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domingo, 22 de setembro de 2013

Devil Inside

(Vídeo só por causa do título)

Se existe uma tendência minha mal posicionada é a seriedade com que costumo levar acordos. Por algum motivo eu respeito pequenas combinações do dia-a-dia, pequenos contratos, busco cumprir os papeis que assumo e trato as pessoas conforme os papeis que decidiram tomar, às vezes até insistiram, duvidando de que eu cumpriria o combinado. Mas eu cumpro. E a maioria das pessoas não. Por isso fico pensando volta e meia "Por que diabos eu busco cumprir essas coisas?"

Logo eu sou tachado como muito certo, muito comportado, muito duro, muito caxias, ou "o único professor que exige X". Estou longe de restringir o problema à minha relação profissional ou ao comportamento geral de professores. É um desvio que tenho com a humanidade mesmo. Ou, para dar o benefício da dúvida para outras culturas, meu desvio em relação ao meio em que vivo. 

O mais engraçado é que as pessoas, por isso, se surpreendem ao descobrir qualquer lado meu que desrespeite regras, etiqueta ou tradição. Logo elas percebem, no entanto, que esse desrespeito tem tudo a ver com minha personalidade, que elas deveriam suspeitar mesmo do tipo de demônio que levo comigo. E então elas se questionam por que alguém assim seria tão caxias. Resposta: porque eu não sou caxias com "as coisas", eu apenas acho que trato é trato. Pensando bem, talvez seja mesmo outro traço demoníaco: o de respeitar contratos e acordos.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Ser ou não ser idiota

Às vezes, quando cometo um erro idiota, como trocar uma palavra por outra por associação no post anterior (agora corrigi), e ninguém me avisa, eu fico com uma pulga atrás da orelha. Pode ser que o erro fosse idiota o suficiente para todos pensarem que foi um ato falho, portanto indigno de nota, e também é possível que tenham passado por cima do erro e o cérebro deles tenha cometido o mesmo ato falho ou simplesmente corrigido o que eu escrevi errado, de modo que não notaram o problema ali.

Por outro lado, eu sempre imagino que algumas pessoas notaram, e fico pensando se acharam que meu erro não era mesmo digno de ser comentado, mas era um erro verdadeiro. Ou seja, se pensam que eu realmente não sabia a diferença entre uma coisa e outra. (Podem ainda atribui-lo à pressa de escrever, o que sempre é verdade no meu blog nos últimos anos.)

Essa suspeita (de me acharem idiota ou ignorante para além da verdade) surge porque me parece comum que as pessoas pensem que somos mais burros ou mais inteligentes do que somos. Isso é especialmente perceptível nos implícitos de conversas que temos cotidianamente. Geralmente, aliás, as pessoas acham que somos mais burros do que somos, mas grandes imagens gerais de nossa personalidade podem ser um retrato de que somos mais inteligentes do que na realidade.

Nunca observei se todo o mundo faz isso, mas sei que eu reforço sem querer uma ideia de que sou mais idiota. Faço isso especialmente de duas formas: fazendo perguntas pressupondo um ponto de vista que não é o meu, para testar o quanto as pessoas sabem sobre determinado assunto e se podem me acrescentar algo pontual, mas nunca esclarecendo realmente qual era o meu ponto de vista; e deixando me acharem mais idiota quando percebo isso implícito numa resposta ou conversa, se estou com preguiça ou desinteresse de esclarecer o que estava pensando ou entrar de fato na conversa.

Na maioria das vezes, é verdade, considero vantajoso que nos achem idiotas. Quando necessário, se for, podemos pegar as pessoas de surpresa, e elas abaixam a guarda em muitos aspectos se acreditam que somos menos espertos, perspicazes ou ligados que de fato somos. Ser tratado como idiota, portanto, muitas vezes tem vantagens, mas é preciso cuidar da imagem em um que outro contexto. E às vezes essa imagem não traz ganho algum, então acaba cansando. Mas às vezes, claro, simplesmente somos mesmo idiotas.

domingo, 17 de junho de 2012

Negar a verdade por medo das consequências

"A escola é o último lugar para o jovem não se tornar um marginal"

A ideia é mais ou menos essa, mas foi resumida numa frase semelhante, que infelizmente não consegui encontrar na internet para citar aqui. De qualquer forma, o espírito da coisa é esse. Recentemente a vi citada para uma plateia de professores. Todos aqueles que não estavam apaixonados pelos clichês falados pela palestrante (e que estavam perto de mim, pelo menos) nitidamente se sentiam desconfortáveis com a ideia.

O problema, pelo jeito, não seria por constatar algo supostamente falso. O problema mesmo é que, se a afirmação for correta, a escola tem uma gigantesca responsabilidade... a mais. É uma daquelas situações clássicas ("das Humanas" eu ia dizer, mas nas Exatas isso também é verdade...) em que uma afirmação sobre a realidade é negada não por constatar uma falsidade, mas porque, como uma performativa, a consequência da frase é complicar ainda mais a vida da gente, então é melhor negar a proposição como ato, sem nem mesmo entrar no mérito de ela ser verdadeira ou não. Posto de outra forma: não se questiona a veracidade de uma afirmação que, se verdadeira, exige mais da gente.

Infelizmente, uma verdade não deixa de ser verdade apenas porque nos é desconfortável confrontá-la. Classicamente, aliás, uma verdade ignorada é exponencialmente mais perigosa que uma verdade enfrentada, pois continuamos combatendo as consequências dela como se fossem causadas por outros motivos, portanto atiramos para todos os lados, apenas com a garantia de nunca mirar no alvo real.

A ideia pode ser complicada, ou verdadeira apenas em alguns casos, mas a solução ainda é assumir que isso pode ser verdade e se analisar realmente o quanto a ideia funciona, não ignorar o que se constata para seguir com a cabeça enfiada na terra.

terça-feira, 20 de março de 2012

Exposição e silêncio

Ainda acho curioso que o pior que se pode fazer a alguém que tenta chamar a atenção é chamar a atenção para o fato de que a pessoa a está tentando chamar.

Não se pode comentar o volume de alguém que ouve música estourando em local público (ou em qualquer lugar, na verdade), não se pode pedir uma queda de tom de um bêbado em êxtase, não se pode comentar o desespero de um decote exagerado - que se pode (e se é de fato convidado a) olhar. O importante é não falar, não comentar teoricamente o grito por atenção. A gente pode, no entanto, dar atenção; ou ignorar completamente. 

A solidão e a ânsia devem ser sentimentos basilares demais em nós. Reconhecê-los talvez seja aceitar uma exposição excessiva. Então uma pessoa pode até se expor. Só a insultaremos se, ironicamente, publicarmos o fato, falarmos o que todos sabem, apontar para o ser exposto não para paparicar, mas apenas para apontar a exposição. O exposto, então, sente o golpe que dava em si mesmo.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Hiprocrisia: você quer uma pra viver?

Nunca achei um bom argumento para a tese de que as tradições não ganhem parte de seu valor só por serem tradições, costumes. O nosso cérebro, me parece bastante claro, adora uma rotina simbólica, certas exigências um tanto quanto espirituais para serem encontradas no dia-a-dia conforme seja lá qual cultura nos formou (não uso nem cultura aqui no sentido amplo, mas de etiqueta, seja de moda, de profissão, de festas e feriados...).

Isso vai, é óbvio, muito além de se dar Feliz Natal a qualquer Zé Mané que se deteste, mas digamos que isso podia passar. Sei lá, talvez a hipocrisia seja aceitável em pequenas doses? No entanto, as pessoas podem brigar um ano inteiro, se xingar sempre que possível, disputar em decisões quase de vida ou morte, literalmente, e ainda assim quererem uma da outra mensagens de paz e fraternidade no ano novo... Nem se trata de uma exigência de civilidade ou honra entre competidores. Antes fosse! Falo aqui dos cumprimentos mais batidos e banais, vazios na própria expressão.

Não entendo. Quando nunca mais quero ver uma pessoa na frente, não faço nenhuma questão que essa pessoa gaste ainda dois minutos a mais na minha frente me desejando qualquer coisa, boa ou não. Por que se reclama quando alguém não é hipócrita, não fica nos paparicando com mentiras antes de sumir da frente? Infelizmente, só consigo ver aí preguiça mental, ou uma crença absoluta no "poder" das palavras, em que os desejos de bons anos tenham mesmo a capacidade fantástica de atrair bons acontecimentos do "Universo". 

Espero apenas que nunca suponham isso tudo de mim. Quem não quiser me ver pela frente, por favor, exponha o seu caso (para me dar uma chance de reverter a falta) ou não demore: suma logo. Afinal, não há forma melhor de garantir um ano feliz do que começar a evitar todas as pessoas indesejadas o mais rápido possível, não?

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Preconceituosos de berço

Pesquisadores da Universidade de Sheffield, Reino Unido, descobriram que bebês de três meses já são racistas. Ok, não foi bem isso, mas foi assim que noticiaram. Ou seja, todas as matérias (espero, já que torço por que todos os jornalistas sejam responsáveis, ainda que ambiciosos em suas manchetes) começam por uma aliviada na informação, como eu preciso fazer aqui.

O que se observou é que eles começam, nessa "época", a preferir rostos de sua própria raça. A menos que estejam convivendo muito em ambientes "multirraciais" - dã! 

Supresa, supresa: preferimos o que nos é familiar desde cedo! Ufa, ou nossos ancestrais teriam morrido bem mais facilmente e nunca teríamos evoluído para poder desenvolver, por exemplo, manchetes sensacionalistas...

Maldosa e egoisticamente, no entanto, às vezes penso que seria legal se se descobrisse uma tendência genética bem clara aos preconceitos. Isso indicaria a responsabilidade da sociedade por se trabalhar contra essas tendências, mas sem sonhar com seres humanos ideais nascendo, nas florestas "isoladas" ou no futuro distante, igualitários e pan-amigáveis. Essa vontadezinha morre, é claro, quando lembro que uma descoberta dessas provocaria mais xenofobia, homofobia, machismo, racismo... do que qualquer Mein Kampf ou ressentimento que ande solto por aí. A ideia de que uma notícia provoca discussão racional em massa é ridícula não pela falta de poder da imprensa, mas pela flagrante incongruência da expressão "discussão racional em massa".

A notícia tem pelo menos, quem sabe, o poder para provocar em algumas mentes o raciocínio não de que somos racistas desde pequenos, já que nem na pior leitura é isso que os estudos estão realmente mostrando: racismo implica uma série de noções e seleções (bem mais sérias do que "não preferir", aliás) que crianças ainda não podem fazer. Mas, torçamos, talvez a matéria provoque o pensamento contrário, de que o preconceito tem sim muita base em nossa natureza. Como já escrevi vezes demais neste ano, eis uma tese que me convence bem mais, que dá a devida medida do desafio de uma sociedade que tente ser cada mais igualitária e que queira pensar com propriedade para peitar de frente seus problemas, mesmo que estes a matem de medo. Muito ineficaz é encarar o preconceito como "desvio", perda de uma conduta naturalmente bondosa, má influência pura e simples, praticamente uma gripe que nos atacou, mas que, no fundo, não nos pertence.

domingo, 7 de agosto de 2011

Honestidade transparente

Tenho um amigo animicamente hipersensível. Vê poesia em quase tudo que é positivo, e qualquer um pode lhe apontar poesia naquilo em que ele não notou ainda. Todas as formas de violência lhe parecem totalmente cruéis, de modo que uma crítica de qualquer pessoa a outra parece, em sua descrição, um ato de guerra covarde e assustador.

Pois bem, entramos juntos num ônibus e, quando fomos sentar, ele parou com uma cara um tanto abobalhada e espantada. A guria (de mais ou menos 20 anos) para quem ele olhava notou e estranhou, a que ele reagiu rindo do ridículo da própria cara e comentando (nitidatamente a respeito dela, para ela própria): "Parece um anjo".

Esse meu amigo está no fim da casa dos 30, mas passa tranquilamente por mais de 40, o que poderia ter tornado a frase um tanto deselegante, nojenta ou repulsiva para a guria em questão, caso se ouvisse nela uma cantada ou um eufemismo. Ele tocar no joelho dela (não se abaixou um monte, é que ela se sentara num dos bancos elevados, no fundo do ônibus) poderia ter piorado mais ainda a situação. No entanto, esse cara é tão sincero em suas observações espiritualmente estéticas no dia-a-dia, que o toque passou mesmo o pedido de desculpas que ele pretendia expressar. A frase, sobre parecer um anjo, soou absolutamente honesta e literal. Não era uma variação de bonita, ainda que o implicasse, nem era um comentário sobre o comportamento dela, mesmo que seu jeito denotasse, pelo menos naquele momento, certa paz ensimesmada comumente associada a anjos. Sua jaqueta incrivelmente branca, com o capuz da mesma cor emoldurando o rosto, teve também seu papel, acredito, na impressão que viera a ele.

Viajamos no ônibus até o Centro, algo como meia-hora, no fim do que, quando levantamos, ela espontaneamente lhe deu um tchau e um sorriso.

sábado, 7 de maio de 2011

A defesa do inocente

Entrevista na Zero Hora com Ricardo Neis. Ele é perguntado sobre uma ex-namorada ter registrado na polícia que ela fora atacada por ele armadado de uma machadinha, um dos vários casos de violência que afloraram a público depois que Neis atropelou ciclistas do Massa Crítica. A resposta:

"Eu ainda não tinha sido ouvido sobre isso. Ela era uma garota de programa, e nós resolvemos viver juntos. Foi uma convivência tumultuada. As nossas brigas giravam em torno de dinheiro. No dia da briga, nós estávamos tentando nos reconciliar, não deu certo. Ela retirou a chave da ignição do carro e pegou o facão, que estava debaixo do banco, e começou a me agredir. Eu peguei a machadinha, que estava do lado do meu assento, e me defendi. Inclusive, fiz vários telefonemas para a polícia, na esperança de parar a briga. Acabei indo embora, e ela registrou a queixa e colocou a sua versão."

Trecho da Zero Hora online deste sábado.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Crítico

Às vezes indiquei minha incomodação com a dificuldade geral da humanidade em lidar com a crítica, tanto fazendo quanto recebendo, mas sempre foram comentários paralelos em posts sobre outros assuntos, me parece, então resolvi contar hoje uma cena que ilustra diretamente esse problema. Claro, trata-se de um "problema" para a minha visão de como a crítica deveria viver em sociedade.

Um colega teve uma iniciativa muito boa e a realizou. Deu supercerto, tanto para os professores envolvidos quanto para alunos. Problema? Isso também atrapalhou o que acontecia na minha aula, de forma direta ou indireta (o que não ficou claro no fim). Quando nos encontramos ele contou animadamente, para todos, como foi legal, e funcionou, e todos gostaram, e teve resultado, e tudo o mais. Eu achei bom tudo isso, mas resolvi indicar (na hora, para evitar de trazer na reunião que viria a seguir) que, da próxima vez, lembrasse de fazer o esquema todo longe das salas, porque tinha atrapalhado num momento chave o que eu e outra professora fazíamos na minha sala. 

Silêncio.

Ele se tornou imediatamente mudo, assim como as pessoas na volta. Não houve o que falar depois. Ele entendia que eu pudesse fazer uma crítica, não tenho certeza se entendeu ou não que eu não estava dizendo que era contra a iniciativa em si nem que não a tinha achado ótima para os alunos; simplesmente ficou um climão, e algumas testemunhas, mesmo concordando comigo, acharam que eu tinha feito algo errado. O quê? Tinha sido direto. Acontece que eu não pretendia ir contra ele, só pretendia inserir nos comentários gerais sobre o assunto uma crítica, o que, do meu ponto de vista, pode ser parte de uma conversa animada sobre algo bom. Sei que ele estava animado, mas não é possível se ir de um estado de animação para um estado de reflexão crítica (animada, se for o caso)? 

Tenho tido dezenas de experiências que indicam obviamente que não, mas nenhuma delas me convencia a ficar mais quieto. Esta convenceu. Só se pode criticar algo quando isso esteja sendo martelado pelo grupo. O que está sendo elogiado deve seguir sendo elogiado. Não é possível fazer um momento de conversa que olhe a ação de alguém pelos dois lados, a menos que se esteja em situação solene de crítica (reunião artificial para o assunto) ou se chegue "cheio de dedos". Esta expressão, aliás, parece querer dizer "com jeito", mas na verdade quer dizer "disfarçado de elogio". A crítica, desmascarada ou franca, é expulsa de qualquer conversa em que os elogios chegaram primeiro.

Ele guardou mágoa? Acredito que não. Mas , como foi possível vislumbrar comentando a situação, ele tinha uma crítica à minha crítica! Descobri qual? Não. Mesmo eu não tendo sido, ELE seria "educado".

domingo, 1 de maio de 2011

Preparando-me para meritocracia

Não sei de o sistema "meritocrático" estar para ser instalado na Educação do RS em breve, mas é sempre bom estar preparado. Falando em preparação, não posso esquecer que tenho a tendência de me expor frente a chefes quando discordo fortemente de suas decisões, o que significa não apenas que não posso contar com politicagem para ser favorecido, como posso acabar sendo desfavorecido por essa mesma via. Sou frágil por esse lado (aspecto importante para nós, pessoas a serem julgadas por aqueles que ninguém julga), apesar de ser assim tão carismático :-P

Em compensação, estou tendo curiosa experiência que permitiria embelezar meus resultados, sejam ruins ou ótimos. Observei que, em turmas com quem consigo me relacionar muito bem, propor trabalhos em grandes grupos joga a nota média da turma quase ao ápice. A média fica por algo como 9,5, mesmo que o trabalho envolva uma matéria em que estejam com dificuldade. Enquanto reconheço como os alunos mais titubeantes mascaram seus resultados ali no meio, o que me levará claro a outras abordagens para resolver suas dificuldades de forma mais incisiva, é bom saber que posso contar com eles para fingir que sou um professor perfeito, com alunos absolutamente fora da média das escolas públicas e sem um histórico de educação assustadoramente complicado.

Enfim, quando alunos e professores têm a lucrar com uma boa mentira, o quadro só precisa de bancas interessadas na mesma mentira para ficar realmente perfeito. Por enquanto eu posso encarar a realidade e tentar resolvê-la, dentro das restrições que já existem a isso, mas, como a meritocracia, se viesse, cairia de para-quedas independente da vontade real dos cidadãos e dos critérios com os quais a maioria concordaria, melhor saber o que fazer quando e se o dia chegar. Ah, sim, e ainda posso curtir certa liberdade política, sem estímulos financeiros para exercitar a obediência política premiada, podendo dar a cara a tapa sem grandes consequências econômicas.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Pedagogia, Ciência desHumana

Como a polícia do politicamente correto ainda não encontrou a pedagogia? Eu sei que se tem a impressão contrária, por tantos cuidados na escola com todo tipo de etnia e separação social, com termos como pedagogia do oprimido ou inclusão, mais ainda agora com o "Escola sem Homofobia", que causou tanto frisson com a apresentação pública feita pelo Bolsonaro. Mas tudo isso é o politicamente correto (entre outras coisas) dentro da pedagogia. Pergunto como os politicamente corretos não se voltaram para a própria pedagogia, para a formação para o papel de educador, para o questionamento do que ele é, a começar (como impõe seu fetiche pela linguagem) pelo próprio termo.

Diz-se que pedagogia vem de paidós (criança) e agogé (condução). Diz a lenda que o pedagogo era o cara (escravo) que "conduzia" a criança na Grécia e que, por pequenas transformações, passou a acumular responsabilidades educativas. Foi lá ainda que (no século V a.C., provavelmente) o sujeito que ensinava gramática, música e ginástica (educação como se entendia até então) passou a precisar também formar o aluno como cidadão. Essa coisa de cidadania e educação, portanto, está longe de ser novidade pós-moderna. Até a passagem de "condutor" a professor especializado se repete ainda hoje. Na última década, por exemplo, as "tias" de creches (maioria das profissionais da área, que tecnicamente não eram consideradas profissionais no sentido rígido do termo) passaram a sofrer pressão legal para se especializarem e ostentarem diplomas.

Pois bem, eu pergunto: como assim "conduzir", cára-pálida? Quer dizer que os politicamente corretos aceitam que alguém possa ser responsável por indicar caminhos e cercear outros para uma criança?! Esse é um ato rico em analogias que deixam os politicamente corretos de cabelo em pé (cercear, censurar, impedir, direcionar). Como pode que ninguém gritou e o termo não caiu? Com certeza não é por número de pedagogos nem por praticidade: quantas vezes os deficientes, por exemplo, mudaram de nome nos últimos cinco anos, deixando até os especialistas na área um pouco perdidos e (ufa!) cansados de malabarismos verbais com eufemismos sem sentido?

Minha teoria é que pedagogos (e politicamente corretos, grupos que nem sempre coincidem, por incrível que possa parecer para alguns) preferem continuar com ênfase na condução (ou seja, na ideologia), não na técnica (conhecimento), e isso implica, por sua vez, seguir "direcionando" e "conduzindo", novamente buscando usar a escola para formar cidadãos, aliás, como há quase 2500 anos atrás (e depois acham que a sala de aula é a coisa mais antiquada da Educação). É essa ênfase que mantém a educação entre as Ciências Humanas, só que isso no mal sentido. Sei que parece uma coisa boa, mas me parece que isso tem tido consequências "humanamente" mais nefastas do que se supõe.

Permitam-me esclarecer que estou questionando a Pedagogia num sentido amplo, não apenas no sentido do curso de Pedagogia das universidades. Todas as licenciaturas consideradas em grupo, todos os professores pensados ao mesmo tempo, todos os pedagogos lecionando, aconselhando ou supervisionando... pense-se em tudo isso e então se olhe para a questão: a pedagogia é mesmo a "ciência da educação", como quer sua definição? Ou ainda, por que motivo a pedagogia não é uma ciência "não-humana"?

Porque todos os alunos são diferentes...? Pelo conhecimento científico atual, podemos prever muito mais sobre alunos que entrarão nas salas de aula no ano que vem do que sobre galáxias e estrelas, nem por isso Astronomia não é ciência dura. Cada sujeito é especial, único? Ora, cada molécula é diferente da outra, se quisermos! O problema filosófico da identidade, aliás, pode se aplicar até a um elétron que esteja em dois lugares ao mesmo tempo. Nesse sentido, nitidamente o objeto é criado pelo método de análise. Nosso olhar para os alunos é o que destaca sua diferença ou semelhança, e destacar a diferença é contraditório com nossa valorização da educação, por um motivo simples: não se quer que cada aluno saia igual do colégio, raras vezes na história deve se ter até cogitado tal absurdo, mas por milênios se quer ensinar as mesmas coisas para o grupo todo de cada turma. O problema da padronização aterroriza mesmo pelo lado ideológico, não pelo técnico. Este herda o terror daquele, e as pessoas acreditam que não querem alunos massificados, mas há aí uma confusão associativa e, como geralmente é o caso, ilógica. 

Existe uma enorme quantidade de conhecimento, alguns inclusive bem complexos, que se quer sim idêntico em todos os alunos: ler, escrever, calcular, localizar-se espacial e socialmente... É claro que todos atingirão níveis diferentes, mas o espectro socialmente valorizado é na verdade bem curto. Alguém acha que se fica satisfeito com alunos que não sabem que vivem no Sul ou no Norte (do estado, do país, do planeta...)? Alguém acha que alunos podem escrever o próprio nome errado? Ora, as pessoas se escandalizam por alguém não conhecer a bandeira de seu país, ou se ridiculariza os EUA por tantos americanos não saberem nem onde ficam os países com que o seu trava guerras! Chega de hipersensibilidade a termos: a padronização é sensivelmente ruim quanto mais ela significa falta de senso crítico, mas existe uma penca de coisas que precisam ser sabidas para se ser cidadão. Tudo isso não implica necessariamente alterar diferenças ideológicas individuais (é possível gostar das mesmas músicas que antes e ser alfabetizado), mas, no que diz respeito a "conhecimento para todos", o que se quer ensinar pode ser considerado "massificante", só que essa massificação não é ruim. Nem todos precisam concordar com o hino, mas todos deveriam saber interpretá-lo.

Toda essa formação básica é necessária para se ser um cidadão minimamente próximo do ideal descrito em qualquer planejamento pedagógico ou em qualquer plano de escola brasileira. Pois bem, todos os alunos têm mais ou menos os mesmos cérebros (se comparados a macacos, elefantes, ratos...). A respeito desses seres humanos, neurociência, linguística (um lado dela), psicologia, antropologia, sociologia... uma série de ciências acumularam e acumulam conhecimentos. Quanto disso é usado no ensino? Perto de zero. É verdade que pedagogos (psicopedagogas em especial, pela minha experiência) utilizam o que estudam de algumas dessas áreas na sua prática, mas isso em geral vem de esforços próprios, cursos de especialização (sendo raros os de qualidade, claro) e outras buscas pessoais. Além disso, mesmos os que mais se esforçam não sabem tanto da maioria dessas outras áreas, porque muita formação ideológica e muito tempo de trabalho tomam o tempo de que precisariam para aprofundar tais conhecimentos. O quanto os educadores NÃO sabem sobre educação, seres humanos e neurologia, o quanto os cursos de licenciatura NÃO usam a Ciência para formar seus currículos, o quanto NÃO se estuda do conhecimento objetivo que se tem acumulado sobre o ser humano ANTES de as pessoas trabalharem com educação é impressionante. 

O que se estuda em pedagogia e nas licenciaturas? A ideologia, em grande parte. Repetições de clichês se acumulam com certas revisões das leis, como se saber leis e exercê-las fossem coisas análogas. A maioria (se não todos) os professores reclama de não ter aprendido a dar aula nas faculdades que cursaram. Por que isso é uma regra? Por que essa regra não muda? Porque a ênfase não sai da ideologia. Aquilo de que os professores recém formados sentem falta é da técnica! E técnica, diferente do que ideólogos de plantão ironizam, não implica ignorar ideologia nem, pelo outro lado, quer dizer  "receita para dar aula". Essa ironia vem do fato de que muito da preocupação com a formação cidadã ignora o quanto temos de aprender para nos tornarmos cidadãos, o mesmo valendo para a preocupação com a formação de uma postura crítica.

Ironicamente, esse tipo de ideólogo ignora também um outro sujeito da escola: o professor. A relação entre professores e alunos é (dã) pessoal, sempre! Existe muito espaço para ideologia aí. Melhor dizendo, tudo na construção do conhecimento é ideologia, ou está imerso nela (mais até do que esse tipo pedagogo ou professor enxerga). E os alunos têm curiosidades ideológicas muito mais do que conteudísticas ou informativas. Se a ideologia está implícita e sempre presente, para que fingi-la, para que trabalhar a ideologia de forma afetada se ela estaria lá mesmo que não quiséssemos? Se tudo é ideologia, para que colocá-la em primeiro plano? Não há maior exemplo de péssimo letramento: querer inserir no ensino aquilo que se afirma onipresente!

Uma ênfase na técnica, portanto, na ciência do ser humano, da aprendizagem e do conhecimento na formação de educadores não apagaria de nenhuma maneira a formação ideológica da prática de sala de aula. No entanto, uma formação que só vê a ideologia e ignora tanto conhecimento e tanta técnica quanto consegue, usando alguns saberes mal colados e agregados sem método como base de uma formação ideológica (cidadã, crítica...) falha miseravelmente, porque é preciso conhecimento para questionar, criticar, duvidar, supor, até imaginar, assim como é preciso conhecimento para formar os alunos, tanto técnica quanto ideologicamente. Um professor com a bandeira que recebeu na universidade é, em sala de aula, um mudo tentando falar com surdos. Um professor com técnica e conhecimento não deixa de ter uma bandeira, mas ela provavelmente é diferente daquela que seus formadores queriam que fosse, porque um professor com técnica só pode ser um autodidata.

Por natureza, a maioria de nós agrega pouco conhecimento e horizontes curtos. Não criamos as escolas à toa, mas porque sentimos a necessidade de formar crianças num estado intensivo e arbitrário. Por que se "valorizar" tanto a escola e a educação e ainda se sentir tanta vergonha do caráter autoritário que está sempre implícito nela? É óbvio que não precisamos ser autoritários além da conta, mas é impossível forçar o comportamento de uma criança (impedindo-a de estar em casa ou brincando na rua, para começar por baixo) por pelo menos 5 horas de 200 dias por ano e sustentar que não estamos sendo autoritários nessa relação. Para formar alguém que possa até mesmo nos criticar, é preciso antes formá-lo, e esse verbo não vem sem certo custo para as sensibilidades politicamente corretas. Bom, azar o delas.

Sei que isso é muita exigência, mas Pedagogia nem deveria ser uma faculdade, mas uma especialização acessível apenas por pós-doutorado. Por que não formamos para educar apenas pessoas que já estudaram (muito) o ser humano? Por que achamos que podemos aprender a educar sabendo tão pouco sobre os sujeitos com quem vamos trabalhar? Por que a pedagogia ser uma Ciência Humana acaba implicando despreparo e falta de método?

segunda-feira, 21 de março de 2011

Hipócrita para o teu próprio bem

Nunca tinha visto Glee até hoje. O primeiro episódio a que assisti foi "Blame It on the Alcohol", um dos dois que me foram indicados numa discussão recente a respeito de escola. Bom, apesar de ter entendido o porquê da fama do seriado, o que me chamou a atenção é algo que dificilmente deve justificar a preferência da maioria de seus fãs: a relação entre a escola e o moralismo que geralmente se quer encarnar nela está particularmente bem representada. 

Parece que um encaixe mal feito entre escola e "sociedade" (situação que caracteriza a instituição, pelo jeito, no mínimo desde os anos 1970) cria uma pressão constante para que não apenas tratemos de assuntos morais com os alunos, mas que cheguemos ao extremo de sermos hipócritas. A maioria dos professores (que conheço) tenta resistir, mas o ataque ou a pressão para que atinjamos a hipocrisia na sala de aula é tão variada e vem de tantos lados que às vezes não vemos saída em determinadas conversas com alunos a não ser ceder e declarar um moralismo simplista e exagerado que não poderíamos, em sã consciência, aplicar a nós mesmos.

Na verdade, essa hipocrisia me parece herança antiga; o que se estabeleceu por aqui mais ou menos nos anos 1970, provavelmente só ganhando peso significativo no seu fim, foi nossa visão de escola aderir a uma verdade bastante difundida no resto da cultura brasileira: não existem posições de autoridade monolítica (nas instituições brasileiras) - o que eu acho bom, aliás. Mas isso faz com que mesmo o mais passivo ser humano seja um aluno com mínimo senso crítico (pelo menos) quando o assunto é "afirmações de professores". O que acontece é que essa nossa fraqueza momentânea, esse ceder à hipocrisia que nos é exigida, vem nos atazanar no futuro, quando descoberta pelo estudante (e, mais cedo ou mais tarde, será). - É possível também que ele ou ela nos largue de mão de vez e nem venha nos cobrar por nossas palavras, o que é pior ainda, claro.

Enfim, há uma coisa estranha entre valores que a sociedade prega sem praticar e as cobranças e fantasias do senso comum (que governa, é claro, muitos professores, pedagogos e diretores ou vices) a respeito de como acreditamos querer educar as "crianças". O episódio do Glee em questão pega o problema do álcool e cria a situação ridícula (no sentido de cômica, além de absolutamente veraz) de adultos (que bebem, dã) querendo que os alunos encontrem uma música (!) para assustar toda a escola a respeito do consumo de álcool, a ser apresentada numa assembleia da escola. É claro que as bobagens de pessoas alcoolizadas e as mentiras que se contam cotidianamente sobre ou para o "controle" do uso de drogas em escolas figuram no roteiro. A série pode ter um aspecto de ficção em todos os detalhes, mas a estrutura e o tema são incrivelmente relevantes e complexos, o que foi uma muito grata surpresa.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A verdade dói

"If you were always right, then you wouldn't have just been wrong."
House (algumas pessoas só respeitam críticas vindas da ficção).

"O menor insulto, o termo mais leve, a coisa mais... assim... para dar um exemplo suave, o menor insulto que usaram foi dizerem que nossos alunos são semi-analfabetos!"

Constatar a verdade constitui insulto? É mentira que basta evitar os termos politicamente corretos para não se cair nesse modus operandi. A postura politicamente correta não existe só em sua expressão mais clara, mas denota geralmente medo frente à realidade, dificuldade de se lidar com os fatos. Tanto que a pessoa que produziu essa frase acusou o golpe: desmereceu as críticas recebidas para imediatamente tomar medidas que tinham as mesmas críticas como base. 

Se uma parte significativa dos alunos que encontrei no fim do ano passado não eram semi-analfabetos, então nenhuma política nem postura minha a respeito seriam necessárias, e seria possível partir para desenvolvimentos mais arrojados da língua portuguesa. Mas a realidade não permite. Ninguém teria coragem de ignorar uma realidade tão poderosa, porque, pasmem, o "alfabeto" faz falta! Poucas pessoas, porém, têm coragem de assumir a realidade, qualquer realidade, verbalmente. Essa resistência vem de gente que está trabalhando com os mesmos alunos há muito mais tempo que eu, claro, e que não quer assumir grandes erros, ou mesmo que deixaram de trabalhar bem uma capacidade por estarem trabalhando outras (como combatendo a evasão ou o tráfico).

Não é possível assumir erros publicamente, porque a competição vem antes de qualquer responsabilidade. A imagem é tudo em empresas, e tudo no Estado é um ato político-partidário. Cada erro conta na hora de serem publicados superficialmente e sem contexto para a briga por votos, bem como para serem distorcidos, aumentados ou só servirem de base em que se inspirarão mentiras deslavadas. É a mentira mais repetida entre TODOS os profissionais da educação que o aluno seja a primeira responsabilidade, o primeiro motivo de se trabalhar, o grande foco a que todos os esforços convergem. O primeiro alvo da educação é o mesmo de todas as outras profissões, o próprio profissional, o próprio umbigo, a própria vaidade. E que as pessoas saibam mentir bem para si próprias, assumindo os sacrifícios e não assumindo que estes são feitos para se atingir um prazer vaidoso muito maior depois ou para se manter uma boa imagem no emprego é uma postura politicamente correta tão mentirosa quanto as outras. Quando essas vaidades estão sob controle, ou seja, quando lidamos com adultos suficientemente maduros, não há problema, não mais do que se tem por exemplo entre garis, secretários e bombeiros. Nada disso torna os professores piores que os outros seres humanos, e é triste que esse medo mesmo exista entre eles. Mas quando essa vaidade bem alimentada garante contratos ou vantagens partidárias, aí a coisa complica, e professores passam a lembrar não profissionais, mas políticos ou palestrantes de auto-ajuda administrativa.

Esse problema é ainda maior, porque os profissionais da educação, talvez sem se tocarem, já saíram do jardim de infância. Viver num mundo em que as pessoas não mentem para si e não têm a própria vaidade como grande motivador pode ser uma agradável fantasia, mas afasta da realidade. E é possível lidar com a realidade sempre se fugindo dela? Bem, algo se faz. Nada, no entanto, que dependa de se admitir os próprios erros. Os erros crassos, os erros que são cometidos pela maioria, e pelos quais a maioria apedrejaria quem os admitisse. A postura politicamente correta, como sempre, denota um tabu.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O Estado... só na cabeça de Porto Alegre

Vejam só que engraçado, fui exposto hoje à definição de Estado da Prefeitura de Porto Alegre, e ela corrobora um mito que eu já acreditava morto: "O Estado é uma organização criada pela sociedade para realizar tarefas coletivas".

Locke? Loucos! 

Não o nosso Estado, cara-pálidas...

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A esquiva magoada dos fatos

It is silly to call fat people “gravitationally challenged”, a self-righteous fetishism of language which is no more than a symptom of political frustration. 

Terry Eagleton

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Australian responsibility

Na terça eu fiz um post sobre as pessoas tomarem a responsabilidade para si daquilo que fazem e na quarta já vi um exemplo que muito me agradou exatamente disso. Infelizmente não pude publicar, mas aqui vai:

Existe um ditado de língua inglesa que eu odeio, particularmente porque reconheço como a normalização de uma retórica de encobrimento, que é "stats don't lie". É claro que a coisa se espalhou e é usada em português em geral na forma "números não mentem". Pois bem, eu vi uma defesa de um australiano em que ele chegou a subscrever o ditado (sua cultura), mas conseguiu ao mesmo tempo tomar a sua devida responsabilidade pela leitura dos dados apresentados, que é realmente o que importa. Ao ser criticado pelo uso de determinadas estatísticas, diretamente pelo risco que esse uso geralmente acarreta, ele começou sua resposta assim:

"Números não mentem. Pessoas mentem. Se existe alguma minha mentira aqui, ela é minha."

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Eu podia tá roubando...

"Eu podia ter simplesmente dito que não era minha responsabilidade e deixado sem fazer..."

Podia mesmo? Se a pessoa é coagida, por chantagem, força ou cobrança institucional de algum tipo (geralmente uma sublimação das duas formas anteriores), então "podia" coisa nenhuma.

Mas se a coisa não chegou nesse ponto, ou não precisou chegar lá? Então a pessoa agiu por sua própria consciência. Ora, se foi isso, então a pessoa, muito teoricamente, "podia" sim ter feito outra coisa, mas decidiu não fazer. E se decidiu, decidiu. A menos que a criatura seja uma criança, estando a coerção violenta descartada, sua decisão é de sua responsabilidade. Os outros podem ser gratos... ou não. 

Mesmo um de nossos heróis populares mais queridos disse "não faça aos outros o que não queres que façam contigo", e não "não faça aos outros para que não façam contigo". A cobrança pelo reconhecimento de nossas boas ações (sejam verdadeiramente isso ou não) indica um pressuposto de que a bondade exista numa relação de crédito metafísico, de que o bem é premiado com o bem; ou, pior ainda, de crédito humano, que implica seres humanos que reconheçam o que recebem por bem. Não é a melhor descrição da raça nem dos deuses. O choramingo de "eu podia ter..." não faz sentido. A responsabilidade por fazer algo, bom ou ruim, é nossa. Os outros são agradecidos quando querem, se querem. 

Fazemos o bem porque queremos, portanto fazemos o bem por nossa conta e risco. Ou não façamos.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Mobilidade social

Imaginem quantas pessoas teriam de mudar de profissão se seguíssemos à risca esta dica de Umberto Eco:

"Defina sempre um termo ao introduzi-lo pela primeira vez. Não sabendo defini-lo, evite-o. Se for um dos termos principais de sua tese e não conseguir defini-lo, abandone tudo. Enganou-se de tese (ou de profissão)."

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Trabalho em grupo sincero

- Mas uns não vieram, e o Fulano e o Ciclano não ajudaram nada [verdade].
- [Cansado] Faz o seguinte, coloca o nome de quem te ajudar no trabalho depois.
- Tá legal. "Minha mãe. Meu pai"...