Enquanto isso, na fila do atendimento:
- Fomos no Louvre. Que é um museu. Show de bola!
- Tu vê né, ela resolveu ir pra Paris, e não quis ir na Disney.
- É que ela leu aí um... um Dan Brown... e desde então ficou louca pra conhecer a cidade, os museus, as coisas de lá...
Falando sobre tudo de linguagem que chamar a minha atenção: placas, conversas, citações... Deem uma chance lendo aí embaixo e vão sacar o foco.
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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Estupro e Cotas ou Crime nem Sempre é Crime
(Há apenas suspeita de estupro no BBB, mas a maioria das pessoas que vi comentarem ou compartilharem mensagens de facebook a respeito consideram que houve estupro, então vou indicar quase sempre como fato, já que o que rola na mente das pessoas é mais importante neste post do que a solução do caso, já veremos o porquê. Estive longe do computador por muitos dias, então lucro com a persistência do assunto para ainda deixar um comentário.)
A ideia de que crime é crime, no Brasil, não fez sucesso. Não digo que tenha feito sucesso em ALGUM lugar, mas só posso falar com convicção daqui...
Uma das principais críticas a cotas e leis "específicas", como para o caso de homofobia, é que a lei deveria ser para todos e que (por exemplo), se é crime bater em cidadão, que o cidadão seja homo ou heterossexual não deveria fazer diferença. Ou ainda, preconceito poderia agravar o crime, mas não poderia ser um crime específico bater em homossexual, porque isso seria uma espécie de discriminação compensatória: não quero que tratem homossexuais de forma diferente, então eu, como juiz, trato-os de forma especial, ou seja, diferente).
Cotas têm uma "problemática" semelhante. "Eu não quero que discriminem negros", por exemplo, "então vou eu mesmo tratá-los como diferentes dando certas vagas para as quais não foram selecionados, assim eu mesmo tratando-os de forma diferente".
Vamos aceitar esse ponto de vista temporariamente. Pois bem, supomos então que se está lutando por que as pessoas sejam tratadas de forma semelhante. Todos iguais perante a lei. O que o BBB tem a ver com isso? Que ele ilumina o quanto essa igualdade é problemática por aqui.
A mulher supostamente estuprada tem algumas características-chave: é vista como vagabunda (para a média de comportamento brasileiro - variando, ao que percebo, entre o "normal" e "muito vagaba", mas apenas em casos de exceção), conseguiu participar do BBB, havia bebido numa festa e contradiz-se todas as vezes que pôde, dando uma resposta diferente sempre que lhe perguntaram algo sobre aquela noite. Que o BBB seja um programa da Globo também é uma informação crucial.
Supomos, como avisei, que o estupro tenha acontecido. É crime, hediondo (graças à luta legal de um pai), por enquanto. Reações: achar absurdo, culpar a Globo, culpar o Bial, culpar a mulher, culpar a vagabunda, culpar a vítima, culpar a bebida, culpar o telespectador, culpar quem achou que houve estupro.
Talvez se observe que listei a vítima mais de uma vez, mas isso porque as pessoas a culparam das formas mais inventivas, talvez numerosas demais para este post. Racionalmente, nenhuma delas merece respeito nem muito assunto porque são aquelas variações das velhas respostas machistas: se a mulher fez qualquer coisa que seja atraente para um homem, "estava pedindo". Às vezes isso se disfarça melhor, considerando que a vítima poderia ter tido mais cuidado (o que não desculpa nenhum crime, como talvez um momento de raciocínio revele a todo leitor), às vezes essa postura é franca: "é uma vagabunda mesmo", "tava se engraçando toda na festa", "são dois adultos" (??), "o que um não quer dois não fazem" (?!?!?!), "quem tá na chuva é pra se molhar"...
Todas as vezes que a vi acusada - de aproveitar a aparência de estupro (?) ou de ser culpada mesmo - o fato de ser uma pessoa buscando celebridade, de estar no BBB, de ser considerada burra, puta ou qualquer combinação das características acima era fundamental para desculpar o suposto estuprador. Ou para apoiá-lo! Espero francamente não ter de alongar o post apontando como essa lógica ser comum é preocupante.
Um dos piores aspectos da história toda, no entanto, foi o quanto as pessoas passaram a criticar ou compartilhar (no facebook) contra quem comentou o assunto como uma situação grave (celebridades, amigos ou anônimos). Mensanges como "Eu sei que ninguém vai compartilhar (essa acusação sobre violência contra cachorro, ou esse exemplo de um prisioneiro de tal lugar, ou sei lá) pq n tá no BBB", ou ainda "se estivesse no BBB, tava todo mundo compartilhando o exemplo desse político (bem conhecido muito antes do escândalo)" abundam nos últimos dias, uma grande crítica à média da população por quê? "Porque as pessoas se importam com um caso de estupro..." Não, claro! Trata-se de uma grande e pomposa crítica a alguém se importar com BBB, AINDA que role um estupro lá!
Eu sei que, parando para pensar, muita gente diria que não é isso que está tentando apontar, e acharia uma racionalização meio moralista e meio cult, mas é isso que está sendo dito, das mais diferentes formas. Acontecer um estupro no BBB é assunto menor porque o programa é uma fábrica de celebridades que "corrompe" o país, sua população, e toda essa boa gente que está desculpando ou diminuindo a importância de um estupro para mostrar como é superior e informado, só porque não curte o programa.
Quer dizer: onde o estupro acontece, com quem acontece, quais as consequências de sua investigação (vai sobrar para a Globo ou não? ela vai posar pra Paparazzo ou não?) são fundamentais para que um "crime hediondo" seja relevante.
O que isso tem a ver com cotas e homofobia e os assuntos citados no começo? É o seguinte: o caso do BBB é mais um exemplo de que a lei é para uns, em certas situações e dependente do resultado previsto para o caso (facultativo) de ser exercida. Assim é com as coisas mais estranhas possíveis, até mesmo com o prototabu do estupro. Seria legal se homossexuais pudessem lucrar com a lei e responder a ela da mesma forma que os heterossexuais, a ponto de não precisarem ser diferenciados legalmente (o casamento gay, aliás, é uma equalização que já não se aceita...)? Seria. Mas isso exigiria que se entendesse que lei é lei, independente de gostarmos ou não da vítima, independente que gostarmos ou não do resultado do cumprimento da Constituição.
Não estou querendo apontar que essas diferenciações legais resolvem o mundo, apenas indicar que elas combatem/refletem a forma como se entende justiça por estas bandas. A "justiça" atualmente não é apenas para uns, ela tem diferentes graus em cada contexto, a ponto de poder ser meio ignorada e, em alguns casos, absolutamente não valer. Aí é complicado.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Cinema ou Miss Hollywood?
Quando eu era criança, conhecia só duas experiências possíveis de filmes: assistir diretamente aos filmes e assistir ao Oscar. A maioria das opiniões que escutava era de amigos ou parentes próximos, o que não diferenciava ainda de uma experiência pessoal, mesmo porque quase ninguém tem mais a acrescentar sobre filmes do que "gostei" ou "não gostei". No caso do Oscar, tanto o "gostei" quanto o "não gostei tanto", indicados pela premiação ou pela simples indicação, tinham todo um aval técnico implícito, de modo que mesmo a seleção de quem concorria me indicava algum valor um tanto mais profundo reconhecido nesses filmes, e isso já me dava o que pensar.
Além disso, só no Oscar eu via um crítico de cinema realmente se deter em alguns filmes. Na época eu nem lia muito a revista de cinema que era assinada lá em casa e, quando a lia, ainda me perdia mais no celebrismo, nas fotos e na descrição dos filmes, sem perceber tão bem a parte crítica. Com o tempo isso mudaria, assim como o Oscar seria a principal, mas não única via, com Globo de Ouro e Cannes (sendo inventado e) ganhando espaço.
O crítico de cinema em questão era (Rubens) Ewald Filho. Depois de alguns anos, tanto a festa quanto a imagem do crítico começaram a ser minadas para mim. O peso do dinheiro na escolha do premiado e alguns valores que influenciavam a escolha do juri (não só os valores, mas até o fato de se considerar algum valor moral ou social num prêmio de cinema foram pintados com as piores tintas, claro) manchavam, teoricamente, o Oscar. E por um tempo isso me influenciou sem que eu achasse um norte mais pessoal para pesar as considerações que se mostravam óbvias.
Ewald Filho também foi criticado, geralmente por baboseiras como jeito de falar ou aparência. Diferente da festa, ninguém parecia achar que o crítico precisasse de objeções sérias. Qualquer coisa servia para descartá-lo, como uma celebridade ou um personagem de novela de quem não se gosta.
Não apenas pela falta de critério, as críticas a ele não me afetavam de forma prática nunca, porque eu continuava observando que, dissessem o que fosse a respeito da pessoa, ele era o único a tratar verdadeiramente de cinema na TV, que era minha principal mídia de informação e lazer. Mais do que isso, ele parecia saber muito sobre cinema, enquanto a mulher contratada para ficar bonita do lado dele só sabia falar sobre vestidos, penteados, casos e casamentos dos atores (até diretores eram distantes demais desse mundo para que ela soubesse fofoca, aparentemente). Ewald se interessava pelo cinema, não pelas celebridades, e isso me parecia ainda um valor inestimável, mesmo que ele tivesse dito a maior burrice ou babaquice a respeito de qualquer filme, o que de fato não vi acontecer.
Com o tempo, porém, foi o espaço da mulher do lado dele, fosse qual fosse (produtores de TV pareceram sempre conscientes de que, para o que pediam, não importava mesmo que mulher colocavam do lado) que foi crescendo - e era o crítico, muitas vezes, que era convidado a falar sobre fofocas, não a fofoqueira-profissional-por-uma-noite convidada a falar sobre filmes. A única exceção foi a época em que Marília Gabriela o acompanhou, mas ela, como se sabe, é uma das poucas apresentadoras com Licença para Usar QI, e na época acho que era a única (ela, no entanto, esteve atrelada ao SBT, o que complicava a parceria). Marília podia falar sobre tudo na apresentação, até sobre cinema, vejam só!
Talvez pareça que indico a indústria da moda como uma indústria sem QI. Não é o caso, mas só falar sobre moda (e fofocas) quando o assunto são filmes e estender seus comentários no limite àqueles "gostei" ou "não gostei" desse cabelo/vestido/sapato não é marca de inteligência nem de se conhecer moda.
Talvez pareça que indico a indústria da moda como uma indústria sem QI. Não é o caso, mas só falar sobre moda (e fofocas) quando o assunto são filmes e estender seus comentários no limite àqueles "gostei" ou "não gostei" desse cabelo/vestido/sapato não é marca de inteligência nem de se conhecer moda.
Como dizia, o diferencial do crítico era gostar de cinema, mas parece que se deu mais e mais espaço exatamente para quem não gosta da coisa, e precisa falar sobre indumentária e relacionamentos amorosos para matar o tempo e "entreter o telespectador" (que, pelo jeito, supõem também não gostar de cinema). O que o pessoal que comenta festas de cinema parece pensar é que ninguém vai assistir a premiação alguma, então é melhor não gastar dinheiro na cobertura, nem mesmo pagando para "jornalistas" comentarem ao vivo.
O problema é que a internet é a mídia do momento, tanto no sentido de "atual" quanto no sentido de "ao vivo". Não existe mais desculpa para não se cobrir um programa em tempo real, e a concorrência vai fazer exatamente isso. Resultado: seguem pagando mal (só posso supor, porque as coberturas não merecem salário) para gente que quer falar sobre outra coisa.
Ainda assim, a Folha de São Paulo merece um prêmio. Seus comentaristas no site compararam prêmio pela obra para Morgan Freeman com quadro do Faustão (descartaram Freeman com aquele "não gosto" de adolescente em sorveteria), ficaram falando sobre quem é atraente ou não, fazendo piadas semi-internas e tratando o público de artistas como idiotas porque não os percebiam rindo muito das piadas. Supunham obviamente que os americanos não estivessem entendendo as piadas, não que não as achassem tão engraçadas quanto os "comentaristas" (ou que o microfone não estivesse pegando muito suas risadas, o que é bem comum nessa cerimônia). Sabem como é, igualar artista norte-americano a "burro" é absolutamente natural para uma pessoa contratada a comentar arte norte-americana...
Minha expectativa é baixa, nem sabia que a Folha tinha esse acompanhamento aliás (agora vejo por que nunca ouvira falar a respeito!), mas ainda assim era de assustar.
Minha expectativa é baixa, nem sabia que a Folha tinha esse acompanhamento aliás (agora vejo por que nunca ouvira falar a respeito!), mas ainda assim era de assustar.
Não posso falar sobre o acompanhamento em canais fechados, porque passei obviamente, quando assisto, a aproveitar o acesso direto à cerimônia, sem comentaristas nacionais. Está longe de ser minha conexão única com cinema, bem como não vivo há muito restrito a Hollywood, é claro, mas ainda me impressiona que o pessoal que tenta apresentar pelo menos esse cinema para o grande público continue irresponsavelmente falando sobre outros assuntos ou escolhendo gente que não gosta de cinema para tapar o buraco. Eu esperava que ao menos o cinema que dá enorme lucro merecesse alguma atenção mais séria das empresas de TV, que (por também viverem do lucro) necessariamente veriam valor pelo menos por esse lado. Mas nem isso Hollywood merece, o que me parece dar uma medida do gigantesco desrespeito com o tema e, portanto, com o público para quem ainda acham que precisam fazer uma cobertura.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Para onde foi Charlie Sheen?
Lembram quando era legal ler ou ouvir notícias sobre Charlie Sheen? Mesmo quando se sabia algo ruim, como suas prisões ou estadas em instituições para desintoxicação, havia um lado positivo: seus problemas serão enfrentados, tomara que ele retorne e faça outros grandes filmes...
O grande problema foi mesmo ele ter mudado de profissão. De um ator célebre, escolheu o caminho da celebridade que atua. Desde que vem seguindo o exemplo, só posso crer, de Hilary Duff ou Miley Cyrus, adquiriu todos os trejeitos dos "herois da contra-cultura" que se consideram centros do mundo em lojas de LPs regorgitando preconceitos provincianos e censuras absolutas às pessoas de fora de seus círculos. Isso vindo de um cara que até há pouco podia se gabar de ter atuado em Platoon, Wallstreet (mesmo que sob violento efeito de drogas), Being John Malkovich, além de clássicos mais Sessão da Tarde como Top Gang e Três Mosqueteiros. Sua celebridade vinha de filmes legais, boas atuações e de sua família, particularmente do pai, Martin Sheen. As drogas eram um detalhe triste.
Agora é o contrário: drogas e prostituição são a essência do showman, carreira e família são detalhes trsites no quadro geral. O grande efeito colateral é que, com isso, ele também se tornou tão pouco interessante quanto Hilary Duff ou Miley Cyrus, além de, "grande revoltado", estar liderando o medidor de seguidores do twitter. Para usar um critério adequado à sua visão de mundo, Winner com L maiúsculo.
domingo, 28 de novembro de 2010
Acusação necessária
Pena que ela disse isso há uns anos e só vi agora...
"If you think about it, white people have some incredible conspiracy theories, you know? 'Elvis is still alive', 'Britney Spears has talents'..."
Aisha Tyler
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terça-feira, 24 de agosto de 2010
A Cultura está no Ego que Infla
Porto Alegre é uma cidade cultural, o que é um verdadeiro monumento à máxima "querer é poder" já que, comparada com cidades culturais, Porto Alegre parece antes pretensiosa que outra coisa. E digo que a fórmula funciona porque, convencendo os moradores da metrópole e dos arredores, faz com que todo mundo que queira fazer algo "cultural" tente, se esforce, acredite. Ou seja, nossa parca (em relação a grandes centros mundias) vida cultural seria ínfima ou inexistente não fosse nossa constante pregação do contrário. Em Porto Alegre, para orgulho dos sociólogos, é a crença que funda a realidade.
Eu curto esse sistema, esteticamente falando mesmo, mas ele carrega um "porém" bem irritante: como um meio cultural prevê intelectuais, e esses não nascem tão facilmente quanto um happening, quem se apresenta pega o volante. Não é que não existam intelectuais num sentido clássico, mas eles são muito, muito, muito raros. Raros demais para que brotem suficientes "intelectuais-interessados-em-público" para alimentar um meio que existe literalmente só porque a gente quer.
Quem, então, ocupa o espaço? Os amadores profissionais! Tenho certeza que não nos são exclusivos, mas os conheço apenas por aqui. Talvez sejam a versão moderna do que Machado descrevia em "Teoria do Medalhão"... Enfim, como uma celebridade cultural, o amador profissional tem autoridade porque tem. Sua palavra vale porque é a dele, seus comentários são interessantes porque assim ele e outros amadores profissionais o disseram. E eles falam, claro, sobre tudo. Para se ter uma ideia de como se metem em qualquer assunto, tendem a trabalhar como cronistas. Geralmente vêm da literatura, escrevendo, criticando ou ensinando a respeito, ainda que alguns mantenham outras profissiões paralelamente, seja Contábeis ou Medicina (não, não considero o Scliar um exemplo de amador profissional).
Enfim, um dos traços fundamentais do amador profissional é entender de mercado. Eles confundem ganhar dinheiro em profissões ligadas à cultura com "meu produto é cultura". São, novamente como as celebridades de outras áreas, bons em se vender. Uns melhores que outros, mas mantêm uma média satisfatória. Hoje, por exemplo, foi a repetição de um evento de amadores no Fronteiras da Educação, um puxadinho do Fronteiras do Pensamento, gigantesco grupo de palestras com bambambãs internacionais (alguns não) que vêm na cidade resumir a mensagem geral de seus livros e talvez autografar alguma coisa. As boas palestras e o proveito que alguns possam ter tirado de cada uma delas (nos Fronteiras) não justificam, porém, que os amadores profissionais achassem que, podendo armar a barraca no puxadinho, tivessem algo de relevante a dizer. Preocupados em evitar a disputa com os estrangeiros, que tinham como público em geral professores e acadêmicos, pensaram alto e retoricamente: "Por que não oferecer algo a nossos alunos também, não?"
Achada a retórica, feita a porcaria. Passou-se então a se organizar excursões de pré-adolescentes para ver cada nova apresentação do que seria uma palestra e, de fato, lembra mais começo de formação de empresários, com muitos gestos, muito barulho e quase nada a mais que isso. Um professor, servido com o abacaxi de ter um salão enorme lotado de pré-adolescentes e dois amadores profissionais do lado, tenta passar algo da questão-motivo do acontecimento, "Revolução Cultural e Desafio Ambiental". No meio da baderna, do barateamento (assustador) de maio de 68 e de piadas que só funcionam para pré-adolescentes (ou seja, para quem, sexualmente, nasceu ontem), os intelectuais à Porto Alegre pregraram o desrespeito e a liberação sexual.
Que desconhecimento de público! Quantos alunos têm real compreensão e interesse em saber sobre França, faculdade e História Antiga (para eles, muito antiga)? Quantos deles não tentam efetivamente desrespeitar o maior número de adultos do maior número de formas possível e transar (ou as sublimações a que têm acesso) o tempo todo? E não digo isso para tachá-los de bárbaros, digo para perguntar mesmo há quanto tempo os "palestrantes" não ENCONTRAM um pré-adolescente?!
Bom, a galera aproveitou o passeio: ficaram com quantos conseguiram e picharam os banheiros da universidade que os recebeu. Os alunos não se preocuparam em escutar mesmo o que os amadores mais espalhafatosos estavam realmente dizendo, mas adoraram o evento. Nitidamente essa gente tem algo a dizer aos jovens! Sim, os alunos precisam de uns caras que parecem nem entender (minimamente) de 1968 para lhes pregar baderna e sexo...
terça-feira, 17 de agosto de 2010
"É chato ser gostosa"
Bom, devo dizer que a frase serve a este post se "gostosa" for entendido em sentido amplo. Digamos, "é chato ser bonitinha". Pelo menos é o que andam expressando as adolescentes que não são nem gordas nem magras demais, que têm suas características marcantes de rosto, mas que claramente não são feias. E não é que seja chato num sentido de tédio. Não, deve ser MUITO chato. Só pode ser, já que andam todas por aí com cara de nojo. Na adolescência, eu devo mesmo só ter olhado para tudo em minhas amigas com exceção do rosto para não ter notado como gurias apenas mais bonitas que a média de suas colegas vivem com cara de nojo, no ônibus, na escola, na rua, na fazenda...
Não que elas não tenham razão. Elas sentem a marca da superioridade em tudo o que fazem: não são feias (logo, superioras), não são guris (logo, superioras) e não são compreendidas pelas adultos (logo, superioras). Ah, claro, têm paixão por cantoras que fazem clips com muito sucesso em que as heroínas aparecem chamando a atenção dos guris mais velhos e olhando para os adultos com... cara de nojo.
domingo, 20 de junho de 2010
Redescobrindo celebridades
A Geisy, da Uniban, (lembram?) ainda vive como famosa. Não sabia. Conforme a Época, ela aparece em programas de TV e faz "participações VIPs" (programa de luxo?) em festas. Além disso, lançou sua grife, claro: já tinha gente vendendo vestido curto com o epíteto de "estilo Geisy" e, tendo a marca, ela nem precisa gastar muito com tecido. Mas a motivação mesmo de ela ser citada na revista, e aqui, é que estão lançando uma biografia da guria!
Preciso de um livro dos récordes para saber se já lançaram a biografia de alguém com 21 anos de idade na história. Provavelmente sim, mas não é desculpa para se repetir a afronta. Só para brincar com o contexto, está saindo agora também uma biografia do Maradona! Ambos com a fama chefiada por escândalos, ok, mas convenhamos...
A "beleza" financiada pelos "fãs e amigos" quer ser atriz, é óbvio, e quase estuda para isso. Faz algumas aulas, "exceto quando tem compromissos mais importantes, como ir à depilação", comenta a jornalista da revista, com uma maldade que magoa meu ingênuo senso de respeito igual a todo indivíduo. Quanto a ter uma formação profissional (digamos que suas parcas aulas de teatro não prometem), alega que não a deixariam em paz enquanto o incidente da Uniba não for esquecido, a que a jornalista responde, no fim da matéria: "Quando esquecerem, estudar talvez seja a única alternativa". Que maldade...
Preciso de um livro dos récordes para saber se já lançaram a biografia de alguém com 21 anos de idade na história. Provavelmente sim, mas não é desculpa para se repetir a afronta. Só para brincar com o contexto, está saindo agora também uma biografia do Maradona! Ambos com a fama chefiada por escândalos, ok, mas convenhamos...
A "beleza" financiada pelos "fãs e amigos" quer ser atriz, é óbvio, e quase estuda para isso. Faz algumas aulas, "exceto quando tem compromissos mais importantes, como ir à depilação", comenta a jornalista da revista, com uma maldade que magoa meu ingênuo senso de respeito igual a todo indivíduo. Quanto a ter uma formação profissional (digamos que suas parcas aulas de teatro não prometem), alega que não a deixariam em paz enquanto o incidente da Uniba não for esquecido, a que a jornalista responde, no fim da matéria: "Quando esquecerem, estudar talvez seja a única alternativa". Que maldade...
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Nada de Meryl Streep
"'Quando fumei maconha, me senti gorda e paranoica': Campeã de bilheteria, a atriz - cujo personagem em Simplesmente complicado também usa a droga - revela como faz para se manter bela e desejada aos 60 anos".
Eis a chamada para uma entrevista com Meryl Streep! A forçada junção de personagem e atriz pela experiência com maconha serve para um comentário desnecessário que aglutina indistintamente a prática da primeira ("usa a droga") e uma experiência nitidamente pontual da segunda ("quando fumei", seguido de uma descrição aparentemente nada favorável do efeito). Tudo isso para colocar a fala da maconha no título? Por que seria grande coisa, algo chocante, que alguém tenha provado maconha? Essa é a "grande fala chamativa" que o cara conseguiu destacar numa conversa com Meryl Streep?!
Bem, a primeira pergunta da entrevista já diz muito. Sendo a atriz que mais concorreu ao Oscar (16 vezes), ela "perdeu" muitos, é claro. No caso, o último que ela ganhou foi em 1983. E o cara, tendo tanto a explorar, coloca uma pergunta a respeito, e da seguinte forma: "Não é frustrante perder sempre?"
Claro que, se o objetivo, como indica a manchete, era descobrir como ela se mantém "bela e desejada", não podia ter ido muito longe mesmo. Mas talvez fosse o caso de colocar esse jornalista a entrevistar Sabrina Sato ou Luciana Gimenez.
Eis a chamada para uma entrevista com Meryl Streep! A forçada junção de personagem e atriz pela experiência com maconha serve para um comentário desnecessário que aglutina indistintamente a prática da primeira ("usa a droga") e uma experiência nitidamente pontual da segunda ("quando fumei", seguido de uma descrição aparentemente nada favorável do efeito). Tudo isso para colocar a fala da maconha no título? Por que seria grande coisa, algo chocante, que alguém tenha provado maconha? Essa é a "grande fala chamativa" que o cara conseguiu destacar numa conversa com Meryl Streep?!
Bem, a primeira pergunta da entrevista já diz muito. Sendo a atriz que mais concorreu ao Oscar (16 vezes), ela "perdeu" muitos, é claro. No caso, o último que ela ganhou foi em 1983. E o cara, tendo tanto a explorar, coloca uma pergunta a respeito, e da seguinte forma: "Não é frustrante perder sempre?"
Claro que, se o objetivo, como indica a manchete, era descobrir como ela se mantém "bela e desejada", não podia ter ido muito longe mesmo. Mas talvez fosse o caso de colocar esse jornalista a entrevistar Sabrina Sato ou Luciana Gimenez.
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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Que texto bem feito...
Mas, se EU tivesse escrito, já iam criticar minha excessiva ironia:
"Com Diploma de Fama
Um mês depois de reposicionar 5 litros de gordura da frente para trás e inflar o decote com 435 mililitros de silicone, eis que ressurge a dona daquele vestidinho rosa. Na versão 2010, GEISY ARRUDA, 20 anos, ostenta generosos 105 centímetros de seios e iguais dimensões de quadril, cintura afinada, pele recuperada e extensões capilares em constante expansão. 'Tive de investir para ficar bem no Carnaval', teoriza. Geisy vai sair na Gaviões da Fiel, em São Paulo ('Sou corintiana louca doente'), e na Porto da Pedra, no Rio de Janeiro - nesta, de Elizabeth I, 'uma rainha virgem, um negócio bem chique'. A transformação foi bancada por doações em espécie ('Clientes do meu cabeleireiro fizeram até vaquinha') e serviços. 'Sabe não ter dinheiro? Estou assim', informa. 'Quero trabalhar. Só não volto para o mercadinho onde era caixa porque foi assaltado e tenho medo'."
Veja - 20 de janeiro
"Com Diploma de Fama
Um mês depois de reposicionar 5 litros de gordura da frente para trás e inflar o decote com 435 mililitros de silicone, eis que ressurge a dona daquele vestidinho rosa. Na versão 2010, GEISY ARRUDA, 20 anos, ostenta generosos 105 centímetros de seios e iguais dimensões de quadril, cintura afinada, pele recuperada e extensões capilares em constante expansão. 'Tive de investir para ficar bem no Carnaval', teoriza. Geisy vai sair na Gaviões da Fiel, em São Paulo ('Sou corintiana louca doente'), e na Porto da Pedra, no Rio de Janeiro - nesta, de Elizabeth I, 'uma rainha virgem, um negócio bem chique'. A transformação foi bancada por doações em espécie ('Clientes do meu cabeleireiro fizeram até vaquinha') e serviços. 'Sabe não ter dinheiro? Estou assim', informa. 'Quero trabalhar. Só não volto para o mercadinho onde era caixa porque foi assaltado e tenho medo'."
Veja - 20 de janeiro
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domingo, 6 de dezembro de 2009
Filosofando Fernanda Young
Neste mundo "sem fronteiras" de estudos culturais, pós-modernismo, pós-colonialismo, liquidez e propagandas surreais de celular, volta e meia surgem extremos que indicam a sobrevivência de nossas tradições culturais mais antigas, como o do dualismo entre corpo e alma. Na hora do vamovê, suas fronteiras podem ser bem claras (por exemplo, a prostituição seria uma realidade ancestral que acharíamos difícil de entender se não diferenciássemos com muita facilidade corpo e personalidade ou "intimidade").
A Playboy da Fernanda Young estampada numa banca teve esse efeito pra mim. Não sei se não teve um análogo para outros caras. Ele partiu de uma sensação de vazio ao olhar para ela como coelhinha da Playboy. Ou ela é "Fernanda Young", e sua nudez é então meio um ato político, meio um ato de arte, ou ela é só uma coelhinha (ainda que de capa), e não se justifica que ela pose nua nessa revista a menos que seja como a "Fernanda Young", ainda que a "Fernanda Young" pousando na Playboy seja esse contrassenso que estou tentando explicitar aqui.
Ela é uma das poucas celebridades que temos erguida sobre seu próprio cérebro. É o que este faz consigo mesmo e com o corpo que ele governa que faz dela a "Fernanda Young", quer as pessoas gostem do resultado ou não. Essa celebridade não é imagética, mesmo que algumas pessoas possam achá-la gostosíssima, linda ou intrigante, por mais que ela seja tatuada e trabalhe muito com o corpo simplesmente por ser atriz. Ela pode, portanto, agir pousando nua, o que subverte a revista, como disse, num ato de arte ou política, mesmo que despretensioso (ou até de simples marketing para seu recente livro, que seja!). Mas a revista não pode subvertê-la numa "celebridade gostosa". Depois de Scheilas, Ninjas, Mulheres Frutas e Porta-Bandeiras (ou tudo isso ao mesmo tempo), a revista é assumidamente sobre celebridades peladas, duplamente sobre imagem, não sobre artigos e piadas como aprendemos a dizer na puberdade, ou seja, não sobre conteúdo. Por favor: a matéria indicada na capa diretamente abaixo do nome da Fernanda fala de 800 casais "no maior swing do mundo" ("e a Playboy esteve lá" - e azar o de vcs ora!).
Enfim, nada poderia ser menos "pós-moderno" e (estranhamente) mais falso do que essa revista exposta nas bancas sem alarde ou propaganda especial alguma, como se fosse igual a todos os números que a precederam. Não é o corpo da Fernanda Young o que mais interessa nela, e isso a tal ponto (para uma mulher saudável e com um corpo tranquilamente comercializável no mercado sexual softcore conhecido como "TV") que chega a soar bizarro em pleno século XXI: é impossível fotografar a Fernanda Young.
A Playboy da Fernanda Young estampada numa banca teve esse efeito pra mim. Não sei se não teve um análogo para outros caras. Ele partiu de uma sensação de vazio ao olhar para ela como coelhinha da Playboy. Ou ela é "Fernanda Young", e sua nudez é então meio um ato político, meio um ato de arte, ou ela é só uma coelhinha (ainda que de capa), e não se justifica que ela pose nua nessa revista a menos que seja como a "Fernanda Young", ainda que a "Fernanda Young" pousando na Playboy seja esse contrassenso que estou tentando explicitar aqui.
Ela é uma das poucas celebridades que temos erguida sobre seu próprio cérebro. É o que este faz consigo mesmo e com o corpo que ele governa que faz dela a "Fernanda Young", quer as pessoas gostem do resultado ou não. Essa celebridade não é imagética, mesmo que algumas pessoas possam achá-la gostosíssima, linda ou intrigante, por mais que ela seja tatuada e trabalhe muito com o corpo simplesmente por ser atriz. Ela pode, portanto, agir pousando nua, o que subverte a revista, como disse, num ato de arte ou política, mesmo que despretensioso (ou até de simples marketing para seu recente livro, que seja!). Mas a revista não pode subvertê-la numa "celebridade gostosa". Depois de Scheilas, Ninjas, Mulheres Frutas e Porta-Bandeiras (ou tudo isso ao mesmo tempo), a revista é assumidamente sobre celebridades peladas, duplamente sobre imagem, não sobre artigos e piadas como aprendemos a dizer na puberdade, ou seja, não sobre conteúdo. Por favor: a matéria indicada na capa diretamente abaixo do nome da Fernanda fala de 800 casais "no maior swing do mundo" ("e a Playboy esteve lá" - e azar o de vcs ora!).
Enfim, nada poderia ser menos "pós-moderno" e (estranhamente) mais falso do que essa revista exposta nas bancas sem alarde ou propaganda especial alguma, como se fosse igual a todos os números que a precederam. Não é o corpo da Fernanda Young o que mais interessa nela, e isso a tal ponto (para uma mulher saudável e com um corpo tranquilamente comercializável no mercado sexual softcore conhecido como "TV") que chega a soar bizarro em pleno século XXI: é impossível fotografar a Fernanda Young.
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