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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Entre a palmada e a realidade

Hoje eu vi uma sequencia de cenas que me lembraram demais a lei contra a palmada.

Estávamos três, nitidamente não moradores da vila, num bar e entraram dois garotos de mais ou menos 15 anos. Um comprou um cigarro, o outro uma cerveja. Acenderam e abriram ali mesmo, saíram bebendo e tragando. Na hora de pedir a tal bebida, aliás, o diálogo foi este:

- Me vê uma bebida aí, X.
- Pode ser "guaraná", cara?
- Pode.

A nomenclatura veio por nossa presença, suponho. Muitas coisas pareciam fora do lugar por nossa conta, os estrangeiros, como sempre acontece em vilas (ou em shoppings, invertendo o público), bem se sabe. 

Mesmo assim, foi curioso que esse pessoal, muito ressabiado a nosso respeito, foi unânime ao falar sobre violência na região: a grande fonte são questões domésticas. Duas posturas: não se meter ou pensar que mais policiamento seria bom. 

É óbvio que a polícia só aparece lá se chamada, horas depois, claro. No resto do tempo, não há ronda, visita, ou mesmo delegacia perto. Faz-se de conta que esse região, bastante violenta, vive na paz das árvores e morros que existem na volta.

Aliás, essa vila, marcada pela violência doméstica, acaba de derrubar a administração da creche estadual que existe bem na sua entrada. Motivo? Violência com as crianças. Pode-se imaginar uma postura hipócrita como "no meu filho só bato eu", mas, pelas descrições, não foi nada disso...

É claro que o tráfico também contribui com a violência no local. Trata-se de uma região controlada agora por uma gangue originária (e sediada) num bairro bem distante: se fosse possível seguir em linha reta entre os dois pontos, ignorando morros, ruas e quadras, poderíamos dizer que há 8km entre eles. De ônibus, num trânsito bom, leva-se duas horas entre as duas vilas. Mas eles chegaram lá, brigaram e venceram (rapidamente).

No entanto, o governo fez a sua parte contra a violência. Proibiu a palmada.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Depois de Deus, a Bolsa - para todos os problemas

Neste post eu havia dito que a mentalidade de "bolsas" era endêmica no país, e se acreditava que garantir apoio financeiro do Estado para qualquer coisa resolveria todos os problemas, em todas as áreas. Nunca achei que alguma opinião postada neste blog seria tão comprovada quanto agora, aqui.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Os pescadores e as políticas públicas

Numa frase que é mais complexa do que aparenta, eu devo dizer que há dois tipos de professores: os bons e os ruins. Isso é mais complexo porque "bom" e "ruim" não são aqui variações num mesmo espectro. Eles são mesmo denominações de seres que têm natureza diversa.

Os professores ruins são os que impedem o desenvolvimento dos alunos. Ofertam exercícios ou práticas emburrecedoras, cortam a criatividade e a curiosidade deles, tratam-nos mal, seja de forma desrespeitosa ou diretamente violenta. Os bons professores não tornam seus alunos inteligentes, nem desenvolvem neles criticidade, ainda que os tratem bem. Essas coisas podem ser provocadas pelos professores apenas de forma figurada. Os bons professores, para usar outra figura, são pescadores. Eles lançam a rede e ajudam os alunos a sair do mar primordial da ingenuidade (em relação a conhecimento, lógica e horizonte) para a existência adulta. É claro que isso é feito aos poucos, e nenhum professor ajuda no processo todo; cada um dá um empurrão, mas é nessa direção que o sujeito vai. Por isso professores bons e ruins são de natureza diferente. Os ruins constroem e reforçam barreiras, os bons desenvolvem e lançam redes. Quanto pior o professor, mais forte, mais opaca e mais alta a barreira. Quanto melhor, maior a rede e mais longe ele a lança. - Apesar da diferença de "natureza", a maioria dos professores não é sempre bom nem sempre ruim, me parece.

O aparente bucolismo da imagem de um professor lançando redes pelo mar da vida não está aqui para embelezar o trabalho dos professores, apenas para criticar uma precaução da pedagogia moderna. Trata-se atualmente como se o professor educasse e o aluno aprendesse, indicando-se com isso que os dois movimentos são diversos, nenhum implica necessariamente o outro, ainda que ambos sejam necessários na escola. Um professor "educar" não significa necessariamente que um aluno "aprenda". A coisa toda deve ocorrer de maneira mais dialógica do que se pensava a.P. (antes de Paulo [Freire]).

Isso não é suficiente. Pela imagem do pescador quero dizer mesmo que o professor nunca "educa". Ele pode ajudar peixes a sair do mar, não pode gerar bons peixes no mar. Pode permitir que uns sofram metamorfose, mas não pode fazer essa metamorfose por eles nem indicar realmente o valor dela, a não ser em situações raras demais para embasarem nossa crença ou espera por um futuro melhor. O professor não pode, também, aumentar o número de bons peixes onde eles são raros.

Ora, que preconceito da minha parte! O que seria um "bom" peixe? Aquele mais adequado à minha bitolada visão de mundo? 

Sim. Minha bitolada visão de mundo diz que as pessoas deveriam aprender a andar com os próprios pés, julgar a vida de acordo com boas e significativas experiências, bem como pela lógica e pelo mais vasto conhecimento de mundo que conseguirem arrecadar de livros, internet, amigos, conhecidos, desconhecidos e, especialmente, experiências. O "mau" peixe, para mim, é aquele que não quer sair do mar, o que, correndo o risco de soar um pouco freudiano, quer dizer aqui "sair da barriga da mãe". É claro que por isso eu não quero dizer sair da barra da mãe, porque só as mães de certos grupos particulares são protetoras e carinhosas. "Mãe" tem necessariamente sentido muito amplo e metafórico aqui. Indica basicamente tudo aquilo que nos protege e nos mantém numa redoma. Que curte que fiquemos nessa redoma. Pode ser o Grande Irmão, o Grande Pai, o Grande Pastor, o Grande Partido, a Grande Igreja, a Grande Lei, a Grande Bolsa, ou, quem sabe, a Grande Mãe mesmo (para clérigas de religiões matriarcais). Qualquer coisa que nos proteja a custo de nosso desenvolvimento.

Apenas ofertam conhecimento e questionamentos, os bons pelo menos. As pessoas educadas ou propensas a aproveitar aproveitam, saem do mar porque querem (mesmo que não saibam dessa vontade). O grande mérito que o professor pode puxar para si é o orgulho de não ter levantado barreiras (o que é bem mais complexo do que deve aparentar sendo posto assim).

Não conheço muitas coisas que educam. Políticas públicas, porém, eu decididamente colocaria nessa lista. Essas políticas educam. Basta dar dinheiro para um pessoa ir para a escola e o sujeito não apenas passa a ir como aprende que merece dinheiro por isso. Que, sem salário, não deveria ir na escola. Familiares também educam, porque são capazes de ensinar para alguns que, apesar da bolsa, não é por ela que se deve ir à escola, mas por alguma outra coisa que o professor lhes irá ofertar. Mas familiares estão no mundo conforme a educação que seus próprios familiares deram, enquanto as políticas são pensadas e planejadas por profissionais com um objetivo uno e claro.

Políticas públicas educam, e têm conseguido maravilhosos resultados. Uma massa de pessoas hoje em dia, por exemplo, por mais que não se gostem, que não se deem valor, que se considerem o esterco da humanidade, que se esforcem só até conseguir sexo, comida e música, querem com muita força receber auxílio. Querem ser ajudadas, mas porque sofreram, ou sofrem; porque têm dificuldades e boas intenções (ou só porque dizem ter). Elas esperam uma mão amiga. E isso sem se darem nenhum valor e sem acreditarem que, por esforço próprio, chegariam a algum lugar.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Bolsa Isonomia no Enem

Novo projeto do governo:

O governo deve resgatar horas e horas de exclusão social. Se você tem entre 16 e 104 anos de idade, prestou Enem em território nacional ou indígena, tem 75% de presença na prova e inscreveu-se após a recriação da CPMF, tem direito a dois salários mínimos por mês até conseguir trabalho digno, segundo sua própria opinião. A prova deve ter sido realizada pela maior e mais súper híper ultra especial gráfica, que é perfeita mesmo que erre feio sempre e às vezes perca umas provas na estrada. Se o fiscal não avisou sobre as pegadinhas do Caderno Amarelo, da Numeração Azul e do Ladrilho Rosa, segundo testemunho isento e oral de você mesmo, o próprio concorrente-reclamante, também pode requerir 13o, a ser pago até que, jovem, adulto ou vivente da melhor idade, exija o término da Bolsa.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Nas cotas dos outros

Arrisquei hoje no almoço utilizar entre 6 debatedores um argumento contra as cotas raciais que uso apenas se estiver conversando só com uma pessoa. Na verdade, é sobre o conceito de "dívida histórica", mas ele se desdobra numa crítica maior às próprias cotas. 

Não uso o argumento em debates grupais pela extrema facilidade com que termos que utilizo, como "metafísico", poderiam ser imediatamente mal-interpretados e causarem reações de horror, além de críticas violentas por pelo menos dois minutos, até que eu conseguisse acalmar os ânimos e fazer com que escutassem o que eu estaria efetivamente dizendo, negando as pressuposições sobre o que imaginariam que eu estava dizendo. Como é infinitamente mais comum que uma pessoa esteja disposta a escutar que 2 ou mais, especialmente se se está a todo momento competindo pelo turno da fala e pelo argumento mais poderoso, sempre imaginei que minha crítica não veria jamais o dia de se arriscar ao apedrejamento da discussão acalorada de um grupo. No entanto, hoje arrisquei, talvez por estar muito confortável na conversa. A reação foi aquele alvoroço, incluindo o equivalente étnico de "tu fala isso porque não é contigo" (com o pressuposto de que a escravidão É, não FOI - ops, já me arrisco a mal-entendidos, fiquemos por aqui na questão).

Bom, o argumento funcionou, acabei fazendo com que entendessem as falhas que eu queria expressar no raciocínio de "dívida histórica", mas eu estava discutindo cotas na Dificuldade 1, ou seja, a negra e a mulata presentes estavam do meu lado do debate. Talvez seja a hora de aumentar o nível de dificuldade.

Comemoração à parte, no meio da conversa uma das minhas amigas acrescentou um comentário interessante (partindo da questão de as cotas serem afirmadas como "políticas provisórias"): minha amiga foi das pessoas que cadastrou a primeira leva de porto-alegrenses para o Bolsa-Escola. Nesse cadastro, estava claro e explícito que o programa era provisório. As transformações que os programas sociais sofreram até virarem o Bolsa-Família (que os dois proto-presidentes pretendem manter e defender, é claro) fizeram com que essa "provisoriedade" nunca pudesse se realizar, pois há novos e novos cadastros em novos e novos programas. Os novos programas evitam a dissolução dessa "solução social", e a promessa de décimo-terceiro para os beneficiados apenas comprova que a política "provisória" acabou efetivada.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Do aborto

Eu fiz um post sobre o comentário de Luiz Bassuma, Nunca poderemos dar ao estado o poder de matar!", em que critiquei tal expressão moralista como retoricamente vazia, porque o Estado tem o poder de matar e funciona, em grande parte, pelo domínio desse mesmo poder, em detrimento do poder dos cidadãos de matar. Ele falou isso discutindo o aborto, atual mania do horário eleitoral, então achei que o post poderia dar a impressão de que defendo a posição radical de que o SUS deveria fazer todo e qualquer aborto, desde que a mulher peça, só que eu não defendo isso. Como fui interpretado assim, ainda bem que a Leo teve coragem de não só criticar meu blog pelo monitor e virar a cara, mas efetivamente comentar no post falando contra a proposta que tramitou como proto-posição de campanha, até ser derrubada definitivamente pela que existe agora no PT: a Dilma tem as opiniões pessoais dela, mas o partido seria contra. Graças a isso, resolvi fazer este post esclarecendo umas coisinhas.

Como disse, eu estava criticando a forma como Luiz Bassuma apresentava a questão, que me parecia simplesmente irreal. Se o Estado pode matar um criminoso, um assaltante, ou quem seja, o Estado pode matar. Que esse poder não justifica diretamente que ele mate um feto, eu concordo, mas eu não estava dizendo que o Estado deveria poder matar um feto, apenas que, se pararmos para pensar na situação atual, ele tem exatamente esse poder. 

Se só um órgão do governo pode dizer quem tem o direito ao aborto, nossa situação atual, então o Estado tem o poder de matar durante a gestação, e esse poder seria do cidadão se uma nova lei liberasse aberta e indiscriminadamente o aborto, desde que feito com dinheiro público. Liberar o aborto e não bancar é o mesmo que discriminar por classe, porque a cirurgia, para ser bem feita, custa dinheiro. Não me parece que ninguém acredite que o aborto não seja prática de gente com grana (não estou nem falando dos propriamente podres de ricos) atualmente, o que significa também que liberar e não pagar com dinheiro público é mais ou menos manter as coisas como estão, apenas barateando um pouco o processo para quem já consegue pagar. 

Por outro lado, se a liberação barateasse muito, o aborto se tornaria exatamente aquilo que a Leo comentou como resultado da liberação no SUS: ele viraria "método anti-concepcional" no sentido mais cotidiano do termo. Bom, ele efetivamente funciona assim para quem pode pagar. E se o "pobre" não tem a desculpa de não ter usado camisinha, de não ter tomado pílula, ou seja lá o que for, o "rico" tem? Existe um caminho tortuoso de argumentação que pode seguir daí, mas não vou usá-lo porque acho que a questão, posta por aí, está errada. Discute-se a partir da lei atual, e a realidade, como bem disse a Heloísa Helena, é usada apenas como argumento para defender a liberação geral no SUS. Ou seja, a argumentação pula de lei para lei, usando a realidade como um dado que não poderia receber outro tipo de tratamento ou solução. Pois bem, eu gostaria que a coisa toda fosse lida de realidade para realidade, tratando a lei apenas como trâmite entre esses dois momentos. Como as coisas são e estão? Quais os reflexos sociais da nova lei, se fosse implementada em sua forma mais literal? Quantos abortos são feitos e quantos efetivamente seriam feitos?  Qual a relação entre o custo das novas operações e os gastos públicos com as mortes ou malefícios resultantes dos abortos feitos em casa por mulheres que não querem seus filhos, mas não podem pagar por uma cirurgia? Quantos casos de aborto (por estimativa) não são relatados à polícia (por todos os motivos que imaginamos e por quantos mais não podemos nem supor), e quais as consequências disso para essas mães, e para as crianças? Que políticas públicas poderiam ou deveriam mudar, caso a regra fosse alterada? Quais os problemas da atual legislação, problemas reais, práticos, que justificam sua alteração? Seria possível uma meia-alteração, sem reprisar a situação atual, como eu disse acima? 

A nova lei tem cara, para mim, de uma sublimação da vontade de tantos governantes de simplesmente trancar a reprodução na marra. Não vamos cortar o barato de todo mundo nem impor números de filhos, o que não seria condizente com a imagem do político legal, vamos deixar que eles mesmos matem quantos filhos quiserem, desde que antes do nascimento. Bom, se essa é a intenção, então vamos discuti-la, e renegar, se for o caso, isso ou suas variantes. Mas que se discutissem consequências e problemas reais. Não entrar com platonismos a respeito do valor da vida em relação ao Estado, ou meter Deus na história. Óbvio que o Ser Supremo vai entrar na conversa, mas que não se fique nisso, nem se romantize o que o Estado quer com a gente.

Para registro: por essas e outras, eu não tenho uma opinião fechada a respeito do aborto. Considero o tema absolutamente espinhoso e complicado, de modo que não acho nada tão firme nem a favor nem contra a prática, em todos os pormenores por que se desdobra. Eu não consigo nem expressar bem, acredito, exatamente quais as minhas críticas a essa questão toda de debater a liberação no SUS. Por isso, não posso defender as propostas do PT a esse respeito, mas não conheço tantos argumentos contra, já que poucos querem discutir a questão de verdade, a sério (não estou falando do teu comentário, Leo, mas, como era o caso, do Bassuma ou do programa eleitoral do Serra). Só o que interessa agora é qual opinião dá mais votos.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Bolsa Me-livre-deste-país

Este post só faz sentido após se tomar conhecimento sobre o ProMédio ou se ler este post de Em Metrópolis.

Certas coisas ganham ibope e viram coqueluche. Por exemplo, defesa do politicamente correto, xingamento ao técnico da seleção, pressuposição de que toda crítica é machista, racista ou reacionária, sistema de cotas e de bolsas. A Dilma propôs agora, por exemplo, que se resolva o problema da educação (em parte) mandando os alunos públicos para as particulares por meio de bolsas. Pode ser feito com critério? Pode. Pode ter algum resultado positivo? Pode (apesar de que não acredito que façam sem grandes resultados negativos para contra-balançar).

Então por que eu estou reclamando? Porque absolutamente não é uma solução que nasceu tendo em vista o problema a ser solucionado, ela nasceu da forma de solucioná-lo, da ideia de se criar bolsas para resolver tudo. E por que a proposta não é adequada para atacar o problema em questão? Porque ataca o sintoma. Não, faz pior: joga o sintoma de um lugar para outro na esperança de que aqueles que fazem bem com uns alunos FARÃO bem com outros. Por favor, quem é o mentecapto que faz proposta para educação e não sabe que o aluno é o começo e o fim da educação? Que o professor trabalha com ele, mas que quem o aluno é faz toda a diferença? Ora, existe um enorme problema nas escolas públicas que as escolas particulares não têm: os alunos que não podem pagar escolas particulares.

Estou dizendo que a maioria deles é incompetente, burra ou incapaz? Não! Estou dizendo que as escolas públicas são ótimas, mas os alunos acabam com todas as maravilhosas oportunidades e estruturas que recebem do governo? Não!

Estou dizendo que os alunos realmente problemáticos (não "todos do ensino público") não têm estrutura familiar, ou cultura familiar letrada, ou respeito por autoridade alguma (ou todos os três), além de quaisquer outras carências sociais de que repetidamente se trata quando se estuda pra valer o problema com a educação pública. Eles vão, na melhor das hipóteses, apresentar ao professor privado um problema para o qual ele não está preparado (e, não lidando com esse problema, ele tinha o rendimento que constou como "de particular" para o governo). Não posso prever todos os desdobramentos disso sem conhecer a fundo o programa (que não existe), claro, mas as piores consequências são bastante numerosas, tanto que criariam um post gigante, o qual não posso escrever por falta de tempo. Pense-se, por exemplo, o que aconteceria com o preço das escolas se um novo afluxo de alunos estatais começassem a competir pelas vagas das particulares (sendo que eles nunca "perderiam" uma vaga), ou como a lógica de devolver o rendimento esperado pelo cliente-governo traria uma sinergia entre as táticas de manipulação de resultado públicas e privadas. Mas meu ponto, no momento, apenas para pegar a superfície da porcaria mesmo, é este: se muitos alunos se beneficiam, a escola privada não vai ser "a escola privada", a grande maioria delas vai render muito pior, com uma que outra exceção a ser citada sempre com orgulho pelo governo (e não, não estou fazendo um raciocínio análogo ao terrorismo sobre as cotas e qualidade, porque estou imaginando, nessa hipótese, muitos alunos entrando, não uma porcetagem pequena como a das cotas). Se poucos alunos se beneficiarem (como com as cotas, ou menos ainda), o grosso do problema segue. De qualquer forma, enquanto sobrar um aluno em escola pública, o programa vai ser mais uma coisa para desviar verba, interesse e respeito dos alunos que sobrarem na dependência da educação mantida pelo Estado.

Como disse antes, o que me levou mesmo a escrever este post foi a total descrença de que se tenha criado isso porque se imaginou que a ideia funcionaria. O que gerou esse programa foi a mentalidade de bolsa. Fazer bolsas virou um clichê, um cacoete, resposta para tudo que cotas ou discurso não resolvam. Mas a ideia de usar a lógica da bolsa para mover o problema de um lado para o outro é demais. Por que não fazemos logo, já que ninguém sabe como resolver o Brasil desde Cabral, uma Bolsa-Estranja e financiamos com os impostos a possibilidade de todos os brasileiros se mudarem para a Suíça? Afinal, lá tem melhor educação e mais dinheiro. Eles devem saber como nos governar! Vamos levar nossa pobreza e desigualdade toda para lá, que com certeza eles resolvem.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O fim da Bolsa nos Bolsa-Qualquer-Coisa

Ainda considero que o maior problema do sistema de assistência atual, que tenta pagar aos alunos pobres que estudam, seja em que modalidade de programa for e como quiserem chamar os "pobres", é a mensagem que isso passa, não o gasto público envolvido nem a "compra de votos" que isso implicaria.

Quanto ao gasto público, já está bem demonstrado que é possível fazê-lo sem acabar com a grana do país, e a cobrança abusiva de impostos do Brasil reduplicaria quaisquer argumentos econômicos que comprovem essa possibilidade. Yes, we can.

A compra de votos não é nem um mal exclusivo do sistema de bolsas nem funciona como geralmente é representada. Isso pode até ser viável em outros estados (não sei como), mas, no Rio Grande do Sul, como a organização dessas bolsas e a competência dos empregados do governo deixa a desejar a olhos vistos, qualquer pessoa que dependa da bolsa conhece uma série de problemas na organização desse sistema e, se o aluno não sofre com eles, vê amigos e colegas sofrendo. Além disso, a mínima escorregada dos políticos, mesmo que aparente, é imediatamente interpretada de acordo com nossa politicofobia nacional, que acredita que toda pessoa que faz parte de um partido é corrupto e sem-vergonha. Ou seja, um problema no sistema de computadores que administra as bolsas logo é visto como falcatrua de algum político (genérico).

Aquele candidato ou político estabelecido que fosse lá e, por um dia, tirasse umas fotos com os beneficiados seria antes metralhado por perguntas, críticas ou tijolaços. Neste caso as fotos de campanha não registram, naqueles elas fortuitamente não registram as palavras nem os pensamentos dos beneficiados. Votos podem parecer ser comprados assim, mas o sistema de bolsas, pelo que vejo, só funciona como propaganda na verdade se o político envolvido já é preferido por outros motivos bem mais fortes ou se consegue convencer as pessoas de que a bolsa é uma melhoria em relação à situação anterior, argumentação que é apresentada antes à sociedade que especificamente àquele grupo. Caso resolva argumentar isso na campanha, o político necessariamente constrói algumas mentiras para aparar as arestas, mentiras que são captadas por quem conhece o programa, ou seja, quem seria "comprado" pela bolsa.

Outra coisa que deveria deixar de ser subestimada é que o beneficiado também pode mentir, e bem. As pessoas que dependem dessas bolsas também sabem aparentar que concordam com o político e com o programa mesmo quando nem estão ouvindo do que se fala, simplesmente para continuar lucrando numa boa (apesar de que também atacam com uma franqueza absolutamente imprevista e "inadequada"). Um dos preconceitos atuais mais curiosos, inconsciente como todo verdadeiro preconceito, é o que faz todo mundo esquecer que pobres mentem tão bem quanto os ricos, apenas por motivos um pouco diferentes e com mínimas adaptações de estilo. Se essa compra funciona em outros estados, não sei como, mas só acreditaria na versão de alguém que acompanhe o processo muito de perto.

O que essas bolsas educam, por outro lado, para pessoas que não tenham uma forte cultura contrária às posturas que vou comentar, já é um problema mais grave. Imediatamente o aluno entende que merece ganhar dinheiro por estudar. Portanto seu estudo é imediatamente submetido a um fator alheio, não ao consequente conhecimento que seria alcançado nem aos usos desse conhecimento. Ao mesmo tempo, os problemas de recebimento de bolsa são interpretados como uma violência direta, não a um direito relativo ao programa, mas a um direito inalienável do ser humano, o de receber para estar na escola. Essas questões de recebimento também reforçam que políticos não prestam, pois a falha é entendida como se alguém estivesse roubando seu dinheiro (políticos estão sempre desviando, portanto a possibilidade de que haja um problema estrutural qualquer, que pode ser resolvido, não lhes ocorre). Tirando o pequeno grupo que foi apesar da bolsa, que nem vai correndo tirar o dinheiro na conta especial quando ele chega (os que estão ali valorizando ao máximo o diploma), os outros logo se confundem num grupo só: os que foram também pelo dinheiro, mas que valorizam o diploma, tendem a se confundir com os que foram apenas pelo dinheiro, reforçados ideologicamente pelos que dependem da bolsa para chegar à escola e voltar.

Tudo que acontece depende, então, da bolsa, o valor da nota dos trabalhos e das provas vira o argumento mais fraco, estando totalmente subordinado a "se fizer isso, vou receber, ou não?" Os salários dos professores são interpretados como bolsas, arrasando com os sentidos que estas teriam conforme a ideologia mestra da assistência social. Paulatinamente, a bolsa vira um sistema de vingança social, exigida pelos alunos porque os políticos estão sempre roubando (e não porque eles estão ali, estudando como deveriam - os que estão). Desde o início surgem os alunos que querem fazer vários acordos para receber sem cumprir totalmente os pré-requisitos do curso, e, como esses sistemas de serviço raramente (ou nunca) funcionam adequadamente, como a política depende dessa arrumação de acordos a cada situação específica e como um programa que tenta resgatar gente que vive parcialmente fora do alcance do Estado não funciona agindo como se todas as leis do Estado se aplicassem in loco, esses pequenos acordos tendem a acontecer. Refiro-me aqui a micromudanças, argumentativamente necessárias, mas que geram uma bola de neve retórica: abrem o precedente da exceção.

Como em qualquer caso de defesa da própria causa, todos os alunos vão se achar na razão de arregaçar essa exceção até que começam a exigir a bolsa com o descumprimento dos maiores requisitos. Fato importante, mesmo que não precisem, alguns beneficiados tentam fazer isso logo de início, e às vezes passam a mentir que conseguiram, mesmo que não tenham tido êxito algum ou que precisem distorcer um acordo que, na verdade, não envolve mudar as regras, apenas usar outras que a média dos beneficiados não conhecia. Esses corruptos são bastante raros, mas geram a difícil luta para que uma mentira não se espalhe, sendo que os professores administradores têm ainda de descobrir que ela está correndo. Observe-se também como esse comportamento está longe de ser restrito a alguma classe social.

Por todas essas vias, o assistencialismo tenta dominar as relações, mesmo que nenhum político faça tramoia alguma nem tire qualquer lucro eleitoral. É óbvio que essas duas distorções políticas não podem ser descartadas, e equivalem a jogar gasolina em incêndio, mas, mesmo sem um político para piorar a situação, o incêndio já está lá. De fato, a distorção da bolsa se torna tão poderosa que uma das coisas que mais irrita os beneficiados é não receber por não cumprirem algo que era exigido deles como pré-requisito mínimo. Eles se sentem tão roubados em não receber o benefício direito, ou algum outro elemento prometido e não cumprido - que sempre há -, que uma falha deles próprios os incendeia com mais força contra os pré-requisitos sem os quais a bolsa seria assistencialismo escancarado.

Essa bolsa, distorcida, tornada carro-chefe de todos os elementos estruturais do programa, passa a mandar também na evasão. Ou seja, aquilo que seria uma ajuda de custos para manter o aluno estudando e indo na escola, além de atraí-lo para os estudos, termina por comandar seu abandono escolar. Aliás, caso o beneficiado tenha dificuldade em cumprir as exigências do programa, a representação disso na falta da bolsa, que outros conseguiram receber, reforça sua angústia, rebaixa ainda mais sua auto-estima institucional e tende a fazê-lo abandonar o programa, não a tentar mudar a situação para conseguir receber o dinheiro. Eu concordo que tudo que escrevi neste parágrafo forma, em geral, desculpas de pessoas que racionalizam o próprio abandono, a própria falta de vontade para estar ali, mas mudar esse tipo de racionalização, essa cultura, faz parte do objetivo desses programas. Uma das razões de existirem bolsas-qualquer-coisa é que os beneficiados aprendam e queiram participar do Estado, procurem argumentos para fazer parte dele, não para abandoná-lo de vez, e a bolsa não ajuda nesse sentido. Ela não contribui para que ninguém pense que vale a pena ter uma relação com a institucionalidade, a legalidade ou, pelo menos, a educação. Os prazos cada vez mais curtos para que se dê um diploma no Brasil não deixam de afetar esses programas e também não ajudam para que se mude essa cultura contrária à educação.

Enfim, por que a bolsa? Ela atrai bastante gente, sim, o que serve para que partidos digam que fizeram isso e isso, beneficiando tantas mil pessoas, mas isso é apenas mentira. Porque milhares de pessoas vêm atrás de uma bolsa, não é verdade que mais de 200 tenham resistido aos pré-requisitos por mais que três meses, e as dezenas que concluem, se o programa é levado de forma honesta, são pessoas que não estão (ou aprenderam a não estar) ali por causa do dinheiro. Às vezes eles até pensam que dependem, e a bolsa pode garantir-lhes certa dignidade, mas elas dão um jeito se o dinheiro não vem, logo (por mais que eu valorize dignidade), elas seguem estudando porque querem algo além da bolsa (ainda que não saibam disso).

Acredito que seria o caso de se oferecer um programa com todos os benefícios, menos com a bolsa, como um experimento para se saber se, a médio prazo, o número de pessoas beneficiadas e o lucro cultural não são maiores. Se isso não atrairia mais as pessoas que querem um diploma ou conhecimento, capazes de aguentar o tranco pelo estudo. Outro benefício diria respeito às pessoas não frequentam esses programas por medo de outras que frequentam. Talvez a bolsa esteja atraindo mais quem faz menos por merecer. Por outro lado, sou a favor da ideia de que é melhor a pessoa receber um pouquinho para estudar do que receber um pouquinho por um trabalho irregular que não lhe permite futuro algum, então não acho que o sistema de bolsas deveria ser abolido ainda, considerando estritamente o contexto brasileiro.

Sei que isso afetaria diretamente um argumento que se apresenta às vezes, o de se aquecer a economia por essas pequenas chaminhas entre muitos trabalhadores e famílias pobres, em vez de tentar deixar poucos ricos mais ricos; o que não sei é o efeito que isso realmente tem. Até onde posso ver, o maior resultado da bolsa não é fomentar o consumo, mas o consumismo, o que também é bom no sentido econômico, apesar dos pesares culturais. De qualquer forma, seria interessante um programa que tentasse mostrar, ideológica e estruturalmente, que a educação não permite se ganhar mais com a mesma vida que sempre se teve, mas sim com mais esforço, um tipo diferente de esforço, que é mais valorizado socialmente, mas que não envolve deitar nas cordas ou ganhar cada vez mais fazendo menos, postura a que se tenta adequar o sistema de bolsa e que se tenta repetir depois que o programa acaba.

Apenas para ser bem claro: as bolsas são distorcidas para obedecer uma lógica de favoritismo e assistencialismo de modo que o estudo seja o de menos em programas de ensino. A supressão da bolsa, com a manutenção dos outros benefícios, poderia dar espaço para que os professores trabalhassem o estudo e o conhecimento como valores sem que a própria estrutura do programa provocasse a sensação contrária. Pelo que vejo, o estudo só funciona (o conhecimento só fica) se serve de abertura a um mundo diferente do que se conhece, o que inclui as relações sociais a que temos acesso. Como as coisas estão, a bolsa, em vez de ser um empurrão nesse sentido, termina por ser uma âncora cultural para que o pobre siga (também culturalmente) exatamente onde está, mas figure melhor nas estatísticas e sirva para propaganda eleitoral - atualmente, mesmo para candidatos opositores.

domingo, 23 de maio de 2010

Platonismo e restrições, chaves da propaganda de inclusão social

A grande vantagem de palavras como verdade, ética, respeito, direitos e deveres é que elas servem para defender absolutamente qualquer coisa, do Anarquismo ao Fascismo, do silêncio às passeatas, do pacifismo à guerra. E, como somos seres que mais sonhamos em ser racionais do que realmente somos, tais termos servem a uma guerra retórica infinita, geralmente redundante e, por isso mesmo, paralisante.

Tenho a impressão de que a semana que findou ontem foi particularmente ilustrativa para meus alunos a esse respeito. Alguns professores que trabalham comigo me acompanharam numa reunião com uma série de pessoas hierarquicamente superiores para defendermos, entre outras coisas, que mostrar um documento oficial para alunos adultos nada tem de anti-ético. Aparentemente envergonhados de terem escrito esse documento de forma distorcida, em partes de forma bem violenta, foi a nossa ação de respeito pelo que entendíamos serem direitos dos alunos que resultou na ação taxada de "anti-ética".

Trouxemos aos alunos o resultado da discussão. Parte do resultado foi conseguirmos finalmente afastar um dos funcionários que trabalhava conosco. Nesse caso, ele faltar com muitos de seus deveres e abusar ao longo de meses de direitos ambíguos fez com que a responsabilidade por determinados acidentes caíssem sobre os alunos, sobre o que também discutimos nessa reunião, buscando contestar a "verdade" apresentada no documento citado acima.

Junto de tudo isso, trouxemos a notícia de que perderiam alguns professores (por outros motivos, não por tudo que fora discutido sobre o documento difamatório). Em relação à perda de professores, os alunos estariam praticamente impotentes. Ao contrário do que acreditam os que idealizaram o programa de educação do qual fazem parte, porém, esses alunos não precisam "aprender" a exigir seus direitos. Não ficaram nem um pouco dispostos a aceitar essa "impotência" que lhes foi apresentada como única opção. Estavam decididos a reclamar e pressionar de todo modo para conseguir o que queriam numa grande reunião de todas as escolas que aconteceria na sexta-feira. A forma escolhida foi o abaixo assinado, apesar de que o plano ia para bem além, conforme cada medida não trouxesse o resultado esperado.

A reunião de sexta, clímax da semana, exige certas explicações preliminares. Para fazer o máximo de uma verba mais curta, para fazer um "H" sabe-se lá com quem, para reunir os professores todos num mesmo lugar na noite em que obrigatoriamente nos anunciariam uma série de decisões fundamentais já para o funcionamento das aulas na semana seguinte e para atingir outros objetivos que com certeza me escapam, fomos colocados todos num prédio público em que palestrariam duas estrangeiras, uma de nome que todos entenderam como "Tique Vicioso" (falou sobre crack) e uma descendente do Zapata (que fez Zapata arrancar o bigode no túmulo com as ideias que defendeu).

Basicamente, elas falaram sobre juventude, direitos e deveres. A primeira falou em espanhol claro, o que possibilitou que dispensássemos a péssima tradutora convidada. Suas afirmações sobre as consequências políticas do tráfico até que foram pertinentes. A segunda, em espanhol bem menos acessível, cometeu o clássico erro de supor a total apatia de seu público apenas porque vinham de famílias pobres e sem ensino fundamental completo. Pregou a livre-iniciativa (com outros nomes) e que não se esperasse a ajuda do Estado, isso para pessoas que vivem tão distantes do Estado que reconhecem antes o paralelo que o oficial! Qual deles teria sobrevivido para além dos 18 anos só esperando o governo?

Seja como for, nossos alunos estavam descontentes, mas outros, de outras escolas, tinham ainda mais motivos para se irritar com uma reunião semi-midiática dessas. Alunos que passaram por maus bocados ainda piores aproveitaram o momento de manifestação (perguntas e comentários) e se levantaram com cartazes, narizes de palhaço e críticas ferozes, certeiras, sem nem mesmo apelarem a palavras de ordem. Foi pior que uma manifestação arruaceira, foi um ataque sincero na jugular dos administradores presentes.

A representação do programa se defendeu bem: retórica eficiente e tentativas boas de controle da situação. Como as convidadas reagiram, as convidadas que vieram falar a esses jovens como eles deveriam viver, quais eram os problemas da vida deles, que eles deveriam exercer seus direitos e tomar as rédeas de seus destinos com as próprias mãos? Disseram que aquele não era o momento para se manifestarem. Vieram com o papo (que já quase virou lei em Porto Alegre, há um ano atrás) de que há momentos para as pessoas exigirem aquilo que lhes falta, ainda que todos os meios civilizados e legais tenham sido esgotados. Enquanto aqueles alunos entendiam que tinham cumprido seus deveres e que os responsáveis pelo programa não tinham cumprido os deles, que sofriam com um descaso contra o qual tinham o direito de reclamar (e não há forma de reclamar sem causar incomodação, pelo contrário, a incomodação é a chave do poder da reclamação), as estrangeiras se insultavam com uma manifestação que se baseava nos mesmos princípios que elas evocaram poucos minutos antes. Os mesmos princípios, mas lidos de outra forma (nem tão distante assim), ou seja, conforme a interpretação dos próprios alunos, essas pessoas que são colocadas em programas que priorizam o desenvolvimento de cidadania, criticidade e autonomia interpretativa, mas que institucionalmente lhes negam tudo isso a cada passo, a menos que mediada docemente por alguém "de cima", nem que sejam os professores.

Verdade, ética, respeito, direitos e deveres, tudo isso é muito maleável. O maior problema, na prática, é que quem não costuma ter o microfone para falar também tem a sua interpretação para cada um desses idolatrados termos.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Transformação social

Quando um aluno tenta argumentar por mais de 10 minutos que a bolsa-auxílio garantida pelo governo está para seu estudo na mesma relação em que o salário de um professor está para seu trabalho, a transformação de programas sociais em assistencialismo está completa. Enfim a figura paterna não precisa ser provida pela religião; viva o Estado Laico Populista.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Universal

"Entre o mundo encantado da propaganda e o abismo dos fracassos, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, tem um abacaxi de R$ 590 milhões sobre a mesa.

(...)

"Por enquanto, o Cartão SUS é apenas um desastre que merece ser estudado por pesquisadores da má administração pública e da esperteza dos fornecedores de equipamentos de informática."

Tirando as especificidades de Ministério e equipamentos de informática, essas são as duas frases mais universais de um texto extremamente valioso de Elio Gaspari. E o valor do texto está justamente no fato de que ele aponta aquilo que é verdade em um número absurdo de programas governamentais, apenas nesse caso se referindo à Saúde. No entanto como é difícil que as pessoas aprendam a lembrar sempre daquele fosso quilométrico entre o mundo encantado da propaganda e os fracassos dos programas públicos! E como a mentira governamental é sempre tão hiperbólica que mesmo o desconto de descrença da população não permite ainda que se vislumbre o fundo do poço, lá onde jaz a realidade.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Lentos e graduais

Minha atual perspectiva: os alunos adultos de programa de apoio do governo para quem não completou o fundamental levam meses penando para receber o direito de comprar passagens como estudantes, pagando então metade do que precisariam para andar de ônibus. Pagando, diga-se, do próprio bolso antes e depois de receberem o direito à carteira escolar. Seus professores esperam há meses por que lhes paguem os vale-transportes previstos ao serem contratados.

Minha atual leitura: os senadores aprovaram que eles próprios podem usar a verba de passagem aérea que sobrou de 2009, contra decisão de abril passado, que proibia exatamente isso. A justificativa da ação: os senadores ainda não se acostumaram com essa nova regra, não foi previsto período de transição!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Instinto de Brasilidade

Uma característica infalível das picuinhas da vida cultural brasileira é que bobagens não deixam de ecoar por, pelo menos, muitos meses, tornando-se sempre nova "cultura do momento", sem a qual não se caminha na rua, pelo menos não entre gente nova. Com a tal guria da microssaia, da UNIBAN, não poderia ser diferente. Ela conseguiu abrir precendente novo para o uso do famoso adjetivo "puta" tanto quanto tornou-se seu sinônimo: qualquer saia agora é metonímia para sua vestimenta no fatídico dia, de modo que uma guria (especialmente se não for esquálida) que mostre mais que o joelho é, potencialmente, uma "Geisy" para qualquer adolescente que esteja de passagem. É interessante quantas voltas nossa cultura dá para caber cada vez mais em um espaço menor do cérebro. Logo atingiremos o ideal da concisão e, para se ser um verdadeiro brasileiro em espírito, bastarão de fato só dois neurônios e uma bolsa-auxílio.