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sexta-feira, 3 de abril de 2015

O paiseco à deriva

Entre Lava-Jato, "CPI do Mensalão", "Mensalão do PSDB + DEM", Zelotes e Petrobrás, o Brasil inteiro está sob investigação por corrupção. Há muito, admitimos a culpa de tudo e de todos. E o que se pretende oferecer como solução? Voltar ao passado, de não muito diferentes formas.

1 - Ditadura;
2 - Confiar no PT com paciência e perdão;
3 - Confiar no PSDB + velhos comparsas da economia da miséria;
4 - Confiar em pastores.

Haverá país mais deprimente? Com certeza, porque sempre existirão os que já estão em ditadura e os que vivem em guerra civil. Mas isso em si não o cúmulo da depressão? Que por pior que o Brasil seja, ele não é o pior. Não é, mas está tentando chegar lá.

domingo, 4 de novembro de 2012

Internetês como analfabetismo

É verdade que o internetês tem sua graça, seu estilo, suas potencialidades, até poéticas - se quiserem. E é verdade que é possível escrever internetês e saber escrever conforme a Gramática Normativa ao mesmo tempo.

Também é verdade que as duas afirmações, como todas as defesas ideológicas do que é obviamente um problema, referem-se às exceções das exceções.

Praticamente não se usa o internetês para se fazer firulas que não se pudessem fazer com a Gramática - nada dessa poesia cotidiana e espontânea com que sempre se sonha; quase ninguém sabia escrever conforme a Gramática já quando ela só competia com uma Norma Culta, sobre a qual tinha extremo poder, quem precisa da Gramática agora, que existe um campo livre de todo e qualquer domínio dela?

O problema do internetês nem é, aliás, seus potenciais, o problema é do que ele é sintoma. Observe-se o que se escreve na internet, particularmente o que pessoas com menos de 20 (para ser mais extremo) escrevem, e compare-se isso a textos até o fim da Idade Média. O internetês é a escrita de uma cultura oral.

Nossas regras mais cotidianas, como pontuação, separação de palavras, uso de minúsculas e maiúsculas, vêm de problemas que as cópias de textos foram gerando conforme se perdia noção do contexto original (em muitos casos, tratava-se de uma defasagem de séculos). É realmente possível escrever quase sem regras, quando o texto é praticamente uma anotação para servir como apoio à fala, quando as duas pessoas que se comunicam compartilham de quase todas as referências em questão, quando todos sabem exatamente os mínimos detalhes do contexto relevante ao texto. Soma-se a isso o clichê e a frase-feita.

No momento em que o texto passa a ser útil por mais que um dia, ou seja, no momento em que a tecnologia da escrita passa a ter algum valor de acordo com todo o seu poder, esse texto de mera anotação moral passa a não satisfazer mais. E o internetês é só esse texto. Muito pouco dele pretende ser útil por mais que um segundo.

O único detalhe é que escrever assim é a única forma reconhecidamente necessária para uma multidão de gente. Assim, a famosa língua que brota suas regras das necessidades de comunicação em grupo, sem um poder autoritário por trás como é o caso da Gramática Normativa, não gera o estilo rico, delicado e bonito dos sonhos de um Marcos Bagno (em que ele inconscientemente só parece supor pessoas minimamente treinadas na língua culta como ele próprio), mas sim um texto tão pobre quanto possível, tão isolado quanto possível. As riquezas que as novas ferramentas permitem não entram em uso sem, como no caso da Gramática, o poder de algumas pessoas muito talentosas, tradicionalmente chamadas de poetas. O detalhe é que esses poetas não podem afetar o internetês da mesma forma, porque seus usos e estilos não podem ser ensinados nem passados adiante; isso dependeria de um sistema de regras e controle, como na tão temida e (blergh) adulta Gramática.

Dessa forma, só o que resta são pequenas firulas que só parecem grande coisa a uma leitura de quem não tem noção tanto das capacidades da língua quanto de reconhecer os trejeitos da fala em toda suposta novidade do internetês. E os motivos não são misteriosos: uma sociedade de cultura puramente oral é uma sociedade analfabeta; uma sociedade analfabeta só tem cultura oral.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Rio +20 e a política

Uma mulher no poder? Lá de onde eu venho não tem disso não...

Faltam dois dias para recebermos mais uma vez Ahmadinejad no Brasil! Ele vem por causa do Rio +20. Obviamente seu objetivo é "estreitar relações" com Brasil, um dos grandes países a aceitar seus crimes de Estado e o terrível sistema político do Irã. 

É um desafio para mim entender o que a proposta de um "mundo sustentável" tem a ver com perdoar um Estado teocrático daqueles. Mas, na verdade, nem entendi ainda como um país democrático (especialmente se o país se anuncia internacionalmente como democrático) recebe ditadores e assemelhados. Os governantes do mundo, porém, não apenas lidam bem com a situação como a repetem inúmeras vezes, com toda a tranquilidade. Os governos da América do Sul, então, são especialistas nisso (o Brasil tem até uma Associação de Amizade Irã-Brasil!!!). E o discursinho de um mundo diferente, possível somente longe dos EUA, sempre marca presença nas contorções retóricas que permitem esse tipo de amizade. Além do mais, com o que a Dilma já arregou para militares aqui, o que seria cumprimentar e conversar animadamente com a misoginia encarnada, né?

Por outro lado, contorções retóricas as temos para o principal problema: o programa nuclear iraniano. Até que se prove cabalmente que ele é mesmo militar, o Irã pode ser desculpado, por alguns, como inocente. Por isso, Ahmadinejad e seus companheiros não permitem de jeito nenhum que os países interessados analisem direito o que rola por lá. Nada suspeito, né?

O Mensalão também, se não for julgado, segue sendo uma acusação vazia. Para alguns... Curiosamente, para os mesmos que aceitam o segredinho de Ahmadinejad com seu urânio. Assim, nosso governo toma a mesma tática: atrapalha e atrasa a investigação a fim de impossibilitar a acusação cabal. 

Aqui, a acusação prescreve, e seguimos com a currupção impune. Lá, a acusação sem provas só tem prazo de validade até o mundo ir pelos ares.

sábado, 2 de junho de 2012

Elasticidade emocional: o caminho e a impossibilidade da educação

Há poucos dias entendi o conceito central da pedagogia que me escapa, que na verdade escapa a quase todos os professores, se questionados diretamente. Cunhei (que eu saiba sou o autor do termo) de "elasticidade emocional".

Trata-se da habilidade de lidar com um grupo não como um todo, mas como um agrupamento de indivíduos, sem se esquecer realmente do todo.

Aparentemente contrário ao que se fala sobre turmas e educação, a elasticidade emocional é a necessária conclusão do individualismo que marca toda a nossa sociedade tanto quanto subjaz às teorias pedagógicas mais aceitas por conservadores, progressistas, engajados de Facebook, neutros e curiosos. Não estou dizendo, no entanto, que ele me ocorreu por tentar balançar teorias. Esse conceito, para o gozo de qualquer paulo-freirista que leia este texto, nasceu da prática.

Os alunos têm suas necessidades, suas faltas, seus talentos, seus traumas, às vezes suas sequelas, tudo extremamente específico. Cada indivíduo na sala de aula, por mais clichê que seja (o malandro, a respondona, o revoltado sem causa, a cdf, o puxa-saco, a roqueira, o submisso...), é um abismo de idiossincrasia: quanto mais se conhece a pessoa, mais se vê o quanto suas necessidades para aprender são diferentes do resto da sala.

Toda essa especificidade envolve uma relação emocional diferente com o professor. Existe, para cada um, creio eu, um estado emocional ótimo, em que a relação na sala de aula e a aprendizagem funcionam muito bem. O problema é que o tratamento que um aluno recebe pode conflituar demais com o de que outros ali presentes precisam, e um mau dia de um aluno desses também pode contradizer demais o que está acontecendo na aula. Multiplique-se esse problema por mais ou menos 30 e vemos de onde nasce a ideia de elasticidade emocional.

Essa elasticidade é a capacidade de chamar a atenção de um aluno, responder a pergunta interessada de outro, procurar saber se uma outra está aprendendo, recolher o recadinho de uma outra ainda (decidindo como lidar com o tal recado, naquele momento), sempre lembrando que qualquer reação afeta a aula toda, pois o grupo todo está testemunhando cada uma dessas coisas, às vezes até outras que não estamos vendo... 

O pulo imediato entre irritação, bom humor, amizade, seriedade... e as armas de uma conversa em grupo (voz alta, reação estranha chamativa, piada adequada, lição de moral...), bem como a consciência da experiência total da sala de aula em conexão com o planejamento e o tempo restante são as grandes chaves, a meu ver, para realizar uma boa aula. A maioria dos professores, claro, dizem que não a têm, ou que é impossível ter tanta elasticidade assim, além de que cansa.

Parece-me realmente que é a maior fonte de cansaço da atividade, acho que é mesmo impossível tê-la perfeitamente (por isso todos os séculos foram marcados pela clara noção de que turmas pequeníssimas, até tutoria pessoal, são a marca da boa educação), mas também considero que todos os professores que conseguem algum resultado a têm em algum grau.

É, porém, uma habilidade para resolver um problema idealmente desnecessário. O professor de talento, por exemplo, não precisa necessariamente dessa habilidade, mas o talento é exceção em todas as áreas. Estou aqui falando sobre aula como um classicista falaria sobre arte, o que seria imediatamente desbancado ou reinventado por um gênio artístico, ou, no nosso assunto, um gênio pedagógico. Infelizmente um sistema de ensino obrigatório e público não sobrevive de gênios. A raridade de uma pessoa nascer com o talento concentrado numa área específica de trabalho é desanimadora, como bem se sabe. 

Da mesma forma, como disse antes, a impossibilidade de professores não geniais perfectibilizarem a elasticidade emocional é preocupante, portanto o sistema poderia sobreviver sem gênios apenas se abaixasse o número de alunos. Só que isso aumenta o custo da educação, e ninguém quer gastar com ela! A política de educação é sempre "menos". O dinheiro só pode fluir mais para programas voltados a apagar incêndio (em parte porque aí a verba pode ser mais facilmente desviada, aparentemente). Uma vez que outra se cria novas instituições, é verdade, mas elas nunca são montadas até o fim. O nome, talvez o prédio, ficam lá para serem contabilizados, mas a educação segue na mesma.

Se alguém precisa de uma desculpa para racionalizar seu abandono da profissão, portanto, pense nisso: como vai a sua elasticidade emocional?

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Teocracia americana

Jesus é a favor dos impostos?

Jesus é a favor de uma máquina estatal enxuta?

Jesus restringiria as boas ações a esmolas e ONGs? Só a esmolas? Só a ONGs?

Jesus era a favor do capitalismo mais liberal já imaginado?

Numa demonstração assustadora de ignorância, burrice e anacronismo, os republicanos transformaram de vez a discussão política em teologia. Nem mesmo o que deveria ser o campo do milagre, do absurdo e da superação do que há de mais terrível em nossa natureza escapa à simplificação de que tudo é mercado, tudo é de troca. 

Sendo a política uma teologia, as eleições, a escolha do mais perfeito cristão e a corrida por votos, uma teogonia, o que impede ainda os EUA de serem chamados de uma teocracia?

Para os absurdos, ler aqui.

segunda-feira, 12 de março de 2012

De crucifixos, homossexuais e ateus: o problema da parcialidade

Faz quase uma semana que o Conselho de Magistratura do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul determinou que símbolos religiosos fossem retirados das dependências do Tribunal. A decisão foi unânime e respondeu a um pedido de diferentes associações civis (umas ligadas à defesa do direito de homossexuais, outras à dos direitos das mulheres).

O processo levou de novembro do ano passado até agora para ter algum resultado. A decisão: cumprir o que foi pedido. Ana Naiara Malavolta, da Liga Brasileira de Lésbicas, deu a motivação mundana da coisa: o pedido foi uma resposta a diversos casos em que homossexuais foram impedidos de entrar em templos religiosos pelo Brasil. O problema reavivou a questão de "Por que essa religião que não aceita igualmente a todos e que é um entre outros credos do povo brasileiro vislumbra por sobre os ombros de juízes e desembargadores a cada decisão do Estado?" - Ok, coloquei uma certa cor, mas entenderam o problema.

O processo andou naturalmente com outra justificativa legal, o tema predileto da atualidade: a laicidade do Estado. Claudio Baldino Maciel, o desembargador relator do caso, lembrou que o Estado deve se distanciar igualmente de ambas as partes interessadas ao julgar. Colocar um símbolo religioso nos prédios e nas salas de decisão parece contradizer essa proposta - o "parece" aqui é meu, e o considero muito importante, mas vou demorar um pouco para retomar.

A argumentação do Estado laico fez o problema sair do front homoafetivo e recair nos ombros dos ateus - sim, até ancestrais associações entre comunismo e ateísmo foram evocadas, implicando que o apoio a Stalin, a defesa do aborto e o desejo de que se retirem de prédios públicos símbolos religiosos são a MESMÍSSIMA coisa. Ah, e os ateus são o grupo mau que quer tudo isso. Não vou discutir essa besteira (pelo menos não hoje), mas o problema do Estado laico me interessa, de qualquer forma, então vamos a ele.

Em primeiro lugar, o Estado não precisa falar em "laicidade" ou dizer que é "laico" na Constituição para sê-lo. Basta isolar-se de dependência ou associação com qualquer religião. O (agora) famoso artigo 19 da Constituição diz exatamente isso, particularmente no trecho proibindo "manter com eles [cultos religiosos] ou seus representantes relações de dependência ou aliança". Assim como proibir que um cidadão tire a vida do outro, ou garantir o direito de todos à vida, é proibir "assassinato" sem usar a palavra; não é preciso que a lei use o termo "laico" para defender esse tipo de Estado. Ponto. Aliás, a legislação brasileira faz de nosso país um caso particularmente claro de Estado laico. Quem quer checar, por favor, se vire.

"Aliança" é um termo complicado no artigo, mas não besta. Ele não quer dizer que o chefe de Estado não pode dar tapinhas nas costas do papa se visitado, ou rezar a um deus quando está triste, assustado ou agradecido.

Por outro lado, o artigo 19 estabelece que o governo não pode favorer qualquer religião em detrimento de outras, nem a todas elas em detrimento de quem não tem nenhuma. Ora, o que significa uma cruz em destaque na parede? Detalhe ornamental? Gosto pessoal? Ou reverência a Cristo, figura central (ou muito importante) de quase todo o monoteísmo atual? - Tal reverência é característica de religiões monoteístas, certo? Quem é monoteísta é religioso, concordam? Quem tem religião segue preceitos e/ou dogmas instituídos por uma fonte outra que o Estado, certo? Como é que se vai dizer que o crucifixo aqui não pode ser questionado com o argumento de que o Brasil é um Estado laico? Ele está justamente implicando um respeito a algo que lhe é externo, um símbolo religioso.

É nesse ponto que quero destacar o "parece" acusado antes. Um desembargador ateu não deve estar pensando no crucifixo nas suas costas quando faz alguma decisão profissional. No entanto, o crucifixo não deixa de provocar um implícito bastante claro, apenas esquecido ou ignorado por alguns, na prática. Políticos nunca foram o melhor exemplo de cristãos, mas a mensagem continua lá, e isso basta para incomodar ou insultar pessoas que se importam com essa religião, por bem ou por mal. Se esses cidadãos chamam a atenção para uma incongruência séria que tem motivos históricos, não legais, por que é tão horrível quererem resolver tal incongruência, especialmente quando estão tentando há décadas serem tratados como cidadãos e têm justamente uma resistência de políticos religiosos impedindo parte desse movimento? Essa motivação, aliás, como vou comentar, não impede que eles estejam certos. Não é um contra-argumento em si.

É óbvio que se pode argumentar contra a retirada de símbolos religiosos. É claro que muitos argumentos legais são levantados para que os crucifixos ali fiquem. No entanto, no momento em que uma decisão (administrativa) é tomada pelos responsáveis, com base legal, como é que gritos de inconstitucionalidade tomam as redes sociais (partindo, infalivelmente, de religiosos reclamando sobre ateus)? 

Não falo aqui de questionamentos, mas de acusações associando a retirada de crucifixos à defesa do aborto, ao passado de ditaduras comunistas e, nos casos mais graves de esquizofrenia, à expulsão de Deus do Brasil!

Se não há conexão lógica entre aborto no SUS e crucifixos em prédios públicos, é possível encontrar um link político: as mesmas "bancadas" opõem-se nos dois casos. Portanto - e revisando (para deixar claro a loucura que quero retratar) - movimentos de defesa das mulheres e dos homossexuais responderam ao que viram como afrontas de religiosos e retomaram a questão dos crucifixos e semelhantes em prédios públicos. "Venceram", e o "outro lado" trouxe à baila o resto da baderna que anima a ambos (LGBT e cristãos), já há algum tempo: aborto e laicidade na política (o que restringe, obviamente, a possibilidade dos cristãos defenderam parte de sua bandeira e participar de determinadas formas - i.e., "em nome de Cristo/da minha religião, defendo tal lei" - não é à toa que se sentem ameaçados).

Tudo isso virou insultos contra ateus e uma piadinha em particular, que vi muito repetida e que motivou este post (apesar de não ter me incomodado até eu ver o conjunto das balbúrdias citadas acima): "Se vão tirar os crucifixos, vamos tirar os feriados (religiosos) então!"

A meu ver, a ironia aqui foi má escolha, pois volta contra o feiticeiro.

1 - Os feriados não são "religiosos" no Brasil há quanto tempo? Séculos, já? Quem lembra de Jesus na Páscoa, ou mesmo no Natal? Cristãos? Muito poucos. E professoras de educação infantil? Só se for em sala de aula. Presépios e mensagens de paz com um barbudo cabeludo atrás não são "respeitar e celebrar o sentido religioso da data", nem mesmo respeitar a "mensagem" que a origem religiosa teria deixado. Em qualquer lugar que se vá, Papai Noel vence Jesus por pelo menos 10x1 na quantidade e na qualidade de referências. Todas as crianças sabem quem é Papai Noel, mas quase nenhuma pode ficar mais que perdida se questionada a respeito de Jesus - a menos que os pais a levem a alguma igreja, e mesmo assim é bem provável que ela não saiba dizer mais do que uma citação para a data mais próxima, como "é quem nasceu agora", se se está perto do Natal (não me entendam mal, não estou falando de criancinhas de 5 anos, mas até de pré-adolescentes).

2 - Quem sabe o motivo religioso do Carnaval? Quantas pessoas saem em procissões das padroeiras que motivam feriados regionais? O Dia do Índio, do Negro, da Mulher, da Independência, da República, da Revolução Farroupilha e outras tantas datas (feriados ou não) com base "civil" são de fato conhecidas por suas propostas e são debatidas em cima destas, não de acordo com um mercado que aproveitou o vácuo deixado pelo recuo da religião em tanto de nossa cultura. Na Páscoa se discute sobre vendas, produção e consumo de chocolate - fora de centros religiosos bem restritos. Talvez a bancada cristã consiga mudar isso em 2012, mas, com base no Dia do Hétero que passou tão despercebido, me parece improvável.

3 - Se é errado não-religiosos pararem em feriados religiosos, qual a melhor solução para isso? "Já que fazemos errado na Páscoa, vamos errar nos prédios públicos também" ou "Já que arrumamos os prédios, vamos arrumar os feriados"? 

4 - O aspecto "estão só querendo o que lhes interessa, esses vagabundos" da piadinha é o mais bizarro. Acaso religiosos se enfureceram com a questão por algum motivo que não lhes interesse? Cristão são imparciais quando se discute laicidade e crucifixos? É crime que ateus (supostos) sejam parciais? Ou a política é exatamente um campo de parcialidades, envolvendo, às vezes, o julgamento de alguém que não deveria ser influenciado por nada, NEM PELA RELIGIÃO?

5 - O Estado não se justifica pelos interesses, valores ou preceitos de religiosos ou ateus. O Estado se justifica por si. Eu sei que isso é um looping, mas é a loucura que institucionalizou a nossa forma de governo. No momento em que um grupo ou religião serve de base para uma lei, o Estado está se inclinando para algum lado, o que está errado conforme... a Constituição. Portanto, se os ateus querem ficar em casa na Páscoa, em nada isso justifica que estejam errados ao argumentar laicidade do Estado para reclamar de crucifixos. A questão é só se essa laicidade justifica tais posições ou não. As incongruências dos indivíduos nada têm a ver com a lei.

A ironia não era só "brincadeira", como creem muitos que as fizeram na "maior inocência". Ela indica que não se entendeu nem o motivo da ação contra símbolos religosos nem a ação em si. No entanto, ela era a grande resposta. Em busca de um motivo para tanto barulho, a única tentativa de argumento racional que encontrei de quem se opunha à decisão (do Tribunal) foi "Não faz sentido". "Como não faz sentido?" E lá vinha ela: "Sim! Se é pra tirar os crucifixos, vamos tirar os feriados, então!"

Mas o pedido não foi um movimento de vagabundos que se aproveitam da religião para descansar, só  não a querem no Tribunal; não veio de pessoas insensatas que torcem a Constituição usando palavras que ela não tem (argumenta-se e interpreta-se a Constituição, isso sim, mas, bem feito, chama-se Direito, não malvadeza - nenhuma lei é aplicada "na prática" sem argumentação e interpretação, não há uma tradução direta e imediata da lei em ação real); nem de pessoas que "odeiam crucifixos"; nem é perseguição religiosa; nem é um movimento esquizofrênico porque o país tem certos costumes de origem religiosa - aliás, "país", "cultura" e "Estado" não são a mesma coisa.

Trata-se de uma decisão legal conquistada pelos meios justos e corretos (que pode ser recorrida), argumentada também com base nas leis (por pessoas que fazem exatamente isso da vida) e, ao mesmo tempo, uma ação política, sim, mas de pessoas que acreditam lutar por igualdade e liberdade naquilo que mais lhes toca. Se os cristãos heterossexuais não são sensíveis a esses problemas, que se lembrem do ditado bastante religioso "de boas intenções o inferno está cheio". Talvez, sejam humildes para considerar, as "boas intenções" de religiosos não sejam imunes ao ditado. Particularmente se suas únicas respostas a quem lhes desagrada na política sejam ironia, insulto, desqualificação e difamação.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Mercadante soluciona a educação

A profissão do político é fazer promessas e não as cumprir. Mercadante, portanto, começou bem seu exercício como ministro da Educação. Uma de suas primeiras atividades foi fazer promessas impossíveis. Fossem elas possíveis, teríamos motivos para duvidar de sua seriedade de homem público. Ele, de fato, não parou nas promessas inúteis, fez propostas para solucionar os problemas educacionais do país. Vamos nos divertir um pouco:

Começou por se pronunciar a respeito da importância de se formar as crianças "na idade correta", em vez de fazer programas para recuperar os alunos depois. Temo dizer que aqui ele expõe sua situação de recém-chegado. No caso do governo, quem acha que precisa dizer uma coisa dessas nitidamente descobriu ontem que existe Educação. Trata-se apenas do problema mais velho que ainda persiste na educação formal democrática (aquela que diz ser para toda a população). Mercadante começa apenas a engatinhar no problema... de forma alguma algo que queremos num ministro da Educação! Mas, é o que temos. Vamos adiante!

O outro problema da afirmação é que "a idade correta" é uma expressão que serve ao governo ou empresa que controla a escola. De forma alguma ela serve ao aluno, que respeita o corte por idade apenas porque lhe é imposto. Nada na medicina, na filosofia ou na religião parece indicar que as pessoas aprendam as mesmas coisas sempre nas mesmas idades. Por que isso é relevante? Porque o ministro acha que a escola deve ser "interessante" para o aluno, de 4 a 17 anos, que insiste em abandoná-la.

Ora, se ESSE é o problema, tem-se realmente uma tragédia neste país! Para começar, o que cada aluno acha interessante varia muito, mesmo numa mesma faixa de idade. Tornar a escola interessante para todos, em todas as idades, pode contradizer em muito as milhões de bandeiras que lutam por um espaço dentro dela (Igreja, ONGs, Movimentos Étnicos, Feminismo...). E se as crianças acharem interessantes assuntos ou posições que não estão na moda? E se elas não acharem interessantes a bandeira da vez?! Contradiz, com certeza, a organização das escolas seriadas, ainda que os Ciclos não resolvam esse problema também. E agora? Acabar com as séries (em nome do interesse do aluno) atrapalha a ideia do sr. ministro de formar as crianças no prazo de validade estipulado em sua política... "Interessante para o aluno" e "conforme a agenda do ministro"? Complicado.

E por que o corte de idade tão baixo? Não é só que o "interesse" pela escola costuma ser problema significativo depois de os alunos terem uns 10 anos (algo útil para o ministro da Educação saber, devo dizer); antes disso, mesmo que o sujeito não queira ir à aula, não há muito o que ele possa fazer a respeito... Há quanto tempo Mercadante não vê uma criança de 4 anos para não lembrar disso? Será que é seguro alguém tão enclausurado coordenar a Educação do Brasil? É claro que, em famílias extremamente desestruturadas (com 16 crianças dormindo numa salinha, ou uma em que os pais proíbam as crianças de ficar em casa a não ser para dormir, por exemplo), uma criança deixa de ir à escola com qualquer idade. Especialmente se os outros braços do governo, como o (quase extinto) conselho tutelar, não funcionam direito. Mercadante está disposto a cuidar das famílias carentes e fornecer apoio a todos os problemas que as escolas diagnosticam, em vez de deixar que elas sigam sendo ignoradas, tendo de lidar com os males que afetam sua comunidade em completo abandono?

Ops, estou fugindo do assunto!

Afinal, por que Mercadante falava mesmo sobre idade de alfabetização? Qual era a questão? Ah, porque ele quer premiar escolas que alfabetizem todos os alunos até os 8 anos!

Será que ele sabe que os alunos de uma mesma série nem sempre têm a mesma idade? Será que ele sabe quão atrasados os pais conseguem que certos filhos cheguem ao ensino formal? Será que ele sabe que nenhuma escola pública brasileira atingiria essa cota sem mentir (a menos que haja uma revolução educacional gigantesca no país, uma que Mercadante, claramente, não faz ideia qual é)? Será que ele sabe que algumas mentiriam? Será que ele sabe que isso pode facilmente excluir os alunos com deficiência que conseguem cursar a escola tradicional? Será que ele sabe que é feio nem contar esses alunos, quando o governo mesmo insiste sobre a importância de sua formação em ambientes tradicionais, sem dar verbas, estruturas ou profissionais para que isso seja feito?

São muitas dúvidas, mas elas devem se multiplicar sorrateiramente em nossas mentes, porque nossa atenção deve redobrar quando o ministro afirma como vai conseguir realizar essa façanha falaciosa. Como mesmo? Ah, sim! Ele vai premiar as escolas que conseguirem isso.

Sabem de uma coisa? Eu sempre suspeitei que as escolas estavam mesmo por um fio para alfabetizar todos os seus alunos. Só faltava uma boa desculpa. No momento em que Mercadante promete um bônus para as escolas, com certeza todas pararão de esconder suas fórmulas mágicas e resolverão o problema da alfabetização. Sem distorções, sem mentiras, sem escolha ilegal de alunos, sem exclusão de parte deles para os testes. Nada. Essa ajudinha financeira vai resolver tudo. Como não se pensou nisso antes? Ah, esses alfabetizadores que escondem na manga como salvar a nação... 

Como sempre, aliás, a verba vai para o milagreiro, não para o doente. Mercadante não pensa que quem deve precisar de ajuda é o pescador se afogando; o prêmio vai mesmo para o amigo dele que jura caminhar nas águas. Como sempre, o governo confunde sua posição. Ele acha que é cliente da escola, não sabe que o problema também é diretamente seu! Que a responsabilidade é sua. Nosso ministro ainda não entendeu (pobrezinho, como disse, chegou há pouco, entendam...) que está dentro da escola, ou deveria estar. Não é sua posição dar tapinhas nas costas do melhor! Sua posição é descobrir (ou perguntar qual é) o problema e fazer o possível e o impossível para resolver. Se há uma crise, idealmente um ministro da Educação ajuda ou afunda junto. Políticos são tão acostumados a abandonar o barco que nem percebem as responsabilidades que (retoricamente) tomam para si. 

Vamos torcer que aprenda rápido qual sua posição e o quanto o MEC está devendo. Coitadinho, tão inexperiente, já chefiando a Educação.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Baianos morrendo para o governo ganhar negociação

Vou falar de longe em relação à greve dos policiais da Bahia, no calor do momento, então me perdoem qualquer equívoco, mas queria comentar umas coisas que me parecem bizarras na história toda.

Para início de conversa, comentou-se muito sobre seis dias de greve terem provocado tantos porcento das mortes que aconteceram em Salvador, no ano passado. O que não vejo ninguém comentar é que isso indica, de fato, que houve 175 homicídios no mês de fevereiro de 2011. Como diria o Faustão, "pora, meu!". 

É mesmo o caso de se supor que, se a polícia parar, vai feder. E fedeu. Tudo bem que muitos casos de vandalismo estão sendo contados como provocados por agitadores, baderneiros, comparsas e até grevistas. Vamos supor que sim: e daí? Isso não quer dizer que os grevistas ou comparsas sairiam por aí matando pessoas por Salvador, só para fazer pressão. A criminalidade aumentou absurdamente, o que é de se esperar com ou sem ajuda consciente do movimento. A posteriori, isso seria relevante, num país com polícia moderna. Como não é o caso...

Eu, pessoalmente, sou muito cético a respeito de grevistas sendo acusados. Particularmente porque eu sei bem quão baixas e falsas são as acusações que políticos e comparsas (sim, todos os têm) fazem quando qualquer grupo de trabalhadores pára a fim de exigir o óbvio ululante. Meu ponto, no entanto, é que, mesmo que as acusações fossem verdadeiras, existem questões mais terríveis a serem focadas.

Por exemplo, quantos dos 175 assassinatos de 2011 foram desvendados? Quantos assassinos foram presos? Quantos vocês acham que serão investigados e concluídos dessa vez?

O crime, em amplo espectro, aumentou. Como o governo reage? Da MESMA FORMA que reage quando absolutamente qualquer profissional pára: acusações clássicas, ofertas ridículas (para fingir negociação) e exigências de quem se coloca no lado forte da queda-de-braço. 

Em termos de disputa, beleza, o governo precisa sempre se manter retoricamente como figura forte. Qual o problema nesse caso então? O problema é que a cidade, no mínimo, está sendo violentada e quase 100 pessoas já morreram. E o governo responde com táticas de negociação de greves de professores (retórica irritante também nesse caso, mas, digamos, com efeitos colaterais menos trágicos)! "Vamos negociar se pararem a greve", "oferecemos o reajuste que sabemos que vocês não querem", "estamos preocupados com a nossa segurança"...

Isso sem contar, claro, o que nunca consigo perdoar em nenhuma situação de greve: que os políticos deixam uma crise virar paralisação. Sindicatos estão sempre negociando com o governo. Em geral, é possível prever uma greve há muitos meses de distância, se se está dentro da brincadeira. Mas o governo deixa rolar, se faz de forte, brinca de roleta russa com a cabeça do trabalhador em questão, de suas famílias e da população.

Nisso, preocupações emergiais do governo baiano (e federal): turismo empacado e imagem ruim para a Copa... E a população morrendo? A população que morra! 

Nada de novo no front.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

As verdades relativas dos direitos humanos

Olhando por essas lentes...

Li há pouco uma daquelas grandes não-notícias que marcam nosso jornalismo: "O governo cubano negou a autorização para que Yoani Sánchez saísse do país".

Não é uma notícia já que não há aí qualquer novidade, qualquer resultado imprevisto, qualquer consequência diferente das 18 vezes anteriores. Como não é notícia Dilma não ter feito nada a respeito (ou mesmo se pronunciado a respeito, que me conste). Yoani disse que ficou decepcionada com a presidente ter ido a Cuba ignorando quaisquer temáticas de Direitos Humanos, mas preciso crer que é mais uma afirmação política obrigatória da blogueira do que sentimento verdadeiro de surpresa. 

No entanto, é preciso assumir que, da política externa à Comissão da Verdade (ridícula do batismo à maturidade), Dilma demonstrou como é forte: poucas pessoas poderiam passar por luta armada (direta ou indiretamente) e pelos "porões da ditadura" para depois (tão consistentemente) se abster das causas humanitárias e do problema do sigilo de informações da história do país. 

A "abertura" das atividades políticas contemporâneas (fora da categoria "segredo de segurança") que sancionou é também ela uma vergonha, porque óbvia - ainda que sejamos tão paupérrimos politicamente que devamos agradecer quando qualquer presidente chove no molhado, tentando garantir por lei direitos que já temos. A ação atestou que é preciso ser lei para que os políticos assumam que trabalham para o público, e que o povo tem o direito de saber o que diabos eles fazem quando folgam dos desvios e discursos vazios para cuidar um pouco da coisa pública.

Yoani precisa expressar um desapontamento com o óbvio; jornalistas precisam "noticiar" silêncio de Dilma... É como o clima. Precisa estar na primeira página, para o editor do jornal se sentir bem. Mas nem por isso é notícia. Chocante, interessante, instigante, seria mesmo o contrário de tudo isso.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Porto Alegre e o cinema

Um dia, queria ouvir o anúncio na TV:

"Ele cumpria as leis... até que um dia sua mulher e seus filhos foram tomados pelo calor. Então ele decidiu abandonar as regras e abrir fogo contra a temperatura alta! Pela primeira vez na televisão, filme que concorreu ao Oscar de Melhores Efeitos Especiais: Fucking Heat - um policial da gelada! Com Kurt Russel. Domingo, no SBT"

Seria pura catarse...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Moral pra lá, moral pra cá

No Twitter, publicaram:

"Nova fórmula para calcular índice baixaria inflação em 2011", 

mas eu li:

"Nova fórmula para calcular índice de baixaria de 2011".

Não sei se é minha expectativa de se criar ideias idiotas para as várias discussões infinitas sobre como a cultura vai mal ou não, ou simplesmente minha própria ideia de que as coisas andam irritantes e não seria de se duvidar que alguém se desse o trabalho de tentar quantificar o problema todo. De qualquer forma, não foi dessa vez que li um tweet moralizante. Tudo bem, os 5 anteriores e 5 seguintes o foram. Se por um lado tenho usado mais as redes sociais, por outro estou cansado de ler lições de moral, autoelogios e frases de auto-ajuda. Ô coisa complicada balançar o uso dessa tal de internet.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A educação que assusta

Eu ia fazer um post sobre a questão da repetência de ano, sobre o sistema que faz com que um aluno passe ou não. Descobri, ao escrever o texto, que tenho medo de publicar tudo que está envolvido nesse processo. Meus textos não costumam ir longe, mas, como os tweeto, às vezes são retweetados, e não sei onde eles vão parar. 

Falar a verdade sobre a educação pública é sempre falar mal de muita gente. Tenho certeza de que essas pessoas se sentem totalmente seguras a respeito de que se publique sua hipocrisia e incompetência, mas também acredito que, às vezes, certas informações podem rolar por aí na hora errada. Também sei da importância do sistema de retaliações para a manutenção da engrenagem propriamente política da educação, ou seja, de suas secretarias. Só posso supor que situação seja semelhante em seu Ministério.

O fato é que o movimento dos alunos entre os anos da escola envolve tantas questões logísticas, geográficas e burocráticas que a aprendizagem não poderia estar mais distante do foco que o governo tem nas crianças que dependem deles para aprender sobre o sistema de nossa sociedade, estejamos falando de conhecimento científico e artístico ou da linguagem dessa sociedade, incluindo aí a educação, a ética, o respeito, até mesmo o controle do corpo de acordo com aqueles valores que bem conhecemos, já que irritantemente repetidos pelo Fautão, pelas heroínas da novela das 8 e por candidatos federais.

Mas, como a questão aqui é contar ou não contar, isso mais me faz pensar muito no quanto não temos jornalismo. Tantas e tantas matérias sobre educação ao longo do ano, em todos os estados, e ninguém toca em mais que a ponta da superfície do começo do problema (preferindo em geral gastar tempo e tinta na velha "É culpa dos professores?"). Se soubessem, a maioria dos pais usaria a escola literalmente como uma creche (o que já tentam, só não precisariam mais lutar contra um discurso que lhes resiste) ou os tiraria simplesmente de lá. No momento, o Bolsa Família já não motiva tanta gente a ir. Com o conhecimento da verdade, ninguém mesmo acharia que o Bolsa seria motivo para matricular o filho, mandá-lo para lá toda manhã, em vez de arranjar formas para a criança, direta ou indiretamente, aumentar a renda da família e - seria o ponto de vista deles, e quem poderia negá-lo? - aprender uma profissão (por pior que esta fosse aos olhos de todos que recebem mais que um salário mínimo).

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Perdido na livraria

Existem duas livrarias por estas bandas: a Cultura e a Internet. No entanto, sem pouso para meu corpo num dia em que todas as ideias úteis eram travadas por acidentes do destino, me vi forçado a "não fazer nada" em algum lugar, de modo que entrei numa outra livraria, por que estava passando. Não era qualquer livraria, é verdade. Tratava-se de uma em que eu lembrava de ter tido boas surpresas, até sua adaptação mais recente, talvez em resposta à proximidade da Cultura, terminar de destruí-la. 

Apesar do pessimismo, ainda fiquei impressionado. A literatura estrangeira não está meramente tomada por bestsellers/filmes, até mesmo os bestsellers tradicionais pegaram cacoetes daqueles, como capas inultimente brilhosas, cores sem nenhuma variedade (a volta de um amante, a vida de um espião e os melindres de um vampiro inseguro, pelo jeito, merecem o mesmo tratamento gráfico) e frases de efeito que... bem, talvez isso tenha sido mais influência dos clássicos nos modernos. A prateleira de "Literatura Brasileira" não tem apenas livros desinteressantes ou de culinária, estão lá também livros de piada (não de crônicas, de piada), manuais de vestibular disfarçados e, dominando o conjunto, biografias! O livro do Boni, aliás, tem grande destaque.

A grande surpresa foram mesmo as histórias em quadrinhos! Lá não havia apenas super-heróis, mas clássicos da literatura, da ópera, histórias originais (de humor, tragédia ou o que se quisesse) sobre história de império chinês, grandes heróis de diferentes culturas, dramas cotidianos modernos. Tudo, diga-se de passagem, com arte variada e interessante. A sessão de histórias em quadrinhos era a prateleira mais interessante e rica da loja. Logo ao lado, aliás, da grande sessão de Arte, que acabou me levando a escolher um livro sobre a obra do Dali e sentar para curtir um pouco. Um tanto a mais de estímulo intelectual e prazer do que geralmente meu dia encontra, é verdade, o que talvez indique que fui um pouco injusto no começo do post, falando sobre essa livraria, mas devo dizer que as histórias em quadrinhos e a arte não me diminuíram a incomodação com a parte sobre literatura estrangeira e brasileira. Entenderia uma variedade com certo foco em vendas, mas piadas, biografia (o que menos havia, algo como 30%, era literatura) e SÓ bestsellers na estrangeira? Tinha um Tolstoi lá no meio, é verdade. Pequeno e mirrado. Pobre, o que pode ser irônico, mas com certeza muito injustiçado.

É urgente que sejam criadas as sessões "Livros que Recontam Filmes" e "Coisas Escritas no Brasil". Se não querem literatura, assumam! O público, pelo jeito, nem vai notar a ausência.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Depois de Deus, a Bolsa - para todos os problemas

Neste post eu havia dito que a mentalidade de "bolsas" era endêmica no país, e se acreditava que garantir apoio financeiro do Estado para qualquer coisa resolveria todos os problemas, em todas as áreas. Nunca achei que alguma opinião postada neste blog seria tão comprovada quanto agora, aqui.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Preconceituosos de berço

Pesquisadores da Universidade de Sheffield, Reino Unido, descobriram que bebês de três meses já são racistas. Ok, não foi bem isso, mas foi assim que noticiaram. Ou seja, todas as matérias (espero, já que torço por que todos os jornalistas sejam responsáveis, ainda que ambiciosos em suas manchetes) começam por uma aliviada na informação, como eu preciso fazer aqui.

O que se observou é que eles começam, nessa "época", a preferir rostos de sua própria raça. A menos que estejam convivendo muito em ambientes "multirraciais" - dã! 

Supresa, supresa: preferimos o que nos é familiar desde cedo! Ufa, ou nossos ancestrais teriam morrido bem mais facilmente e nunca teríamos evoluído para poder desenvolver, por exemplo, manchetes sensacionalistas...

Maldosa e egoisticamente, no entanto, às vezes penso que seria legal se se descobrisse uma tendência genética bem clara aos preconceitos. Isso indicaria a responsabilidade da sociedade por se trabalhar contra essas tendências, mas sem sonhar com seres humanos ideais nascendo, nas florestas "isoladas" ou no futuro distante, igualitários e pan-amigáveis. Essa vontadezinha morre, é claro, quando lembro que uma descoberta dessas provocaria mais xenofobia, homofobia, machismo, racismo... do que qualquer Mein Kampf ou ressentimento que ande solto por aí. A ideia de que uma notícia provoca discussão racional em massa é ridícula não pela falta de poder da imprensa, mas pela flagrante incongruência da expressão "discussão racional em massa".

A notícia tem pelo menos, quem sabe, o poder para provocar em algumas mentes o raciocínio não de que somos racistas desde pequenos, já que nem na pior leitura é isso que os estudos estão realmente mostrando: racismo implica uma série de noções e seleções (bem mais sérias do que "não preferir", aliás) que crianças ainda não podem fazer. Mas, torçamos, talvez a matéria provoque o pensamento contrário, de que o preconceito tem sim muita base em nossa natureza. Como já escrevi vezes demais neste ano, eis uma tese que me convence bem mais, que dá a devida medida do desafio de uma sociedade que tente ser cada mais igualitária e que queira pensar com propriedade para peitar de frente seus problemas, mesmo que estes a matem de medo. Muito ineficaz é encarar o preconceito como "desvio", perda de uma conduta naturalmente bondosa, má influência pura e simples, praticamente uma gripe que nos atacou, mas que, no fundo, não nos pertence.

sábado, 26 de novembro de 2011

Propagandas online

"Pintou aquela vontade de casar? Muita calma nessa hora! Descubra com o celular quando você vai se amarrar!"

O que seria de um sociedade centrada no mercado absoluto sem a estupidez?

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Capitalismo nosso de cada dia

Que feio, Pelé... tu assim, competindo?!


Na ânsia de ditar a única ordem possível e fundá-la na natureza humana, defensores cotidianos do capitalismo (e alguns teóricos) buscaram a todo custo identificar (literalmente) esse sistema e a competitividade, a meritocracia, o esforço individual e a relação entre egocêntricos que se aliam pelo próprio bem e terminam por gerar o bem de ambas as partes.

Perdidos em palavras de ordem, uma série de iconoclastas da boca para fora, revoltados sempre com a palavra "capitalismo", acreditaram na associação íntima, essencial e absoluta entre essas forças e esse sistema econômico. Sempre que lhes é útil, ou sempre que se cai em alguma situação previamente cunhada, qualquer competitividade ou esforço individual pode ser tachado de "capitalista" e desmerecido automaticamente por isso. Nem mesmo o esporte poderia resistir a isso, creio, apesar de que essas pessoas precisariam de alguém que lhes apontasse para o fato de que um nadador se esforça individualmente contra todos os outros a fim de vencer um prêmio em dinheiro. Isso pode muito bem não resumir o esporte, mas seria suficiente para evocar o clássico "Nossa, que coisa horrível isso, né?" que aparece frente às práticas "capitalistas" do ser humano.

Como dito, porém, essa associação pejorativa com a palavra tabu tende a ser feita quando a competitividade se encontra onde não a querem. Cai-se no mesmo problema que em qualquer situação de preconceito com objeto: como circundar um tabu para que se possa lidar honestamente com o problema?

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O velho senso comum, mais comum que sensato

O desembargador Roney Oliveira, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, determinou que a greve dos professores estaduais deve ser suspensa. Ponha-se o máximo de peso nesse "deve", pois cada dia sem aulas deverá ser pago pelo Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais. O valor é R$ 20 mil pelo primeiro dia e R$ 10 mil por cada dia a mais. 

Já foi pedido mandado de segurança contra a determinação.

A meu ver, poucos atos poderiam ser ao mesmo tempo mais imorais e mais apoiados em opinião pública, mesmo que haja brechas nesse apoio. Na hora de reclamar, todo o mundo concorda que "os políticos são péssimos"; a função administrativa do governo é juntamente jogada na vala comum. No entanto, quando alguém causa algum dano à sociedade, como quaisquer grevistas, não me parece que se pare para pensar que a greve é um fenômeno que escancara assustadora mal-administração. 

O fato de que servidores públicos entram em greve sempre provoca que algumas pessoas acusem sem-vergonhice, preguiça ou ganância "dessa gente", mesmo que, quando estão na ativa, sejam geralmente caracterizados como abnegados, explorados ou coisas do tipo. Na prática, as acusações de "greve para ficar em casa" têm dois grandes problemas: não se paralisa nem metade de um grupo de servidores com facilidade. A resistência a greve é fortíssima antes e durante as paralisações; as pessoas em geral não acham que vale a pena essa luta de braço desigual com governos a menos que os ganhos da greve sejam muito grandes, e eles praticamente nunca são. Além disso, o pessoal realmente preguiçoso ou desinteressado tem muito maior terreno para manobra quando os serviços estão andando. A greve chama a atenção e pode ocasionar perdas eventuais a todos, mas, enquanto a máquina está andando, mesmo que mal, há uma série de ferramentas que podem ser distorcidas a favor do preguiçoso ou cínico das mais diferentes formas. A maioria dos trabalhadores carrega uma minoria hipócrita ou desrespeitosa que lucra e descansa mais quando há trabalho para ser feito do que quando há greve.

Por outro lado, se a iniciativa privada surge como opção atraente para todos que querem falar mal dos trabalhadores em greve, não se pensa numa coisinha: nunca mais conseguiria emprego na vida um administrador que conseguisse provocar uma greve numa empresa privada dedicada a serviço ideologicamente autosuficiente. É preciso um descomprometimento assustador para se exercitar a incompetência necessária para travar um grupo de trabalhadores que insiste em avançar aos trancos e barrancos apesar de seus problemas e de uma ideologia auto-justificadora, que virtualmente justificaria greves até que tivessem salários de deputados.

Mesmo que todo dia seja dia para se falar mal de políticos, as greves imediatamente fazem com que muita gente olhe para o lado e xinge o esgotamento do sistema em vez de acusar quem o esgotou. Escrevo isto em tempos de "faxina" no governo e críticas a ela na oposição apenas para indicar mais um dos indícios de que a popularização de se acusar governantes corruptos não é o mesmo que interesse ou consciência política. Pelo menos nisso ainda há verdade na afirmação de Joseph-Marie Maistre (1753-1821) "cada povo tem o governo que merece". Nós ainda temos incomodação política não por compreensão dos fatos, mas por cunhagem.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Eles me perseguem

- Não, é só o gatilho dela que tá ruim. Não, tava com bala, mas ela nem atira. O quê? É, não ali tá tudo bem. Não é, cara, é o gatilho, mas vou entregar funcionando. Não, sem bala. Claro, meu, vou entregar sem bala. Tá doido, se eu deixo com bala dentro eu entrego a arma e quando virar as costas ele atira em mim já. Não, vou entregar direitinho, com o gatilho direito, mas ele que compre as balas depois.

Assim ia falando um sujeito do outro lado do corredor do ônibus em que eu estava. Bom som, bem tranquilo, conversa confortável pelo telefone. Foi estranho no entanto ouvir isso no ônibus e não estar em um dos que iam para meu antigo bairro.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Uma rapidinha com os maias

Na primeira vez em que a mulher em pé, posicionada na minha diagonal, mencionou o calendário maia para seu colega (sentado bem na minha frente, num ônibus), eu ainda consegui voltar a me concentrar no meu livro. Meus interesses de diversão ofuscaram o papo, para minha sorte.

Infelizmente, o assento do meu lado vagou e a mulher sentou bem ali, ainda conversando com o colega, que ficou meio de lado, meio de costas e deu ouvidos a mais muitas besteiras que vieram. Sem concentração possível (graças ao volume do blá-blá-blá), larguei o livro e procurei algo muito interessante na noite que caía ou nas luzes dos carros e postes, mas minha capacidade de isolar sons vizinhos deixa muito a desejar. Foi então que ouvi a maior concentração de asneiras que já chegou ao meu ouvido desde que a moda maia se estabeleceu. 

Pode parecer praticamente impossível, mas eu tinha conseguido me isolar em grande parte desse new-new age até o momento. Sabia que havia um calendário resgatado de uma população (cujo pó deve muito se revirar na tumba, ou onde for que colocavam seus mortos para ritos funerários), que o "fim do mundo" viria em 2012, que havia um filme com esse nome e que o tal "fim" podia, como sempre, ser interpretado "metaforicamente", para que gente envergonhada de suas crendices ou ainda em processo de ceticização tentasse racionalizar seus medos de uma forma mais neutra.

A mulher do meu lado até tentava mediar o que dizia com uns "não que eu acredite, mas também não desacredito" e, baseada nas previsões para 2012 (em conjunto com certas noções astronômicas citadas do Castelo Ratimbum), discutia investimentos financeiros, política internacional e o futuro do Brasil. Foi então que largou a pérola mais simbólica para mim: o calendário maia, segundo a fulana, prevê inclusive uma guerra mundial até a última gota de petróleo, no que só poderiam estar falando do... Brasil!

Vim contar, desabafar, mas não tenho como comentar esse assunto. Sério, eu não tenho palavras para discutir tanta bobagem junta. Só o que posso dizer é que ela até sujou o sincretismo para mim, algo que em geral prezo muito. Eu tenho uma imagem um tanto libertária e romântica do sincretismo, como uma religiosidade com muito mais vantagens, por envolver pouco ou nenhum nível de institucionalização. No entanto, tenho ouvido e lido mais e mais sobre algumas instituições que se apoderam dele para o bom e velho lucro. Além de algumas igrejas evangélicas, que incluem rituais chocantes mesmo para outras igrejas também evangélicas, essa mulher aí participa de um grupo espírita que misturou um pouco de maia no seu discurso. 

Pobre sincretismo, o que já foi um espírito-religioso-moleque, agora é mais e mais decepção.