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domingo, 8 de setembro de 2013

Os poderosos clichês

Eu não lembro se já as comentei aqui no blog, mas o post anterior me fez retomar duas teorias que tenho sobre clichês.

A primeira delas é o que o cansaço que temos com clichês nos leva a subestimá-los, mas eles na verdade representam, em geral, verdades superconcentradas. Essa concentração se dá com o tempo, exatamente como no processo natural de decantação. Muitas histórias ou muitas versões estão sempre sendo aventuradas sobre tudo. Aquelas muito verdadeiras (coloque aqui seu teor de relativismo cultural, a gosto) sobrevivem por mais tempo e dominam as outras. O clichê do herói e da heroína formarem um casal, por exemplo, tem muito de verdadeiro. São duas pessoas que sobrevivem e vivem melhor juntas (tanto que ganham a aventura por isso) postas numa situação de stress, em que a confiança no outro é fundamental, e tudo isso gera uma série de vínculos e dependências que são uma mão na roda para o Cupido. É claro que muita projeção da plateia favorece tal tipo de relação romântica, mas isso é verdade para tudo, não só para os clichês.

Enfim, acho que eles são histórias ou esquemas que se repetiram e repetem muito, por isso mesmo viram clichês. Quem quer resistir a determinados valores precisa então atacar esses clichês, mas tal status não parece ser o melhor alvo. O argumento "isso é clichê", nesse sentido, reforça-o, pois afirma que aquilo aconteceu e segue acontecendo muito.

A outra questão é que clichês precisam ser concluídos. Como eles resultam de um acúmulo de experiência, a resposta pronta não quer dizer o mesmo que para aqueles que tiveram que chegar a ela batalhando e pensando. Assim, o mau cheiro do clichê em geral é reflexo de que a pessoa não o entendeu direito, está vendo-o de fora, precisa viver e até negar aquele clichê para chegar a ele. 

É esse aspecto que me incomodou no post anterior. Exatamente porque estou falando sobre o choque entre minha visão de mundo e a de tanta gente que me cerca, fico pensando quem poderia entender o post anterior no sentido que eu pensava. Estou falando mal de um "sistema", reclamando sobre uma idiotização da vida à Hollywood, tudo coisas que se fala muito, mas em geral num sentido diferente do que eu buscava. Como não tento explicar a minha vida aqui, a leitura do post deve indicar para muita gente o caminho errado. Ele deve ser lido em sentidos opostos aos que eu pensava. Mas, se eu acho justamente que a complicação da Mafalda é de tradução, esses mal entendidos acabam por reforçar meu argumento...

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O decisivo senso comum

Por mais que se fale mal do argumento de autoridade e da escolástica, se existe uma estrutura milenar firme na Academia é a estrutura de citação. A ideia é que toda pesquisa aproveita pesquisas anteriores e vai além, portanto em parte é preciso demonstrar essa trajetória e esse conhecimento acumulado pelo próprio pesquisador, que vai acrescentar algo e que pode afirmar isso exatamente porque conhece o que veio antes. Outra relevância desse formato é indicar certas "verdades" acumuladas até aqui pela Academia para que não se tenha que partir do zero a cada pesquisa. Não dá para todo astrônomo ter de começar redescobrindo a gravidade. A citação ainda é relevante para quem quer questionar a tradição ou resultados anteriores. Só se dá ouvidos à novidade se a pessoa que acha que descobriu algo novo indica que sabe e entende aquilo que ele está tentando criticar ou reformar. Outro motivo ainda é que afirmar algo que nós não descobrimos pode ser considerado plágio. Se vamos partir de ideias alheias ou coincidentes com outros autores, melhor dar os devidos créditos do que ser processado e descreditado depois.

Pois bem, essas são algumas justificativas para que ainda precisemos ficar citando uma galera em todas as pesquisas. Quando se pensa nisso tudo, dá até a impressão de que se está esquecendo ou subestimando a importância de outra força fundamental: o senso comum.

Pode parecer que a citação funciona contra isso também. Se eu estou contrariando o senso comum, de repente vai ser mais simples se eu indicar que o papa daquela minha área fez o mesmo, argumentou como eu, mas isso não é verdade. O senso comum é capaz de distorcer a leitura que se faz de qualquer citação bem como de apagar a memória justamente a respeito daquela citação do papa. A citação é importante para muitas coisas, mas nem ela enfrenta essa outra força tão poderosa, o que é um irônico enfraquecimento para o argumento de autoridade: mesmo esta perde para o que é aceito sem questionamento algum, para o que é cotidiano, para o que embasa qualquer raciocínio mais consciente.

O mais curioso é que discutir o senso comum é impossível, sem que ele seja localizado em alguns autores muito importantes - ou seja, em papas ou bispos. Assim, para se discutir o senso comum é preciso trazê-lo na forma de citações. Caso contrário, ele é uma forma nebulosa, uma impressão qualquer, algo fácil de se desconsiderar e de, portanto, permanecer exatamente como está. Quando citamos o senso comum, no entanto, ele não será ignorado, já que o próprio corrompe até a leitura das citações?

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Eu não entendo a Legião da Boa Vontade

Sempre que a LBV me liga eles começam falando como Jesus me ama, as crianças me adoram, como todos queriam me agradecer pelo meu grande coração (sic), desejar Feliz Feriado-Mais-Próximo etc. Tudo isso, é claro, fazendo de tudo para que eu não tome a palavra (ou seja, sem nenhuma intenção de ME escutar) e fingindo que eu não sei que eles querem dinheiro. Ora, por que me tratar como criança, e uma criança imbecil, seria o caminho para chegar ao meu bolso? Sério que eles imaginam que eu vá sentir vergonha e POR ISSO lhes doar dinheiro? Não é doação para as crianças que eles querem, mas sim esmola extorquida por vaidade?

Como é que uma "Legião da Boa Vontade" pode passar décadas com a tática de se posicionar moralmente na situação mais detestável possível e então... pedir dinheiro!?

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Concern trolling

Nossa, esse era um termo que me faltava. Sei que ele tem pelo menos dois sentidos já, mas o que me interessa é o que especifica a retórica de dizer que um assunto debatido está levando as pessoas a ignorarem outra questão ou que ele deveria ser considerado apenas por quem se preocupou com a tal outra questão, acontece que esta não é realmente do interesse da pessoa que está argumentando isso. Só o que ela quer é mudar o assunto e enfraquecer a discussão que está acontecendo. 

É o uso da velha artimanha do cult: "isso todos estão valorizando agora, mas é muito mais cool pensar como eu, que na verdade sei uma outra coisa, ignorada, com muito mais valor de afetação do que a primeira em questão". No entanto, é esse processo ainda mais esvaziado, e o que está em questão não é ser cool, mas se sentir e se mostrar "humano", termo que também detesto nesses blablablás e que já xinguei muito em algum post antigo. 

O concern trolling é particularmente comum em discursos conservadores de alcance nacional (ou sobre temas nacionais), apesar de me parecer mais recorrente em discurso esquerdista de pequena escala. Boa parte da esquerda toma facilmente o papel de "bom cidadão longamente ignorado", o que muitas vezes pode ser verdade, mas tenta e alimenta bem a prática do concern trolling. 

O que me lembra, em paralelo, que George Carlin era muito bom em desmistificar esses desvios retóricos. Aliás, ele era ótimo também em fazê-los a fim de criar piadas, que pareciam pura fuga do assunto até a punch line, em que finalmente se via que ele não estava fugindo de assunto nenhum. Muitas vezes essa é a falta que bons comediantes mais fazem: deixar um vácuo de figuras públicas que não deixem a hipocrisia desviar preocupações sociais com movimentos retóricos. A educação talvez pudesse suprir esse papel, até certo ponto, mas com ela bem sabemos que não podemos contar. 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Por que não postar

Quando iniciei este blog, mantinha uma certa neutralidade que sempre me interessou. Tenho uma ideia de neutralidade parecida com o conceito de governabilidade, ainda que não na forma radical que o PT adotou. Ou seja, acho que as coisas só vão para a frente quando a gente não perde o foco e ignora toda discussão ou discórdia que envolve picuinha, vaidade, inveja ou desaforo, ainda que ela venha embalada por mentiras crassas. Se revelar a verdade não vai ajudar a chegar ao ponto que nos interessa, o desvio para esclarecer a bobagem que a outra pessoa diz não me serve. (O quanto o blog era neutro em outros sentidos, ou me achavam progressista ou conservador, é outro assunto que não me interessa propriamente.)

Ao mesmo tempo, o blog era mais mesmo sobre usos engraçados ou bizarros da linguagem cotidiana, particularmente em jornais (muito à mão porque comecei o blog quando estava desempregado, mesmo que estudando), conversas de ônibus (dos quais não dependo tanto mais, porque resolvo quase tudo a pé ou de bicicleta) e discursos políticos - que viraram o próprio problema para eu continuar escrevendo no blog.

Eu praticamente parei de escrever não por causa dos discursos políticos, mas porque minha tese estava atrasada, e eu estava de saco cheio de não terminar nunca. Decidi que todo meu raciocínio para digitar seria focado nela, nem o blog teria vez. Quando parei, no entanto, muitas coisas mudaram. Uma das minhas últimas reclamações no blog foi justamente sobre as pessoas acharem que ficar falando muda alguma coisa. Pois eu paro de escrever e os reclamões de face saem às ruas e conseguem que nossa passagem retroceda no preço!

Depois disso, São Paulo fez movimento parecido, até citando Porto Alegre, mas a polícia de lá lembrou que dá para bater em manifestante e ficar por isso mesmo. Na manifestação seguinte aqui, pancadaria e vandalismo! Novidade herdada do Centro. São Paulo imitou POA, POA imitou São Paulo, cada qual à sua maneira...

Enfim, junho foi o que foi e teria o que comentar sobre cada coisa, mas estava na minha abstinência do blog. O resultado mesmo foi que perdi boa parte da minha neutralidade em alguns assuntos. Não acho que poderia deixar de ser virulento ao mencionar Globo, Record, PDT, pastores e tal. Claro que não era a favor dessa gente antes, mas é diferente o tipo de picuinha a que me ateria no momento. Ao mesmo tempo, o blog tem que ter deixado de ser acompanhado por muita gente, depois de tanto silêncio, o que pode ser bom para tentar começar de outro jeito.

Na verdade, devo dizer, não prentendo começar a escrever muito diferente no blog. Este post foi apenas para exorcizar tudo o que mudou e que deixei de comentar esses tempos todos. Não quero pesar a mão aqui mais do que antes, e posts virulentos tenderão simplesmente a não serem escritos, ou serem deletados antes de postados. Era isso.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Um país violento!

A voz do povo é a voz de Deus. De um deus extremamente violento. Lembremos de algumas pérolas da #vozdarua

Gay, só matando! Homofóbico, só matando! Machista, só matando! Feminista, só matando! Sem-vergonha, só matando! Vagabundo, só matando! Milico, só matando! Político, só matando! Manifestante, só matando! Vândalo, só matando! Petista, só matando! Anti-partidário, só matando! Marxista, só matando! Reaça, só matando! Domingueiro, só matando! Taxista, só matando!

É, definitivamente não somos um povo de boa índole.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Renan e as palavrinhas mágicas

Pra quem ainda não tinha entendido.
Situações como os incêndios muito próximos na (ironicamente chamada) Vila Liberdade e na boate de Santa Maria geraram reclamações na internet E ações práticas em respota. Muita coisa precisava e começou a ser feita para ajudar todas as pessoas que sofreram com os dois incêndios. Existiu muita reação vazia, claro, como os fechamentos em massa de casas que, até o dia anterior, estavam esquecidas de qualquer fiscalização mais preocupada. No entanto, houve atitude INCLUSIVE de muita gente que tipicamente só reclama no face desse tipo de coisa, mas não está mesmo envolvido em problemas situações dessa natureza, não trabalha em cargo público nem participa de ONG.

Renan Calheiros, ou qualquer outro político, fazer ou dizer barbaridades também causa muita reclamação em rede social, mas nada de ações práticas. Por algum motivo, nem a proximidade entre as duas situações parece ter destacado para os moralistas de face que se estava apenas reclamando no caso de Renan, não se estava tomando nenhuma medida, de curto, médio ou mesmo longo prazo. Dizer que sente vergonha, que "ele não me representa", que está em luto também por isso faz QUE diferença? Melhor colocando, eu entendo reclamarem, comentarem, fazerem piada, mas é deprimente quando começam a surgir os atos mágicos, as frases de efeito, os insultos de quem jura que o político vá (1) ler e (2) dar bola para esse tipo de coisa!

Espero que logo algum político se dê o trabalho de demonstrar o quanto o poder político está muito acima de meras palavrinhas, o quanto discurso vazio é papa de criança para um político profissional, e tire uma foto com o dedo bem levantado pra colocar no face: Vão tomar no cu!

Talvez isso desse alguma luz para que se entendesse que reclamação é uma coisa, atitude é outra.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

É proibido caminhar

Na primeira temporada de Mad Men, há um escândalo na vizinha em que mora o protagonista: uma mulher é separada (é o começo da década 1960). Dada a estrita etiqueta da época e determinadas necessidades sociais de uma vizinhança sem internet, as pessoas convivem com a separada, mas em baixíssima tolerância.

Assim, a amiga da esposa do sujeito pode flertar violentamente com ele na frente da mencionada esposa, mas quando esta vê a separada meramente em pé ao lado do seu marido, fica com ciúmes e trata de pedir um favor para ele (favor a ser feito bem longe dali). Como se observa que essa mulher separada caminha pela rua (!), começa-se a especular aonde ela vai, e o fato de ela responder claramente que gosta de caminhar e o faz por lazer apenas piora as especulações a seu respeito.

Parece-me que toda a situação na série motiva pensamentos sobre grandes avanços da sociedade em relação à mulher, mas isso é chover no molhado de conquistas já feitas, o que raramente me parece o melhor aproveitamento de qualquer obra artística. O que é interessante, a meu ver, não é o que já mudou ali, ainda que seja bom lembrar quantos direitos femininos foram conquistados e quão idiotas costumamos (homens e mulheres) ser desde que boa parte da sociedade concorde com a gente.

Ainda assim, o que acho mais interessante é o que não mudou. Ainda hoje, decidimos os grupos que prestam e os que não prestam majoritariamente por motivos idiotas. O apoio de alguns amigos (se não de grande parte da população) é necessário para a ideia ganhar realmente mínimo mérito. Então, racionalizações vêm fazer o seu papel para crermos que não estamos sendo idiotas, mas extremamente lógicos. O próximo passo, ainda hoje, é não perdoar nem por andar na rua as pessoas que discordam de nossa visão.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Uma citação, pra recuperar o hábito

"Without science, everything is a miracle. With science, there remains the possibility that nothing is. Religious belief in this case becomes less and less necessary, and also less and less relevant." Lawrence M. Krauss - A Universe from Nothing

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Matando o democrático

Algumas palavras deveriam morrer imediatamente; serem assassinadas e ponto. A palavra "democrática" é uma dessas. A democracia não deve, espero que não morra; ou, para os pessimistas, espero que continuemos brigando para ter mais e mais democracia, apesar de não haver um exemplo perfeito desse ideal...

Enfim, apesar do valor da democracia, chega desse termo. Ele virou bandeira, o que significa que desponta por todos os lados, nos discursos mais cotidianos e babacas, bem como tornando discursos importantes em coisas cotidianos e babacas também. Quando as pessoas querem que até uma fila de almoço seja organizada democraticamente (?!?!?) - "quem chegou primeiro" de repente é um critério muito autoritário - é porque a palavra chegou num ponto em que até se um político exigir que se ataque alguma infração à democracia, o discurso dele parece mais idiota simplesmente por ter usado a palavra, tão desgastada em pequenas besteiras e muita mentira.

Claro que o mais cansativo é que a palavra costuma ser usada de duas formas idiotas: para dizer outra coisa, que não necessariamente é democrática por excelência, ou para fundar a democracia dentro da democracia.

As duas coisas podem ser exemplificadas facilmente em qualquer escola.

Quando, por exemplo, um grupo de professores está insatisfeito com qualquer coisa, por menor que seja, ataca a direção ou o que for de autoritária, fechada, nazista ou qualquer outro desses termos que atualmente já perderam quase todo o sentido também. Quer-se uma decisão democrática a respeito do tema! Detalhe: direção, por exemplo, é um cargo decidido democraticamente (no Rio Grande do Sul e na maioria do Brasil), por comunidade e pessoal da escola. Trata-se de uma escolha democrática, mas o sistema da escola é justamente ter alguém eleito nesse cargo para que ele cumpra seu dever enquanto os outros profissionais cuidam do resto. Chama-se "representação", e é exatamente o que acontece no nosso sistema político democrático! Quando a presidente faz uma decisão: ela não precisa perguntar cada coisinha para o povo, ela foi eleita para tomar essas decisões. Os eleitores podem intervir, reclamar, mas nada disso indica que ela tomar decisões executivas seja um insulto à democracia.

Há uma coisa que as pessoas esquecem: a democracia pode ser, e costuma ser, representativa. Viver numa democracia não é puxar voto sempre que se quer pintar ou não um meio-fio! Quando se acha que se deve realmente discutir isso, e todos os cargos envolvidos devem parar para contar votos da população inteira em vez de tomar suas decisões (obviamente com transparência), os termos "escolhas democráticas" estão sendo usados para o segundo caso que referi: fundar o "democrático" dentro da democracia, porque se está confundindo "pessoa eleita democraticamente cumprir seu papel" com ditadura!

Já o primeiro caso, de se usar "democrático" para dizer outra coisa que não é democracia, acontece em quase todo discurso sobre escolas. Quer-se uma escola democrática! Pois bem, (1) o que isso quer dizer, e (2) isso é realmente o que se quer?

Uma "escola democrática" nunca é o que se quer dizer com a expressão, porque ela seria redundante por um lado, ou inadequada por outro. Como disse, os cargos são eleitos, em algumas escolas todos eles são eleitos. Estou obviamente considerando escolas públicas, únicas que precisam responder a essas agendas.

Mas, digamos que as pessoas quisessem o exagero disso, que realmente não só os cargos de função gratificada, mas até os professores fossem eleitos. Por quem? Pelo poder público? Já o foram, através de concurso. Pela comunidade? De que forma? Por que critérios? Comunidades geralmente analfabetas ou sem letramento são mesmo quem queremos que escolha professores com o dever de formar seus filhos exatamente nisso?

Não estou dizendo que eles não podem tomar decisões importantíssimas a respeito de si, nem que, se o analfabetismo fosse mesmo como diz o governo, as escolhas seriam melhores. Mas (1) o analfabetismo não pode ser ignorado nisso, e (2) segue o problema de que governo algum pode tomar decisões de base, como Educação, conforme o gosto de cada comunidade, distante de qualquer projeto ou planejamento dele.

Agora, saindo um pouco do absurdo completo, quando se fala em democracia na escola se quer participação, especialmente dos alunos. Pois bem, aceitando essa proposta, em si bem complicada, a democracia é mesmo o melhor modelo para isso? Queremos que todos os alunos tenham o mesmo peso de voto que funcionários, professores, diretores etc, do papel higiênico ao livro didático? Eles estão preparados para esse julgamento e essa responsabilidade? Eles podem decidir tudo sobre uma escola, em pé de igualdade com os adultos, sem quase conhecer nada fora de suas comunidades, além de umas páginas redundantes de facebook e as bandas da moda, e tendo apenas alguma noção de leitura e interpretação?

As escolas que conseguem manter máxima participação dos alunos são escolas pequenas, com MUITO pessoal, geralmente particulares, geralmente muito caras. Algumas públicas tentam imitar esses modelos, não sei com que sucesso, mas sei que se tratam de aproximações...

O que se quer com a escola democrática, de fato, é uma escola em que a comunidade participe e os alunos tomem responsabilidade a respeito de algumas coisas, especialmente para terem cuidado com a escola. Pois bem, é possível participar de algo sem mandar na estrutura, até sem voto direto para nada.

Quer-se mesmo é que os alunos tenham algum poder sobre o que acontece e reajam construtivamente a abusos. Ora, uma comunidade em que o poder só pode ser exercido se justificado a quem está sob tal poder é uma comunidade anarquista (da teoria anarquista, não do oba-oba). Isso significa que "democrático" é um termo tão errado para o que se exige da escola nesses casos que até "escola anarquista" seria termo mais correto. Espero que isso indique, mais que nada, as voltas esse pobre termo já deu!

Quando uma palavra é uma bandeira, e só uma bandeira, é simplesmente triste lê-la e ouvi-la para todos os lados. Ela já não comunica nada, a não ser mentira e distorção. Mas não é por serem falsas que as palavras morrem...

sábado, 20 de outubro de 2012

Formação continuada: a mesmice não morre

É difícil ser mais bitolado hoje do que se falando em modernidade líquida, velocidade e virtualidade disso ou daquilo. A menos que se esteja conversando com pessoas que nunca pensaram sobre a própria cultura (e não sejam nada instrospectivas ou intelectualistas), poucas afirmações podem ser mais óbvias do que essas. Pior ainda é se falar sobre a falta absoluta de verdades, tudo ser relativo, ou - o cúmulo - "hoje a gente vive na era da Internet"!

Não entendo como ainda se aceite que alguém, em 2012, esteja descobrindo a Internet. É tanto uma ferramenta quanto um fenômeno cultural batido. Não bastasse tudo isso, a maioria dos usos dela continua sendo uma recauchutada dos usos de ferramentas mais antigas, portanto grande parte do discurso sobre a Internet é meramente um elogio deslumbrado e ignorante.

Assim, ser convidado a me deslumbrar com a "cultura da nossa época" no sábado é simplesmente uma das piores notícias que eu poderia receber. É de doer ter que fingir que a "multiplicadade" e as incertezas contemporâneas são notícias, apaixonantes ou desesperadoras. Ainda se fosse alguém demonstrar quanta constância há nessa inconstância, quanta verdade há sob esse relativismo, não seria novidade, mas seria de se respirar um pouco. 

Mas não, seguimos sendo "continuamente formados" por pessoas que não reciclam o cerne do próprio discurso (ainda que usem exemplos novos) desde 1970 - e o formato dos comentários desde 1990. Os empregadores têm razão: ou atrelam o salário do profissional a fazer "formações continuadas", ou não tem quórum.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Poema do mau cotidiano

Às vezes eu paro o que estou assistindo,
ou deixo muda a música que ouvia.

É uma propaganda política que passa
entrando estridente pela janela.

Ela deve ser honrada com o silêncio,
como uma má notícia.

domingo, 23 de setembro de 2012

Essa mudança linguística que eu não acompanho...

"Tu é playboy, tu mora em apartamento! Eu não, eu moro na rua, meu!"

Frase q acabo ouvir da rua, dita pra um passante. Que conceito revolucionário de playboy, hein?! Quem não mora na rua é imediatamente playboy agora?

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Propaganda eleitoral em Porto Alegre

As alturas dos candidatos indicam aproximadamente as intenções de voto para cada um, mas acho que Villaverde tá se espichando um pouco...

Fortunati não podia fazer diferente (será que não podia mesmo?), mas foi uma péssima escolha um slogan de "melhorou, vai melhorar"... Porto Alegre melhorou desde que ele virou prefeito? Não consigo pensar em nada que esteja melhor de 2010 pra cá. Ou talvez ele queira dizer que as coisas melhoraram desde que Fogaça, de quem era vice, ocupou a prefeitura? Bom, nesse caso, sua proposta é seguirmos mais 4 anos com as reticências do governo Fogaça? Baita candidatura essa...

Mesmo assim, desde que Fortunati virou vice, Porto Alegre não melhorou! Seria fácil argumentar que piorou, mas, mais do que isso, o grande problema me parece ser que uma coisa ou outra estar melhor (como um eleitor de Fortunati poderia querer argumentar) bate em teclas absurdamente pontuais. É esse o problema que só se agrava em Porto Alegre. O pessoal tem tratado o governo como um lugar pra fazer arremates, apagar incêndios e cumprir horário! Qualquer governante que preste só presta porque tem um projeto sistêmico, ou (o que acho um pouco pior, mas vá lá) uma bandeira um pouco mais restrita, mas fortíssima. Então, não é o caso se um viaduto não está mais desabando ou se começaram finalmente a planejar uma obra que foi proposta há 8 anos. Nem é o caso de se dizer que os alagamentos desses últimos dias indicariam uma terrível administração. O caso é PORTO ALEGRE (batendo no peito e tendo em imagem a cidade toda) mudou, ou não mudou? Não mudou. No pouco que mudou, o saldo é negativo. So sorry.

Manuela, conceito "comunista de shopping"
E a Manuela? Coitada, embretada numa estratégia de campanha tão capciosa quanto a da Dilma, tenta tirar suco de ser uma mulher jovem sem poder realmente admitir que está tirando suco de ser jovem ou mulher. Até porque a Dilma tinha o Lula pra lhe dar votos, inclusive pra falar por ela! A Manuela tá encalhada com aquele namorado (agora marido?), e é ele quem lucra votos por associação a ela, não o contrário. Ela tentou se associar à imagem da Dilma, mas foi vetada legalmente, e agora parece que liberaram de novo... Enfim, tática mais sem sal...

Pior ainda, muito senso comum político parece nascer de gente da nossa faixa etária, ou seja, de toda a galera que cursou faculdade na entrada do século XXI, como ela. Manuela tinha uma vida política bem típica na faculdade, mas nunca cuidou da imagem pessoal. Fofocas mil a seu respeito são corroboradas por exércitos de homens e mulheres entre os 27 e 30 e poucos anos. De alguma forma, me parece que suas indiscrições (associadas à atividade política, aliás), assim como as de seu atual "companheiro", têm pesado em sua rejeição de voto. Não sei como outros grupos a enxergam, no entanto.

E temos o Villaverde! Pobre coitado, é um nerd posto no ataque, na Educação Física. Sua forma contida, seu sorriso de quem não deveria estar ali, sua consciência de ser completo desconhecido de quem lhe descobre candidato a prefeito, seu jeito inclinado para a frente de andar fingindo ser decidido, sua campanha flutuando ao sabor do vento, sua forma de se encolher ainda mais perto do Lula, que mesmo contido aparenta o gigantismo de um Don Corleone pajeando o netinho indefeso... Pobre Villa! Vem, vem cavar segundo turno e apoiar a Manuela, teu destino...

domingo, 2 de setembro de 2012

É tudo mentira

Até por dificuldade para ser constante e plenamente cético, a gente tende a selecionar "verdades" políticas. Ou melhor, a gente pega o que ouve e encontra brechas para aceitar certas verdades, ou meias-verdades. A propaganda sobre o programa de governo tal (pensamos) pode ser mentira, mas parte daquilo foi feito; ou foi feito mesmo, só não por aquele partido; ou ainda aquilo é mesmo como estão dizendo, mas só surgiu por iniciativa da população ou de uma ONG, não de um partido.

Pois bem, resolvi fazer um serviço público e avisar ou reforçar para quem venha a ler este post: no caso da Educação, NADA do que é dito é verdadeiro. Não, candidato X não fez! Não, não foi aquele partido! Não, não estão lutando pelo que dizem! Não, não valorizam! Não, os alunos não recebem! Não, a situação não melhorou! Não, o caminho dos alunos não foi asfaltado! Não, a escola não foi construída! Não, a universidade não está funcionando! Não, o país não atingiu tal resultado positivo! Não, não e não.

Agora, se o eleitor quer fazer relativismos, descansar do ceticismo ou encontrar pequenas verdades no que um político está dizendo, que não o faça na Educação. Aí, a propaganda política, qualquer propaganda política, está mentindo, sim. Completamente. Profundamente. Descaradamente. É 100% mentira.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Dúvidas ateias do cotidiano

Ainda acho estranho quando alguém, numa enorme cidade, dentro de um prédio com ar condicionado, caminhando sobre uma esteira elétrica, usando roupas especificamente planejadas para exercícios, diz que Deus sabia o que estava fazendo, portanto tudo dá certo (na saúde) se fazemos como Deus planejou.

Isso era um "argumento" para que as crianças mamassem até quando as mães tivessem leite (que eu saiba, se a mãe realmente não quiser parar, isso pode ir muuuuuuuuito mais longe do que essa moça talvez imagine). Mães que não conseguem dar de mamar talvez devessem deixar seus filhos sem leite? Sei lá, mas o "argumento" era também para que, então, a criança não só parasse de mamar, mas não tomasse leite algum, nem de vaca, cabra ou o que fosse. Talvez Deus não tenha planejado nosso domínio sobre os outros animais - apesar de o Gênesis dar indicação contrária, que eu lembre. 

Acho que não recebi as instruções que ela tem. Só sei que, seguindo a natureza como mandamento divino, não estaríamos nunca em roupas planejadas para exercícios, sobre esteiras elétricas, dentro de prédios com ar condicionado, em uma grande cidade...

domingo, 26 de agosto de 2012

As inversões de valores invertidos

Uma daquelas expressões que chamam a minha atenção, para discordar, é "inversão de valores". Quando se diz que pessoas vivem conforme, experimentam, sofrem (ou sei lá o quê) uma inversão de valores, pressupõe-se uma de duas opções, as duas falsas.

A primeira, menos preocupante e menos representativa, creio, é a ideia de que certos valores existem por si e são constantes, que valores não mudam, nascem ou se transformam historicamente. Ou seja, existem determinados valores fixos e a única possibilidade é se acreditar neles ou em seus opostos, em anti-valores, que são corruptelas daqueles. Não existem valores diferentes, anteriores ou posteriores. 

Como disse, não acho que essa versão seja representativa pois poucas pessoas concordariam com isso posto de forma assim radical. Além disso, ao falar em "inversão de valores", as pessoas não querem ser tão filosóficas assim, ainda que a expressão seja bem pretensiosa. De qualquer forma, acho importante comentar o quanto essa ideia não faz sentido, mesmo sem apelar a pós-modernismo, pós-crítica ou qualquer outra forma filosófica de relativismo em hyperdrive.

Consideremos a ideia de que matar é errado. É preciso sempre definir, "matar quem?" É preciso defini-lo pois se sabe que matar só é errado, em cada cultura, quando se define o objeto do verbo. 

Supondo uma postura moral de facebook, muita gente acha hoje em dia que matar qualquer pessoa é errado. Bom, não é segredo que já foi bem ok matar negros, índios, gays, nazistas, comunistas, sei lá.
Sim, até aí estamos no "ok", mas já houve tempo (seguindo ainda só o tronco da cultura de quem acha que é errado matar qualquer um hoje) em que matar o estrangeiro, o cara da outra religião ou o cara da outra tribo não era só permissível, ou um crime menor. Era certo, reforçado, apoiado e, em alguns casos (como na racionalização teológica das Cruzadas), uma forma sagrada de se salvar a própria alma. Em muitas tribos, matar era parte importante da estrutura social, mesmo que não se estivesse em "guerra" - especialmente por rito de passagem ou de matrimônio. Talvez fosse melhor dizer que tais tribos viveram sempre em guerra, e o "viver em paz" é invenção um tanto civilizada (Saindo um pouco do problema do tempo, infelizmente sabemos que todas essas posturas ainda são possíveis hoje.)

Se quiserem pensar de outra forma: houve um tempo antes da Declaração dos Direitos do Homem, um tempo antes do ágape, um tempo antes do "Não matarás (hebreu fiel)". Todos os valores que conhecemos são históricos, portanto nenhum pode se vangloriar de ser eterno ou onipresente (o que é diferente de dizer que alguns não mereçam ser universalizados).

Então, não existem uns poucos valores reais e estanques, os quais vivem ou subvertem e deu. Existem valores, com um plural reforçado, e aquilo que discorda do nosso valor pode ser, sim, um valor também. A questão é que a validade do valor é relativa. ATENÇÃO: isso não quer dizer que qualquer opinião é válida, que qualquer princípio é um valor, nem que todos os valores são adequados para qualquer sociedade. Quer dizer só o que eu disse: sociedades diferentes podem discordar sobre que valores são válidos, verdadeiros ou melhores.

A segunda forma, mais comum, de se pensar a "inversão de valores" é supor que os valores em questão são os "nossos". É claro que os valores mudaram na história, mas o que interessa é o que reconhecemos como valores hoje (ignorando culturas distantes). Bom, para quem não notou, nossa sociedade não tem um bloco de valores comuns. Talvez existam outros recortes possíveis, mas eu posso atestar que separações econômicas, particularmente as que "coincidem" com separações geográficas, fomentam valores diferentes. 

É errado (porque falho) pensar que uma pessoa que vive na mesma cidade que outra herda o mesmo tronco de valores comuns. Os valores que estamos acostumados a ver como universais não têm necessariamente precedência na vida de todo o mundo, nem estão na infância de jovens que crescem e "os invertem". Esses jovens simplesmente aprenderam valores diferentes, para uma vida diferente, a partir de histórias e mitos diferentes, a fim de sobreviver da forma que seus pais ou amigos estão sobrevivendo.

Nada disso significa, também, que valores não possam coincidir entre culturas, portanto entre comunidades diferentes de uma mesma cidade. Também não significa que meios de comunicação de massa não tenham oferecido pelo menos algum contato que possibilite diálogo entre as diferentes comunidades, num movimento constante. 

No entanto, é preciso atentar para o fato de que valores diversos também podem se vestir de forma parecida. Algo parecido com uma foto da Gisele Bündchen ser vista como motivo para consumo por razões diferentes, entre mulheres de classes muito distantes. O mesmo é verdade em relação à ideia de que a família é importante, ou à de que homens devem defender suas namoradas e esposas. Cada cultura pode construir um ethos diferente partindo do mesmo clichê cultural.

Talvez possa haver inversão de valores quando falamos de uma geração para a seguinte, mas o resultado são também valores, ainda que novos. Não adianta muito pensar nos queridinhos valores nossos, que achamos serem corrompidos ou traídos por sei lá quem. Importa ver que, se estão sendo afrontados, sofrem o cerco de outros valores que têm também fortes motivos para existir, assim como os nossos.

Portanto, não adianta pressupor uma vantagem para nossa posição moral. O que importa é entender os motivos da existência dos valores que estão nos incomodando. Talvez isso nos indique que estivemos equivocados e que nossos valores na verdade não prestam tanto quanto achamos. Por outro lado, talvez nossos valores sejam corroborados pela experiência, talvez se comprovem inafiançáveis. Nesse caso, é melhor ainda entender por que outras pessoas pensam diferente de nós, caso queiramos resolver a situação, fazendo com que pensem como nós e aceitem nossa forma de entender o "certo" e o "errado".

sábado, 18 de agosto de 2012

Olímpicos, orai por nós

Brasileiros por acaso: melhor equipe de vôlei feminino do mundo.
Nunca tinha dado bola para as Olimpíadas no século XXI. Até 2000, acompanhei, mas elas pareciam ter perdido o sentido desde então, o que já vinha acontecendo, é verdade. Dei uma olhada nas tecnologias da China, que era a terrível superpotência emergente que iria destruir o mundo ocidental pelo mercado, conforme os analistas de então, mas o fiz mais acompanhando fotos da cerimônia de abertura que realmente assisindo à transmissão. E deu.

Brasileiro por acaso: 3o maior judoca do mundo.
Estranhamente, quando as deste ano começaram, senti vontade de acompanhar tudo o que pudesse. Passei então a ver sempre que podia, na Record ou nas TVs por assinatura alheias.

Não foi difícil entender de onde meu interesse repentino nos jogos, depois desses anos todos. Já faz uns 4 ou 5 anos que eu vivo praticamente de dar aula, mais do que qualquer outra coisa. Não vinha mais praticando esporte e todo o meu esforço de pesquisar ou escrever virou um rodapé sem remuneração. Não que eu recebesse para estudar antes, mas as exigências de sala de aula são muito maiores do que as de qualquer ganha-pão que eu tivesse antes, de modo que o que eu faço de graça perdeu muito terreno.

E o que significa dar aula? Significa mirar quase sempre no médio, no mais ou menos, no aceitável. Não estou falando sobre políticas inclusivas, cotas ou qualquer outra bandeira. Para um aluno deficiente, por exemplo, atingir a média pode ser um gigantesco desafio. Acontece que o aluno típico também pode e só precisa render muito abaixo de seu potencial. Não importa muito a opinião do professor a respeito; ele é requisitado a fazê-lo por quem o contrata, pelo menos quando é professor público. Existem exceções a isso, mas só ocorrem por mérito de algumas diretoras, localizadas em contextos que as permitam manter uma escola atípica.

Brasileira por acaso: maior judoca do mundo.
Dar aula é ser exigido ao máximo para exigir o mínimo. Podem frasear de forma diferente se quiserem, duvido que achem um argumento para que não seja só eufemismo para isso.
As Olimpíadas só podiam então atrair minha atenção: uma cultura de exigência máxima, de dedicação extrema, de superação, de desejo de perfeição, além de uma forma absolutamente elegante e honrada de lidar com a competição, uma capacidade de pensar o "vale a pena é competir" e de aceitar os acidentes do caminho que só quem se dedica ao máximo a algo consegue compreender e executar. Entender a derrota, não humilhar nem a si nem ao próximo, é muito mais fácil para quem tenta com toda a dedicação, não para quem se satisfaz sempre com pouco.

Logo, tanta gente (inclusive grande parte de nossos jornalistas e opinadores) que vive da cultura do "até aqui tá bom", "ah, deixa assim que ninguém ia fazer mais mesmo" etc., toda essa gente cai no pau por qualquer medalha de prata e adora exigir resultados dessas pessoas que dão um duro inimaginável. Aliás, sempre que se fala em equipe "brasileira", já está se fazendo um abuso exatamente nesse sentido. O que o Brasil faz para supor que é representado por essas pessoas apaixonadas e esforçadas? Não digo só o governo. Todo brasileiro é quem para se orgulhar em nome do Zanetti, que ganhou ouro nas argolas, a custa de fazer os próprios aparelhos e treinar como era impossível no Brasil até ele próprio criar o jeito? Em que universo bizarro o Brasil se veria espelhado num sujeito desses, como nação? 

Brasileiro por acaso: 2o maior boxeador do mundo.
É óbvio que o governo comete a mesma pressuposição ridícula. A Dilma foi lá tirar foto com os medalhistas. Ora, quem lhe deu estatura de julgar que apenas os medalhistas mereceriam foto com a presidente? Por que os outros não estavam lá também, que chegaram às Olimpíadas apesar de todos os nossos presidentes, incluindo a própria Dilma? E o que eles teriam a agradecer ao governo, tirando, talvez, exceções como o futebol (que de fato se explica por outras vias para se destacar)?

Brasileiros por acaso: 5o maior equipe de basquete do mundo.
As Olimpíadas são o oposto da cultura brasileira. Em nada a nação explica sua equipe trazer qualquer medalha, ou mesmo competir. No entanto, todos querem legislar sobre os competidores, julgando comportamentos, falas, decisões, esforços, inclusive comemorações. 

Foi o que fez André Barcinski, um "crítico da Folha" e produtor de TV, que acusou a não mais poder a equipe brasileira do vôlei feminino por ter rezado ao ganhar. Pressupunha ele, como deixou claro no texto, que a equipe representava o Brasil, o que já é muito problemático pelos motivos que acabo de expôr. Partindo disso, declara que foi um ato de intolerância religiosa rezar. Por quê? Porque estavam representando (sic) um país laico que, ao mesmo tempo (supõe ele), não aceitaria manifestações de nenhuma outra crença que não a cristã. 

Brasileiras por acaso: semifinalistas mundiais do nado sincronizado.
Três problemas graves: acha que alguém, nem que seja a nação supostamente levada às quadras, pode legislar sobre a comemoração do time quando as atletas manifestam as suas crenças religosas de forma pacífica (aliás, ele imagina que algumas o tenham feito por pressão, para não ficar deslocadas, baseado em... nada); acredita ainda que liberdade religosa é proibir a manifestação de crenças em todos os aspectos públicos da vida de todo cidadão; considera lógico, por fim, que nenhuma manifestação cristã pode ser permitida porque as outras também não seriam - ou seja, se não se aceita umbanda ou budismo, a solução é proibir o cristão e não permitir aqueles!

Por esse raciocínio, André é "libertário" proibindo um time que é posto abaixo de sua crítica apesar de tudo só porque ele é brasileiro e elas fizeram a bobagem de usar o próprio talento e esforço para representar um país que não as aceita nem apoia, e o time de vôlei todo é considerado "intolerante" porque agradeceu ao seu deus, baseado na crença de que ele teria algum mérito decisivo pela vitória. Eu não acredito em deus algum, mas devo dizer que a crença nele com certeza fez mais parte daquela vitória do que qualquer ato dos Andrés que povoam o Brasil. Se o time vai homenagear alguém, todos os Andrés só fariam bem ficando bem quietinhos nos seus cantos, com muito respeito. Eles têm a liberdade de falar besteiras, é verdade, mas continua sendo uma pena que ninguém com projeção também declarem suas besteiras aquilo que são.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Teoria da Conspiração das Cotas

Aprovada na quarta-feira, no Senado, uma nova lei prevê que 50% das vagas de todas as universidades públicas serão dedicadas a "cotas sociais" (quem estudou todo o Ensino Médio em colégio público). Estas, por sua vez, devem ser preenchidas por negros, pardos(?!) e indígenas, no mínimo, conforme a proporção dessas populações em cada estado. Há ainda uma divisão dessas vagas segundo a renda da família  (calculada e verificada por sabe-se lá quem).

Dizem que a cereja desse bolinho - eles nem fariam vestibular ou Enem, sendo selecionados conforme a média de suas notas no Ensino Médio, ou seja, conforme a hipocrisia do governo de cada estado ou município - deve ser o único ponto cortado, para que a lei passe "mais facilmente" no fim do trâmite.

Ao mesmo tempo, o governo caga para a greve das federais e não enfrenta (nenhum governo o faz) o problema da educação de base de verdade (tomando apenas medidas mais ou menos efetivas, ou seja, no fim das contas, ineficazes).

Pois bem, isso é pra "qualquer um" de escola pública. Mas o que o governo planeja para quem se esforça pra valer? Pra quem consegue ler muito, estudar, se sacrificar até? Seu plano para esses estudantes parece ser também resolvido com cotas: ele paga para que cursem as faculdades particulares. Tanto estes quanto os alunos de escolas particulares (especialmente os mais estudiosos, é verdade) têm cada vez mais incentivo para ir para fora, procurar bolsas nos EUA ou na Europa, enfim, deixar o Brasil e ir aprender com os best of the best.

O que me lembra: população pobre ou menos estudiosa presa num Brasil analfabeto funcional e alunos dedicados ou com mais dinheiro estudando fora não é um quadro histórico no país? Dilma não é o fim de um processo para deixar o Brasil com cara nova, mas do jeitinho que sempre foi?

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Instinto materno e violência

"E eis que surgiu o primeiro Tigre Retórico!"
Por séculos, fazem-nos crer, o instinto materno foi das coisas mais inquestionáveis da nossa cultura (no mínimo desde a primeira Revolução Industrial). Estava lá no topo da lista com a criação divina do universo e a existência de almas imortais em todo ser humano (restrito que fosse esse conceito em diferentes momentos históricos).

O feminismo ficou famoso por, entre outras coisas, questionar a factualidade desse instinto. Havia marcas óbvias de um constructo social particularmente útil, então, à odiada ordem patriarcal, e a ala mais radical do movimento negou completamente a existência de tal instinto para além de uma mera criação humana. Tornou-se de bom tom, em certos círculos, pressupor o absurdo do termo "instinto materno" sem discussão alguma, e mais uma divisão ideológica ficou bem firme para nossas bandeiras de senso comum.

Mas aí a ciência, reclamada como argumento contra tal instinto (a própria definição de "instinto" levou muitas porradas no século XX, se não desde o XIX), seguiu fazendo suas pesquisas e muitas coisas indicaram a validade de um instinto de proteção a favor do filho, particularmente no caso da mãe. Por exemplo: é óbvio que uma espécie em que os pais contribuem para o desenvolvimento do filhote (quando, como na nossa, o recém-nascido depende particularmente disso) tem vantagens de sobrevivência sobre concorrentes que não o façam - e é possível apoiar isso com certas observações e indicar o mesmo por certos cálculos. Além disso, a gestação cobra das mães de forma desigual em relação aos pais, que não são organicamente necessários para o bom desenvolvimento do feto. Se o macho vai embora, a criança se desenvolve. Se a fêmea expulsa o feto de seu útero, não se pode dizer o mesmo. Portanto o custo para a mãe é maior de início (sua alimentação está diretamente afetada por no mínimo alguns meses), o que tende a favorecer o desenvolvimento de muitas tendências comportamentais que batiam, em conjunto, com a tradicional ideia de instinto materno.

Ora, a ciência segue pesquisando, mas muitos problemas patriarcais herdados seguem existindo também. Nessas horas, como quando ela nega criacionismo ou astrologia, muita gente tende a lembrar dos erros da ciência para tentar se defender de uma possibilidade que lhe seja desagradável. Para além de defender a "verdade" e os ideais religiosos ou tradicionais, uns simplesmente não querem admitir que o instinto materno possa não existir enquanto outros não querem supor o contrário (lá por suas questões particulares e geralmente identitárias).

Bom, poucas coisas convencem mais a gente a duvidar de instintos maternos que ver zilhões de casos em que mulheres, livres da influência direta de drogas, abandonam seus filhos, maltratam-nos, permitem conscientemente abusos sexuais (ou realizam-nos) ou usam seus filhos unicamente como fonte de renda (seja por trabalho ou por Bolsa Família). Ou seja, nada como trabalhar em escola pública para duvidar de qualquer instinto universal feminino para defender a prole. Ao mesmo tempo, vi também muitas vezes amigas tendo filhos e nitidamente tudo mudando em seu comportamento e constituição. Essas mudanças pareceram graduais durante a gestação, mas havia algo particular a partir do parto. Muitas outras pessoas atestam o mesmo. Seria mesmo a realização de uma cultura que tão monoliticamente se apresentava em pessoas tão diferentes, criadas e experimentadas também de forma muito diversa? Como isso poderia se chocar com os outros casos que testemunho? Resolvi elocubrar com liberdade a respeito, como me cabe neste blog. 

Detalhes prévios importantes: é diferente dizer "instinto materno" de dizer "obrigatoriedade de ter filhos". Aliás, as duas ideias são mais diversas que conectadas. Também devo dizer que estou imaginando, em quase todo o texto, as situações de maior violência entre mãe e filho. Se algum termo meu parecer pesado, já sabem...

Quero começar indicando um contraponto em vista dos mesmos casos de violência. Não parece fácil afirmar que essas mães ignorem a diferença entre seus filhos e as outras crianças. 

Dirão então que essa diferença não depende de instintos, sendo talvez puramente cultural. O problema de se dizer isso, no entanto, é que implica uma contradição, a meu ver: elas tratam mal seus filhos, que são culturalmente sua responsabilidade e objeto de amor perfeito, mas, ao mesmo tempo, os diferenciam por efeito dessa mesma cultura? Mais: elas nem mesmo parecem ter aprendido que devam favorecer alguém. Elas não "substituíram" seus filhos, não dedicam carinho e amor a outra pessoa, pequena ou grande. Seus sentimentos "amorosos"-sexuais estão presentes, mas não inspiram palavras como "afeto" ou "carinho", ao menos em suas manifestações públicas. Pelo contrário, estão em relacionamentos dos mais destrutivos, para si e para os outros. Há certo aspecto de sobrevivência neles, mas justamente do tipo que provoca aquele antagonismo entre "sobreviver" e "viver". Nesse sentido, para quem diferencia "carinho" de "vontade de proteger", que é o sentido mais estrito de instinto materno, é verdade que essa vontade de proteger se manifesta em outras relações, mas me parece ser mais de competição. Uma mulher dessas defende "seu homem", por exemplo, com unhas e dentes, mas não é pelo bem do cara, é para a relação de mutualismo não se desfazer.

Mais do que isso, muitas expressam sentimento de culpa ou a justificativa de que a criança fica melhor sem elas (ainda que nada pudesse comprovar que estão se sacrificando como nos casos em que acreditamos - mesmo sem creditar valor ao argumento - que a pessoa realmente sinta o que está dizendo). Ao que parece, elas diferenciam seus filhos justamente pela violência, ou seja, se creem com maior direito de usar crianças que são "suas" do que crianças que sejam "dos outros". Quero dizer, elas parecem acreditar que quem nasce delas tem uma particularidade, mas a seleção se dá totalmente no campo da violência, não do amor, o que postula uma possibilidade um tanto terrível para reforçar a ideia de instinto materno.

Para pensar isso, é preciso considerar duas coisas sobre a possibilidade científica da teoria. Primeiro, o que é "instintivo" é percentual. Ou seja, a pessoa tende a determinada coisa, e é isso que significa dizer que ela "tem os genes" para aquilo. Segundo, essa tendência exige uma formação cultural. Nada geneticamente "determinado" se manifesta sem um caráter social, uma cultura que justamente formate e desenvolva (as duas coisas são indissociáveis) aquilo que o corpo individual tende a querer.

Por tudo isso, é possível pensar o seguinte: não é que mães que maltratem seus filhos não tenham uma seleção instinta em relação a eles, que os distinga do resto das crianças, mas que a cultura e a vida em que essa pessoa está imersa (talvez desde criança, talvez por um trauma muito forte) são tão violentas que sua seleção por aquela criança seja também de violência. Ou, posto de outra forma, somente assim, talvez, aquela mãe saiba ver uma figura afetiva. Visto assim, o meio ainda reforça a teoria do instinto materno por outra via: muitas mulheres adotam crianças alheias. Ou seja, mesmo vivendo em ambiente semelhante, parece que uma constituição um pouco diferente, a oferta de outros exemplos ou a sorte de não ter passado por uma destruição mais direta mantém uma vontade férrea e extremamente custosa para si de proteger crianças que são, então, criadas como filhos. Uma simples capacidade de transferência e empatia é veículo daquele mesmo amor materno que tanto se curte louvar diariamente em pequenas conversas de bar, sala, esquina, caixa...

Não sei nem poderia dizer que essa hipótese é verdadeira, ou quantos porcento essa ideia abarcaria, mas imaginem, se houver algum fundamento nessa linha de raciocínio, a gigantesca violência da cultura em que tal pessoa deveria viver. Imaginem também o desconforto social de se parar de isolar indivíduos com frases como "Como uma mãe pode tratar um filho assim?" ou "Eu não entendo uma coisa dessas. Que horror!". Suponham que tal quadro não fosse explicado por desvios "impensáveis" de uma ou outra, mas fosse visto sob a ótica de que elas vivem em comunidades de tamanha violência que um instinto de proteção natural estivsse assim distorcido, sem a necessidade de drogas, doenças mentais ou outras questões muito individuais (que obviamente são relevantes em certo casos) para explicar o quadro. Comunidades essas que existem entretecidas formando nossa sociedade, fazendo trocas constantes entre si, a ponto de não conseguirmos diferenciá-las muito bem, nem por claras separações econômicas e coisas tais. Que responsabilidade social implica a validade do instinto materno?