurie, claro.

Eis, então, um seriado em que a inteligência tem um papel crucial, o método convive com a bagunça, um bando de coisas incomodativas (das pessoas e da burocracia) é escrachado catarticamente (ao menos para mim) e a maioria das coisas que eu não tenho com quem discutir é debatida pelo menos com alguma argumentação. No começo, o alívio maior foi mesmo a quebra com o politicamente correto. Quando eu comecei a assistir, essa nova forma "cheia de dedos" de dizer absolutamente qualquer coisa reinava suprema, ao menos nos meios em que eu estava envolvido (e, com certeza, na TV - graças aos deuses não havia Facebook na época, ou seria plenamente insuportável).

Não falo, fique claro, da negação absoluta e estúpida do politicamente correto. Ou seja, não falo de Pânico na TV. O que havia ali era um confronto, um questionamento dos limites, das capacidades e dos motivos, muitas vezes imorais ou logicamente bem questionáveis, por que as pessoas costumam aderir ao discurso politicamente correto. (Atualmente, além de House, conheço só UMA série em que questões complicadas são realmente discutidas pelos personagens, sem que uma série de clichês do certinho, da fodona e do simplório venha atrapalhar o andamento da cena.)

Enfim, portanto, uma série que me instigava na primeira temporada, me divertia na segunda, me provocava na terceira (ainda considero o 12o episódio da terceira temporada - One Day, One Room - uma das melhores coisas que já assisti, de qualquer gênero ou tipo de produção). A quarta temporada trouxe o prenúncio do fim (apesar de a série ter resistido mais outras quatro temporadas depois). As tentativas de mudar a série, de renovar uma situação que era perfeitinha demais no começo para andar para qualquer lado, ficavam mais e mais desesperadas, arriscadas. A série nunca mais foi a mesma, e a audiência foi variando, assim como o interesse de telespectadores que se mantiveram fiéis, como eu.

Para minha grande surpresa, essas mudanças radicais trouxeram algumas novidades fantásticas, como a incomparável Thirteen, o aprofundamento da relação de Wilson e House, a loucura deste e os episódios dele internado (Broken), que adorei, bem como os episódios da morte de Amber, impressionantes.

Nem tudo, portanto, foi para pior, mas a série não recuperou os trilhos, de alguma forma, e a saída de Cuddy para esta temporada foi de doer. Tudo indica que seja o momento certo para acabar. Talvez devessem mesmo ter terminado a série na temporada anterior. Mas ainda é triste que, de todas as inúmeras cópias que House provocou (de The Mentalist a The Finder - mais imitação mesmo, a meu ver, de Cowboy Bebop), nenhuma série parece ter conseguido captar esse aspecto racional e, de alguma forma, adulto da série. O nível tinha caído, muitas vezes, mas não o suficiente para ser confundido com os outros seriados que se produzem atualmente. 

É uma pena, enfim, que uma combinação tão rara de roteiro, atores e falta de mimimis tenha de sumir, até mesmo quando é a hora.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Uma Linda Mulher no Brasil - campo fértil para as contradições

Os restaurantes e bares daqui seguem acertando ao deixar suas televisões ligadas em novelas da Globo. Não falo isso apenas porque agora elas têm uma qualidade de imagem injustificável de tão trabalhada, ou porque as novelas dos outros canais seguem sendo imitações muito ruins ou variantes infantiloides (seja de novelas da Globo ou das mexicanas). 

Digo, sim, porque a Globo segue com o perfeito esquema para acalmar a mente do público e dos seus roteiristas: revisitando os mesmíssimos temas, particularmente se eles foram, primeiramente, trabalhados por Hollywood. Inúmeras vezes vistos em horários de filmes da TV aberta e, provavelmente, em uma que outra novela, esses esquemas são das ferramentas mais eficazes para olhar a tela e não pensar. 

No caso de Amor, Eterno Amor, a cena que acabo de presenciar num restaurante perto de você foi um primor. Uma linda mulher revisited! Escolha particularmente eficaz porque, sendo o filme de 1990 (22 anos atrás!!!!), muita gente pode ter perdido a milionésima reprise e realmente suspeitar alguma inteligência no roteiro. Particularmente, claro, uma pessoa com menos de 12 anos.

A cena era a da Julia Roberts menosprezada numa loja e, depois (vingança das vinganças fúteis), em sua volta triunfal com o bilionário que a permite desfrutar de um banho de loja ostensivo, colocando a "mera empregadinha de loja de roupa de rico" no seu lugar. Ou seja, em certo sentido, cometendo o mesmo erro que parece acusar ao pisar na vaidade da vendedora. Supra-sumo do sonho pequeno-burguês, tem um apelo fenomenal ainda hoje. E os roteiristas da novela parecem concordar. 

Menciono o aspecto "pequeno-burguês" da cena, porque arriscaria dizer que é a forma dos escritores de atacar o mercado mais desejado do momento: a famosa classe C... Vejamos a adaptação ao Brasil:

Em vez da prostituta, a irmãzinha ingênua. Em vez de um magnata que despedaça empresas falidas para lucrar com os pedaços, uma figuraça imponente no campo (o bom, velho e amável "campesino rico" que a Globo adora). Em vez de ambos irem sozinhos, cuidando de suas vidas como bons individualistas capitalistas, um guarda-costas.

Guarda-costas? Sim, uma guarda-costas negro, o que é importante mencionar, em primeiro lugar, pois ele quase sofre o seu preconceito também, mas o responde cheio de pompa para a vendedora, pois trabalha para o maior nome da construção do Brasil! O que em Machado de Assis, numa cena muito parecida de orgulho serviçal, é uma crítica às vaidades submissas do ser humano, que colabora com a própria exploração, na novela é apenas adendo à cena de Richard Gere. O guarda-costas está ali para felicidade do pobre, vingado (do preconceito que a personagem sofreu) pelo ato do irmão rico jogar na cara das vendedoras um maço polpudo de dinheiro (em que Brasil se anda com dinheiro assim?)...

O mais divertido, nessa cena "contra-preconceituosa" e de consumismo feliz, era o mesmo guarda-costas negro saindo atrás do casal de irmãos ricos, brancos e do campo carregando compras deles. Pelo jeito, faltou Richard Gere comentar outros preconceitos além do de classe...

quinta-feira, 10 de maio de 2012

O barateamento da igualdade

Não basta vestir a camiseta do momento para se ter razão.

Ouvi hoje numa minidiscussão sobre sexualidade que "tudo é invenção". Infelizmente, a discussão era mini não porque envolvia poucas pessoas, mas porque tinha pouco tempo para se desenvolver e morrer. O grupo era de mais de 30 pessoas.

Nada de produtivo e inovador, portanto, resultou dali, claro. No entanto, devo admitir que estou cansado demais desse tipo de comentário, então pretendo retomar, no momento certo, com o grupinho que trouxe à baila o senso comum politicamente correto de hoje: de que todos somos iguais e a cultura sozinha nos diferencia, sem base alguma a não ser preconceitos politicamente malvados e conscientemente desenvolvidos por uma máquina ideológica de dominação masculina.

O problema desse raciocínio é que ele postula a natureza num vazio, ou seja, para suprimi-la imediatamente da realidade. A "natureza" serve aqui, sem ser mencionada diretamente, de base para fornecer o ser que será distorcido pela cultura, mas não pode ser retomada como conceito porque negaria que "tudo é invenção". Afinal, se há uma natureza anterior à cultura, ela não foi inventada. Ainda que pudesse ser retomada somente pela cultura, teria voz (eco) dentro dessa própria cultura, à revelia do poder que quiséssemos conferir a esta. 

A única forma de sermos iguais e, ao mesmo tempo, "distorcidos" pela cultura (por exemplo, transformados em "homens" e "mulheres") é que houvesse um estado anterior à cultura, uma situação-base em que a mesma igualdade pudesse existir. Ou ainda, teríamos de postular que um estado futuro de pura igualdade já existe, e retrospectivamente avançamos, pois estamos nos "desenvolvendo" (o que em si é duvidoso) em direção a essa igualdade adiante de nós no tempo, mas já estabelecida ontologicamente.

Ou seja, "tudo ser invenção" é uma impossibilidade para seres históricos - aqueles que vivem no tempo, como nós, não fora dele, como as... leis matemáticas?

É ÓBVIO que ser "homem", "mulher", "gay", "travesti"... só é possível em sociedade. Portanto, ser qualquer um deles depende dessa mesma sociedade. Só se entra em qualquer uma dessas categorias, pelo menos da forma que interessa, como um papel social. Dizer que um papel social varia conforme a sociedade é uma tautologia.

Essa tautologia é importante para se discutir certas naturalizações obtusas, como se acreditar que um "homem" o é porque deseja transar com mulheres - se não deseja mulheres nem tem útero, não pode ser homem ou mulher e, portanto, "não existe". No entanto, superada essa fase de negação dos fatos que estão por todos os lados, a "desnaturalização" tem de ir baixando a marcha, ou a inércia desse movimento leva ao extremo oposto e se cria essa natureza mágica que nos pariu iguais e, ao mesmo tempo, não existe, pois nada pode ser natural. 

Por outro lado ainda, se assumimos que "tudo é invenção", devemos concluir, por exemplo, que um homem (aqui referido biologicamente como um ser humano com pênis, testículos, organização característica de músculos e gordura, incapaz de engravidar...) pode, algum dia, se descobrir uma lésbica. Se essa afirmação é impossível, alguma natureza há. Se esse raciocínio parece muito literal, "tudo é invenção" também precisa ser retomado com a mesma crítica. Se homens e mulheres (de novo, em relação a estrutura biológica) não têm diferenças naturais, não pode haver bactérias que atacam só seres humanos com vagina, não pode haver diferenças de hormônios nos seres humanos que têm útero em comparação com os que têm testículos... e não pode haver estranhamento (científico) quando as variações características de uns se apresentam nos outros. Supor que tais diferenças biológicas não provocam pelo menos tendências psicológicas ou sociais também é tapar o sol com a peneira, tanto quanto se dizer que "homens" SÓ podem querer transar com "mulheres".

Se a natureza existe, mas não pode ser recuperada fora de uma cultura (pois não acessamos nada do mundo de forma conceitual e racional sem refratá-la por nossa... cultura!), então a relação entre natureza e cultura deve ser dialeticamente considerada, mas não negada plenamente. A natureza não pode ser esquecida só porque é difícil, só porque ela não aparece sem a camisa da cultura em que se está discutindo, só porque não pode surgir em nenhuma conversa livre de ideologias.

Debater sexualidade, um assunto centralmente constitutivo da identidade de cada um de nós, é difícil, porque complexo. Isso não é desculpa para se escapar por caminhos fáceis, absolutistas, simplistas e redutores só porque a frase de efeito ou a palavra de ordem é "bonita" ou dá uma visão do mundo como queremos que ele seja. Não é porque um chavão nos tranquiliza que ele é verdade. Palavras de ordem cabem em passeatas, e olhe lá. Não numa discussão racional.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Vão-se os ciganos, ficam-nos os preconceitos

Chamem-me preguiçoso ou desinteressado, mas só hoje me dei o trabalho de ler a definição completa de "cigano" no meu Houaiss. Como um álbum que comprei logo antes de ter sua capa censurada, meu dicionário também agora é artigo de luxo. Foi depois, portanto, da censura que me animei a explorar a iguaria que tinha em casa com um novo gosto.

Pois o primeiro sentido da palavra não só tem fundamento histórico quanto apresenta um elogio (se vamos considerar um "insulto" o sentido figurado que causou conflito). Define-se ali, entre outras coisas, que é um povo com talento para música e a magia. Ora, talvez os incrédulos não aceitem a inclusão de "magia" num sentido que não é figurado, que é mesmo o primeiro da definição. 

Não eu. Eu creio na magia dos ciganos. Se a 4ª interpretação de uma palavra (dependendo, portanto, do próprio texto que o leitor, auxiliado por seu Houaiss, tenta ler), mesmo que marcada como figurada, pode educar um povo (que não usa dicionário!) a ter preconceito, é nitidamente porque os dicionários fazem os significados de uma cultura, não o contrário. A única forma de isso fazer sentido é se os dicionários puderem ditar a realidade conforme o gosto do autor. Portanto, se o Houaiss diz que eles dominam magia, EU acredito.

Se as definições de mulher tivessem sido mudadas nos dicionários dos anos 1930, todo aquele sofrimento por sufrágio e perigosas (ou supostas) queimas de sutiãs não seriam necessárias... Será que a editora poderia incluir em "professor" o sentido "pessoa podre de rica", por favor?

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

"Humano"

Um ser humano é carinhoso, compreensivo, ético, um pouco relativista, usa o bom senso (seja lá o que isso for), gosta de crianças, especialmente dos próprios filhos, respeita as instituições legítimas e resolve os problemas das "ilegítimas", entre tantas outras qualidades. Ao menos, é o que uso do adjetivo "humano" parece indicar. Juro que esse uso tem me perseguido de uma formação profissional em janeiro aos últimos comentários em dezembro sobre o ano que vem aí. Aliás, isso é significativo: que "humano" possa querer dizer qualidades que um ano possa ter. Muita gente desejou aos quatro ventos um 2012 mais humano. Ora, o que isso quer dizer afinal?

Para muito além da incomodação universal com o termo jurídico "pessoa humana", esse adjetivo está fora do lugar em absolutamente todo contexto em que é usado! Um professor deve ser muito humano... ora, seria ele canino, equino, carvalhal? E ser humano não inclui defeitos? Um professor desrespeitoso, impaciente, arrogante, orgulhoso, vaidoso, autoritário... não é humano? Parece-me que a espécie humana indicaria, por média, antes o contrário.

E a ética? Esta eu adoro: uma ética humana! Conhecem a ética dos mosquitos? Mais ainda, a associação implítica entre "humanidade" e ética. Só humanos podem ser éticos, mas não há nada garantido que um ser humano seja ético como nós entedemos a palavra, como nós queremos que o outro se porte.

Não entendo mesmo como se pode achar ainda que o uso do bom senso ou um certo relativismo sejam características humanas, no sentido extremamente elogioso. Pessoas firmes em seus ideias, fanáticas até, não nos caracterizam muito bem? 

E o que é o bom senso? Tecnicamente, é a capacidade de bem julgar de acordo com uma norma compartilhada socialmente, mas não explícita, que obedece uma lógica capaz de adequar a regra universal ao caso particular, calibrando o uso de qualquer lei. No entanto, numa comunidade bastante individualista (não estou xingando), multicultural (como tanto se quer) e aberta a comunidades de diferentes cantos do mundo, não vejo esse norma com que "pessoas com bom senso" concordem. Não vejo como bater ou não bater, punir ou não punir, aliviar uma lei ou aplicá-la sejam casos de bom senso, de julgamento pessoal de acordo com uma norma implícita e pré-estabelecida que permita que um sujeito "humanamente" julgue o que é adequado de acordo com os outros "humanos" que não estão ali presentes.

O uso da palavra "humano" assim positiva, libertária e universal me parece tanto uma falta de vocabulário e de definição ética (de modo que as pessoas não sabem nem o que querem dos outros, mas têm a sensação de lembrar de uma certa norma que todos pareciam ou deveriam obedecer há muito tempo e que de alguma forma vem sendo esquecida, ainda que pareça, em seu íntimo, que deveria ser algo essencial a todo ser humano); ou obstinação a não se ver que justamente essa essência humana carrega também todo o oposto do que se quer ver nela. Um 2012 mais humano pode muito bem ser um ano com mais bolsas quebrando, mais guerras, mais fome, mais manipulação política, mais corrupção, mais exploração, mais maldade, mais crueldade, enfim, mais destruição em todos os sentidos que se possa imaginar. 

Tanto a vítima quanto o executor do atentado são humanos. Não estamos fugindo de nada alheio a nós. Ser humano pode ser um elogio, mas é simultaneamente um insulto, e não há nada pacífico em se supor qual lado pesa mais. Por isso mesmo, é quase sempre um adjetivo inútil, costumando vir acompanhado pela qualificação daquilo que a pessoa acha que é "humano" e pelo silêncio de todas as nossas características que, em desserviço geral, querem tanto esquecer debaixo do tapete.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Preconceituosos de berço

Pesquisadores da Universidade de Sheffield, Reino Unido, descobriram que bebês de três meses já são racistas. Ok, não foi bem isso, mas foi assim que noticiaram. Ou seja, todas as matérias (espero, já que torço por que todos os jornalistas sejam responsáveis, ainda que ambiciosos em suas manchetes) começam por uma aliviada na informação, como eu preciso fazer aqui.

O que se observou é que eles começam, nessa "época", a preferir rostos de sua própria raça. A menos que estejam convivendo muito em ambientes "multirraciais" - dã! 

Supresa, supresa: preferimos o que nos é familiar desde cedo! Ufa, ou nossos ancestrais teriam morrido bem mais facilmente e nunca teríamos evoluído para poder desenvolver, por exemplo, manchetes sensacionalistas...

Maldosa e egoisticamente, no entanto, às vezes penso que seria legal se se descobrisse uma tendência genética bem clara aos preconceitos. Isso indicaria a responsabilidade da sociedade por se trabalhar contra essas tendências, mas sem sonhar com seres humanos ideais nascendo, nas florestas "isoladas" ou no futuro distante, igualitários e pan-amigáveis. Essa vontadezinha morre, é claro, quando lembro que uma descoberta dessas provocaria mais xenofobia, homofobia, machismo, racismo... do que qualquer Mein Kampf ou ressentimento que ande solto por aí. A ideia de que uma notícia provoca discussão racional em massa é ridícula não pela falta de poder da imprensa, mas pela flagrante incongruência da expressão "discussão racional em massa".

A notícia tem pelo menos, quem sabe, o poder para provocar em algumas mentes o raciocínio não de que somos racistas desde pequenos, já que nem na pior leitura é isso que os estudos estão realmente mostrando: racismo implica uma série de noções e seleções (bem mais sérias do que "não preferir", aliás) que crianças ainda não podem fazer. Mas, torçamos, talvez a matéria provoque o pensamento contrário, de que o preconceito tem sim muita base em nossa natureza. Como já escrevi vezes demais neste ano, eis uma tese que me convence bem mais, que dá a devida medida do desafio de uma sociedade que tente ser cada mais igualitária e que queira pensar com propriedade para peitar de frente seus problemas, mesmo que estes a matem de medo. Muito ineficaz é encarar o preconceito como "desvio", perda de uma conduta naturalmente bondosa, má influência pura e simples, praticamente uma gripe que nos atacou, mas que, no fundo, não nos pertence.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Preconceito invertido pela culatra

Estava eu assistindo a uma palestra/conversa com um escritor na Feira do Livro quando ele menciona, por qualquer motivo, "mulheres", assim no plural. Como não poderia deixar de ser, ou ele largava um comentário machista, só por ter tocado no tema, ou fazia um elogio desproporcional e demagógico. Foi pela última opção, arrancando aplausos satisfeitíssimos de algumas mulheres de todas as idades.

Nada de novo no front. Aliás, pouca coisa poderia ser mais tediosa de tão batida. O elogio, no caso, foi amplo e completamente desconectado do assunto: "as mulheres são melhores em tudo".

O que me chamou a atenção foi a reação da maioria dos alunos de oitava série, que estavam todos à minha direita. Virando o rosto, vi de um golpe só os olhos virando para o chão ou rodopiando no ar, os lábios se contorcendo, os sorrisos debochados ou cansados. Com as caretas, vieram os comentários, não altos demais que passassem de nós, mas próprios para que circulassem entre a própria turma. Ironia quase total. Aqueles adolescentes não caíram no movimento retórico do autor, cansaram-se, como se fosse, com o elogio vazio e batido, perderam grande parte do respeito que estavam decidindo colocar ou não na figura. Não era a má vontade típica, nem eles responderam com comentários machistas. O autor tivera chance de ser escutado que raras vezes eles dão a estranhos, e se perdeu no clichê...

Eu sempre achei que aquela galera merecia todo o apoio, mas aquele desdém merecido no meio dos aplausos foi um gesto que deveria ter sido filmado para entrar no histórico escolar. Aquilo é tão difícil de comprovar na escola.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Fugindo da realidade uma frase de cada vez

Como eu dificilmente poderia descrever muito melhor, e não passaria o tom de fala através do texto, meu post de hoje tem de ir por este vídeo um pouco antigo. Lamento que não tenha achado com legenda.


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Muito além de Rafinha Bastos

Vejam que candidato a censura póstuma, se fosse autor brasileiro:

« Il est permis de violer l’histoire, à condition de lui faire de beaux enfants »

Alexandre Dumas

PS: não se iludam com traduções politicamente-corretas, violar aqui é estuprar mesmo, como indicam as "crianças" da metáfora. Dumas era acusado por seus detratores de estuprar a História, e esta foi a resposta que Dumas arranjou para devolver a escolha de palavras com a consciência limpa de um autor ultrapopular.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Os imorais

Eu adoro como se escreve livros infanto-juvenis e programas educativos alertando sobre riscos de drogas, violências e comportamentos de risco, tudo sempre indicando "para os jovens" tragédias que podem se desenvolver do seu cotidiano, para as quais talvez não estejam preparados... escreve-se sobre tudo isso, mas "não com a intenção de dar lição de moral".

Como assim? Não educam, então? Se estão falando sobre certo e errado (e estão!), indicando o certo, o fato de ser indireto, discreto, não torna menos lição de moral. Mais do que isso, o jovem que ouve a história espera, enxerga e acusa a lição de moral, a menos que concorde (e não esteja afim de incomodar), porque aí seria bem redundante e idiota: "Eu concordo com a lição de moral, mas é uma lição de moral..." - E daí?!

Por que esse medo em educar sobre certo e errado, hein? Eu entendo que aborto e homossexualismo possam ser assuntos complicados para esses termos, mas não dirigir bêbado e não provar drogas pesadas altamente viciantes não o são! Preconceito é um assunto sutil, mas evitar a violência, de qualquer tipo, contra qualquer pessoa, não é nada sutil nem precisa ser. É moral tão flagrante quanto simples e direta: "não violente outra pessoa"!

Se o papinho sobre não dar lição de moral é para evitar a detecção dos jovens, que não querem ser educados, é uma tática muito inocente, que subestima o público-alvo. Se é medo da moral mesma, então menos! Tudo bem dizer para adolescentes não se matarem. Todo o mundo concorda que é um fim construtivo. Não precisa ter vergonha de falar no que "é certo". Calma...

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Capitalismo nosso de cada dia

Que feio, Pelé... tu assim, competindo?!


Na ânsia de ditar a única ordem possível e fundá-la na natureza humana, defensores cotidianos do capitalismo (e alguns teóricos) buscaram a todo custo identificar (literalmente) esse sistema e a competitividade, a meritocracia, o esforço individual e a relação entre egocêntricos que se aliam pelo próprio bem e terminam por gerar o bem de ambas as partes.

Perdidos em palavras de ordem, uma série de iconoclastas da boca para fora, revoltados sempre com a palavra "capitalismo", acreditaram na associação íntima, essencial e absoluta entre essas forças e esse sistema econômico. Sempre que lhes é útil, ou sempre que se cai em alguma situação previamente cunhada, qualquer competitividade ou esforço individual pode ser tachado de "capitalista" e desmerecido automaticamente por isso. Nem mesmo o esporte poderia resistir a isso, creio, apesar de que essas pessoas precisariam de alguém que lhes apontasse para o fato de que um nadador se esforça individualmente contra todos os outros a fim de vencer um prêmio em dinheiro. Isso pode muito bem não resumir o esporte, mas seria suficiente para evocar o clássico "Nossa, que coisa horrível isso, né?" que aparece frente às práticas "capitalistas" do ser humano.

Como dito, porém, essa associação pejorativa com a palavra tabu tende a ser feita quando a competitividade se encontra onde não a querem. Cai-se no mesmo problema que em qualquer situação de preconceito com objeto: como circundar um tabu para que se possa lidar honestamente com o problema?

sábado, 13 de agosto de 2011

Preconceito com racismo

"Violência gera violência", pelo menos se ninguém para e pensa.


Eu acho sempre interessante quando ouço alguém dizendo que algo foi um "racismo ao contrário". Se racismo é o preconceito contra alguém com base em sua "raça", talvez a expressão pudesse querer dizer "tratamento igualitário", ou indicar que alguém reforçou uma ajuda, "compensando" por um racismo anterior, mais ou menos como a lógica de cotas raciais, né? Mas a expressão na verdade é usada para se referir a racismo contra loiros de olhos claros, ou, em casos mais genéricos, simplesmente contra "brancos".

Ou seja, o termo racismo realmente ficou tão associado ao preconceito contra negros que as outras raças não sofrem racismo propriamente, podem apenas sofrer o genérico "preconceito" (quando recebem o direito de "sofrer" algo). Racismo mesmo, só contra negros. O que faz pensar se as pessoas não consideram que existe apenas uma "raça", a negra; os outros seriam mais ou menos marcados por nacionalidade, classe ou cultura, como os "ricos", os "estrangeiros", os "muçulmanos"... Enquanto o racismo é um termo preciso, resta aos outros o termo amplo, preconceito. É como se "racismo" fosse informativo, como uma idade definida, "29", digamos, e aos outros restassem termos com a imprecisão de "acima dos 30".

Mais do que isso, um inglês tendo preconceito com um brasileiro "branco" não parece evocar a expressão "racismo ao contrário" (ou suas parentes, "racismo às avessas", "racismo invertido" etc.). Ela é particularmente usada quando o preconceituoso em questão é um negro. Ou seja, o termo também aplica uma certa noção de movimento: racismo é o preconceito que sai do branco e atinge o negro, o "ao contrário" é um tipo estranho de racismo que faz o movimento de volta. Por essa via, o termo deixa claro que reconhece o racismo que chamaremos aqui de clássico. O invertido é a modalidade que picou de volta para o grupo que tradicionalmente seria o ofensor.

Como nosso uso de linguagem é simplificadamente instrumental, ou seja, os conceitos nos interessam em geral como ferramentas simples para o dia-a-dia, não muito como conceitos mesmo, com profundidade, nuances e história, é compreensível que a maioria das pessoas os transforme em cunhagens simplórias, em que rapidademente (em menos de uma geração de politicamente correto) um termo muito usado já comece a perder seu traço etimológico, ainda que vindo de uma palavra que também segue em uso. O que acho bem menos compreensível é que pessoas que trabalham com esses termos, que vivem das ideias e das discussões relacionadas, para quem o problema do racismo não é nem alheio nem puramente um elemento prático do cotidiano, façam essas confusões.

Da mesma forma, o senso comum explica muita confusão ativa, incluindo que algumas pessoas não entendam que devem buscar não ter preconceitos com loiros assim como buscam não ter com negros. No entanto, esse senso comum não pode justificar nem o racismo clássico nem o "invertido" em profissionais do governo que trabalham com programas de "respeito à diversidade" e assemelhados. Por exemplo, que não aceitem uma loira coordenando as atividades dessa área, ou que o façam, mas com desrespeito e estranhamento, é um dado absolutamente preocupante. E não me refiro a uma situação ambígua, aberta a mal entendidos, em que o desrespeito profissional possa apenas ter parecido tocar na "cor"; falo dos casos em que o fenótipo é explicitamente referido. 

O respeito à diferença que não se livra de revanchismo alucinatório preocupa tanto quanto a realidade persistente do racismo, porque indica quão simploriamente também essa campanha é levada na organização infinitamente emburrecente de planos de governo voltados à educação em sentido amplo. Só para reforçar, eu realmente acho que esse tipo de campanha é necessária, mas também acho que nenhum governo brasileiro parece ter entendido ainda como fazê-las. Pelo que tenho notícia, alguns programas de valorização da "cultura negra" funcionam, no entanto não se parece ter entendido como se conseguir os mesmos resultados quando o assunto central não é o valor de um ou de outro, mas sim respeito mútuo, o que pode ser implicado nos casos de valorização de determinada cultura, mas não é a mesma coisa. Bem como, por motivos óbvios, preconceitos abundam facilmente como efeito colateral de programas que buscam simplesmente valorizar uma cultura, especialmente por haver muitas vezes um traço localista nessas atividades. Parece fazer parte de nosso instinto entender que algo ser bom é igual a isso ser superior a outras coisas, de modo que essa questão sempre precisa ser explicitamente trabalhada para que tiros não saiam pela culatra. A maioria desses mal entendidos na prática não parece provocar muita violência, mas isso é suficiente? Que não haja "muito" preconceito contra o outro? (Infelizmente me parece necessário indicar aqui que não estou igualando as diferentes formas ou intensidades de preconceito, nem indicando que deveria haver um Dia do Branco, logo depois do Dia do Hétero, ok?)

Talvez seja tarde para espalhar que "racismo" era um termo potencialmente capaz de referir qualquer preconceito por cor de pele ou traço fenotípico, mas nunca me parece que seja tarde para que se peça profundidade teórica de pessoas que profissionalmente lidam com determinados conceitos. Se a própria profissão de alguém implica o valor de um conceito, então, como ser educador de "políticas públicas", o que o tal senso comum está fazendo no próprio comportamento dessa pessoa?

Parece que esse sujeito sabe fazer campanha de respeito mútuo com alguma eficiência.
Mas seus alcances fizeram menos sucesso que sua carreira para modelo, em estampas de camisetas.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O machismo nos olhos de quem vê

Two girlfriends about to strike. Two boyfriends about to watch.

Tornou-se quase um clichê a frase, pronunciada por uma mulher em direção a algum namorado ou semelhante, "Vai deixar ele/ela me tratar desse jeito/dizer essas coisas sobre mim?!" Muito mais comum que tal clichê é a mulher simplesmente ficar quieta, mas pensar algo muito próximo da mesma frase, não necessariamente em plena expressão linguística, magoando-se com a falta do comportamento masculino "adequado", "defendendo sua honra". Igualmente recorrente é que se atribua tal expectativa de tantas mulheres a resquícios da cultura cavalheiresca, ou seja, de uma imagem mais que ultrapassada de homem e que sempre, mesmo quando foi inventada, nos estertores da Idade Média, nunca condisse com a realidade. Acha-se no comportamento feminino, portanto, uma marca da cultura machista "entranhada na nossa sociedade".

No entanto, se pensarmos na situação inversa, em que um namorado ou marido é insultado na frente de sua parceira, é muito comum que a mulher salte com unhas e dentes para atacar a fonte do insulto ou pelo menos sinta o fortíssimo impulso de fazê-lo, a ponto de mal esconder, se necessário, esse impulso. Se a situação é suficientemente inadequada para tal reação, é muito provável que a mulher sinta tamanha indignação que a pessoa que insultou seu companheiro fique marcada para toda a vida, estigmatizada com a potência antiga do termo.

Comparando-se as duas situações, não é difícil imaginar que, em vez de um comportamento machista das mulheres, a expectativa de que um namorado ou marido defenda a honra de sua companheira pode bem ser uma simples projeção, em que as mulheres esperam que homens se comportem como mulheres naquele determinado contexto. Como não há uma cultura sobre a ética das mulheres nesse sentido, a menos que extrapolemos a expectativa do senso comum a respeito da defesa da cria (acho que um tanto restrita à classe média, hoje em dia, entendida no lato sensu), e a ética dos romances de cavalaria é ainda muito presente, apesar de seu rápido enfraquecimento, a racionalização da expectativa feminina apela para o ideal desses cavaleiros, não para os sentimentos da própria mulher como uma projeção baseada em seu próprio comportamento. A expectativa em relação aos homens é compreendida com base em clichês a respeito do homem, quer ele cumpra o clichê ou não, e a mulher que sente essa expectativa é esquecida pela racionalização.

Ou seja, se essa hipótese estiver correta, não é a mulher que exige defesa masculina quem demonstra um comportamento machista, ela está apenas fazendo uma projeção egocêntrica, digamos. É, de fato, quem a julga machista que o está sendo, ao imaginar que a mulher se baseia nos resquícios de um ideal pratriarcal e não em seu próprio egocentrismo. 

É claro que essa hipótese de inversão de machismos se aplica, assim explicitada, apenas à situação que expusemos: não se deve aplicar lógicas semelhantes para se justificar de consciência limpa, por exemplo, que o homem pague a conta... Obrigado.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Os choramingos dos heterossexuais

Depois de uma bobagem sobre campanha contra o preconceito contra ateus, seguimos valorizando mais agendas imbecis dessa modalidade, ao que parece. Além do twitter apresentar num mesmo dia trends na linha de "orgulho branco" e "orgulho hétero", volta e meia uma campanha pró-status quo aparece, última das quais é o "Dia do Orgulho Heterossexual", proposto (em regime de urgência!) pelo deputado federal Eduardo Cunha (PMDB) - não sem precedentes, pelo jeito, do DEM.

Alguns vão perguntar: "heterossexual é status quo ainda, com toda essa campanha pelos direitos homossexuais?" Sim! Toda essa campanha ainda faz estardalhaço exatamente porque tudo que não tem carimbo de "hétero" não está em pé de igualdade, nem de direito, nem de respeito, nem de valor com a simbologia hétero. É verdade que é politicamente incorreto manifestar preconceitos a esse respeito, mas quem acha que homossexualidade é assunto super-aceito hoje, só porque está sempre sendo defendido (e atacado, observem melhor!) na Internet e na TV, desculpem, mas precisa sair mais na rua, conversar com pessoas e presenciar não meramente homos ou héteros em seus grupos, mas as situações de convívio entre eles (fora de baladas, de preferência). Eu não sou a pessoa mais capacitada para falar sobre direitos dos homossexuais, mas a "defesa" militante do heterossexualismo, séria, no Planalto, parece-me uma coisa burra, hipócrita ou maldosa. Já que ferem coisas que me parecem meramente lógicas, lá vai minha opinião.

Em primeiro lugar, não conheço um homossexual que ache que o mundo seria melhor se todos achassem lindo, melhor ser gay. A heterossexualidade não precisa se sentir ameaçada, coitadinha. Confundir respeito com homoditadura é um dos indícios mais óbvios de o quanto ainda se teme a homossexualidade em si - ou de quanta má-fé as pessoas conseguem reunir para escandalizar e polarizar discussões que, dessa forma, nunca vão mesmo se resolver. Mal se fala em respeito e já se imagina que se quer trocar 6 por meia dúzia, virar um status quo excludente em outro. 

Em segundo, exatamente por ainda gerarem rebuliço e reações violentas, esse pessoal PRECISA de passeatas, campanhas e tudo o mais. É uma das formas mais importantes de manifestação pública e de ação política que temos hoje em dia. Sem muita campanha, sem forçar deputados e senadores a trabalharem, ninguém consegue nada, e o preconceito, institucionalizado ou não, vai ficar exatamente onde está. 

Fazer campanha, criar dia do Homem, do Heterossexual ou do Branco é mais do que fazer papel de ridículo, barateando a nossa cultura. É replicar aquilo que se critica nas minorias ao mesmo tempo em que se traveste a luta alheia. Não é liberdade de expressão, não é valorizar a tradição, não é defender a família, não é recuperar valores: é acusar o golpe, indicando quão fraco se é, o quanto realmente se tem medo. Não se atura que outros queiram os nossos direitos, como se estes fossem um objeto físico, que não tem porções para todo o mundo. Por que o casamento gay realmente tiraria o valor do casamento hétero? Onde está essa fonte esgotável de valor que só pode aderir a um tipo de relação se outro tipo não o tiver? De onde vem essa mesquinharia que acha que um grupo que escolhe um dia para gritar aos quatro ventos suas insatisfações com nossa cultura precisa ser revidado com um dia para gritar o que já está pronto e estabelecido em toda a nossa organização? É como se, sempre que acabasse uma greve, os governantes saíssem em passeatas pela mesma quantidade de dias, em prol de seu direito de governar.

Orgulho de ser hétero? Sério? Parece-me que o "orgulho gay" não quer dizer "uau, adoro ser gay!" Quer dizer "Eu assumo que sou gay, com orgulho [em oposição a todas as forças que querem que eu reprima minha sexualidade ou a esconda]". Olha só! É um orgulho por oposição a uma ocultação forçada. É exibir porque querem que encondam e porque isso afronta, no entendimento geral, um elemento fundamental da saúde de qualquer indivíduo, sua sexualidade. Algum heterossexual se sente socialmente reprimido em sua heterossexualidade? Mesmo? Onde? Quando? "Um carinha que me falou tal coisa no facebook"? "Um gay que me xingou no twitter"? Por favor...

Uma crítica que não acho precisar explicar: que porra é essa de achar que as manifestações homossexuais são campanhas de conversão?!

Se alguns homossexuais exigem coisas ridículas, erradas ou ilegais, qual a resposta, então? A resposta é apontar e debater, resolver, encontrar o meio justo de reformar uma estrutura legal que não sustenta mais a sociedade tal qual ela se encontra hoje. Cadê a coragem dessa gente de ouvir os outros e tentar resolver os problemas onde eles se manifestam, como eles se manifestam? Cadê o corajoso que vai ser sério e honesto, que vai aprender a ler antes de dar opinião sobre a agenda alheia? Cadê o ético que não vai abanar com um espalhafato para os eleitores mais conservadores, mas vai realmente buscar novas soluções para problemas novos?

Espelhar as medidas dos militantes (logo vão querer criar o "Kit Hétero") é polarizar a discussão exatamente onde ela menos funciona, no campo simbólico, na bandeira. É fazer pirraça contra um movimento que não nasceu do oportunismo ou do mau-caratismo, mas de uma opressão cotidiana que ainda não acabou. O convívio hétero-homo está longe de se resolver, mas essa babaquice de se sentir acossado pelos reclames alheios e criar "castelinho da família tradicional" é ainda mais nociva que ridícula. 

Para "resolver" a separação da sociedade em cada vez mais minorias, vão criar mais uma bandeira?! Dia do Hétero, o caralho!

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Ato reflexo



Os grevistas ainda precisam ficar incomodando na frente da prefeitura, já que o Buzatto não apresenta nada de novo. Então, lá estava a galera, municipários fazendo barulho, trazendo novas notícias dos andamentos nas secretarias e recebendo médicos vindos das manifestações no HPS e apoio de ainda mais cidades que se preparam para entrar em greve.

Como em todos os dias em que houve manifestações na frente do Paço, lá estavam vários guardas municipais (que estão em greve - mesmo os em serviço estavam com os mesmos adesivos que os manifestantes) na frente da porta da prefeitura, o que não deixa de ser engraçado. Os grevistas não tinham a menor intenção de invadir. São muito comportados, infelizmente. Às vezes alguém usava o banheiro da prefeitura, inspirados com certeza no melhor uso que políticos conseguem dar ao prédio, mas, fora isso, lá estavam todos, manifestando-se ultrapacificamente.

Eis que, pelo fim da manhã, surgiu um grupo um tanto inesperado, que vinha fazer sua própria manifestação, instalar-se na prefeitura, e tanto pedir quanto oferecer ajuda aos grevistas na pressão ao governo: famílias ligadas ao Movimento Nacional de Luta pela Moradia. Vieram com cartazes, discurso claro e bem informado (ainda que, perdoem, não fosse na norma culta...). Como muito dessa greve, a crise das famílias começou devido às mudanças na cidade para a Copa (a greve dos municipários também estourou por isso, mas explico em outro post).

No caso, são 48 famílias. Algumas foram desalojadas e mantidas agora sem água, luz e saneamento no Lami (situação "temporária" que dura 6 anos - além do prazo, é tão significativo que alguém possa ser "temporariamente" deixado sem esses serviços de forma declarada pela Prefeitura...). Outras vivem em condomínio na Restinga construído para o Minha Casa, Minha Vida. Aí, o problema é que o governo não restringiu o esquema da Auxiliadora Predial, que agora cobra um condomínio abusivo tanto para o local em que moram quanto para um programa popular de moradia (R$ 300 mensais). Outras famílias ainda (não contadas nas 48) vivem em local também "provisório" há 4 anos e serão novamente deslocadas para as obras da Copa. A prefeitura encaminhou início das obras, só faltou preparar para onde pretender "mover" a galera.

Enfim como eu disse, eram crianças, velhos, mães, famílias mesmo. Eles foram lá fazer uma manifestação junto dos municipários, sendo (é óbvio) recebidos e agregados imediatamente. Mas, assim que chegaram, os guardas municipais que estavam na frente da prefeitura fecharam uma das folhas da porta principal. Imediatamente um grupo bem maior de outros policiais fechou apenas o lado da entrada em que as famílias recém chegadas estavam posicionadas.Os municipários gritarem que a polícia abrisse a porta e os tratasse de forma igual (sem pressupor que eles tentariam algum tipo de violência) obviamente não gerou efeito algum. A polícia não abriu a porta. 

Cá entre nós, por que abririam? Tudo que os municipários fariam seria mesmo gritar e seguir sua manifestação ultrapacífica. Grevistas ainda não aprenderam que nenhum governo tem medo de cara feia. Por que sua polícia teria?

terça-feira, 17 de maio de 2011

Sem passado... somos presentes

Se tem uma coisa muito "pós-moderna" do meu discurso é que realmente sustento que o passado não existe, a não ser como construção atual. Isso geralmente é mal interpretado (por defensores e detratores) para se dizer que o passado não existiu, não foi um fato, ou que nenhuma versão a respeito dele possa ser mais verdadeira que outra simplesmente porque todas seriam versões. Do meu ponto de vista, isso é mais ou menos como raciocinar da seguinte forma: uma pessoa andando de bicicleta nunca estaria totalmente equilibrada, porque ela está sempre construindo esse mesmo equilíbrio. Se o equilíbrio é um ato contínuo, nunca há equilíbrio de fato, e daí se conclui que uma pessoa caída no chão e um ciclista em movimento suave e elegante estão pedalando igualmente mal.

Não: "o passado só existir como construção atual" quer dizer que o passado precisa ser "atualizado", para entrar em questão, para ser. Ele precisa ser referido, sendo sempre, SEMPRE, atualizado por algum motivo. Obviamente, ele só é atualizado, então, para servir esse motivo. Talvez algum chato encontre uma situação limite em que ele pudesse ser atualizado só por ser, não sei se é possível, mas tenho ótimos motivos para crer que, se atualizado apenas por isso, o passado evocado seria também imediatamente esquecido. O passado é sempre um argumento, é isso. Portanto sua existência só nos interessa em relação ao presente, e mesmo a pesquisa científica do passado é uma luta para justificar o presente ou para questionar esse presente e a teoria que o justifica. 

Por isso mesmo precisamos sempre ser lembrados do passado (relevante - mas "passado relevante" é meio redundante: não seria lembrado se não fosse, de alguma forma, relevante). Não adiantou se inventar o gauchismo, por exemplo (particular invenção de passado, já que "invenção", aqui, como bem se sabe, é muito literal, longe de depender de um pós-modernismo lexical). É preciso que a cada, ano, a cada jogo regional, a cada notícia sobre relações políticas entre RS e Brasília, a cada gaúcho no noticiário nacional, enfim, a cada momento que for possível ele seja ser reafirmado. O mesmo para o nacionalismo, o anti-colonialismo, o ódio a ditadores, o horror com o Holocausto... 

Agora, não é porque o passado de fato ocorreu (mais ou menos inacessível ao nosso conhecimento) que a afirmação "o passado só existe como construção atual" não o fragilize severamente. Sim, o passado sai quase paraplégico dessa afirmação. Porque isso significa que o passado não justifica ações atuais. Não por si. O que o passado faz é dar uma desculpa "racional" para que justifiquemos ações que queremos fazer agora, seguindo o que sentimos no presente, seja esse sentimento racionalmente confeccionado ou não. Não é perder um filho que justifica o choro, mas a dor, presente, da falta do filho. É ela que evoca o passado, para embelezá-lo e engrandecer a dor presente, dar-lhe mais cor num masoquismo que pode nos parecer totalmente justificável, mas que nem por isso dá solidez ao passado. Para dar um exemplo meio extremo, um psicopata que não chorasse a dor da perda de um filho ainda seria capaz de reconhecer o fato de que tinha um filho e agora não tem mais. Ele não choraria porque lhe faltaria a dor, mesmo que tivesse conhecimento sobre o passado. Ele esqueceria em segundos o fato (estaria na memória, mas não seria conscientemente atualizado a cada milésimo), desinteressado pela falta de relevância presente para aquilo.

É óbvio que podemos reconhecer os sentimentos de outras pessoas em relação ao passado, como podemos entender por que um pai ou mãe está chorando a morte de um filho, mesmo tempos depois, e podemos lhes dar seu tempo ou respeitar sua expressão de sofrimento; não estou falando contra a empatia. Mas o passado como argumento não é apenas filosófica ou subrepticiamente falso, chega a ser, em casos mais graves, pernicioso. Assumir que ele só é evocado para justificar interesses presentes é dizer também que ele é usado para ocultar esses interesses. O conflito é atual, o interesse é atual, a justificativa é passada? Não, a justificativa é um apego, um sentimento, um interesse, todos sempre atuais. Nossos sentimentos não vêm do passado, mesmo que assim os associemos, eles nascem e se formam hoje, aqui e agora

Novamente, isso não quer dizer que o passado não tenha existido. Mas ele só existe (presente) como racionalização, teoria, desculpa ou justificativa mágica. "Dívida histórica" (negra, colonial, palestina, israelita) é um conceito mágico. Existe uma herança direta de uma série de problemas que deve ser resolvida dentro dos conflitos atuais e de necessidades que podem ter raiz no passado, mas essa raiz precisa ser traçada materialmente, só interessando por suas consequências atuais. Se lidamos com consequências atuais do passado, é porque estamos ligados a conflitos atuais. O passado, religioso, combatente ou crimonoso, nada pode cobrar do presente. Parece tautológico, mas precisa ser dito: o passado não existe mais. Seria uma grande ajuda deixar de mistificar conflitos presentes com as máscaras do passado.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Maníacos por bullying

Fashion: E você, já falou contra o bullying hoje?

Acho que não sei mais o que é bullying. Estou aqui procurando ajuda dos leitores. Mas, antes, por favor observem o comportamento generalizado frente ao dito bullying que vou retratar aqui. Para a maior parte deste post, vou usar o conceito antigo de bullying, o último que pude aceitar.

Se uma manchete diz que ele afeta 84,5% dos estudantes da rede estadual do RJ, o que vocês pensam? Eu imediatamente penso que alguém tomou todas antes de escrever a notícia (ou de publicar a pesquisa). Lembram quando o bullying era uma violência de grupo ou que exigia um valentão muito dominador (ser bem raro, proporcionalmente)? Nesses casos, esse tipo de violência exigia que a maioria das pessoas envolvidas estivesse do lado ativo, e a minúscula minoria a sofresse; ou que um valentão dominasse algumas vítimas, mas esse sujeito tinha um limite de ação por motivos físicos, além de ser um indivíduo raro por população de alunos. 

Pior ainda que se diga que, nos colégios municipais do Rio, a porcentagem chegue a 90,2%. O bullying envolve isolar um aluno socialmente ou atacá-lo fisicamente para fazer isso ou tendo isso como consequencia. Como seria uma escola em que 90,2% da população sofresse isso? Não seria possível formar nem mesmo UM grupo de amigos numa população totalmente individualizada e em grande parte machucada ou cabisbaixa. Alguém já viu uma escola em que as formações grupais não fossem a regra? Ainda que bullying tenha sido um conceito esticado até compreender relações entre países, ainda se utiliza o termo quando há desequilíbrio evidente de poder entre as partes. Desequilíbrio de poder evidente entre 9,8 e 90,2% de alunos?! É claro que não se quer dizer isso com aqueles dados. Ora, se não é o que se quer dizer, por que se diz?

Se quase todos os alunos são afetados por um tipo de violência, é (era) porque não estamos (estávamos) falando de bullying. Especialmente porque não se trata de uma forma de violência cíclica. Quem sofre hoje não faz amanhã com outro. Não é assim simples de reverter um quadro real de bullying para que ele possa ser imediatamente reativo. A reação que pode causar, no máximo, é que uma criança que se erga da situação de bullying chute o saco do chefe do grupo que a violenta, mas chute no saco, meus caros, não é bullying.

Agora, lendo a matéria, vê-se que a informação real era de que 40,4% já foi vítima (ainda um número astronômico para o conceito) e 44,1% conhece alguém que já sofreu agressões físicas ou psicológicas no colégio.

Ora, além da incongruência do primeiro dado, pelos motivos que já expus, é ridículo somar as duas porcentagens e dizer que isso é igual à porcentagem de pessoas que "são afetadas" pelo bullying. Não apenas porque os dados para as duas porcentagens podem se sobrepor, mas porque é perfeitamente possível conhecer alguém que sofre bullying e não ser "afetado" por isso. Assim como "sofrer agressão física ou psicológica" na escola não é o mesmo que sofrer bullying. Para lembrar o recente exemplo, chute no saco é violência física e não é bullying, ao menos não necessariamente. Para sê-lo, o ato de violência tem de ser consistentemente repetido e intencional, ou melhor, intencionalmente repetitivo. Além disso, ele envolve necessariamente sofrimento psicológico na vítima, já que é este o problema diferencial do bullying. Não é que se está sempre fisicamente machucado, por mais que isso obviamente não seria bom e que seria também, em si, um tipo de violência que deveria ser resolvido.

Fora tudo isso, a segunda porcentagem é absolutamente falsa. 100% dos alunos de qualquer escola conhecem alguém que já sofreu agressões físicas ou psicológicas. Acontece que a forma de os "pesquisadores" olharem para a violência e a forma de as próprias crianças olharem é muito diferente. Exatamente porque nem todo tipo de violência na escola é bullying, nem toda ela é contabilizada pelos alunos (e pelos profissionais da escola, muitas vezes). Acontece que esses outros tipos de violência são, muitas vezes, problemas que deveriam ser atacados por profissionais sociais e que estão caindo no mesmo saco ou sendo ignorados simplesmente porque os alunos os aceitam como naturais, tornando-os invisíveis à maioria dos pesquisadores de oportunidade que andam maníacos por bullying e só enxergam isso pela frente. É impossível contabilizar a violência na escola numa pesquisa rápida e, menos ainda, oportunista, como os recentes dados regurgitados no Rio por causa do "atirador de Realengo" e, por consequência, em outras partes do Brasil.

O que acontece é que bullying virou moda por alguns motivos, com certeza incluindo ser um termo muito usado nos EUA e ter servido por aqui para oportunismo político. Mais uma forma de políticos fingirem que resolvem problemas por decreto, com suas leis mágicas. Fazer medidas a respeito se tornou algo reconhecível, simples de entender para o público, gerando um certo ciclo entre novas publicações que andam praticamente nada umas em relação às outras (algumas obviamente retrocedendo) e decisões mais verbais que efetivas, especialmente de vereadores.

No fim, seria possível pensar "ah, com enquadramentos conceituais errados ou não, pelo menos a violência na escola está sendo atacada", só que atacar uma forma de violência com base em outra não é nada eficiente. A maioria das escolas são violentas, é verdade, mas grande parte disso envolve muitos outros tipos de relações, como naturalidade da violência entre as famílias que compõem aquela comunidade, glamourização de certo tipo de violência e infantilidade clássica. Por incrível que pareça para os idealizadores da vitimização, a maioria das crianças (e adolescentes) tenta resolver suas frustrações e problemas na base da violência (grito, esperneio, soco, chute...).

Enquanto todo o mundo fica pensando numa forma que envolve necessariamente um "excluído" (que não precisa ser negro, gordo, gay ou trans, mas mais provavelmente é só o mais quieto, o mais baixo, o que tem o cabelo minimamente diferente, o que quer estudar, o que não conhece nenhum dos pais, o que tem um comportamento qualquer que provoca uma postura dominante nos outros), todas as outras formas e causas de violência deixam de ser tratadas seriamente, ou mesmo de ser percebidas. É possível até que cinco alunos ataquem diretamente outro depois da aula e isso não tenha nada a ver com bullying, mas simplesmente com algo que o aluno atacado fez antes e que é visto como "inaceitável" pela maioria dos colegas. Isso não é bullying, ou não era.

Toda violência que é sistemática, mas generalizada e compartilhada por todos os alunos como natural ou aceitável, e toda violência que não é sistemática, qualquer coisa se enquadra como bullying agora. Fica tudo "chocante" no jornal, sem sentido na prática e lindo na estante da livraria. Então por favor me digam qual o novo conceito de bullying, porque o único que se enquadra nesse contexto, para mim, é "assunto chocante da moda". O grande resultado disso é banalizar para os próprios alunos o conceito. Ele vira em si uma bandeira tanto da campanha sem sentido e eterna dos adultos quanto uma boa ideia de como glamourizar ainda mais a própria dominação sobre o colega frente aos amigos.

sábado, 16 de abril de 2011

Politicamente mais correto

Li agora que se deve dizer e escrever homossexualidade, sempre. Homossexualismo virou termo homofóbico "porque 'ismo' é terminação de doença". Vocês sabem, como capitalismo, marxismo, judaísmo, hinduísmo, jansenismo, feminismo...

PS: A afirmação surgiu porque o raciocínio mágico que regra a relação dos politicamente corretos com a linguagem descobriu que, pela etimologia grega do sufixo, uma de suas acepções, naquela língua morta, seria "doença".