Detroit: Become Human é um jogo de PS4 de 2018 que segue a estrutura dos antigos livros-jogos. A gente comanda três androides que fogem de sua programação e tentam viver de acordo com sua própria ética. Deles, o que inicia uma revolta contra os humanos era o que menos me interessava, até o ponto em que começamos a definir a postura geral do movimento: violência ou pacifismo.
Meu interesse no revoltoso sempre foi pelo caminho pacífico, porque eu queria muito descobrir qual era a opinião dos roteiristas a esse respeito.
Há tempos eu não consigo acreditar em mudanças sociais sem violência, por mais que eu propriamente seja muito pouco habilidoso para isso e, sempre que possível, um covarde. Eu não quero violência e o nível atual, sem guerra civil, já é mais que insuportável, a meu ver. Por outro lado, como qualquer coisa pode mudar se ninguém confronta o direito de violentar os outros, justamente a característica decisiva de qualquer elite (e rosas não ameaçam armas).
A retórica da unidade, do patriotismo, do legalismo há muito escrachou sua natureza hipócrita de "racionalização para o status quo". A balela toda é infantil. A autoridade é sempre a máscara de uma violência que possa ser exercida assim que "se falte com o respeito".
É óbvio que existem outras formas de vínculo social facilmente confundíveis com autoridade, como o respeito, a admiração, o carinho... tudo isso pode provocar comportamentos que lembram a postura exigida por figuras de "autoridade", mas esta, se merece esse nome, é porque esconde uma violência potencial. O professor, o policial, o político, o traficante, todo o mundo só é "autoridade" se é capaz de punir aqueles que lhe desrespeitam.
Assim, o mantra da mudança pela paz flerta sempre com uma mentira sustentadora de elites: muita gente arrota pacifismo para justificar que se agrida quem ponha em cheque o poder, ou seja, que arrisque enfraquecer a autoridade (potencial de violência) da elite. Ora, quem tem poder de fogo só teme poder de fogo. Ao mesmo tempo, se alguém toma o comando via poder de fogo, nada nos garante que não o volte contra nós em seguida (como se vê nas trupes dos arrependidos em apoiar movimento ou partido tal, há séculos).
Enfim, qual a opinião dos roteiristas sobre o pacifismo? É um caminho difícil, martirizante, tênue, que só funciona depois de muitas mortes e no último segundo, com o apoio indireto de outras pessoas atipicamente éticas, construindo uma solução temporária, sem garantias. Tenho a impressão de que os roteiristas concordam comigo.
Falando sobre tudo de linguagem que chamar a minha atenção: placas, conversas, citações... Deem uma chance lendo aí embaixo e vão sacar o foco.
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domingo, 1 de dezembro de 2019
sexta-feira, 29 de novembro de 2019
Aqui está bom, esta sala parece vazia
Então, é hora de retomar este espaço. Em parte, porque voltei ao Twitter, única rede em que marquei este blog; o real motivo, porém, é que estou precisando de uma desculpa para seguir escrevendo, especialmente se conseguir fazê-lo diariamente, sem a responsabilidade de montar um conto ou apontar para um romance. Passo por uma pequena crise de estilo, incomodado com coisas que se manifestam invariavelmente nos meus textos. Enquanto revejo minha perspectiva sobre o mundo e a humanidade, pensei em manter o exercício da escrita vivo por aqui.
Joyce Carol Oates costuma indicar para escritores que mantenham um diário, e isso certamente também é um fator para eu retomar o blog. Um diário clássico não faz meu estilo, mas quase ninguém deve passar por esta página hoje em dia. Suponho que apenas desavisados, enganados por qualquer link acidental, que logo saem correndo. Se as pessoas não querem ler meus posts, raros, de um parágrafo, no Face, ninguém deve acompanhar um texto num blog esquecido. Ou seja, aqui é o lugar certo para eu fazer um quase-diário.
Devo avisar, talvez, que, se alguém passar por aqui e quiser comentar, tranquilo. Eu pretendo ter raro ou nenhum leitor, mas saber que há gente lendo não vai me desmotivar de cara.
Visitar o blog tem outra vantagem: descubro que algumas crises minhas são anteriores ao que eu imaginava. O último post antes deste, por exemplo, eu suporia ter escrito em 2016, mas já estava daquele jeito um ano antes! É triste descobrir, porém, que o Brasil resolveu juntar 3 das 4 hipóteses que eu havia calculado como péssimos retrocessos. Não só os santos nos ajudam para baixo, o esforço dos eleitores é bastante poderoso.
Bom, eu não pretendo, por incrível que pareça, anotar nada tão obviamente político quanto aquele post. Na verdade, a Joyce, ou mais alguém que ouvi falar de diários, motivou-me a comentar coisas boas e curiosas que aconteceram no dia. Há algumas opções possíveis hoje, mas um papo na aula se destaca no momento.
Ontem uma série de gurias foram assaltadas depois de saírem da escola. Grupos diferentes delas foram abordados em sequência, por um mesmo cara. Hoje eu entrei na turma de formandos, no primeiro período, e as gurias assaltadas daquela turma vieram me contar a respeito. Elas já estavam meio recuperadas e logo, para minha surpresa, estávamos fazendo algumas piadas a respeito, mesmo que tenham perdido seus celulares e duas tenham sido ameaçadas de morte.
O positivo que eu pretendia comentar não é, por óbvio, que a violência seja tão pressuposta por todos que esse papo pudesse degringolar para o humor. O que se destacou para mim foi que, depois de anos dando aula para elas (sou professor de umas há dois anos e de outras há três), mesmo com atritos e muitas dificuldades, nosso convívio tenha promovido proximidade e confiança. Uma vez estabelecido que eu estava ali querendo que elas aprendessem e passassem de ano, nossas brigas recorrentes enquadraram-se numa perspectiva que favorecia uma boa relação, incluindo o esquecimento ou atenuação dos vários momentos ruins.
Eu não sou um professor afetuoso, comparado ao clichê de educadores. Não amo dar aula (muito melhor escrever) nem esqueço dos pesados abusos que governos e eleitores exercem contra a minha profissão todo santo dia. Eu odeio ser contratado por uma sociedade absolutamente hipócrita, que se engana por anos a fio a respeito do que espera da escola. Ainda assim, como disse, o convívio tem sua força, e em toda sala há gente com quem nosso santo bate. Foi um pouco o desgaste do cotidiano, portanto, com seu efeito benéfico, que preparou a mim e àquelas gurias, que tanto corrigi e com quem tanto já discuti, para que pudéssemos aliviar a violência e seu necessário trauma com umas leves risadas. O longo moer dos 200 dias letivos, pelo jeito, não planta só estafa.
Joyce Carol Oates costuma indicar para escritores que mantenham um diário, e isso certamente também é um fator para eu retomar o blog. Um diário clássico não faz meu estilo, mas quase ninguém deve passar por esta página hoje em dia. Suponho que apenas desavisados, enganados por qualquer link acidental, que logo saem correndo. Se as pessoas não querem ler meus posts, raros, de um parágrafo, no Face, ninguém deve acompanhar um texto num blog esquecido. Ou seja, aqui é o lugar certo para eu fazer um quase-diário.
Devo avisar, talvez, que, se alguém passar por aqui e quiser comentar, tranquilo. Eu pretendo ter raro ou nenhum leitor, mas saber que há gente lendo não vai me desmotivar de cara.
Visitar o blog tem outra vantagem: descubro que algumas crises minhas são anteriores ao que eu imaginava. O último post antes deste, por exemplo, eu suporia ter escrito em 2016, mas já estava daquele jeito um ano antes! É triste descobrir, porém, que o Brasil resolveu juntar 3 das 4 hipóteses que eu havia calculado como péssimos retrocessos. Não só os santos nos ajudam para baixo, o esforço dos eleitores é bastante poderoso.
Bom, eu não pretendo, por incrível que pareça, anotar nada tão obviamente político quanto aquele post. Na verdade, a Joyce, ou mais alguém que ouvi falar de diários, motivou-me a comentar coisas boas e curiosas que aconteceram no dia. Há algumas opções possíveis hoje, mas um papo na aula se destaca no momento.
Ontem uma série de gurias foram assaltadas depois de saírem da escola. Grupos diferentes delas foram abordados em sequência, por um mesmo cara. Hoje eu entrei na turma de formandos, no primeiro período, e as gurias assaltadas daquela turma vieram me contar a respeito. Elas já estavam meio recuperadas e logo, para minha surpresa, estávamos fazendo algumas piadas a respeito, mesmo que tenham perdido seus celulares e duas tenham sido ameaçadas de morte.
O positivo que eu pretendia comentar não é, por óbvio, que a violência seja tão pressuposta por todos que esse papo pudesse degringolar para o humor. O que se destacou para mim foi que, depois de anos dando aula para elas (sou professor de umas há dois anos e de outras há três), mesmo com atritos e muitas dificuldades, nosso convívio tenha promovido proximidade e confiança. Uma vez estabelecido que eu estava ali querendo que elas aprendessem e passassem de ano, nossas brigas recorrentes enquadraram-se numa perspectiva que favorecia uma boa relação, incluindo o esquecimento ou atenuação dos vários momentos ruins.
Eu não sou um professor afetuoso, comparado ao clichê de educadores. Não amo dar aula (muito melhor escrever) nem esqueço dos pesados abusos que governos e eleitores exercem contra a minha profissão todo santo dia. Eu odeio ser contratado por uma sociedade absolutamente hipócrita, que se engana por anos a fio a respeito do que espera da escola. Ainda assim, como disse, o convívio tem sua força, e em toda sala há gente com quem nosso santo bate. Foi um pouco o desgaste do cotidiano, portanto, com seu efeito benéfico, que preparou a mim e àquelas gurias, que tanto corrigi e com quem tanto já discuti, para que pudéssemos aliviar a violência e seu necessário trauma com umas leves risadas. O longo moer dos 200 dias letivos, pelo jeito, não planta só estafa.
sexta-feira, 3 de abril de 2015
O paiseco à deriva
Entre Lava-Jato, "CPI do Mensalão", "Mensalão do PSDB + DEM", Zelotes e Petrobrás, o Brasil inteiro está sob investigação por corrupção. Há muito, admitimos a culpa de tudo e de todos. E o que se pretende oferecer como solução? Voltar ao passado, de não muito diferentes formas.
1 - Ditadura;
2 - Confiar no PT com paciência e perdão;
3 - Confiar no PSDB + velhos comparsas da economia da miséria;
4 - Confiar em pastores.
Haverá país mais deprimente? Com certeza, porque sempre existirão os que já estão em ditadura e os que vivem em guerra civil. Mas isso em si não o cúmulo da depressão? Que por pior que o Brasil seja, ele não é o pior. Não é, mas está tentando chegar lá.
1 - Ditadura;
2 - Confiar no PT com paciência e perdão;
3 - Confiar no PSDB + velhos comparsas da economia da miséria;
4 - Confiar em pastores.
Haverá país mais deprimente? Com certeza, porque sempre existirão os que já estão em ditadura e os que vivem em guerra civil. Mas isso em si não o cúmulo da depressão? Que por pior que o Brasil seja, ele não é o pior. Não é, mas está tentando chegar lá.
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quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Mais Mafalda!!!
![]() |
| Um exemplar mais a mão, entre outros possíveis... |
Eu sou um fã atrasado de Mafalda. Fiquei sabendo da personagem no início da faculdade, ou um pouco antes. Todo o mundo falava muito bem, ou ficava quieto por não achar, aparentemente, que poderia falar mal ou demonstrar indiferença. Não observava o mesmo silêncio de ignorância como o meu. Consegui ler realmente mais coisa do Quino apenas depois de um bom tempo - afinal, entrar em Letras é também descobrir que toda a literatura que já lemos não é nada nem para uma simples conversa de bar.
Como foi verdade com outras leituras, fui gostando mais e mais, com o tempo. Nunca conseguia, mesmo assim, localizar por que achava essa graça tão particular nas tirinhas. Agora, acho que encontrei: gosto do problema proposto, que é, a meu ver, a dificuldade de se comunicar em outra língua. Mafalda não fala "sucesso" quando abre a boca, nem todas as coisas atreladas a isso geralmente. Ou seja, ela questiona a ordem do mundo, sem confundir as pessoas que realizam essa ordem no microuniverso do dia-a-dia com a ordem em si - ainda que reconheça que tais pessoas possam se tornar meras ferramentas, esquecendo elas próprias outros aspectos de sua existência. Ela pressupõe que exista um ser humano (no sentido rico, variado, do humanismo) no policial, ou até mesmo no político, e sente seu direito de cobrar dignidade e juízo desses indivíduos.
Com exceção do momento em que decidi fazer Letras e de quando me encaminhei a dar aulas, poucos confrontos tive com o discurso do sucesso ou da ordem das coisas - dos desejos que devemos ter, das ordens que devemos seguir sem questionamento possível. Geralmente eu parecia ir nessa direção, porque o que eu queria coincidia com a ordem óbvia. Procurar emprego, por exemplo, faz as pessoas acharem que estamos querendo "crescer na vida" e coisas tais. Mas é possível procurar emprego, sei lá, para se sustentar, sem confundir carreira com vida, nem trabalho com única possibilidade de realização pessoal. Eis que agora sou todo dia confrontado com a exigência ou pressuposição de que eu deveria querer dinheiro, tanto por ele próprio como para fazer coisas que propagandas de margarina e filmes de Sandra Bullock implicam ser o ideal universal. Estou impressionado com a força e a acriticidade desse discurso nessa minha pacata cidade, tão longe de Hollywood... E me surpreende que eu precise desenhar para as pessoas que, a Sandra Bullock, prefiro Mafalda.
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quarta-feira, 31 de julho de 2013
Por que não postar
Quando iniciei este blog, mantinha uma certa neutralidade que sempre me interessou. Tenho uma ideia de neutralidade parecida com o conceito de governabilidade, ainda que não na forma radical que o PT adotou. Ou seja, acho que as coisas só vão para a frente quando a gente não perde o foco e ignora toda discussão ou discórdia que envolve picuinha, vaidade, inveja ou desaforo, ainda que ela venha embalada por mentiras crassas. Se revelar a verdade não vai ajudar a chegar ao ponto que nos interessa, o desvio para esclarecer a bobagem que a outra pessoa diz não me serve. (O quanto o blog era neutro em outros sentidos, ou me achavam progressista ou conservador, é outro assunto que não me interessa propriamente.)
Ao mesmo tempo, o blog era mais mesmo sobre usos engraçados ou bizarros da linguagem cotidiana, particularmente em jornais (muito à mão porque comecei o blog quando estava desempregado, mesmo que estudando), conversas de ônibus (dos quais não dependo tanto mais, porque resolvo quase tudo a pé ou de bicicleta) e discursos políticos - que viraram o próprio problema para eu continuar escrevendo no blog.
Eu praticamente parei de escrever não por causa dos discursos políticos, mas porque minha tese estava atrasada, e eu estava de saco cheio de não terminar nunca. Decidi que todo meu raciocínio para digitar seria focado nela, nem o blog teria vez. Quando parei, no entanto, muitas coisas mudaram. Uma das minhas últimas reclamações no blog foi justamente sobre as pessoas acharem que ficar falando muda alguma coisa. Pois eu paro de escrever e os reclamões de face saem às ruas e conseguem que nossa passagem retroceda no preço!
Depois disso, São Paulo fez movimento parecido, até citando Porto Alegre, mas a polícia de lá lembrou que dá para bater em manifestante e ficar por isso mesmo. Na manifestação seguinte aqui, pancadaria e vandalismo! Novidade herdada do Centro. São Paulo imitou POA, POA imitou São Paulo, cada qual à sua maneira...
Enfim, junho foi o que foi e teria o que comentar sobre cada coisa, mas estava na minha abstinência do blog. O resultado mesmo foi que perdi boa parte da minha neutralidade em alguns assuntos. Não acho que poderia deixar de ser virulento ao mencionar Globo, Record, PDT, pastores e tal. Claro que não era a favor dessa gente antes, mas é diferente o tipo de picuinha a que me ateria no momento. Ao mesmo tempo, o blog tem que ter deixado de ser acompanhado por muita gente, depois de tanto silêncio, o que pode ser bom para tentar começar de outro jeito.
Na verdade, devo dizer, não prentendo começar a escrever muito diferente no blog. Este post foi apenas para exorcizar tudo o que mudou e que deixei de comentar esses tempos todos. Não quero pesar a mão aqui mais do que antes, e posts virulentos tenderão simplesmente a não serem escritos, ou serem deletados antes de postados. Era isso.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Excepcionalismo Brasileiro
![]() |
| Um pioneiro da política brasileira |
Tudo que falavam mal do filme Lincoln me dava mais vontade de assistir ao filme. Fui atrás, vi e realmente curti muito. Talvez o filme nem me parecesse tão interessante se esse tipo de narrativa fosse mais comum, mas a raridade de filmes sem ação, perseguição, tiros (obviamente aparece o mínimo de violência, pois se está na Guerra da Secessão) e casos de amor dá um gosto todo especial para a produção. Nada contra, na verdade, todas essas características em filmes, mas eu continuo com meu gosto clássico, achando que cada elemento de uma obra de arte deve fazer sentido dentro dela ou ter a graça certa do fortuito que não parece fortuito. Caso contrário, o elemento não deveria entrar.
Lincoln tem, é verdade, amor. Não tem é romance. Tem vários tipos de amor, especialmente o paterno, coisa difícil de ser vista sem frufrus idiotas. De resto, um pouco de amor conjugal, bem pouco.
O principal no filme são ideias e discussões, e uma baita forçada de mão do presidente, que prolonga o conflito e limpa o chão com a Constituição a fim de usar escravos como sujeitos livres e criar o contexto para passar a emenda que proíbe a escravidão no país. E é isso, bem mais que a falta dos elementos que citei antes, o melhor do filme. Porque ele propõe, a meu ver, um debate bem capcioso, que a maioria vai querer ignorar no filme: os fins justificam os meios? No caso do Lincoln, parece fácil: nossa, quem seria contra ele torcer a Constituição do país feito pano de chão para poder libertar os escravos?
Bem, isso parece fácil dizer agora. A escravidão é uma verdade humana desde que existe Estado, talvez até um pouquinho antes. Durante a maior parte da nossa história, quase o mundo inteiro aceitava seus tipos de escravidão. É óbvio que os escravos não estavam sempre resignados com essa situação, mas, como um elemento da vida em sociedade, era aceito. A decisão de abolição, no século XIX, por mais que trouxesse séculos de questionamento filosófico e ético, ainda estava longe de ser pacífica. Como podemos definir que os fins justificam os meios quando ninguém tem claro, no calor do momento, o que é realmente certo ou errado? E até que ponto os fins podem justificar os meios, e quando estes devem começar a pesar?
O presidente dos Estados Unidos, morto há mais de século, pode justificar os meios pelos fins, jurando que está bem intencionado. O PT pode? O PSDB pode? O Psol pode? Se deixamos de acreditar no sistema político (não me parece que algum brasileiro realmente acredite), podemos passar por cima dos processos todos para conseguir o que é bom? E podemos ter certeza que é bom? E teremos a cara de pau de chamar de democracia, ainda que o efeito seja mesmo bom?
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Matando o democrático
Algumas palavras deveriam morrer imediatamente; serem assassinadas e ponto. A palavra "democrática" é uma dessas. A democracia não deve, espero que não morra; ou, para os pessimistas, espero que continuemos brigando para ter mais e mais democracia, apesar de não haver um exemplo perfeito desse ideal...
Enfim, apesar do valor da democracia, chega desse termo. Ele virou bandeira, o que significa que desponta por todos os lados, nos discursos mais cotidianos e babacas, bem como tornando discursos importantes em coisas cotidianos e babacas também. Quando as pessoas querem que até uma fila de almoço seja organizada democraticamente (?!?!?) - "quem chegou primeiro" de repente é um critério muito autoritário - é porque a palavra chegou num ponto em que até se um político exigir que se ataque alguma infração à democracia, o discurso dele parece mais idiota simplesmente por ter usado a palavra, tão desgastada em pequenas besteiras e muita mentira.
Claro que o mais cansativo é que a palavra costuma ser usada de duas formas idiotas: para dizer outra coisa, que não necessariamente é democrática por excelência, ou para fundar a democracia dentro da democracia.
As duas coisas podem ser exemplificadas facilmente em qualquer escola.
Quando, por exemplo, um grupo de professores está insatisfeito com qualquer coisa, por menor que seja, ataca a direção ou o que for de autoritária, fechada, nazista ou qualquer outro desses termos que atualmente já perderam quase todo o sentido também. Quer-se uma decisão democrática a respeito do tema! Detalhe: direção, por exemplo, é um cargo decidido democraticamente (no Rio Grande do Sul e na maioria do Brasil), por comunidade e pessoal da escola. Trata-se de uma escolha democrática, mas o sistema da escola é justamente ter alguém eleito nesse cargo para que ele cumpra seu dever enquanto os outros profissionais cuidam do resto. Chama-se "representação", e é exatamente o que acontece no nosso sistema político democrático! Quando a presidente faz uma decisão: ela não precisa perguntar cada coisinha para o povo, ela foi eleita para tomar essas decisões. Os eleitores podem intervir, reclamar, mas nada disso indica que ela tomar decisões executivas seja um insulto à democracia.
Há uma coisa que as pessoas esquecem: a democracia pode ser, e costuma ser, representativa. Viver numa democracia não é puxar voto sempre que se quer pintar ou não um meio-fio! Quando se acha que se deve realmente discutir isso, e todos os cargos envolvidos devem parar para contar votos da população inteira em vez de tomar suas decisões (obviamente com transparência), os termos "escolhas democráticas" estão sendo usados para o segundo caso que referi: fundar o "democrático" dentro da democracia, porque se está confundindo "pessoa eleita democraticamente cumprir seu papel" com ditadura!
Já o primeiro caso, de se usar "democrático" para dizer outra coisa que não é democracia, acontece em quase todo discurso sobre escolas. Quer-se uma escola democrática! Pois bem, (1) o que isso quer dizer, e (2) isso é realmente o que se quer?
Uma "escola democrática" nunca é o que se quer dizer com a expressão, porque ela seria redundante por um lado, ou inadequada por outro. Como disse, os cargos são eleitos, em algumas escolas todos eles são eleitos. Estou obviamente considerando escolas públicas, únicas que precisam responder a essas agendas.
Mas, digamos que as pessoas quisessem o exagero disso, que realmente não só os cargos de função gratificada, mas até os professores fossem eleitos. Por quem? Pelo poder público? Já o foram, através de concurso. Pela comunidade? De que forma? Por que critérios? Comunidades geralmente analfabetas ou sem letramento são mesmo quem queremos que escolha professores com o dever de formar seus filhos exatamente nisso?
Não estou dizendo que eles não podem tomar decisões importantíssimas a respeito de si, nem que, se o analfabetismo fosse mesmo como diz o governo, as escolhas seriam melhores. Mas (1) o analfabetismo não pode ser ignorado nisso, e (2) segue o problema de que governo algum pode tomar decisões de base, como Educação, conforme o gosto de cada comunidade, distante de qualquer projeto ou planejamento dele.
Agora, saindo um pouco do absurdo completo, quando se fala em democracia na escola se quer participação, especialmente dos alunos. Pois bem, aceitando essa proposta, em si bem complicada, a democracia é mesmo o melhor modelo para isso? Queremos que todos os alunos tenham o mesmo peso de voto que funcionários, professores, diretores etc, do papel higiênico ao livro didático? Eles estão preparados para esse julgamento e essa responsabilidade? Eles podem decidir tudo sobre uma escola, em pé de igualdade com os adultos, sem quase conhecer nada fora de suas comunidades, além de umas páginas redundantes de facebook e as bandas da moda, e tendo apenas alguma noção de leitura e interpretação?
As escolas que conseguem manter máxima participação dos alunos são escolas pequenas, com MUITO pessoal, geralmente particulares, geralmente muito caras. Algumas públicas tentam imitar esses modelos, não sei com que sucesso, mas sei que se tratam de aproximações...
O que se quer com a escola democrática, de fato, é uma escola em que a comunidade participe e os alunos tomem responsabilidade a respeito de algumas coisas, especialmente para terem cuidado com a escola. Pois bem, é possível participar de algo sem mandar na estrutura, até sem voto direto para nada.
Quer-se mesmo é que os alunos tenham algum poder sobre o que acontece e reajam construtivamente a abusos. Ora, uma comunidade em que o poder só pode ser exercido se justificado a quem está sob tal poder é uma comunidade anarquista (da teoria anarquista, não do oba-oba). Isso significa que "democrático" é um termo tão errado para o que se exige da escola nesses casos que até "escola anarquista" seria termo mais correto. Espero que isso indique, mais que nada, as voltas esse pobre termo já deu!
Quando uma palavra é uma bandeira, e só uma bandeira, é simplesmente triste lê-la e ouvi-la para todos os lados. Ela já não comunica nada, a não ser mentira e distorção. Mas não é por serem falsas que as palavras morrem...
domingo, 7 de outubro de 2012
Bom domingo de eleição
Como nenhum político pode representar o interesse de todos os eleitores, cada um deles tenta representar o interesse pelo menos de certos grupos (ou nos convencer que o fazem, claro). Alguns grupos são representados por mais de um, outros por nenhum, mas o importante é que nenhum político realmente vai trabalhar pelos interesses de toda a população.
Nosso desafio, como eleitores, antes de ser o de julgar o que é melhor para a maioria, é tentar entender pelo menos quem vai nos favorecer, não desfavorecer. De uma forma ou de outra, nós também não podemos beneficiar a todos com o nosso voto.
Por essas e outras, quando vamos eleger alguém, votamos uns contra os outros. Isso quando não votamos contra todos.
Bom domingo de eleição.
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Poema do mau cotidiano
Às vezes eu paro o que estou assistindo,
ou deixo muda a música que ouvia.
É uma propaganda política que passa
entrando estridente pela janela.
Ela deve ser honrada com o silêncio,
como uma má notícia.
ou deixo muda a música que ouvia.
É uma propaganda política que passa
entrando estridente pela janela.
Ela deve ser honrada com o silêncio,
como uma má notícia.
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Propaganda eleitoral em Porto Alegre
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| As alturas dos candidatos indicam aproximadamente as intenções de voto para cada um, mas acho que Villaverde tá se espichando um pouco... |
Fortunati não podia fazer diferente (será que não podia mesmo?), mas foi uma péssima escolha um slogan de "melhorou, vai melhorar"... Porto Alegre melhorou desde que ele virou prefeito? Não consigo pensar em nada que esteja melhor de 2010 pra cá. Ou talvez ele queira dizer que as coisas melhoraram desde que Fogaça, de quem era vice, ocupou a prefeitura? Bom, nesse caso, sua proposta é seguirmos mais 4 anos com as reticências do governo Fogaça? Baita candidatura essa...
Mesmo assim, desde que Fortunati virou vice, Porto Alegre não melhorou! Seria fácil argumentar que piorou, mas, mais do que isso, o grande problema me parece ser que uma coisa ou outra estar melhor (como um eleitor de Fortunati poderia querer argumentar) bate em teclas absurdamente pontuais. É esse o problema que só se agrava em Porto Alegre. O pessoal tem tratado o governo como um lugar pra fazer arremates, apagar incêndios e cumprir horário! Qualquer governante que preste só presta porque tem um projeto sistêmico, ou (o que acho um pouco pior, mas vá lá) uma bandeira um pouco mais restrita, mas fortíssima. Então, não é o caso se um viaduto não está mais desabando ou se começaram finalmente a planejar uma obra que foi proposta há 8 anos. Nem é o caso de se dizer que os alagamentos desses últimos dias indicariam uma terrível administração. O caso é PORTO ALEGRE (batendo no peito e tendo em imagem a cidade toda) mudou, ou não mudou? Não mudou. No pouco que mudou, o saldo é negativo. So sorry.
![]() | |
| Manuela, conceito "comunista de shopping" |
Pior ainda, muito senso comum político parece nascer de gente da nossa faixa etária, ou seja, de toda a galera que cursou faculdade na entrada do século XXI, como ela. Manuela tinha uma vida política bem típica na faculdade, mas nunca cuidou da imagem pessoal. Fofocas mil a seu respeito são corroboradas por exércitos de homens e mulheres entre os 27 e 30 e poucos anos. De alguma forma, me parece que suas indiscrições (associadas à atividade política, aliás), assim como as de seu atual "companheiro", têm pesado em sua rejeição de voto. Não sei como outros grupos a enxergam, no entanto.
E temos o Villaverde! Pobre coitado, é um nerd posto no ataque, na Educação Física. Sua forma contida, seu sorriso de quem não deveria estar ali, sua consciência de ser completo desconhecido de quem lhe descobre candidato a prefeito, seu jeito inclinado para a frente de andar fingindo ser decidido, sua campanha flutuando ao sabor do vento, sua forma de se encolher ainda mais perto do Lula, que mesmo contido aparenta o gigantismo de um Don Corleone pajeando o netinho indefeso... Pobre Villa! Vem, vem cavar segundo turno e apoiar a Manuela, teu destino...
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domingo, 2 de setembro de 2012
É tudo mentira
Até por dificuldade para ser constante e plenamente cético, a gente tende a selecionar "verdades" políticas. Ou melhor, a gente pega o que ouve e encontra brechas para aceitar certas verdades, ou meias-verdades. A propaganda sobre o programa de governo tal (pensamos) pode ser mentira, mas parte daquilo foi feito; ou foi feito mesmo, só não por aquele partido; ou ainda aquilo é mesmo como estão dizendo, mas só surgiu por iniciativa da população ou de uma ONG, não de um partido.
Pois bem, resolvi fazer um serviço público e avisar ou reforçar para quem venha a ler este post: no caso da Educação, NADA do que é dito é verdadeiro. Não, candidato X não fez! Não, não foi aquele partido! Não, não estão lutando pelo que dizem! Não, não valorizam! Não, os alunos não recebem! Não, a situação não melhorou! Não, o caminho dos alunos não foi asfaltado! Não, a escola não foi construída! Não, a universidade não está funcionando! Não, o país não atingiu tal resultado positivo! Não, não e não.
Agora, se o eleitor quer fazer relativismos, descansar do ceticismo ou encontrar pequenas verdades no que um político está dizendo, que não o faça na Educação. Aí, a propaganda política, qualquer propaganda política, está mentindo,
sim. Completamente. Profundamente. Descaradamente. É 100% mentira.
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sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Teoria da Conspiração das Cotas
Aprovada na quarta-feira, no Senado, uma nova lei prevê que 50% das vagas de todas as universidades públicas serão dedicadas a "cotas sociais" (quem estudou todo o Ensino Médio em colégio público). Estas, por sua vez, devem ser preenchidas por negros, pardos(?!) e indígenas, no mínimo, conforme a proporção dessas populações em cada estado. Há ainda uma divisão dessas vagas segundo a renda da família (calculada e verificada por sabe-se lá quem).
Dizem que a cereja desse bolinho - eles nem fariam vestibular ou Enem, sendo selecionados conforme a média de suas notas no Ensino Médio, ou seja, conforme a hipocrisia do governo de cada estado ou município - deve ser o único ponto cortado, para que a lei passe "mais facilmente" no fim do trâmite.
Ao mesmo tempo, o governo caga para a greve das federais e não enfrenta (nenhum governo o faz) o problema da educação de base de verdade (tomando apenas medidas mais ou menos efetivas, ou seja, no fim das contas, ineficazes).
Pois bem, isso é pra "qualquer um" de escola pública. Mas o que o governo planeja para quem se esforça pra valer? Pra quem consegue ler muito, estudar, se sacrificar até? Seu plano para esses estudantes parece ser também resolvido com cotas: ele paga para que cursem as faculdades particulares. Tanto estes quanto os alunos de escolas particulares (especialmente os mais estudiosos, é verdade) têm cada vez mais incentivo para ir para fora, procurar bolsas nos EUA ou na Europa, enfim, deixar o Brasil e ir aprender com os best of the best.
O que me lembra: população pobre ou menos estudiosa presa num Brasil analfabeto funcional e alunos dedicados ou com mais dinheiro estudando fora não é um quadro histórico no país? Dilma não é o fim de um processo para deixar o Brasil com cara nova, mas do jeitinho que sempre foi?
terça-feira, 17 de julho de 2012
Diversidade e ignorância sobre greves federais
Em reação a isso.
Que ignorância achar que "greve remunerada" é um conceito estapafúrdio, quando é a base mesma do direito de greve. Que ignorância achar que isso sustenta qualquer pessoa que "não queira trabalhar", que poderia automaticamente entrar em greve e receber seu salário. Que ignorância achar que a remuneração do grevista é automática, sem critério algum. Que ignorância não saber que o salário, se sustenta o trabalhador em greve, será integralmente descontado se o mesmo trabalhador não pagar por cada dia de greve depois, situação única da profissão de professor, (justamente esses "vagabundos" trabalham por todos os dias em que ganham salário, diferente de qualquer outra classe que possa fazer greve)!
Que ignorância achar que a maioria dos professores (pior: que todos!) em greve estão na classe A!!!!!
Que ignorância achar que os professores querem automática e necessariamente mais impostos, ou que isso é a única forma de se resolver os problemas dos institutos federais. Que ignorância achar que os professores querem unicamente melhores salários, ou mesmo que isso resuma a maior parte de suas reinvidações (que tal começar pelos prédios de aula literalmente desmoronando?). Que ignorância acreditar que os professores em greve não trazem outras formas de contribuição para suas faculdades ou institutos quando não estão em greve. Aliás, que ignorância não saber que vários deles seguem contribuindo para o investimento nos institutos e faculdades federais, bem como diretamente a seus alunos, durante a greve. Que ignorância crer numa dicotomia professor/funcionário público, assumindo ainda que a única forma de ser funcionário público é aquele senso comum de se atirar nas cordas e que a única forma de ser professor é o clássico mártir ético, que resolve de mãos nuas as incompetências de toda a estrutura que deveria lhe sustentar e que, contraditoriamente, só segue em pé por seus singulares esforços. Que ignorância achar adequado, benéfico ou aceitável reincidir nesses preconceitos e reforçá-los sem, pelo visto, o menor conhecimento de causa, sem nada saber sobre professores, aparentemente, para além dos lugares comuns de debates de esquina.
Quanta ignorância vinda de um sociológo, que andou estudando que sociedade para resumir dessa forma o quadro atual e aceitar tais clichês do senso comum como conceitos para um texto de jornal?
Quanta ignorância selada pelas únicas palavras sábias escritas na página: "Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal.
Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas
brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do
pensamento contemporâneo."
É preciso muita diversidade para caber tanta ignorância.
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sábado, 14 de julho de 2012
Um cidadão a menos; menos que nada
Na semana passada eu passei por uma das experiências mais simbólicas da minha vida, de um tipo que confirmou minha visão de mundo de forma curiosa e particular. Devo dizer que odeio quando isso acontece, quando descubro que estou certo. Sei que tendemos a gostar de quando confirmamos nossas opiniões pelos fatos, a posteriori. Sentimos que somos muito espertos, em geral. Isso é verdade para mim também, em muitas áreas, mas particularmente ruim quando é minha filosofia de vida que se confirma.
Nesse caso, eu pago o preço de ser tão pessimista. Devido ao meu pessimismo, minha visão de mundo se confirmar significa, necessariamente, que algo ruim é comprovado.
No caso, eu fui a um posto de saúde pedir a vacina contra gripe H1N1. Tinha evitado ir por tanto tempo porque eu tenho apenas uma característica de risco (doença respiratória crônica) e nenhuma pessoa em meus círculos estava nem com suspeita da gripe. Sei que o status quo é pular em qualquer oportunidade de se identificar com o proverbial Outro, mas às vezes devemos nos identificar com o menos proverbial Mesmo. Por isso, em vez de aproveitar a oportunidade de me reconhecer como de um grupo de risco, resolvi deixar a vacina para crianças, idosos, grávidas etc., simplesmente seguindo com minha vida.
No entanto, na semana passada um aluno da minha escola foi diagnosticado com a doença. Achei que era hora de parar de brincar com a coisa e ir lá me prevenir, além de me defender de espalhar o vírus, caso o estivesse já carregando de qualquer forma, assim potencialmente espalhando para entes queridos e alunos. Como as mortes pela gripe têm aumentado, achei óbvio que a campanha ainda seguiria, pelo menos, por um tempo durante o inverno.
Eis que chego ao posto de saúde e pergunto onde poderia tomar a vacina, nem entrando no mérito ainda se seria aceito para a inoculação ou não. A resposta do senhor do balcão de informações: "Não temos mais, só no ano que vem".
Achei que tinha ouvido mal e perguntei de novo: "Ano que vem?" Resposta: "Sim, o governo já cumpriu a meta".
Essa frase me soou poderosíssima. Não ouvi apenas essa resposta, mas muitas outras ao mesmo tempo, como "o governo está satisfeito com as mortes evitadas e não se preocupa com as 'poucas' recentes e por vir"; "o governo está tranquilo com quem salvou e agora vai mostrar o número de mortos com orgulho de quem impediu catástrofe realmente significativa"; e assim por diante.
Ao me dar essa resposta, o sujeito me apontou a carta da prefeitura falando a respeito. Li nela, por cima, os números orgulhosos de quantas pessoas foram vacinadas, sem entrar em nenhum mérito comparativo com outros anos ou com o número de mortos. A carta em nada melhorou o efeito daquela resposta para mim.
Além de professores não serem considerados grupo de risco, o que já me soava bizarro já que lidam diária e intimamente com diversos grupos de risco, parecia que o governo queria confirmar que não se importava em nada com pessoas como eu. Em sua tática de combate à gripe, eu sou desimportante.
Minha vida não é estratégica para ele. Eu já suspeitava.
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terça-feira, 10 de julho de 2012
A sagrada mão privada para limpar a merda pública
Leiam isto antes.
Agora me respondam: que merda é essa?!
Isso é que é comprar discurso do governo! A única opção para resolver a Educação é aumentar impostos ou tirar dinheiro de outras áreas da própria Educação ou da Saúde?! Quer dizer que o governo, em todo o resto, está gastando muito bem? E, óbvio, é culpa dos professores que o governo não fiscalize os gastos dos reitores?
Claro, acabar com o ensino público é a melhor solução! Afinal, as faculdades privadas são direcionadas por determinações ideológicas voltadas ao povo (por pior que isso possa ser executada na pública, pelo menos está em disputa franca sempre) e escutam exigências públicas, elas sim cumprem todos os deveres legais mesmo que não sejam fiscalizadas. Suas bibliotecas são abertas para todos e seus seguranças nunca impediriam certo "tipo de gente" de entrar em suas dependências.
Mas estou me perdendo em bobagens. O problema não é o que uma faculdade privada faz, mas sim que a resposta para o problema de qualquer instituição pública seja sempre acabar com esse seu caráter. Ou seja, qualquer problema não deve ser resolvido pelo governo, mas descartado ou jogado nas mãos da iniciativa privada. Por que a resposta para a irresponsabilidade do governo é sempre tirar mais responsabilidades dele?!
Claro, acabar com o ensino público é a melhor solução! Afinal, as faculdades privadas são direcionadas por determinações ideológicas voltadas ao povo (por pior que isso possa ser executada na pública, pelo menos está em disputa franca sempre) e escutam exigências públicas, elas sim cumprem todos os deveres legais mesmo que não sejam fiscalizadas. Suas bibliotecas são abertas para todos e seus seguranças nunca impediriam certo "tipo de gente" de entrar em suas dependências.
Mas estou me perdendo em bobagens. O problema não é o que uma faculdade privada faz, mas sim que a resposta para o problema de qualquer instituição pública seja sempre acabar com esse seu caráter. Ou seja, qualquer problema não deve ser resolvido pelo governo, mas descartado ou jogado nas mãos da iniciativa privada. Por que a resposta para a irresponsabilidade do governo é sempre tirar mais responsabilidades dele?!
Pior ainda, como sempre, SE fosse possível o governo acabar com o ensino público superior, ele ainda arrumaria a faculdade para entregá-la funcionando à mão privada (milagrosamente achando soluções para o que "não podia ser resolvido" antes) e os impostos (DÃ!) não abaixariam!
quarta-feira, 27 de junho de 2012
Rapidinha sobre Golpe do Paraguai
Se houvesse algum interesse em honestidade intelectual, nossa cena política só precisava de um dicionário, ou mesmo de um glossário.
O problema de se dizer que houve golpe ou não é, claro, só um problema de partido aqui. A ex-esquerda chama de falta e a neo-oposição-conservadora diz que o lance é válido. Agora, na tentativa de soar verdadeiro, correto, do lado da razão, da ciência ou da jurisprudência de fundo de quintal, as pessoas simplesmente demonstram que ninguém quis se informar muito sobre as palavras "golpe", "impeachment" ou mesmo sobre a qualidade de argumentos de qualquer dos lados no próprio Paraguai, para então se pensar se é possível aceitar esses argumentos sem se chamar o governo do Paraguai, agora e antes, de antidemocrático.
Seria o caso, enfim, de se alinhar conceitos antes de hastear bandeiras. Sei que o caso é velho e não estou dizendo nada demais aqui, mas fazia tempo que eu não postava, e não parece que ninguém tenha parado para simplesmente apontar o pequeno mas fundamental detalhe de que defensores e acusadores do Paraguai não estão nem tentando falar a mesma língua, mas juram isenção e honestidade... acima do outro lado.
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Rio +20 e a política
![]() |
| Uma mulher no poder? Lá de onde eu venho não tem disso não... |
Faltam dois dias para recebermos mais uma vez Ahmadinejad no Brasil! Ele vem por causa do Rio +20. Obviamente seu objetivo é "estreitar relações" com Brasil, um dos grandes países a aceitar seus crimes de Estado e o terrível sistema político do Irã.
É um desafio para mim entender o que a proposta de um "mundo sustentável" tem a ver com perdoar um Estado teocrático daqueles. Mas, na verdade, nem entendi ainda como um país democrático (especialmente se o país se anuncia internacionalmente como democrático) recebe ditadores e assemelhados. Os governantes do mundo, porém, não apenas lidam bem com a situação como a repetem inúmeras vezes, com toda a tranquilidade. Os governos da América do Sul, então, são especialistas nisso (o Brasil tem até uma Associação de Amizade Irã-Brasil!!!). E o discursinho de um mundo diferente, possível somente longe dos EUA, sempre marca presença nas contorções retóricas que permitem esse tipo de amizade. Além do mais, com o que a Dilma já arregou para militares aqui, o que seria cumprimentar e conversar animadamente com a misoginia encarnada, né?
Por outro lado, contorções retóricas as temos para o principal problema: o programa nuclear iraniano. Até que se prove cabalmente que ele é mesmo militar, o Irã pode ser desculpado, por alguns, como inocente. Por isso, Ahmadinejad e seus companheiros não permitem de jeito nenhum que os países interessados analisem direito o que rola por lá. Nada suspeito, né?
O Mensalão também, se não for julgado, segue sendo uma acusação vazia. Para alguns... Curiosamente, para os mesmos que aceitam o segredinho de Ahmadinejad com seu urânio. Assim, nosso governo toma a mesma tática: atrapalha e atrasa a investigação a fim de impossibilitar a acusação cabal.
Aqui, a acusação prescreve, e seguimos com a currupção impune. Lá, a acusação sem provas só tem prazo de validade até o mundo ir pelos ares.
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sábado, 2 de junho de 2012
Elasticidade emocional: o caminho e a impossibilidade da educação
Há poucos dias entendi o conceito central da pedagogia que me escapa, que na verdade escapa a quase todos os professores, se questionados diretamente. Cunhei (que eu saiba sou o autor do termo) de "elasticidade emocional".
Trata-se da habilidade de lidar com um grupo não como um todo, mas como um agrupamento de indivíduos, sem se esquecer realmente do todo.
Aparentemente contrário ao que se fala sobre turmas e educação, a elasticidade emocional é a necessária conclusão do individualismo que marca toda a nossa sociedade tanto quanto subjaz às teorias pedagógicas mais aceitas por conservadores, progressistas, engajados de Facebook, neutros e curiosos. Não estou dizendo, no entanto, que ele me ocorreu por tentar balançar teorias. Esse conceito, para o gozo de qualquer paulo-freirista que leia este texto, nasceu da prática.
Os alunos têm suas necessidades, suas faltas, seus talentos, seus traumas, às vezes suas sequelas, tudo extremamente específico. Cada indivíduo na sala de aula, por mais clichê que seja (o malandro, a respondona, o revoltado sem causa, a cdf, o puxa-saco, a roqueira, o submisso...), é um abismo de idiossincrasia: quanto mais se conhece a pessoa, mais se vê o quanto suas necessidades para aprender são diferentes do resto da sala.
Toda essa especificidade envolve uma relação emocional diferente com o professor. Existe, para cada um, creio eu, um estado emocional ótimo, em que a relação na sala de aula e a aprendizagem funcionam muito bem. O problema é que o tratamento que um aluno recebe pode conflituar demais com o de que outros ali presentes precisam, e um mau dia de um aluno desses também pode contradizer demais o que está acontecendo na aula. Multiplique-se esse problema por mais ou menos 30 e vemos de onde nasce a ideia de elasticidade emocional.
Essa elasticidade é a capacidade de chamar a atenção de um aluno, responder a pergunta interessada de outro, procurar saber se uma outra está aprendendo, recolher o recadinho de uma outra ainda (decidindo como lidar com o tal recado, naquele momento), sempre lembrando que qualquer reação afeta a aula toda, pois o grupo todo está testemunhando cada uma dessas coisas, às vezes até outras que não estamos vendo...
O pulo imediato entre irritação, bom humor, amizade, seriedade... e as armas de uma conversa em grupo (voz alta, reação estranha chamativa, piada adequada, lição de moral...), bem como a consciência da experiência total da sala de aula em conexão com o planejamento e o tempo restante são as grandes chaves, a meu ver, para realizar uma boa aula. A maioria dos professores, claro, dizem que não a têm, ou que é impossível ter tanta elasticidade assim, além de que cansa.
Parece-me realmente que é a maior fonte de cansaço da atividade, acho que é mesmo impossível tê-la perfeitamente (por isso todos os séculos foram marcados pela clara noção de que turmas pequeníssimas, até tutoria pessoal, são a marca da boa educação), mas também considero que todos os professores que conseguem algum resultado a têm em algum grau.
Parece-me realmente que é a maior fonte de cansaço da atividade, acho que é mesmo impossível tê-la perfeitamente (por isso todos os séculos foram marcados pela clara noção de que turmas pequeníssimas, até tutoria pessoal, são a marca da boa educação), mas também considero que todos os professores que conseguem algum resultado a têm em algum grau.
É, porém, uma habilidade para resolver um problema idealmente desnecessário. O professor de talento, por exemplo, não precisa necessariamente dessa habilidade, mas o talento é exceção em todas as áreas. Estou aqui falando sobre aula como um classicista falaria sobre arte, o que seria imediatamente desbancado ou reinventado por um gênio artístico, ou, no nosso assunto, um gênio pedagógico. Infelizmente um sistema de ensino obrigatório e público não sobrevive de gênios. A raridade de uma pessoa nascer com o talento concentrado numa área específica de trabalho é desanimadora, como bem se sabe.
Da mesma forma, como disse antes, a impossibilidade de professores não geniais perfectibilizarem a elasticidade emocional é preocupante, portanto o sistema poderia sobreviver sem gênios apenas se abaixasse o número de alunos. Só que isso aumenta o custo da educação, e ninguém quer gastar com ela! A política de educação é sempre "menos". O dinheiro só pode fluir mais para programas voltados a apagar incêndio (em parte porque aí a verba pode ser mais facilmente desviada, aparentemente). Uma vez que outra se cria novas instituições, é verdade, mas elas nunca são montadas até o fim. O nome, talvez o prédio, ficam lá para serem contabilizados, mas a educação segue na mesma.
Se alguém precisa de uma desculpa para racionalizar seu abandono da profissão, portanto, pense nisso: como vai a sua elasticidade emocional?
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Teocracia americana
Jesus é a favor dos impostos?
Jesus é a favor de uma máquina estatal enxuta?
Jesus restringiria as boas ações a esmolas e ONGs? Só a esmolas? Só a ONGs?
Jesus era a favor do capitalismo mais liberal já imaginado?
Numa demonstração assustadora de ignorância, burrice e anacronismo, os republicanos transformaram de vez a discussão política em teologia. Nem mesmo o que deveria ser o campo do milagre, do absurdo e da superação do que há de mais terrível em nossa natureza escapa à simplificação de que tudo é mercado, tudo é de troca.
Sendo a política uma teologia, as eleições, a escolha do mais perfeito cristão e a corrida por votos, uma teogonia, o que impede ainda os EUA de serem chamados de uma teocracia?
Para os absurdos, ler aqui.
segunda-feira, 26 de março de 2012
A educação estadual e nosso querido maior jornal
Estando os professores estaduais em greve e sendo o Rio Grande do Sul o recordista em pior salário do Brasil, não foi ingenuamente que a Zero Hora publicou no final de semana que o estado é também o recordista em reprovação no Ensino Médio. É claro que o problema começa a se montar no Fundamental, mas estoura mesmo no Médio, responsabilidade central do estado, não dos municípios.
Foi, no entanto, com ingenuidade que a matéria foi escrita - ou estou subestimando o pessoal? Vejamos.
Dizia o jornal, "A cada ano, perto de 300 mil alunos são afetados por um dos mais graves problemas da educação gaúcha: o alto índice de reprovação."
Dizia o jornal, "A cada ano, perto de 300 mil alunos são afetados por um dos mais graves problemas da educação gaúcha: o alto índice de reprovação."
O fraseamento não é feliz, pois identifica aquilo que serve justamente ao governo à custa da população, colocar a reprovação como problema grave, não a falta de educação que apenas em parte está referida pelo índice de repetência.
Em primeiro lugar, muita gente passa sem saber metade do que seria satisfatório. Reprovação não é igual a falta de conhecimento, portanto. Além disso, outras questões, como faltas excessivas (pelos mais diversos motivos), provocam igualmente repetência. O mal social
Em segundo, o problema da repetência é, como indica bem a matéria, também um problema de "investimento" vazado, pois o dinheiro que o aluno custa ao estado até acabar abandonando a escola (resultado comum da repetência endêmica) é indiretamente dinheiro do povo, mas não é isso que preocupa a população. É o governo que vê as contas. A população em geral está mais preocupada com o efeito social da coisa que com a economia do governo, ainda que se possa criticar isso na opinião pública.
O crucial, no entanto, é que as medidas para mascarar a falta de educação (algumas já postas em prática) dão conta de diminuir a porcentagem da repetência sem que os alunos aprendam mais. Se o problema são números e estatísticas, subterfúgios dão conta. Se o problema central for a falta de educação do povo, a tragédia é bem mais embaixo e muito mais complicada de ser resolvida.
Além desse infeliz lead da matéria, quem a escreveu resolver dar voz a bobagens de quem está no governo e acabou não enquadrando o problema da greve, o que necessariamente faz pensar que o implícito que vimos no início estava errado e que também em relação a isso os jornalistas sofreram de ingenuidade ou má-fé. Adivinhem para qual destas estou apontando? Mas, leiam o resto se querem saber os indícios:
Eles deram voz, por exemplo, ao secretário estadual da Educação, Jose Clovis de Azevedo. Este afirma que a reforma do Ensino Médio, resistida por professores, mirava a solução desse problema. Faltou apenas verificar que essa reforma foi imposta goela abaixo de qualquer jeito, sem qualquer planejamento ou preparação adequados. Seria interessante lembrar também que não foram apenas os professores que se opuseram à reforma, que mais pareceu um plano para enfraquecer a educação do estado do que para fortalecê-la. O governo não foi capaz de informar satisfatoriamente a população interessada se esta estava redondamente enganada como o secretário acredita. Perdidos do que aconteceria no dia seguinte, os professores estaduais entraram nas escolas neste ano despreparados para encarar uma mudança estrutural confusa e de valor duvidoso. Era essa a forma para ajudar a resolver o problema da repetência?
Priscila Cruz, diretora-executiva do Todos pela Educação, comenta a cultura de "rigidez" que teria sobrevivido no Rio Grande do Sul, diferente dos outros estados. Aqui, como afirmam (a matéria não deixa claro quem), os professores ainda usariam a repetência como ferramenta pedagógica. Apenas um detalhe: essa informação é verdadeira também para professores de outros estados (não para uma minoria deles), e - para pisar nesta tecla - também sobreviveu só no Rio Grande um salário ínfimo para a educação estadual. Posso provar essa diferença de salário. Alguém prova nossa cultura tão diferente? Os jornalistas realmente tratam como se fosse a única possibilidade de explicar o índice. Que gente sem imaginação... e sem conhecimento sobre o problema.
Também veio com a questão de problema "cultural" a ex-secretária da Educação Mariza Abreu, afirmando que "A implantação dos ciclos em Porto Alegre não teve bons resultados, então ficou no inconsciente coletivo a impressão de que reprovar é melhor do que a aprovação automática." Além do uso bastante infeliz de "inconsciente coletivo", seria interessante ouvir a secretária falando sobre os benefícios da aprovação automática, sistema pelo qual os alunos não aprendem, não respeitam professores e escola, mas também não rodam. Ótimo! Muito melhor.
Por fim, fala-se que a repetência não ajuda em nada a nota do aluno. Seguindo no texto, no entanto, temos a sensação de que o "nada" é forçado, e os dados de base são bem engraçados. A conclusão vem de uma comparação a respeito de notas em matemática. Ou seja, uma entre tantas matérias do currículo, sendo que a separação entre matérias que rodam e as que não rodam não serve há já algum tempo, ao menos não para caracterizar o quadro todo. Justamente porque governo algum quer números "feios", um conjunto pesado de professores precisa rodar um aluno para que ele realmente fique no mesmo ano. Portanto, é bem possível que um aluno rode sendo bom em matemática, ou sendo ruim em todas as matérias, inclusive matemática, o que seria resultado de inúmeras dificuldades imagináveis, não necessariamente uma dificuldade com a matéria - por exemplo, completo desinteresse na educação formal, falta absoluta de estudo.
Além disso, os números indicam que 1/4 dos alunos rodados se saem bem em matemática ("conforme os padrões esperados pelo estudo", não se animem). Por que eles foram bem? Que variáveis foram observadas? Todos os outros tinham problemas de aprendizagem em matemática? Não se sabe. Na retórica desses jornalistas, a porcetagem cai de 25% para "nada", e o que cada um dos "valores" representa sobre a realidade dos fatos não fica claro.
A matéria, enfim, é uma possibilidade para o pessoal do governo falar sobre a incompetência do próprio governo jogando a culpa nos professores: "nós fomos responsáveis pela educação no estado, que está uma merda, e isso é porque eles estão errados... ah, a gente manda neles, mas não tem culpa mesmo assim".
E onde os professores erraram mesmo? Não apoiaram a reforma quista pelo governo (não explicada na matéria), são culturalmente fracos em sua pedagogia, vítimas de um senso comum que os queridos secretários ainda não conseguiram iluminar e, implicitamente, sem moral para reclamar de salário. Afinal, não se acredita que a greve realmente não seja contexto para a matéria, não é? Acontece que a Zero não aproveitou para reclamar do vexame nacional do RS. Aproveitou, sim, para reforçar que essa gente não merece receber bem ou parar para reclamar disso: "os burrinhos ainda acham que repetência educa".
Pelo menos o governo do estado não está sozinho: nosso principal jornal também não dá a mínima para educação pública.
Matéria aqui.
E onde os professores erraram mesmo? Não apoiaram a reforma quista pelo governo (não explicada na matéria), são culturalmente fracos em sua pedagogia, vítimas de um senso comum que os queridos secretários ainda não conseguiram iluminar e, implicitamente, sem moral para reclamar de salário. Afinal, não se acredita que a greve realmente não seja contexto para a matéria, não é? Acontece que a Zero não aproveitou para reclamar do vexame nacional do RS. Aproveitou, sim, para reforçar que essa gente não merece receber bem ou parar para reclamar disso: "os burrinhos ainda acham que repetência educa".
Pelo menos o governo do estado não está sozinho: nosso principal jornal também não dá a mínima para educação pública.
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