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sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Aqui está bom, esta sala parece vazia

Então, é hora de retomar este espaço. Em parte, porque voltei ao Twitter, única rede em que marquei este blog; o real motivo, porém, é que estou precisando de uma desculpa para seguir escrevendo, especialmente se conseguir fazê-lo diariamente, sem a responsabilidade de montar um conto ou apontar para um romance. Passo por uma pequena crise de estilo, incomodado com coisas que se manifestam invariavelmente nos meus textos. Enquanto revejo minha perspectiva sobre o mundo e a humanidade, pensei em manter o exercício da escrita vivo por aqui.

Joyce Carol Oates costuma indicar para escritores que mantenham um diário, e isso certamente também é um fator para eu retomar o blog. Um diário clássico não faz meu estilo, mas quase ninguém deve passar por esta página hoje em dia. Suponho que apenas desavisados, enganados por qualquer link acidental, que logo saem correndo. Se as pessoas não querem ler meus posts, raros, de um parágrafo, no Face, ninguém deve acompanhar um texto num blog esquecido. Ou seja, aqui é o lugar certo para eu fazer um quase-diário.

Devo avisar, talvez, que, se alguém passar por aqui e quiser comentar, tranquilo. Eu pretendo ter raro ou nenhum leitor, mas saber que há gente lendo não vai me desmotivar de cara.

Visitar o blog tem outra vantagem: descubro que algumas crises minhas são anteriores ao que eu imaginava. O último post antes deste, por exemplo, eu suporia ter escrito em 2016, mas já estava daquele jeito um ano antes! É triste descobrir, porém, que o Brasil resolveu juntar 3 das 4 hipóteses que eu havia calculado como péssimos retrocessos. Não só os santos nos ajudam para baixo, o esforço dos eleitores é bastante poderoso.

Bom, eu não pretendo, por incrível que pareça, anotar nada tão obviamente político quanto aquele post. Na verdade, a Joyce, ou mais alguém que ouvi falar de diários, motivou-me a comentar coisas boas e curiosas que aconteceram no dia. Há algumas opções possíveis hoje, mas um papo na aula se destaca no momento.

Ontem uma série de gurias foram assaltadas depois de saírem da escola. Grupos diferentes delas foram abordados em sequência, por um mesmo cara. Hoje eu entrei na turma de formandos, no primeiro período, e as gurias assaltadas daquela turma vieram me contar a respeito. Elas já estavam meio recuperadas e logo, para minha surpresa, estávamos fazendo algumas piadas a respeito, mesmo que tenham perdido seus celulares e duas tenham sido ameaçadas de morte.

O positivo que eu pretendia comentar não é, por óbvio, que a violência seja tão pressuposta por todos que esse papo pudesse degringolar para o humor. O que se destacou para mim foi que, depois de anos dando aula para elas (sou professor de umas há dois anos e de outras há três), mesmo com atritos e muitas dificuldades, nosso convívio tenha promovido proximidade e confiança. Uma vez estabelecido que eu estava ali querendo que elas aprendessem e passassem de ano, nossas brigas recorrentes enquadraram-se numa perspectiva que favorecia uma boa relação, incluindo o esquecimento ou atenuação dos vários momentos ruins.

Eu não sou um professor afetuoso, comparado ao clichê de educadores. Não amo dar aula (muito melhor escrever) nem esqueço dos pesados abusos que governos e eleitores exercem contra a minha profissão todo santo dia. Eu odeio ser contratado por uma sociedade absolutamente hipócrita, que se engana por anos a fio a respeito do que espera da escola. Ainda assim, como disse, o convívio tem sua força, e em toda sala há gente com quem nosso santo bate. Foi um pouco o desgaste do cotidiano, portanto, com seu efeito benéfico, que preparou a mim e àquelas gurias, que tanto corrigi e com quem tanto já discuti, para que pudéssemos aliviar a violência e seu necessário trauma com umas leves risadas. O longo moer dos 200 dias letivos, pelo jeito, não planta só estafa.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

O paiseco à deriva

Entre Lava-Jato, "CPI do Mensalão", "Mensalão do PSDB + DEM", Zelotes e Petrobrás, o Brasil inteiro está sob investigação por corrupção. Há muito, admitimos a culpa de tudo e de todos. E o que se pretende oferecer como solução? Voltar ao passado, de não muito diferentes formas.

1 - Ditadura;
2 - Confiar no PT com paciência e perdão;
3 - Confiar no PSDB + velhos comparsas da economia da miséria;
4 - Confiar em pastores.

Haverá país mais deprimente? Com certeza, porque sempre existirão os que já estão em ditadura e os que vivem em guerra civil. Mas isso em si não o cúmulo da depressão? Que por pior que o Brasil seja, ele não é o pior. Não é, mas está tentando chegar lá.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

O dito animal social

Há meses tem me incomodado uma categorização que me veio à mente durante uma conversa - tardiamente eu diria.

A meu ver, há dois tipos de grupos humanos, aqueles em que todos se responsabilizam pelo grupo e aqueles em que o grupo serve para desresponsabilizar a todos. O primeiro caso é, negativamente, o que leva ao corporativismo e, idealmente, o que aponta para a fraternidade de "um por todos e todos por um". O ideal, no segundo caso, seria uma unidade democraticamente descentrada, como todos os recentes movimentos baseados no Ocupa Wallstreet pensam ser, mas seu negativo está mais próximo da prática, sendo tipicamente o ajuntamento psicologicamente adolescente que está junto só porque gosta, mas que pensa se unir por uma causa. O caso da polícia acusando Bakunin é engraçado, mas essa galera imitadora também não parece saber nada do Anarquismo que ostentam nas bandeiras.

A primeira consequência do descompasso entre seus motivos reais e sua ilusão é, claro, o típico desfazer desses grupos. Um exemplo ridículo é o que aconteceu com os manifestantes presos no Rio por suas supostas intenções (o que os conservadores preocupados com "polícia do pensamento" acharam natural e certo, nesse caso...). 

O caso contado por quem era do movimento lembra a infantilidade do clássico desmantelamento de uma banda de rock. Mas o que estou comentando aqui se aplica a outras esferas, e não tenho a pretensão de dar um golpe de vista psicológico e explicar o que está rolando agora, ignorando a ação da polícia, o poder financeiro da FIFA, as manifestações do ano passado e tudo que contribuiu para a postura policial.

Não, o que me tem chamado a atenção é que o grupo que usa a coletividade para se abster de qualquer responsabilidade acredita que nenhum deles pode ser culpado, porque os motivos lindos (almas irmãs, forças históricas, santos batendo) que os unem justificam suas ações e, praticadas em grupo, quem vai saber quem fez o quê exatamente?

Nenhum deles é a fonte do problema, eles estão bem intencionados, querendo apenas paz e companheirismo, portanto forças externas de autoridade não devem se meter. Ao mesmo tempo, ninguém pode responder pelo grupo, porque cada um ali faria o que acha certo; seria uma quebra da democracia fundamental entre os parceiros se alguém do grupo quiser afetar o comportamento do outro. Se um cobra do outro coerência ou respeito a acordos gerais, essa pessoa está sendo autoritária e abusiva. Ou seja, ninguém responde pelo grupo, mas todos podem se esconder nele.

O que une esse pessoal é o gosto estético pela tribo, é o curtir estar com os amigos e fazer absolutamente tudo juntos. Nada tem graça se não for compartilhado, e a sociedade perfeita envolveria justamente a troca direta e amigável do que é necessário entre todos. Os ritmos do grupo ditariam os ritmos da vida, e os desejos individuais precisariam ser discretos para não confrontar a maioria. Nesse caso, o grupo é uma compulsão.

Já o grupo em que todos se responsabilizam pelo que os outros fazem (no sentido de reconhecer o erro e tentar ajustá-lo, para poder impedir uma intervenção externa) tende a ser formado por pessoas que não querem estar necessariamente naquele grupo. Como a coletividade é uma necessidade, ela tem de valer a pena, e uma das condições para isso é que ela funcione para a devida finalidade. Por isso, uns cobram dos outros o que deve ser feito, aqueles que pesam demais ou atrapalham são retirados do grupo, e a melhor forma de ter valor para o próprio grupo é ser capaz de defendê-lo, demonstrando a coragem de enfrentar o de fora pelo bem de todos que estão unidos. Isso, por sua vez, motiva o grupo a defender o sujeito, e os apoios mutuamente se fortalecem, parecendo um feio corporativismo para quem está fora, mas representando a pura camaradagem para quem está dentro. 

Mais do que isso, esse grupo pode responder a unidades maiores do que eles, como um grêmio estudantil que pode lidar de forma construtiva com uma representação docente ou um sindicato de profissionais de uma área pode com um sindicato de todos os profissionais de uma gerência mais ampla. Obviamente, essas relações não costumam funcionar muito bem, em parte, porque todos os grupos atraem mais os esteticamente gregários.

Ao que me parece, os melhores grupos são formados por pessoas que não gostam particularmente de grupos, mas mantêm clareza de seus objetivos e têm a capacidade de se responsabilizar. O maior diferencial deles é justamente saber o que é responsabilidade, ironicamente por sua estrada mais individualista.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Feriado - ou outros motivos para nos irritarmos com o Carnaval na prática

No décimo quinto episódio da série original de Jornada nas Estrelas (ou seja, em 1967), temos o choque cultural entre Spock e os demais membros da tripulação frente à ideia de descanso. A Enterprise orbita de um planeta que parece absurdamente tranquilo e paradisíaco, e Kirk "ordena" descanso geral, uma oportunidade para descerem no planeta em busca de diversão e atividades recreativas. Spock não entende a noção de fazer algo para descansar, se o descanso seria justamente fazer o mínimo possível, a fim de gastar menos energia. Os tripulantes humanos riem da cara de Spock, de sua incorrigível "lógica que não nos entende".

Acontece que não há nada essencialmente humano na associação entre "descanso" e "porra-louquice", me parece. A ideia de feriado é que foi muito distorcida, a ponto de se pensar que descanso é sinônimo de atividade extenuante fora do comum.

Em primeiro lugar, creio que a ideia de feriado vem de dia sagrado, e um dia sagrado é um momento de intensa e importante atividade, o que entenderíamos hoje como mais trabalho. Numa festa religiosa, a comunidade está envolvida em contribuir com a natureza, vista de forma divina, a fim de que a ordem em que a comunidade saiba viver se perpetue. É, portanto, nos tristes termos atuais, um dia de vital trabalho comunitário, em que as pessoas não podem desrespeitar mais horários ou uns aos outros, mas sim devem agir de forma estrita e calculada para não irritar o deus ou os deuses trazendo ruína para seu mundo. É um dia ainda mais regrado que o dia "comum" (que também tinha seu caráter sagrado, diga-se de passagem). Não conseguir mandar um bode expiatório para o deserto, significava conviver com o pecado entre a tribo, ou seja, morte e destruição desenfreada.

Só uma comunidade totalmente centrada num trabalho bitolado e alienante (e não em si mesma, ou seja, no usufruto de uma vida boa em comum) pode distorcer, como conseguimos, uma situação destas a ponto de entender que feriado, férias, descanso é quebrar todas as regras, fugir de si mesmo, ignorar o mundo e os outros, o que inclui quaisquer noções associadas obviamente àquela atividade "chatíssima e supra-ordenada" (por uma entidade impessoal, mas que no fundo é outro humano), o trabalho!

O desafio de inverter esse comportamento nem é grande, portanto. Não é preciso, como Spock, compreender o sentido da palavra "descanso" e aplicá-lo na prática. Longe de mim querer que o vaidoso ser humano seja lógico.

Bastaria as pessoas terem vidas em que reconhecessem maior sentido, que as tornassem mais felizes. Bastaria a gente levar o individualismo a sério, talvez (como a humanidade quase sempre levou a comunidade a sério): se é pra viver preocupado primeiro com o próprio umbigo, que seja a regra constante, de fazer o que se gosta e o que realiza cada um. Um grupo de humanos felizes, bem, realizados, não precisa desrespeitar os outros nos poucos dias em que acha que pode ser alegre. Não precisa, portanto, se matar na vontade de encontrar alguma gota de alegria num mundo de extenuante e entediante trabalho, em que as regras não lhe fazem sentido e que, portanto, geram a ideia de que desrespeito e alegria necessariamente andam juntos.

Um grupo de seres humanos felizes podem descansar quando é para descansar, sem confundir isso com a mania de uma anestesia egocêntrica e destrutiva. E as pessoas felizes que realmente gostam "sair da linha" sempre conseguem fazê-lo sem causar danos. Chega a ser quase impressionante, frente à gigantesca galera infeliz.

domingo, 22 de setembro de 2013

Devil Inside

(Vídeo só por causa do título)

Se existe uma tendência minha mal posicionada é a seriedade com que costumo levar acordos. Por algum motivo eu respeito pequenas combinações do dia-a-dia, pequenos contratos, busco cumprir os papeis que assumo e trato as pessoas conforme os papeis que decidiram tomar, às vezes até insistiram, duvidando de que eu cumpriria o combinado. Mas eu cumpro. E a maioria das pessoas não. Por isso fico pensando volta e meia "Por que diabos eu busco cumprir essas coisas?"

Logo eu sou tachado como muito certo, muito comportado, muito duro, muito caxias, ou "o único professor que exige X". Estou longe de restringir o problema à minha relação profissional ou ao comportamento geral de professores. É um desvio que tenho com a humanidade mesmo. Ou, para dar o benefício da dúvida para outras culturas, meu desvio em relação ao meio em que vivo. 

O mais engraçado é que as pessoas, por isso, se surpreendem ao descobrir qualquer lado meu que desrespeite regras, etiqueta ou tradição. Logo elas percebem, no entanto, que esse desrespeito tem tudo a ver com minha personalidade, que elas deveriam suspeitar mesmo do tipo de demônio que levo comigo. E então elas se questionam por que alguém assim seria tão caxias. Resposta: porque eu não sou caxias com "as coisas", eu apenas acho que trato é trato. Pensando bem, talvez seja mesmo outro traço demoníaco: o de respeitar contratos e acordos.

domingo, 11 de agosto de 2013

Por uma cultura mais individualista

Michel de Montaigne
"Nunca houve no mundo duas opiniões iguais, nem dois fios de cabelo ou grãos. A qualidade mais universal é a diversidade." 

Sempre que estou tendo algum tipo de preconceito, ou suspeito que esteja, faço o esforço de esquecer o enquadramento que meu cérebro está dando para a pessoa e olhá-la com radical individualismo. Acho um exercício bem difícil, particularmente quando o cérebro já tirou várias conclusões e formulou táticas para a reação à pessoa baseada nos enquadramentos prontos. Ainda mais difícil, claro, porque tal é obviamente um resultado complexo do instinto de sobrevivência. Por isso se fala tanto que temos bastante preconceito com aquilo que nos incomoda: o cérebro se apressa a ativar as estratégias para resolver o incômodo, o que geralmente envolve destruir o objeto odiado ou sair dali o mais rápido possível (ou seja, não lidar realmente com a situação).

Não estou dizendo que luto contra o preconceito em mim porque acho bonito. Acredito que a pessoa preconceituosa sempre sai em desvantagem das situações. Essa força de fuga ou destruição inerente ao preconceito é inimiga do que considero a postura mais vantajosa na vida: presença de espírito. Além disso, sendo professor, se algum preconceito me toma eu sou tanto anti-ético com o aluno quanto posso sofrer bem mais que o necessário. Vê-lo como indivíduo faz com que encontre mais rápido a solução para os problemas dele e para os meus, resolvendo a relação da forma mais lucrativa e recompensadora para ambas as partes. O mesmo se dá na relação com colegas de trabalho. O preconceito é tão errado quanto contraproducente.

(Acho meio óbvio, mas vou explicar, que nem todo preconceito é terrível. Se achamos que uma pessoa sozinha, vestida de forma que não vejamos muito o rosto, ou andando como quem está meio alterado, pode querer nos roubar ou atacar de qualquer forma, atravessar a rua não é o fim do mundo.)

Voltando, ver as pessoas radicalmente como indivíduos me parece a única verdadeira solução para o preconceito. Tentar lembrar que, por mais que os recortes culturais reconhecidos naquele que nos fala lembrem clichês, existem exceções em todos os grupos, portanto aquela pessoa tem tanto a individualidade na realização desse clichê quanto a responsabilidade, ainda que seja inconsciente em alguns casos, de ser como é, de ceder a si mesmo, digamos, além de não poder escapar, em algum grau, a determinadas características genéticas inescapáveis. Até mesmo o que é inescapável só o é de forma particular. Algumas pessoas ansiosas têm outras características que as possibilitam controlar isso, outras simplesmente têm problemas mais sérios de personalidade a resolver e precisam conviver com a ansiedade a externando. Não vamos, realmente, querer que ela lute contra a ansiedade e deixe outras características se desenvolverem.

Nesse sentido, o maior tributo de nossa sociedade esforçada por igualitarismo ainda vem do Humanismo. Talvez este venha mesmo de ideias em parte desenvolvidas por certa cultura árabe do fim da Idade Média, que passou do norte da África para a Itália, mas o que quero destacar não é a origem em si da postura individualista, apenas que, desenvolvido na nossa cultura europeia (no sentido de ser, por exemplo, responsável por estamos entendendo este blog todo escrito em alfabeto românico), o individualismo foi uma daquelas forças que mais é elogiada em seus primeiros séculos e destratada nos últimos. Creio no entanto que ele seja não só a raiz de nosso igualitarismo, mas nossa última salvação para realizá-lo. Ironicamente, que eu saiba Marx concordaria comigo, aliás, sendo a realização do indivíduo o grande lucro que ele via no desenvolvimento do capitalismo, lucro que ele defendia ser condição sine qua non para uma sociedade que superaria as desigualdades do próprio capitalismo. Muitos dos destratores de nossa "sociedade individualista" devem ter leitura bem diferente de Marx! But I digress... 

Minha questão era só que sejamos mais individualistas. Está ainda fazendo falta. Basta não confundir individualismo e egocentrismo. Bem pensados, eles não têm nada a ver, já que valorizar o indivíduo e defender sua radical independência de todos os outros indivíduos não é lógico, mas alucinatório. O exercício é não subsumir o indivíduo aos grupos em que o enquadramos pela natureza de nossa congnição. Outra coisa é pensar que o mata-mata é uma boa estratégia social. O individualismo não pressupõe, necessariamente, esta postura política, que me parece flagrantemente burra. No entanto, como não ter preconceitos sem olhar direta e violentamente para quem está bem na nossa frente, resistindo à nossa animalidade que quer sempre enquadrar?

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Um país violento!

A voz do povo é a voz de Deus. De um deus extremamente violento. Lembremos de algumas pérolas da #vozdarua

Gay, só matando! Homofóbico, só matando! Machista, só matando! Feminista, só matando! Sem-vergonha, só matando! Vagabundo, só matando! Milico, só matando! Político, só matando! Manifestante, só matando! Vândalo, só matando! Petista, só matando! Anti-partidário, só matando! Marxista, só matando! Reaça, só matando! Domingueiro, só matando! Taxista, só matando!

É, definitivamente não somos um povo de boa índole.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Excepcionalismo Brasileiro

Um pioneiro da política brasileira
Tudo que falavam mal do filme Lincoln me dava mais vontade de assistir ao filme. Fui atrás, vi e realmente curti muito. Talvez o filme nem me parecesse tão interessante se esse tipo de narrativa fosse mais comum, mas a raridade de filmes sem ação, perseguição, tiros (obviamente aparece o mínimo de violência, pois se está na Guerra da Secessão) e casos de amor dá um gosto todo especial para a produção. Nada contra, na verdade, todas essas características em filmes, mas eu continuo com meu gosto clássico, achando que cada elemento de uma obra de arte deve fazer sentido dentro dela ou ter a graça certa do fortuito que não parece fortuito. Caso contrário, o elemento não deveria entrar.

Lincoln tem, é verdade, amor. Não tem é romance. Tem vários tipos de amor, especialmente o paterno, coisa difícil de ser vista sem frufrus idiotas. De resto, um pouco de amor conjugal, bem pouco. 

O principal no filme são ideias e discussões, e uma baita forçada de mão do presidente, que prolonga o conflito e limpa o chão com a Constituição a fim de usar escravos como sujeitos livres e criar o contexto para passar a emenda que proíbe a escravidão no país. E é isso, bem mais que a falta dos elementos que citei antes, o melhor do filme. Porque ele propõe, a meu ver, um debate bem capcioso, que a maioria vai querer ignorar no filme: os fins justificam os meios? No caso do Lincoln, parece fácil: nossa, quem seria contra ele torcer a Constituição do país feito pano de chão para poder libertar os escravos?

Bem, isso parece fácil dizer agora. A escravidão é uma verdade humana desde que existe Estado, talvez até um pouquinho antes. Durante a maior parte da nossa história, quase o mundo inteiro aceitava seus tipos de escravidão. É óbvio que os escravos não estavam sempre resignados com essa situação, mas, como um elemento da vida em sociedade, era aceito. A decisão de abolição, no século XIX, por mais que trouxesse séculos de questionamento filosófico e ético, ainda estava longe de ser pacífica. Como podemos definir que os fins justificam os meios quando ninguém tem claro, no calor do momento, o que é realmente certo ou errado? E até que ponto os fins podem justificar os meios, e quando estes devem começar a pesar?

O presidente dos Estados Unidos, morto há mais de século, pode justificar os meios pelos fins, jurando que está bem intencionado. O PT pode? O PSDB pode? O Psol pode? Se deixamos de acreditar no sistema político (não me parece que algum brasileiro realmente acredite), podemos passar por cima dos processos todos para conseguir o que é bom? E podemos ter certeza que é bom? E teremos a cara de pau de chamar de democracia, ainda que o efeito seja mesmo bom?

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Renan e as palavrinhas mágicas

Pra quem ainda não tinha entendido.
Situações como os incêndios muito próximos na (ironicamente chamada) Vila Liberdade e na boate de Santa Maria geraram reclamações na internet E ações práticas em respota. Muita coisa precisava e começou a ser feita para ajudar todas as pessoas que sofreram com os dois incêndios. Existiu muita reação vazia, claro, como os fechamentos em massa de casas que, até o dia anterior, estavam esquecidas de qualquer fiscalização mais preocupada. No entanto, houve atitude INCLUSIVE de muita gente que tipicamente só reclama no face desse tipo de coisa, mas não está mesmo envolvido em problemas situações dessa natureza, não trabalha em cargo público nem participa de ONG.

Renan Calheiros, ou qualquer outro político, fazer ou dizer barbaridades também causa muita reclamação em rede social, mas nada de ações práticas. Por algum motivo, nem a proximidade entre as duas situações parece ter destacado para os moralistas de face que se estava apenas reclamando no caso de Renan, não se estava tomando nenhuma medida, de curto, médio ou mesmo longo prazo. Dizer que sente vergonha, que "ele não me representa", que está em luto também por isso faz QUE diferença? Melhor colocando, eu entendo reclamarem, comentarem, fazerem piada, mas é deprimente quando começam a surgir os atos mágicos, as frases de efeito, os insultos de quem jura que o político vá (1) ler e (2) dar bola para esse tipo de coisa!

Espero que logo algum político se dê o trabalho de demonstrar o quanto o poder político está muito acima de meras palavrinhas, o quanto discurso vazio é papa de criança para um político profissional, e tire uma foto com o dedo bem levantado pra colocar no face: Vão tomar no cu!

Talvez isso desse alguma luz para que se entendesse que reclamação é uma coisa, atitude é outra.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Preço completo pela metade do serviço :)

Uma empresa veio fazer uma entrega aqui, mas deixou o produto (bem pesado) na porta do prédio, não querendo subir para deixar no ap. Eles informaram a maracutaia, "espertamente", depois de terem a nota da entrega assinada - afinal, ninguém esperava ou já ouvira falar de prática tão bizarra de entrega. O argumento, se posso chamar assim, era que um dos funcionários tinha se machucado há pouco tempo trabalhando (motivo para deixarem de fazer o serviço?) e já havia acontecido tanto problema com essa tal entrega (que, por exemplo, estava chegando quatro dias atrasada, nesse caso, 50% de atraso) que eles não queriam arriscar mais!!!!

O importante aqui, no entanto, não são os detalhes ou a retaliação dessa atitude. O importante é o raciocínio utilizado. Fiquei pensando em extrapolá-lo.

Digamos que um médico está com dificuldade de nos diagnosticar e prescreve um remédio errado. Não seria curioso se esse fosse o motivo para ele cobrar o resto do tratamento, mas passar a nos tratar ainda pior? Já que cagou antes, vai se dedicar menos...

Imaigine que chegamos numa loja e o atendente nos alcança uma roupa com um tecido que nos incomoda. De repente, ele decide que não vai mais nos atender muito bem, nem nos indicar nada, porque já houve problema naquele atendimento, então é melhor "não arriscar mais". No entanto, deveríamos pagar o preço de uma roupa nova, obviamente. O serviço foi tentado.

Algumas acusações em POA indicam até um funcionamento parecido no Pinguim, um bar grandalhão daqui. Supostamente algumas pessoas têm apanhado por discussões que começam em torno dos 10%. Agora, será que a polícia perguntou aos garçons se não estavam aplicando esse raciocínio dos entregadores? Vai ver eles começaram a atender seus clientes e houve algum problema, então passaram a atender pior, mas queriam o pagamento completo. Lógico!

Será que alguma prostituta que não está conseguindo excitar muito um cliente também para de tentar agradar o sujeito, mas cobra pelo serviço completo? Será que Bruna Surfistinha retratou alguma situações dessas?

A melhor extrapolação, para mim, seria em aula, claro. Quando começar a ter mais dificuldade com algum aluno neste ano, acho que vou diminuir o meu interesse e dedicação a ele, pra não arriscar mais, mas vou querer todo o respeito, o elogio e, claro, todo o pagamento de um serviço bem feito.

Enfim, a mente enlouquece com alegria aplicando essa lógica maravilhosa e tanto profissionalismo...

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Educação pela palavra #fail

Campanhas que começam com "todo X deveria ler isso" realmente me preocupam. Eu fico assustado com o fato de que as pessoas ainda acham que as palavras são o melhor meio de educação, e que ler um texto contrário à ideologia de alguém vai fazer a pessoa repensar suas crenças e suas práticas. É claro que isso é possível, na rara exceção de pessoas que já estão se questionando e, portanto, procurando respostas novas para ocupar o lugar das velhas, prontas a serem aposentadas.

Porém, a probabilidade de uma pessoa assim encontrar um texto desses justo sobre o tema em que está se questionando são suficientemente baixas para eu questionar a utilidade de se publicar isso tanto. 

Tenho visto mais e mais comprovações de que um problema ético não pode ser resolvido assim por palavras, e a palavra "ético" justamente indica o porquê. Bem se sabe que ela vem de ethos, que está ligada à ideia de um comportamento, idealmente bom para a maioria da comunidade. Muitas vezes é traduzida como "caráter" ou até "harmonia", mas isso é porque os gregos entendiam que o caráter se demonstrava no comportamento das pessoas - o que era visível em seu comportamento, cá fora, era a melhor expressão do que elas carregavam dentro (sim, eles tinham aquelas outras associações tão famosas entre aparência e verdade que tantas outras sociedades primitivas mantinham, mas pelo menos a ideia de ethos guarda uma boa tirada).

Enfim, isso é interessante se conjugado a outra ideia grega: a mímese. Esta é mais famosa pela arte, pois se discutiu por séculos qual a relação entre a arte e o mundo real com base na ideia de que o artista olha para o mundo e o copia de certa forma especial. Acontece que a mímese era base para muito mais que a arte, para os gregos. Eles observaram (e alguns, como Aristóteles, registraram essa linha de pensamento) que o ser humano tanto tinha prazer em imitar quanto aprendia muito por imitação, assim como outros animais que guardavam semelhanças conosco. Com o parco conhecimento que tinham do mundo que nos cerca (estou cruelmente comparando os gregos com a ciência atual, sem nenhuma mediação de propósito), eles podiam atribuir, por exemplo, as crianças andarem, usarem roupas ou falarem grego igualmente ao fato de que imitariam os adultos. Alguns adultos, por sua vez, viveriam do prazer dessa imitação que nos é natural, fazendo arte para as outras pessoas, que gostavam de ver a imitação do mundo sendo feita com particular... habilidade artística.

Bom, eles erraram em alguns exemplos, mas de fato a gente aprende coisas demais imitando, e outras tantas simplesmente fazendo (errando e tentando de novo). O comportamento é um elemento fundamental de nosso aprendizado - desde escrever até saber mexer na TV - e a participação do logos nesse processo, em todos os sentidos, não deveria nos fazer esquecer o quanto a mimesis é importante para o nosso ethos - comportamento, caráter...

Alguns didatos populares ainda hoje guardam indícios disso, como "diga-me com quem andas e eu te direi quem és" ou o irônico "faça o que eu falo, não faça o que eu faço".

É claro que tem gente que tem mais estômago que eu para essas grandes causas semi-impossíveis, de modo que a possibilidade de que um em dez milhões de leitores de um texto politicamente correto se questione e melhore sua conduta já é considerada um grande ganho. Então pouco importa que a melhor forma de educar alguém seja (1) dar o exemplo e (2) achar modos práticos de motivar e possibilitar uma mudança de comportamento de um sujeito; se ALGUÉM puder ser mudado pelo verbo, essas pessoas seguirão com as campanhas por textos auto-condescentes e megalomaníacos, de premissa tão errada, obtusa ou utópica. 

Por isso mesmo eu estou comentando isso no blog. Eu não saberia como dizer para essa gente que sua pressuposição inicial sobre pedagogia e ser humano é muito estranha ou restrita. E eu estou cansado de respostas utópicas e absolutamente prepotentes de todo e qualquer militante. Mas creio que posso comentar isso aqui, com os íntimos. Talvez vocês tenham uma boa resposta para o problema, ou possam começar a espalhar "a Palavra" contra a militância verbal, se tiverem estômago e senso de ironia. Mais ainda, talvez vocês saibam onde está o problema da minha visão das coisas e se sintam tentados a criticá-la. Qualquer uma dessas possibilidades me parece ótima e justifica gastar um tempinho escrevendo aqui ;)

domingo, 2 de setembro de 2012

É tudo mentira

Até por dificuldade para ser constante e plenamente cético, a gente tende a selecionar "verdades" políticas. Ou melhor, a gente pega o que ouve e encontra brechas para aceitar certas verdades, ou meias-verdades. A propaganda sobre o programa de governo tal (pensamos) pode ser mentira, mas parte daquilo foi feito; ou foi feito mesmo, só não por aquele partido; ou ainda aquilo é mesmo como estão dizendo, mas só surgiu por iniciativa da população ou de uma ONG, não de um partido.

Pois bem, resolvi fazer um serviço público e avisar ou reforçar para quem venha a ler este post: no caso da Educação, NADA do que é dito é verdadeiro. Não, candidato X não fez! Não, não foi aquele partido! Não, não estão lutando pelo que dizem! Não, não valorizam! Não, os alunos não recebem! Não, a situação não melhorou! Não, o caminho dos alunos não foi asfaltado! Não, a escola não foi construída! Não, a universidade não está funcionando! Não, o país não atingiu tal resultado positivo! Não, não e não.

Agora, se o eleitor quer fazer relativismos, descansar do ceticismo ou encontrar pequenas verdades no que um político está dizendo, que não o faça na Educação. Aí, a propaganda política, qualquer propaganda política, está mentindo, sim. Completamente. Profundamente. Descaradamente. É 100% mentira.

domingo, 26 de agosto de 2012

As inversões de valores invertidos

Uma daquelas expressões que chamam a minha atenção, para discordar, é "inversão de valores". Quando se diz que pessoas vivem conforme, experimentam, sofrem (ou sei lá o quê) uma inversão de valores, pressupõe-se uma de duas opções, as duas falsas.

A primeira, menos preocupante e menos representativa, creio, é a ideia de que certos valores existem por si e são constantes, que valores não mudam, nascem ou se transformam historicamente. Ou seja, existem determinados valores fixos e a única possibilidade é se acreditar neles ou em seus opostos, em anti-valores, que são corruptelas daqueles. Não existem valores diferentes, anteriores ou posteriores. 

Como disse, não acho que essa versão seja representativa pois poucas pessoas concordariam com isso posto de forma assim radical. Além disso, ao falar em "inversão de valores", as pessoas não querem ser tão filosóficas assim, ainda que a expressão seja bem pretensiosa. De qualquer forma, acho importante comentar o quanto essa ideia não faz sentido, mesmo sem apelar a pós-modernismo, pós-crítica ou qualquer outra forma filosófica de relativismo em hyperdrive.

Consideremos a ideia de que matar é errado. É preciso sempre definir, "matar quem?" É preciso defini-lo pois se sabe que matar só é errado, em cada cultura, quando se define o objeto do verbo. 

Supondo uma postura moral de facebook, muita gente acha hoje em dia que matar qualquer pessoa é errado. Bom, não é segredo que já foi bem ok matar negros, índios, gays, nazistas, comunistas, sei lá.
Sim, até aí estamos no "ok", mas já houve tempo (seguindo ainda só o tronco da cultura de quem acha que é errado matar qualquer um hoje) em que matar o estrangeiro, o cara da outra religião ou o cara da outra tribo não era só permissível, ou um crime menor. Era certo, reforçado, apoiado e, em alguns casos (como na racionalização teológica das Cruzadas), uma forma sagrada de se salvar a própria alma. Em muitas tribos, matar era parte importante da estrutura social, mesmo que não se estivesse em "guerra" - especialmente por rito de passagem ou de matrimônio. Talvez fosse melhor dizer que tais tribos viveram sempre em guerra, e o "viver em paz" é invenção um tanto civilizada (Saindo um pouco do problema do tempo, infelizmente sabemos que todas essas posturas ainda são possíveis hoje.)

Se quiserem pensar de outra forma: houve um tempo antes da Declaração dos Direitos do Homem, um tempo antes do ágape, um tempo antes do "Não matarás (hebreu fiel)". Todos os valores que conhecemos são históricos, portanto nenhum pode se vangloriar de ser eterno ou onipresente (o que é diferente de dizer que alguns não mereçam ser universalizados).

Então, não existem uns poucos valores reais e estanques, os quais vivem ou subvertem e deu. Existem valores, com um plural reforçado, e aquilo que discorda do nosso valor pode ser, sim, um valor também. A questão é que a validade do valor é relativa. ATENÇÃO: isso não quer dizer que qualquer opinião é válida, que qualquer princípio é um valor, nem que todos os valores são adequados para qualquer sociedade. Quer dizer só o que eu disse: sociedades diferentes podem discordar sobre que valores são válidos, verdadeiros ou melhores.

A segunda forma, mais comum, de se pensar a "inversão de valores" é supor que os valores em questão são os "nossos". É claro que os valores mudaram na história, mas o que interessa é o que reconhecemos como valores hoje (ignorando culturas distantes). Bom, para quem não notou, nossa sociedade não tem um bloco de valores comuns. Talvez existam outros recortes possíveis, mas eu posso atestar que separações econômicas, particularmente as que "coincidem" com separações geográficas, fomentam valores diferentes. 

É errado (porque falho) pensar que uma pessoa que vive na mesma cidade que outra herda o mesmo tronco de valores comuns. Os valores que estamos acostumados a ver como universais não têm necessariamente precedência na vida de todo o mundo, nem estão na infância de jovens que crescem e "os invertem". Esses jovens simplesmente aprenderam valores diferentes, para uma vida diferente, a partir de histórias e mitos diferentes, a fim de sobreviver da forma que seus pais ou amigos estão sobrevivendo.

Nada disso significa, também, que valores não possam coincidir entre culturas, portanto entre comunidades diferentes de uma mesma cidade. Também não significa que meios de comunicação de massa não tenham oferecido pelo menos algum contato que possibilite diálogo entre as diferentes comunidades, num movimento constante. 

No entanto, é preciso atentar para o fato de que valores diversos também podem se vestir de forma parecida. Algo parecido com uma foto da Gisele Bündchen ser vista como motivo para consumo por razões diferentes, entre mulheres de classes muito distantes. O mesmo é verdade em relação à ideia de que a família é importante, ou à de que homens devem defender suas namoradas e esposas. Cada cultura pode construir um ethos diferente partindo do mesmo clichê cultural.

Talvez possa haver inversão de valores quando falamos de uma geração para a seguinte, mas o resultado são também valores, ainda que novos. Não adianta muito pensar nos queridinhos valores nossos, que achamos serem corrompidos ou traídos por sei lá quem. Importa ver que, se estão sendo afrontados, sofrem o cerco de outros valores que têm também fortes motivos para existir, assim como os nossos.

Portanto, não adianta pressupor uma vantagem para nossa posição moral. O que importa é entender os motivos da existência dos valores que estão nos incomodando. Talvez isso nos indique que estivemos equivocados e que nossos valores na verdade não prestam tanto quanto achamos. Por outro lado, talvez nossos valores sejam corroborados pela experiência, talvez se comprovem inafiançáveis. Nesse caso, é melhor ainda entender por que outras pessoas pensam diferente de nós, caso queiramos resolver a situação, fazendo com que pensem como nós e aceitem nossa forma de entender o "certo" e o "errado".

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Teoria da Conspiração das Cotas

Aprovada na quarta-feira, no Senado, uma nova lei prevê que 50% das vagas de todas as universidades públicas serão dedicadas a "cotas sociais" (quem estudou todo o Ensino Médio em colégio público). Estas, por sua vez, devem ser preenchidas por negros, pardos(?!) e indígenas, no mínimo, conforme a proporção dessas populações em cada estado. Há ainda uma divisão dessas vagas segundo a renda da família  (calculada e verificada por sabe-se lá quem).

Dizem que a cereja desse bolinho - eles nem fariam vestibular ou Enem, sendo selecionados conforme a média de suas notas no Ensino Médio, ou seja, conforme a hipocrisia do governo de cada estado ou município - deve ser o único ponto cortado, para que a lei passe "mais facilmente" no fim do trâmite.

Ao mesmo tempo, o governo caga para a greve das federais e não enfrenta (nenhum governo o faz) o problema da educação de base de verdade (tomando apenas medidas mais ou menos efetivas, ou seja, no fim das contas, ineficazes).

Pois bem, isso é pra "qualquer um" de escola pública. Mas o que o governo planeja para quem se esforça pra valer? Pra quem consegue ler muito, estudar, se sacrificar até? Seu plano para esses estudantes parece ser também resolvido com cotas: ele paga para que cursem as faculdades particulares. Tanto estes quanto os alunos de escolas particulares (especialmente os mais estudiosos, é verdade) têm cada vez mais incentivo para ir para fora, procurar bolsas nos EUA ou na Europa, enfim, deixar o Brasil e ir aprender com os best of the best.

O que me lembra: população pobre ou menos estudiosa presa num Brasil analfabeto funcional e alunos dedicados ou com mais dinheiro estudando fora não é um quadro histórico no país? Dilma não é o fim de um processo para deixar o Brasil com cara nova, mas do jeitinho que sempre foi?

terça-feira, 17 de julho de 2012

Diversidade e ignorância sobre greves federais

Em reação a isso.

Que ignorância achar que "greve remunerada" é um conceito estapafúrdio, quando é a base mesma do direito de greve. Que ignorância achar que isso sustenta qualquer pessoa que "não queira trabalhar", que poderia automaticamente entrar em greve e receber seu salário. Que ignorância achar que a remuneração do grevista é automática, sem critério algum. Que ignorância não saber que o salário, se sustenta o trabalhador em greve, será integralmente descontado se o mesmo trabalhador não pagar por cada dia de greve depois, situação única da profissão de professor, (justamente esses "vagabundos" trabalham por todos os dias em que ganham salário, diferente de qualquer outra classe que possa fazer greve)! 

Que ignorância achar que a maioria dos professores (pior: que todos!) em greve estão na classe A!!!!! 

Que ignorância achar que os professores querem automática e necessariamente mais impostos, ou que isso é a única forma de se resolver os problemas dos institutos federais. Que ignorância achar que os professores querem unicamente melhores salários, ou mesmo que isso resuma a maior parte de suas reinvidações (que tal começar pelos prédios de aula literalmente desmoronando?). Que ignorância acreditar que os professores em greve não trazem outras formas de contribuição para suas faculdades ou institutos quando não estão em greve. Aliás, que ignorância não saber que vários deles seguem contribuindo para o investimento nos institutos e faculdades federais, bem como diretamente a seus alunos, durante a greve. Que ignorância crer numa dicotomia professor/funcionário público, assumindo ainda que a única forma de ser funcionário público é aquele senso comum de se atirar nas cordas e que a única forma de ser professor é o clássico mártir ético, que resolve de mãos nuas as incompetências de toda a estrutura que deveria lhe sustentar e que, contraditoriamente, só segue em pé por seus singulares esforços. Que ignorância achar adequado, benéfico ou aceitável reincidir nesses preconceitos e reforçá-los sem, pelo visto, o menor conhecimento de causa, sem nada saber sobre professores, aparentemente, para além dos lugares comuns de debates de esquina.

Quanta ignorância vinda de um sociológo, que andou estudando que sociedade para resumir dessa forma o quadro atual e aceitar tais clichês do senso comum como conceitos para um texto de jornal?

Quanta ignorância selada pelas únicas palavras sábias escritas na página: "Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo."

É preciso muita diversidade para caber tanta ignorância.

terça-feira, 10 de julho de 2012

A sagrada mão privada para limpar a merda pública

Leiam isto antes.

Agora me respondam: que merda é essa?!

Isso é que é comprar discurso do governo! A única opção para resolver a Educação é aumentar impostos ou tirar dinheiro de outras áreas da própria Educação ou da Saúde?! Quer dizer que o governo, em todo o resto, está gastando muito bem? E, óbvio, é culpa dos professores que o governo não fiscalize os gastos dos reitores?

Claro, acabar com  o ensino público é a melhor solução! Afinal, as faculdades privadas são direcionadas por determinações ideológicas voltadas ao povo (por pior que isso possa ser executada na pública, pelo menos está em disputa franca sempre) e escutam exigências públicas, elas sim cumprem todos os deveres legais mesmo que não sejam fiscalizadas. Suas bibliotecas são abertas para todos e seus seguranças nunca impediriam certo "tipo de gente" de entrar em suas dependências.

Mas estou me perdendo em bobagens. O problema não é o que uma faculdade privada faz, mas sim que a resposta para o problema de qualquer instituição pública seja sempre acabar com esse seu caráter. Ou seja, qualquer problema não deve ser resolvido pelo governo, mas descartado ou jogado nas mãos da iniciativa privada. Por que a resposta para a irresponsabilidade do governo é sempre tirar mais responsabilidades dele?! 

Pior ainda, como sempre, SE fosse possível o governo acabar com o ensino público superior, ele ainda arrumaria a faculdade para entregá-la funcionando à mão privada (milagrosamente achando soluções para o que "não podia ser resolvido" antes) e os impostos (DÃ!) não abaixariam!

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Rapidinha sobre Golpe do Paraguai

Se houvesse algum interesse em honestidade intelectual, nossa cena política só precisava de um dicionário, ou mesmo de um glossário.

O problema de se dizer que houve golpe ou não é, claro, só um problema de partido aqui. A ex-esquerda chama de falta e a neo-oposição-conservadora diz que o lance é válido. Agora, na tentativa de soar verdadeiro, correto, do lado da razão, da ciência ou da jurisprudência de fundo de quintal, as pessoas simplesmente demonstram que ninguém quis se informar muito sobre as palavras "golpe", "impeachment" ou mesmo sobre a qualidade de argumentos de qualquer dos lados no próprio Paraguai, para então se pensar se é possível aceitar esses argumentos sem se chamar o governo do Paraguai, agora e antes, de antidemocrático.

Seria o caso, enfim, de se alinhar conceitos antes de hastear bandeiras. Sei que o caso é velho e não estou dizendo nada demais aqui, mas fazia tempo que eu não postava, e não parece que ninguém tenha parado para simplesmente apontar o pequeno mas fundamental detalhe de que defensores e acusadores do Paraguai não estão nem tentando falar a mesma língua, mas juram isenção e honestidade... acima do outro lado.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Rio +20 e a política

Uma mulher no poder? Lá de onde eu venho não tem disso não...

Faltam dois dias para recebermos mais uma vez Ahmadinejad no Brasil! Ele vem por causa do Rio +20. Obviamente seu objetivo é "estreitar relações" com Brasil, um dos grandes países a aceitar seus crimes de Estado e o terrível sistema político do Irã. 

É um desafio para mim entender o que a proposta de um "mundo sustentável" tem a ver com perdoar um Estado teocrático daqueles. Mas, na verdade, nem entendi ainda como um país democrático (especialmente se o país se anuncia internacionalmente como democrático) recebe ditadores e assemelhados. Os governantes do mundo, porém, não apenas lidam bem com a situação como a repetem inúmeras vezes, com toda a tranquilidade. Os governos da América do Sul, então, são especialistas nisso (o Brasil tem até uma Associação de Amizade Irã-Brasil!!!). E o discursinho de um mundo diferente, possível somente longe dos EUA, sempre marca presença nas contorções retóricas que permitem esse tipo de amizade. Além do mais, com o que a Dilma já arregou para militares aqui, o que seria cumprimentar e conversar animadamente com a misoginia encarnada, né?

Por outro lado, contorções retóricas as temos para o principal problema: o programa nuclear iraniano. Até que se prove cabalmente que ele é mesmo militar, o Irã pode ser desculpado, por alguns, como inocente. Por isso, Ahmadinejad e seus companheiros não permitem de jeito nenhum que os países interessados analisem direito o que rola por lá. Nada suspeito, né?

O Mensalão também, se não for julgado, segue sendo uma acusação vazia. Para alguns... Curiosamente, para os mesmos que aceitam o segredinho de Ahmadinejad com seu urânio. Assim, nosso governo toma a mesma tática: atrapalha e atrasa a investigação a fim de impossibilitar a acusação cabal. 

Aqui, a acusação prescreve, e seguimos com a currupção impune. Lá, a acusação sem provas só tem prazo de validade até o mundo ir pelos ares.

terça-feira, 12 de junho de 2012

A legítima defesa da velha e a depressão do policial

Recentemente, uma mulher de 87 anos matou um assaltante em Caxias do Sul. O cara estava em condicional, recém liberado, era reincidente, aquela coisa toda que a gente conhece... A mulher ontem foi presa por homicídio e posse ilegal de armas.

A princípio, esse fechamento é irritante, não? A defesa por legítima defesa e as outras razões legais para soltá-la virão depois. No momento, a polícia agiu conforme a lei, com um preciosismo típico de quando a pessoa (vítima ou agressor) não tem dinheiro demais. Exatamente essa diferença, nossa tendência a nos condoer pela velha e nosso constante susto ou opressão sob a violência das cidades (e Caxias é uma cidade muito violenta) nos levam a pensar que é injusto a mulher ser tratada dessa forma.

Mas eu vim aqui falar um pouco pelo diabo (no caso, a polícia), a fim de chegar ao meu ponto. 

Em primeiro lugar, eu me sinto, por um lado, feliz pela velha. Melhor seria não passar por algo do tipo, mas, tendo passado, antes se ver com a polícia e ter sobrevivido a um confronto com um assaltante que poderia atacá-la em sua própria casa que ser vítima desse cara e ter de esperar dias para a polícia, quem sabe, aparecer. Afinal, é mais fácil ser preso que ser socorrido por policiais.

Além da sobrevivência ao confronto, ela dificilmente será incriminada. A polícia não está exatamente procurando sarna para se coçar e reconhece, suponho, que a tal mulher não é exatamente o que está errado com Caxias.

Ainda assim, nos vem a ideia de que ela não deveria ser nem acusada. Tendemos a pensar que a mulher deveria ser ouvida pela polícia, receber um tapinha nos ombros por congratulação e voltar ao seu dia-a-dia, nem que fosse para lidar com o assassinato de outro ser humano como quiser, se isso é o tipo de coisa que incomoda aquela senhora. Bom, isso me parece otimismo desmedido, motivado pelo que consideramos hoje um final feliz: se o bandido na situação está morto, estamos satisfeitos, e supõe-se que nenhum problema advirá disso.

A polícia, no entanto, não pode partir de nenhum desses pressupostos. Em primeiro lugar, estão em frente a uma mulher que demonstrou que, aos 87 anos, é capaz de matar outro ser humano. Em segundo lugar, se a polícia acreditasse em aparências e primeiras versões, a impunidade seria ainda mais fértil que já é. Em terceiro, a arma ilegal estava na casa, mas supostamente não era da velha. Era de quem? Por que estava ali, se ilegal? (É possível entender que a arma era legal, mas ela não tinha direito de empunhá-la - a notícia, como é comum, não foi clara nessa parte.) Como disse, Caxias é uma cidade violenta, e não se pode dar ao luxo de não investigar questões como essas. Então, dessa vez, o "bandido" morreu? Isso não garante que, na próxima, o morto não seja um bandido, mas outro qualquer, ou a vítima se passando por bandido (que ainda seria incriminado por homicídio, claro). 

Ou seja, quando alguém morre, está certo a polícia parar tudo e lidar com muito cuidado com o assassino, mesmo que seja uma senhora de 87 anos que ia ser assaltada por um criminoso reincidente. Não é o contexto, mas a morte de outro ser humano que motiva o estancamento do cotidiano e o pisar em ovos frente às evidências do crime, até que tudo esteja bem claro. O problema é ainda quando a polícia NÃO age, e deveria. Agora, não é porque a polícia tende a ser ausente, pobre, desrespeitosa, corrupta ou incompetente que, quando ela não o é, deve ser acusada. Deixemos as críticas para quando ela está errada! 

O meu ponto, em tudo isso, era que, mesmo com as razões que aprensentei (sei que um juiz ou advogado incluiria muitas mais), o policial em geral deve sentir pelo menos uma tendência a essa empatia que nos faz reclamar da polícia por incriminar a velha (note-se, incriminá-la pelo que ela fez!). O policial, além disso, tem conhecimento da falência da polícia com uma profundidade que nem suspeitamos e precisa conviver com as ironias de ver tanta miséria na profissão e, ao mesmo tempo, uma velha sendo presa por defender sua casa. 

Escrevi este post para dizer, então, que é nesses dias que o cara precisa amar demais o seu trabalho. Pois é preciso ser muito ético, ou gostar demais da profissão, ou as duas coisas, para prender uma velha nessa situação e não se deprimir com o que se escolheu fazer da vida.