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domingo, 11 de agosto de 2013

Por uma cultura mais individualista

Michel de Montaigne
"Nunca houve no mundo duas opiniões iguais, nem dois fios de cabelo ou grãos. A qualidade mais universal é a diversidade." 

Sempre que estou tendo algum tipo de preconceito, ou suspeito que esteja, faço o esforço de esquecer o enquadramento que meu cérebro está dando para a pessoa e olhá-la com radical individualismo. Acho um exercício bem difícil, particularmente quando o cérebro já tirou várias conclusões e formulou táticas para a reação à pessoa baseada nos enquadramentos prontos. Ainda mais difícil, claro, porque tal é obviamente um resultado complexo do instinto de sobrevivência. Por isso se fala tanto que temos bastante preconceito com aquilo que nos incomoda: o cérebro se apressa a ativar as estratégias para resolver o incômodo, o que geralmente envolve destruir o objeto odiado ou sair dali o mais rápido possível (ou seja, não lidar realmente com a situação).

Não estou dizendo que luto contra o preconceito em mim porque acho bonito. Acredito que a pessoa preconceituosa sempre sai em desvantagem das situações. Essa força de fuga ou destruição inerente ao preconceito é inimiga do que considero a postura mais vantajosa na vida: presença de espírito. Além disso, sendo professor, se algum preconceito me toma eu sou tanto anti-ético com o aluno quanto posso sofrer bem mais que o necessário. Vê-lo como indivíduo faz com que encontre mais rápido a solução para os problemas dele e para os meus, resolvendo a relação da forma mais lucrativa e recompensadora para ambas as partes. O mesmo se dá na relação com colegas de trabalho. O preconceito é tão errado quanto contraproducente.

(Acho meio óbvio, mas vou explicar, que nem todo preconceito é terrível. Se achamos que uma pessoa sozinha, vestida de forma que não vejamos muito o rosto, ou andando como quem está meio alterado, pode querer nos roubar ou atacar de qualquer forma, atravessar a rua não é o fim do mundo.)

Voltando, ver as pessoas radicalmente como indivíduos me parece a única verdadeira solução para o preconceito. Tentar lembrar que, por mais que os recortes culturais reconhecidos naquele que nos fala lembrem clichês, existem exceções em todos os grupos, portanto aquela pessoa tem tanto a individualidade na realização desse clichê quanto a responsabilidade, ainda que seja inconsciente em alguns casos, de ser como é, de ceder a si mesmo, digamos, além de não poder escapar, em algum grau, a determinadas características genéticas inescapáveis. Até mesmo o que é inescapável só o é de forma particular. Algumas pessoas ansiosas têm outras características que as possibilitam controlar isso, outras simplesmente têm problemas mais sérios de personalidade a resolver e precisam conviver com a ansiedade a externando. Não vamos, realmente, querer que ela lute contra a ansiedade e deixe outras características se desenvolverem.

Nesse sentido, o maior tributo de nossa sociedade esforçada por igualitarismo ainda vem do Humanismo. Talvez este venha mesmo de ideias em parte desenvolvidas por certa cultura árabe do fim da Idade Média, que passou do norte da África para a Itália, mas o que quero destacar não é a origem em si da postura individualista, apenas que, desenvolvido na nossa cultura europeia (no sentido de ser, por exemplo, responsável por estamos entendendo este blog todo escrito em alfabeto românico), o individualismo foi uma daquelas forças que mais é elogiada em seus primeiros séculos e destratada nos últimos. Creio no entanto que ele seja não só a raiz de nosso igualitarismo, mas nossa última salvação para realizá-lo. Ironicamente, que eu saiba Marx concordaria comigo, aliás, sendo a realização do indivíduo o grande lucro que ele via no desenvolvimento do capitalismo, lucro que ele defendia ser condição sine qua non para uma sociedade que superaria as desigualdades do próprio capitalismo. Muitos dos destratores de nossa "sociedade individualista" devem ter leitura bem diferente de Marx! But I digress... 

Minha questão era só que sejamos mais individualistas. Está ainda fazendo falta. Basta não confundir individualismo e egocentrismo. Bem pensados, eles não têm nada a ver, já que valorizar o indivíduo e defender sua radical independência de todos os outros indivíduos não é lógico, mas alucinatório. O exercício é não subsumir o indivíduo aos grupos em que o enquadramos pela natureza de nossa congnição. Outra coisa é pensar que o mata-mata é uma boa estratégia social. O individualismo não pressupõe, necessariamente, esta postura política, que me parece flagrantemente burra. No entanto, como não ter preconceitos sem olhar direta e violentamente para quem está bem na nossa frente, resistindo à nossa animalidade que quer sempre enquadrar?

domingo, 26 de agosto de 2012

As inversões de valores invertidos

Uma daquelas expressões que chamam a minha atenção, para discordar, é "inversão de valores". Quando se diz que pessoas vivem conforme, experimentam, sofrem (ou sei lá o quê) uma inversão de valores, pressupõe-se uma de duas opções, as duas falsas.

A primeira, menos preocupante e menos representativa, creio, é a ideia de que certos valores existem por si e são constantes, que valores não mudam, nascem ou se transformam historicamente. Ou seja, existem determinados valores fixos e a única possibilidade é se acreditar neles ou em seus opostos, em anti-valores, que são corruptelas daqueles. Não existem valores diferentes, anteriores ou posteriores. 

Como disse, não acho que essa versão seja representativa pois poucas pessoas concordariam com isso posto de forma assim radical. Além disso, ao falar em "inversão de valores", as pessoas não querem ser tão filosóficas assim, ainda que a expressão seja bem pretensiosa. De qualquer forma, acho importante comentar o quanto essa ideia não faz sentido, mesmo sem apelar a pós-modernismo, pós-crítica ou qualquer outra forma filosófica de relativismo em hyperdrive.

Consideremos a ideia de que matar é errado. É preciso sempre definir, "matar quem?" É preciso defini-lo pois se sabe que matar só é errado, em cada cultura, quando se define o objeto do verbo. 

Supondo uma postura moral de facebook, muita gente acha hoje em dia que matar qualquer pessoa é errado. Bom, não é segredo que já foi bem ok matar negros, índios, gays, nazistas, comunistas, sei lá.
Sim, até aí estamos no "ok", mas já houve tempo (seguindo ainda só o tronco da cultura de quem acha que é errado matar qualquer um hoje) em que matar o estrangeiro, o cara da outra religião ou o cara da outra tribo não era só permissível, ou um crime menor. Era certo, reforçado, apoiado e, em alguns casos (como na racionalização teológica das Cruzadas), uma forma sagrada de se salvar a própria alma. Em muitas tribos, matar era parte importante da estrutura social, mesmo que não se estivesse em "guerra" - especialmente por rito de passagem ou de matrimônio. Talvez fosse melhor dizer que tais tribos viveram sempre em guerra, e o "viver em paz" é invenção um tanto civilizada (Saindo um pouco do problema do tempo, infelizmente sabemos que todas essas posturas ainda são possíveis hoje.)

Se quiserem pensar de outra forma: houve um tempo antes da Declaração dos Direitos do Homem, um tempo antes do ágape, um tempo antes do "Não matarás (hebreu fiel)". Todos os valores que conhecemos são históricos, portanto nenhum pode se vangloriar de ser eterno ou onipresente (o que é diferente de dizer que alguns não mereçam ser universalizados).

Então, não existem uns poucos valores reais e estanques, os quais vivem ou subvertem e deu. Existem valores, com um plural reforçado, e aquilo que discorda do nosso valor pode ser, sim, um valor também. A questão é que a validade do valor é relativa. ATENÇÃO: isso não quer dizer que qualquer opinião é válida, que qualquer princípio é um valor, nem que todos os valores são adequados para qualquer sociedade. Quer dizer só o que eu disse: sociedades diferentes podem discordar sobre que valores são válidos, verdadeiros ou melhores.

A segunda forma, mais comum, de se pensar a "inversão de valores" é supor que os valores em questão são os "nossos". É claro que os valores mudaram na história, mas o que interessa é o que reconhecemos como valores hoje (ignorando culturas distantes). Bom, para quem não notou, nossa sociedade não tem um bloco de valores comuns. Talvez existam outros recortes possíveis, mas eu posso atestar que separações econômicas, particularmente as que "coincidem" com separações geográficas, fomentam valores diferentes. 

É errado (porque falho) pensar que uma pessoa que vive na mesma cidade que outra herda o mesmo tronco de valores comuns. Os valores que estamos acostumados a ver como universais não têm necessariamente precedência na vida de todo o mundo, nem estão na infância de jovens que crescem e "os invertem". Esses jovens simplesmente aprenderam valores diferentes, para uma vida diferente, a partir de histórias e mitos diferentes, a fim de sobreviver da forma que seus pais ou amigos estão sobrevivendo.

Nada disso significa, também, que valores não possam coincidir entre culturas, portanto entre comunidades diferentes de uma mesma cidade. Também não significa que meios de comunicação de massa não tenham oferecido pelo menos algum contato que possibilite diálogo entre as diferentes comunidades, num movimento constante. 

No entanto, é preciso atentar para o fato de que valores diversos também podem se vestir de forma parecida. Algo parecido com uma foto da Gisele Bündchen ser vista como motivo para consumo por razões diferentes, entre mulheres de classes muito distantes. O mesmo é verdade em relação à ideia de que a família é importante, ou à de que homens devem defender suas namoradas e esposas. Cada cultura pode construir um ethos diferente partindo do mesmo clichê cultural.

Talvez possa haver inversão de valores quando falamos de uma geração para a seguinte, mas o resultado são também valores, ainda que novos. Não adianta muito pensar nos queridinhos valores nossos, que achamos serem corrompidos ou traídos por sei lá quem. Importa ver que, se estão sendo afrontados, sofrem o cerco de outros valores que têm também fortes motivos para existir, assim como os nossos.

Portanto, não adianta pressupor uma vantagem para nossa posição moral. O que importa é entender os motivos da existência dos valores que estão nos incomodando. Talvez isso nos indique que estivemos equivocados e que nossos valores na verdade não prestam tanto quanto achamos. Por outro lado, talvez nossos valores sejam corroborados pela experiência, talvez se comprovem inafiançáveis. Nesse caso, é melhor ainda entender por que outras pessoas pensam diferente de nós, caso queiramos resolver a situação, fazendo com que pensem como nós e aceitem nossa forma de entender o "certo" e o "errado".

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Rio +20 e a política

Uma mulher no poder? Lá de onde eu venho não tem disso não...

Faltam dois dias para recebermos mais uma vez Ahmadinejad no Brasil! Ele vem por causa do Rio +20. Obviamente seu objetivo é "estreitar relações" com Brasil, um dos grandes países a aceitar seus crimes de Estado e o terrível sistema político do Irã. 

É um desafio para mim entender o que a proposta de um "mundo sustentável" tem a ver com perdoar um Estado teocrático daqueles. Mas, na verdade, nem entendi ainda como um país democrático (especialmente se o país se anuncia internacionalmente como democrático) recebe ditadores e assemelhados. Os governantes do mundo, porém, não apenas lidam bem com a situação como a repetem inúmeras vezes, com toda a tranquilidade. Os governos da América do Sul, então, são especialistas nisso (o Brasil tem até uma Associação de Amizade Irã-Brasil!!!). E o discursinho de um mundo diferente, possível somente longe dos EUA, sempre marca presença nas contorções retóricas que permitem esse tipo de amizade. Além do mais, com o que a Dilma já arregou para militares aqui, o que seria cumprimentar e conversar animadamente com a misoginia encarnada, né?

Por outro lado, contorções retóricas as temos para o principal problema: o programa nuclear iraniano. Até que se prove cabalmente que ele é mesmo militar, o Irã pode ser desculpado, por alguns, como inocente. Por isso, Ahmadinejad e seus companheiros não permitem de jeito nenhum que os países interessados analisem direito o que rola por lá. Nada suspeito, né?

O Mensalão também, se não for julgado, segue sendo uma acusação vazia. Para alguns... Curiosamente, para os mesmos que aceitam o segredinho de Ahmadinejad com seu urânio. Assim, nosso governo toma a mesma tática: atrapalha e atrasa a investigação a fim de impossibilitar a acusação cabal. 

Aqui, a acusação prescreve, e seguimos com a currupção impune. Lá, a acusação sem provas só tem prazo de validade até o mundo ir pelos ares.

terça-feira, 12 de junho de 2012

A legítima defesa da velha e a depressão do policial

Recentemente, uma mulher de 87 anos matou um assaltante em Caxias do Sul. O cara estava em condicional, recém liberado, era reincidente, aquela coisa toda que a gente conhece... A mulher ontem foi presa por homicídio e posse ilegal de armas.

A princípio, esse fechamento é irritante, não? A defesa por legítima defesa e as outras razões legais para soltá-la virão depois. No momento, a polícia agiu conforme a lei, com um preciosismo típico de quando a pessoa (vítima ou agressor) não tem dinheiro demais. Exatamente essa diferença, nossa tendência a nos condoer pela velha e nosso constante susto ou opressão sob a violência das cidades (e Caxias é uma cidade muito violenta) nos levam a pensar que é injusto a mulher ser tratada dessa forma.

Mas eu vim aqui falar um pouco pelo diabo (no caso, a polícia), a fim de chegar ao meu ponto. 

Em primeiro lugar, eu me sinto, por um lado, feliz pela velha. Melhor seria não passar por algo do tipo, mas, tendo passado, antes se ver com a polícia e ter sobrevivido a um confronto com um assaltante que poderia atacá-la em sua própria casa que ser vítima desse cara e ter de esperar dias para a polícia, quem sabe, aparecer. Afinal, é mais fácil ser preso que ser socorrido por policiais.

Além da sobrevivência ao confronto, ela dificilmente será incriminada. A polícia não está exatamente procurando sarna para se coçar e reconhece, suponho, que a tal mulher não é exatamente o que está errado com Caxias.

Ainda assim, nos vem a ideia de que ela não deveria ser nem acusada. Tendemos a pensar que a mulher deveria ser ouvida pela polícia, receber um tapinha nos ombros por congratulação e voltar ao seu dia-a-dia, nem que fosse para lidar com o assassinato de outro ser humano como quiser, se isso é o tipo de coisa que incomoda aquela senhora. Bom, isso me parece otimismo desmedido, motivado pelo que consideramos hoje um final feliz: se o bandido na situação está morto, estamos satisfeitos, e supõe-se que nenhum problema advirá disso.

A polícia, no entanto, não pode partir de nenhum desses pressupostos. Em primeiro lugar, estão em frente a uma mulher que demonstrou que, aos 87 anos, é capaz de matar outro ser humano. Em segundo lugar, se a polícia acreditasse em aparências e primeiras versões, a impunidade seria ainda mais fértil que já é. Em terceiro, a arma ilegal estava na casa, mas supostamente não era da velha. Era de quem? Por que estava ali, se ilegal? (É possível entender que a arma era legal, mas ela não tinha direito de empunhá-la - a notícia, como é comum, não foi clara nessa parte.) Como disse, Caxias é uma cidade violenta, e não se pode dar ao luxo de não investigar questões como essas. Então, dessa vez, o "bandido" morreu? Isso não garante que, na próxima, o morto não seja um bandido, mas outro qualquer, ou a vítima se passando por bandido (que ainda seria incriminado por homicídio, claro). 

Ou seja, quando alguém morre, está certo a polícia parar tudo e lidar com muito cuidado com o assassino, mesmo que seja uma senhora de 87 anos que ia ser assaltada por um criminoso reincidente. Não é o contexto, mas a morte de outro ser humano que motiva o estancamento do cotidiano e o pisar em ovos frente às evidências do crime, até que tudo esteja bem claro. O problema é ainda quando a polícia NÃO age, e deveria. Agora, não é porque a polícia tende a ser ausente, pobre, desrespeitosa, corrupta ou incompetente que, quando ela não o é, deve ser acusada. Deixemos as críticas para quando ela está errada! 

O meu ponto, em tudo isso, era que, mesmo com as razões que aprensentei (sei que um juiz ou advogado incluiria muitas mais), o policial em geral deve sentir pelo menos uma tendência a essa empatia que nos faz reclamar da polícia por incriminar a velha (note-se, incriminá-la pelo que ela fez!). O policial, além disso, tem conhecimento da falência da polícia com uma profundidade que nem suspeitamos e precisa conviver com as ironias de ver tanta miséria na profissão e, ao mesmo tempo, uma velha sendo presa por defender sua casa. 

Escrevi este post para dizer, então, que é nesses dias que o cara precisa amar demais o seu trabalho. Pois é preciso ser muito ético, ou gostar demais da profissão, ou as duas coisas, para prender uma velha nessa situação e não se deprimir com o que se escolheu fazer da vida.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

O barateamento da igualdade

Não basta vestir a camiseta do momento para se ter razão.

Ouvi hoje numa minidiscussão sobre sexualidade que "tudo é invenção". Infelizmente, a discussão era mini não porque envolvia poucas pessoas, mas porque tinha pouco tempo para se desenvolver e morrer. O grupo era de mais de 30 pessoas.

Nada de produtivo e inovador, portanto, resultou dali, claro. No entanto, devo admitir que estou cansado demais desse tipo de comentário, então pretendo retomar, no momento certo, com o grupinho que trouxe à baila o senso comum politicamente correto de hoje: de que todos somos iguais e a cultura sozinha nos diferencia, sem base alguma a não ser preconceitos politicamente malvados e conscientemente desenvolvidos por uma máquina ideológica de dominação masculina.

O problema desse raciocínio é que ele postula a natureza num vazio, ou seja, para suprimi-la imediatamente da realidade. A "natureza" serve aqui, sem ser mencionada diretamente, de base para fornecer o ser que será distorcido pela cultura, mas não pode ser retomada como conceito porque negaria que "tudo é invenção". Afinal, se há uma natureza anterior à cultura, ela não foi inventada. Ainda que pudesse ser retomada somente pela cultura, teria voz (eco) dentro dessa própria cultura, à revelia do poder que quiséssemos conferir a esta. 

A única forma de sermos iguais e, ao mesmo tempo, "distorcidos" pela cultura (por exemplo, transformados em "homens" e "mulheres") é que houvesse um estado anterior à cultura, uma situação-base em que a mesma igualdade pudesse existir. Ou ainda, teríamos de postular que um estado futuro de pura igualdade já existe, e retrospectivamente avançamos, pois estamos nos "desenvolvendo" (o que em si é duvidoso) em direção a essa igualdade adiante de nós no tempo, mas já estabelecida ontologicamente.

Ou seja, "tudo ser invenção" é uma impossibilidade para seres históricos - aqueles que vivem no tempo, como nós, não fora dele, como as... leis matemáticas?

É ÓBVIO que ser "homem", "mulher", "gay", "travesti"... só é possível em sociedade. Portanto, ser qualquer um deles depende dessa mesma sociedade. Só se entra em qualquer uma dessas categorias, pelo menos da forma que interessa, como um papel social. Dizer que um papel social varia conforme a sociedade é uma tautologia.

Essa tautologia é importante para se discutir certas naturalizações obtusas, como se acreditar que um "homem" o é porque deseja transar com mulheres - se não deseja mulheres nem tem útero, não pode ser homem ou mulher e, portanto, "não existe". No entanto, superada essa fase de negação dos fatos que estão por todos os lados, a "desnaturalização" tem de ir baixando a marcha, ou a inércia desse movimento leva ao extremo oposto e se cria essa natureza mágica que nos pariu iguais e, ao mesmo tempo, não existe, pois nada pode ser natural. 

Por outro lado ainda, se assumimos que "tudo é invenção", devemos concluir, por exemplo, que um homem (aqui referido biologicamente como um ser humano com pênis, testículos, organização característica de músculos e gordura, incapaz de engravidar...) pode, algum dia, se descobrir uma lésbica. Se essa afirmação é impossível, alguma natureza há. Se esse raciocínio parece muito literal, "tudo é invenção" também precisa ser retomado com a mesma crítica. Se homens e mulheres (de novo, em relação a estrutura biológica) não têm diferenças naturais, não pode haver bactérias que atacam só seres humanos com vagina, não pode haver diferenças de hormônios nos seres humanos que têm útero em comparação com os que têm testículos... e não pode haver estranhamento (científico) quando as variações características de uns se apresentam nos outros. Supor que tais diferenças biológicas não provocam pelo menos tendências psicológicas ou sociais também é tapar o sol com a peneira, tanto quanto se dizer que "homens" SÓ podem querer transar com "mulheres".

Se a natureza existe, mas não pode ser recuperada fora de uma cultura (pois não acessamos nada do mundo de forma conceitual e racional sem refratá-la por nossa... cultura!), então a relação entre natureza e cultura deve ser dialeticamente considerada, mas não negada plenamente. A natureza não pode ser esquecida só porque é difícil, só porque ela não aparece sem a camisa da cultura em que se está discutindo, só porque não pode surgir em nenhuma conversa livre de ideologias.

Debater sexualidade, um assunto centralmente constitutivo da identidade de cada um de nós, é difícil, porque complexo. Isso não é desculpa para se escapar por caminhos fáceis, absolutistas, simplistas e redutores só porque a frase de efeito ou a palavra de ordem é "bonita" ou dá uma visão do mundo como queremos que ele seja. Não é porque um chavão nos tranquiliza que ele é verdade. Palavras de ordem cabem em passeatas, e olhe lá. Não numa discussão racional.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

As verdades relativas dos direitos humanos

Olhando por essas lentes...

Li há pouco uma daquelas grandes não-notícias que marcam nosso jornalismo: "O governo cubano negou a autorização para que Yoani Sánchez saísse do país".

Não é uma notícia já que não há aí qualquer novidade, qualquer resultado imprevisto, qualquer consequência diferente das 18 vezes anteriores. Como não é notícia Dilma não ter feito nada a respeito (ou mesmo se pronunciado a respeito, que me conste). Yoani disse que ficou decepcionada com a presidente ter ido a Cuba ignorando quaisquer temáticas de Direitos Humanos, mas preciso crer que é mais uma afirmação política obrigatória da blogueira do que sentimento verdadeiro de surpresa. 

No entanto, é preciso assumir que, da política externa à Comissão da Verdade (ridícula do batismo à maturidade), Dilma demonstrou como é forte: poucas pessoas poderiam passar por luta armada (direta ou indiretamente) e pelos "porões da ditadura" para depois (tão consistentemente) se abster das causas humanitárias e do problema do sigilo de informações da história do país. 

A "abertura" das atividades políticas contemporâneas (fora da categoria "segredo de segurança") que sancionou é também ela uma vergonha, porque óbvia - ainda que sejamos tão paupérrimos politicamente que devamos agradecer quando qualquer presidente chove no molhado, tentando garantir por lei direitos que já temos. A ação atestou que é preciso ser lei para que os políticos assumam que trabalham para o público, e que o povo tem o direito de saber o que diabos eles fazem quando folgam dos desvios e discursos vazios para cuidar um pouco da coisa pública.

Yoani precisa expressar um desapontamento com o óbvio; jornalistas precisam "noticiar" silêncio de Dilma... É como o clima. Precisa estar na primeira página, para o editor do jornal se sentir bem. Mas nem por isso é notícia. Chocante, interessante, instigante, seria mesmo o contrário de tudo isso.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Estupro e Cotas ou Crime nem Sempre é Crime

(Há apenas suspeita de estupro no BBB, mas a maioria das pessoas que vi comentarem ou compartilharem mensagens de facebook a respeito consideram que houve estupro, então vou indicar quase sempre como fato, já que o que rola na mente das pessoas é mais importante neste post do que a solução do caso, já veremos o porquê. Estive longe do computador por muitos dias, então lucro com a persistência do assunto para ainda deixar um comentário.)

A ideia de que crime é crime, no Brasil, não fez sucesso. Não digo que tenha feito sucesso em ALGUM lugar, mas só posso falar com convicção daqui...

Uma das principais críticas a cotas e leis "específicas", como para o caso de homofobia, é que a lei deveria ser para todos e que (por exemplo), se é crime bater em cidadão, que o cidadão seja homo ou heterossexual não deveria fazer diferença. Ou ainda, preconceito poderia agravar o crime, mas não poderia ser um crime específico bater em homossexual, porque isso seria uma espécie de discriminação compensatória: não quero que tratem homossexuais de forma diferente, então eu, como juiz, trato-os de forma especial, ou seja, diferente). 

Cotas têm uma "problemática" semelhante. "Eu não quero que discriminem negros", por exemplo, "então vou eu mesmo tratá-los como diferentes dando certas vagas para as quais não foram selecionados, assim eu mesmo tratando-os de forma diferente".

Vamos aceitar esse ponto de vista temporariamente. Pois bem, supomos então que se está lutando por que as pessoas sejam tratadas de forma semelhante. Todos iguais perante a lei. O que o BBB tem a ver com isso? Que ele ilumina o quanto essa igualdade é problemática por aqui.

A mulher supostamente estuprada tem algumas características-chave: é vista como vagabunda (para a média de comportamento brasileiro - variando, ao que percebo, entre o "normal" e "muito vagaba", mas apenas em casos de exceção), conseguiu participar do BBB, havia bebido numa festa e contradiz-se todas as vezes que pôde, dando uma resposta diferente sempre que lhe perguntaram algo sobre aquela noite. Que o BBB seja um programa da Globo também é uma informação crucial.

Supomos, como avisei, que o estupro tenha acontecido. É crime, hediondo (graças à luta legal de um pai), por enquanto. Reações: achar absurdo, culpar a Globo, culpar o Bial, culpar a mulher, culpar a vagabunda, culpar a vítima, culpar a bebida, culpar o telespectador, culpar quem achou que houve estupro.

Talvez se observe que listei a vítima mais de uma vez, mas isso porque as pessoas a culparam das formas mais inventivas, talvez numerosas demais para este post. Racionalmente, nenhuma delas merece respeito nem muito assunto porque são aquelas variações das velhas respostas machistas: se a mulher fez qualquer coisa que seja atraente para um homem, "estava pedindo". Às vezes isso se disfarça melhor, considerando que a vítima poderia ter tido mais cuidado (o que não desculpa nenhum crime, como talvez um momento de raciocínio revele a todo leitor), às vezes essa postura é franca: "é uma vagabunda mesmo", "tava se engraçando toda na festa", "são dois adultos" (??), "o que um não quer dois não fazem" (?!?!?!), "quem tá na chuva é pra se molhar"...

Todas as vezes que a vi acusada - de aproveitar a aparência de estupro (?) ou de ser culpada mesmo - o fato de ser uma pessoa buscando celebridade, de estar no BBB, de ser considerada burra, puta ou qualquer combinação das características acima era fundamental para desculpar o suposto estuprador. Ou para apoiá-lo! Espero francamente não ter de alongar o post apontando como essa lógica ser comum é preocupante.

Um dos piores aspectos da história toda, no entanto, foi o quanto as pessoas passaram a criticar ou compartilhar (no facebook) contra quem comentou o assunto como uma situação grave (celebridades, amigos ou anônimos). Mensanges como "Eu sei que ninguém vai compartilhar (essa acusação sobre violência contra cachorro, ou esse exemplo de um prisioneiro de tal lugar, ou sei lá) pq n tá no BBB", ou ainda "se estivesse no BBB, tava todo mundo compartilhando o exemplo desse político (bem conhecido muito antes do escândalo)" abundam nos últimos dias, uma grande crítica à média da população por quê? "Porque as pessoas se importam com um caso de estupro..." Não, claro! Trata-se de uma grande e pomposa crítica a alguém se importar com BBB, AINDA que role um estupro lá!

Eu sei que, parando para pensar, muita gente diria que não é isso que está tentando apontar, e acharia uma racionalização meio moralista e meio cult, mas é isso que está sendo dito, das mais diferentes formas. Acontecer um estupro no BBB é assunto menor porque o programa é uma fábrica de celebridades que "corrompe" o país, sua população, e toda essa boa gente que está desculpando ou diminuindo a importância de um estupro para mostrar como é superior e informado, só porque não curte o programa.

Quer dizer: onde o estupro acontece, com quem acontece, quais as consequências de sua investigação (vai sobrar para a Globo ou não? ela vai posar pra Paparazzo ou não?) são fundamentais para que um "crime hediondo" seja relevante.

O que isso tem a ver com cotas e homofobia e os assuntos citados no começo? É o seguinte: o caso do BBB é mais um exemplo de que a lei é para uns, em certas situações e dependente do resultado previsto para o caso (facultativo) de ser exercida. Assim é com as coisas mais estranhas possíveis, até mesmo com o prototabu do estupro. Seria legal se homossexuais pudessem lucrar com a lei e responder a ela da mesma forma que os heterossexuais, a ponto de não precisarem ser diferenciados legalmente (o casamento gay, aliás, é uma equalização que já não se aceita...)? Seria. Mas isso exigiria que se entendesse que lei é lei, independente de gostarmos ou não da vítima, independente que gostarmos ou não do resultado do cumprimento da Constituição. 

Não estou querendo apontar que essas diferenciações legais resolvem o mundo, apenas indicar que elas combatem/refletem a forma como se entende justiça por estas bandas. A "justiça" atualmente não é apenas para uns, ela tem diferentes graus em cada contexto, a ponto de poder ser meio ignorada e, em alguns casos, absolutamente não valer. Aí é complicado.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Educação na Cracolândia

Conforme Haddad, nosso queridíssimo ministro da Educação, a ação da polícia na cracolândia foi "desastrada".

Que vergonha! Que vergonha nosso ministro ter de ver tais resultados onde quer concorrer a prefeito, após uma carreira tão brilhante no MEC, em que não houve desastre algum, em que todas as suas ações foram bem pensadas e em que já começou a revolução educacional que vai colocar (e já está colocando) o Brasil entre os primeiros do mundo. Primeiros na economia, que importa que também primeiros em custo de vida e últimos nas salas de aula? O projeto Escola sem Homofobia não foi nenhum desastre! Não houve desastre em nenhum ENEM! Haddad fala por si e para si: a Educação anda a passos largos.

A polícia pode, afinal, aprender muito com o MEC, com certeza. Um dos grandes segredos da Educação é fazer planos lindos, mesmo que só na teoria, de preferência nem tentando colocar os melhores em prática (não, ao menos, sem antes buscar cortes para afunilar a demanda do serviço pelo Estreito da Falta de Verba). Ah, Segurança, aprenda com a Educação: plano bom mesmo não sai do papel - de preferência já sendo bolado sem contato com a realidade! Foram se meter a encarar um problema real e tentar agir no mundo! Não, isso é uma cena forte demais para o ministro!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Os distantes cristãos da Nigéria

O resultado de UM dos ataques a uma das igrejas.
Anteontem cristãos foram novamente atacados na Nigéria. A onda é tão sistemática e violenta que as autoridades locais da religião estão chamando de depuração étnica e religiosa. Foi feito um ultimato para que as pessoas de crença cristã abandonassem o país, e tal ultimato "expirou" na quarta passada. Mais um detalhe: estima-se que 40% da população (deste que é o país mais populoso da África) é cristã, por enquanto. Também é interessante dizer que o grupo islamita responsável não apenas mata e violenta cristãos, como enfrenta, em grande parte por isso, a polícia e o exército.

Pois bem, quando um grupo assim preparado para violência provoca uma calamidade do tamanho da que está sendo causada na Nigéria (situações desse tipo não existem só lá, é verdade, como bem se sabe, por exemplo, a respeito do Egito), espera-se em geral que haja grande comoção, particularmente se é algo que pode provocar empatia direta em grupos bem representados no "Ocidente" (Europa, EUA, e alguns países como o nosso - ouso nos incluir para estes fins).

Agora, não é só que não tenha visto reação a essa situação, salvo os comentários um tanto isolados de um que outro conservador (desacreditado para retweets e compartilhamentos em massa já por isso). Há também um problema terminológico na notícia acima, o que complica seu efeito por estas bandas. "Cristãos" em geral são entendidos no Brasil como "católicos". Não é que as pessoas não saibam que o termo vai além, mas ele ainda provoca mais associação com o Vaticano que com qualquer outra coisa. "Crente" é o evangélico, de qualquer igreja, "protestante" é o das antigas (anglicano, p. ex.) e espírita é "espírita". Talvez por isso quem noticiou a situação da Nigéria não se preocupou em dizer que "cristão" é esse tão bem representado por lá. Pela proporção, no entanto, imagino que sejam oficialmente católicos mesmo.

Pois bem, "cristãos" estão envolvidos em outros problemas por cá. Até um pastor evangélico engravidou menores (ou seja, não só os padres ficam tachados de pedófilos), mas os tais "católicos" seguem chamando problemas: o papa, pensando que as coisas andavam muito tranquilas no front das uniões de Direitos Humanos, declarou para diplomatas de diversos países que a união homossexual ameaça "o próprio futuro da humanidade".

Todos sabemos como o casamento homossexual é politicamente importante hoje em dia. Ele, como a questão do aborto, passou a significar votos, a favores ou contra, o que, por sua vez, passa pela importância ou valor que se dá às opiniões emitidas no Vaticano sobre a política, a vida e o universo. Desse modo, apoiar ou não cristãos, dar ouvidos ou não às suas reclamações, tem todas as cores do partido de que se participa, em que se vota ou meramente que mais se apoia. 

Por tudo isso, "limpeza" étnica na Nigéria não pode ser importante, não por aqui. Não pode virar tema de escândalo internacional, como, por exemplo, um importante líder francês se aproveitar ou não de uma empregada de hotel. Assédio é crime, merece ser investigado, claro. Mas perseguição religiosa não?

É claro que sofrimento sempre há, é claro que injustiças estão por todos os lados, em todos os países, mas o mesmo é verdade, digamos, sobre maus-tratos contra animais. No entanto, o sofrimento dos cães (que eu adoro, por sinal, mas não da forma erótica como geralmente se vê no facebook) pode virar essa espécie de corrente anônima de protesto, uma versão virtual e sublimada dos Occupy (sem liderança, um tanto genérica em sua boa intenção). Já problemas éticos que sejam também políticos e têm enorme magnitude, não!

E eu sei que não tem muito que as pessoas daqui poderiam fazer pelos nigerianos, ao menos não sem uma grande organização que dificilmente se dariam o trabalho de fazer, mas não considero que essas correntes light de facebook tenham significativas consequências para o respeito e a adoção de animais, não na prática, não de fato. O abuso de animais (humanoides ou não) é um pouco mais complexo...

É interessante que os sofrimentos bastante reais e efetivos de grandes quantidades de seres humanos não consiga quase nunca tocar as almas sensíveis da mesma forma que o "escândalo da vez". O engraçado é que eu costumo ser considerado um tanto brutal no meu desrespeito ao ser humano, nas minhas críticas à espécie. Às vezes isso é até associado ao meu ateísmo. Só que o que eu (por ateísmo?) não entendo é a compaixão cristã que sofre pelos cães, mas que não enxerga ou não sente o sofrimento de outros cristãos. Tudo bem que a espécie humana não precisa ser preferida, mas será que não dá para valorizá-la como, pelo menos, igual aos cães?

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A educação que assusta

Eu ia fazer um post sobre a questão da repetência de ano, sobre o sistema que faz com que um aluno passe ou não. Descobri, ao escrever o texto, que tenho medo de publicar tudo que está envolvido nesse processo. Meus textos não costumam ir longe, mas, como os tweeto, às vezes são retweetados, e não sei onde eles vão parar. 

Falar a verdade sobre a educação pública é sempre falar mal de muita gente. Tenho certeza de que essas pessoas se sentem totalmente seguras a respeito de que se publique sua hipocrisia e incompetência, mas também acredito que, às vezes, certas informações podem rolar por aí na hora errada. Também sei da importância do sistema de retaliações para a manutenção da engrenagem propriamente política da educação, ou seja, de suas secretarias. Só posso supor que situação seja semelhante em seu Ministério.

O fato é que o movimento dos alunos entre os anos da escola envolve tantas questões logísticas, geográficas e burocráticas que a aprendizagem não poderia estar mais distante do foco que o governo tem nas crianças que dependem deles para aprender sobre o sistema de nossa sociedade, estejamos falando de conhecimento científico e artístico ou da linguagem dessa sociedade, incluindo aí a educação, a ética, o respeito, até mesmo o controle do corpo de acordo com aqueles valores que bem conhecemos, já que irritantemente repetidos pelo Fautão, pelas heroínas da novela das 8 e por candidatos federais.

Mas, como a questão aqui é contar ou não contar, isso mais me faz pensar muito no quanto não temos jornalismo. Tantas e tantas matérias sobre educação ao longo do ano, em todos os estados, e ninguém toca em mais que a ponta da superfície do começo do problema (preferindo em geral gastar tempo e tinta na velha "É culpa dos professores?"). Se soubessem, a maioria dos pais usaria a escola literalmente como uma creche (o que já tentam, só não precisariam mais lutar contra um discurso que lhes resiste) ou os tiraria simplesmente de lá. No momento, o Bolsa Família já não motiva tanta gente a ir. Com o conhecimento da verdade, ninguém mesmo acharia que o Bolsa seria motivo para matricular o filho, mandá-lo para lá toda manhã, em vez de arranjar formas para a criança, direta ou indiretamente, aumentar a renda da família e - seria o ponto de vista deles, e quem poderia negá-lo? - aprender uma profissão (por pior que esta fosse aos olhos de todos que recebem mais que um salário mínimo).

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Brasil sem leis

O Brasil não tem lei para políticos nem para os não-políticos, também conhecido como "povo". A diferença está na forma como a lei não existe para cada grupo. 

Como ela não existe para políticos é um tanto mais literal, mas a especificidade dessa falha está em não afetar o ganha-pão, a atividade profissional. Ou seja, mesmo que a atividade policial atinja um político, sua função, no sentido amplo, sua vida política, não sofrerá com isso, apenas seu salário será um pouco mais fraco e incerto por, no máximo, 2 anos.

Já para o povo a questão é um pouco diferente. A lei pode nascer esquizofrênica ou tornar-se assim. Explico: as proibições contra as drogas têm nuances estranhas, não previstas no código, e, conforme se discute a lei sobre alguma droga, mais nuances se criam, de modo que maconha, crack, extrasy e heroína são ilícitas, mas nenhuma delas recebe o mesmo tratamento de mídia, público-consumidor, polícia e política. Se o cerco aumenta contra a maconha, a tranquilidade dos usuários para falarem do consumo e usarem na frente de qualquer um só fazem aumentar. Se o cerco contra o crack aumenta, a campanha atinge todas as escolas do país, sem deixar, é claro, de ser criticada, porque levada adiante por meios de comunicação. Estes, como se diz, interessados no combate a essa droga porque filhos da classe mais alta estão sendo muito afetados, justificam certo cinismo de todo sujeito com "espírito crítico", ou seja, aquela pessoa que não pode aceitar nada que seja apoiado pela "PIG".

No caso do povo, no entanto, é de se entender. Falta à ilegalidade da maconha suficiente apoio popular. Não estou dizendo que a maioria dos brasileiros seja a favor de sua legalidade (não sei), mas não é realmente algo que atraia a atenção de tanta gente, e quem quer sua legalização o quer com muita vontade. Poucos (proporcionalmente) são tão entusiastas de que a lei fique como está. Talvez não seja uma questão que atraia tanto seu interesse, talvez drogas mais pesadas sejam reconhecidas como ameaças mais graves à saúde, talvez o tráfico cause tanto dano que qualquer suposta cura para o problema seja preferível. "Se a cachaça faz o mal que faz, mas não provoca a violência cotidiana na vizinhança e nas escolas, por que não colocar a maconha no mesmo saco do álcool?"

Por um motivo ou outro, as leis da nossa sociedade não a representam, não a defendem, como que não vêm dela, verdadeiramente. Os políticos no Brasil são, para a experiência de gente demais, uma casta, à qual até se pode ascender, mas que torna qualquer pessoa (palhaço, jogador de futebol ou celebridade em geral) tão inatingível e desconectado do "mundo real" quanto qualquer "doutor".

A maconha é um caso progressivo. Outras leis são esquizofrênicas de nascimento, como a proibição de que se bata em filhos. É verdade que a obrigatoriedade do cinto de segurança e a proibição de fumo em lugar fechado nasceram para "criar uma realidade", como que para "impor uma educação". Ambas vingaram, me parece, mas poucos brasileiros reconheciam "não usar cintos" ou "fumar em espaço público fechado" como afirmações de valor e identidade. A educação dos filhos é diferente. Bater, de alguma forma, com alguma força, é reconhecido como valor, parece-me que pela maioria da população. Existem, novamente, matizes. Tem gente que espanca "porque pode" (quando está bêbado, por exemplo), gente que dá surra "para o filho aprender" e gente que acha que uma palmada aqui ou ali pode ser fundamental, desde que algo isolado, para casos extremos.

De qualquer forma, pouca gente parece considerar que deva se controlar em seus "princípios" de educação infantil porque um fulano rico e corrupto (supõe-se, imediatamente) assinou uma folha em Brasília. O que a casta distante dos políticos tem a ver com a educação do seu filho? Virá o Estado lhe dar o apoio, a educação, a saúde, a segurança de que sua criança precisa? Irá o fulaninho instrumentalizar o posto de saúde e trazer médicos e enfermeiros? De onde agora essa história de que políticos se importam com as crianças do Brasil?

E a coisa toda acaba no velho problema: como eles vão saber? Conselho tutelar? Este não dá conta dos problemas que lhe chegam já agora e mesmo assim não deixa de perder pessoal e alcance. A lei servirá para quê? Punir os extremos? Separar crianças que já viviam isoladas e mal tratadas a ponto de chegar no seletivo conselho? Será uma lei com nuances não ditas, que atacará a surra absurda sem ver a violência, como se ataca (algum) tráfico ignorando o consumo? Uma lei desacreditada pelo povo, sem sustentação pública? Para quê? Para quem?

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Depois de Deus, a Bolsa - para todos os problemas

Neste post eu havia dito que a mentalidade de "bolsas" era endêmica no país, e se acreditava que garantir apoio financeiro do Estado para qualquer coisa resolveria todos os problemas, em todas as áreas. Nunca achei que alguma opinião postada neste blog seria tão comprovada quanto agora, aqui.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Preconceituosos de berço

Pesquisadores da Universidade de Sheffield, Reino Unido, descobriram que bebês de três meses já são racistas. Ok, não foi bem isso, mas foi assim que noticiaram. Ou seja, todas as matérias (espero, já que torço por que todos os jornalistas sejam responsáveis, ainda que ambiciosos em suas manchetes) começam por uma aliviada na informação, como eu preciso fazer aqui.

O que se observou é que eles começam, nessa "época", a preferir rostos de sua própria raça. A menos que estejam convivendo muito em ambientes "multirraciais" - dã! 

Supresa, supresa: preferimos o que nos é familiar desde cedo! Ufa, ou nossos ancestrais teriam morrido bem mais facilmente e nunca teríamos evoluído para poder desenvolver, por exemplo, manchetes sensacionalistas...

Maldosa e egoisticamente, no entanto, às vezes penso que seria legal se se descobrisse uma tendência genética bem clara aos preconceitos. Isso indicaria a responsabilidade da sociedade por se trabalhar contra essas tendências, mas sem sonhar com seres humanos ideais nascendo, nas florestas "isoladas" ou no futuro distante, igualitários e pan-amigáveis. Essa vontadezinha morre, é claro, quando lembro que uma descoberta dessas provocaria mais xenofobia, homofobia, machismo, racismo... do que qualquer Mein Kampf ou ressentimento que ande solto por aí. A ideia de que uma notícia provoca discussão racional em massa é ridícula não pela falta de poder da imprensa, mas pela flagrante incongruência da expressão "discussão racional em massa".

A notícia tem pelo menos, quem sabe, o poder para provocar em algumas mentes o raciocínio não de que somos racistas desde pequenos, já que nem na pior leitura é isso que os estudos estão realmente mostrando: racismo implica uma série de noções e seleções (bem mais sérias do que "não preferir", aliás) que crianças ainda não podem fazer. Mas, torçamos, talvez a matéria provoque o pensamento contrário, de que o preconceito tem sim muita base em nossa natureza. Como já escrevi vezes demais neste ano, eis uma tese que me convence bem mais, que dá a devida medida do desafio de uma sociedade que tente ser cada mais igualitária e que queira pensar com propriedade para peitar de frente seus problemas, mesmo que estes a matem de medo. Muito ineficaz é encarar o preconceito como "desvio", perda de uma conduta naturalmente bondosa, má influência pura e simples, praticamente uma gripe que nos atacou, mas que, no fundo, não nos pertence.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A política de acordo com a não-tábula rasa

"A nonblank slate means that a tradeoff between freedom and material equality is inherent to all political systems. The major political philosophies can be defined by how they deal with the tradeoff. The Social Darwinist right places no value on equality; the totalitarian left places no value on freedom. The Rawlsian left sacrifices some freedom for equality; the libertarian right sacrifices some equality for freedom. While reasonable people may disagree about the best tradeoff, it is unreasonable to pretend there is no tradeoff. And that in turn means that any discovery of innate differences among individuals is not forbidden knowledge to be supressed but information that might help us decide on these tradeoffs in an intelligent and humane manner."

Steven Pinker - The Blank Slate

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Democracia inconstitucional

De notícia do IG:

“Agora que vou me esforçar mais ainda para aprovar o projeto”. Esta foi a conclusão do deputado federal Ronaldo Caiado (DEM) após saber que especialistas em Direito da Criança e do Adolescente consideram inconstitucional obrigar escolas a colocar na porta da unidade a nota que obtiveram no Índice da Educação Básica (Ideb). “Tem que haver um mecanismo de tornar explícita a qualidade da escola”, defende.

Reportagem do iG mostra que a medida fere a Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Segundo a professora da Faculdade Nacional de Direito da UFRJ, Glória Regina Lima, o vice-presidente da Comissão Especial da Criança e do Adolescente do Conselho Federal da OAB, Ariel de Castro Alves, e o membro da Conselho Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente, Carlos Nicodemos a medida expõe os alunos a vexame e constrangimento.

Bom saber que Ronaldo Caiado esteja superanimado por forçar medida considerada inconstitucional e contrária ao Estatuto da Criança. Esse gosto incontido por ilegalidade é vontade de se aclimatar melhor no governo ou já preparação para concorrer na próxima eleição?

sábado, 13 de agosto de 2011

Preconceito com racismo

"Violência gera violência", pelo menos se ninguém para e pensa.


Eu acho sempre interessante quando ouço alguém dizendo que algo foi um "racismo ao contrário". Se racismo é o preconceito contra alguém com base em sua "raça", talvez a expressão pudesse querer dizer "tratamento igualitário", ou indicar que alguém reforçou uma ajuda, "compensando" por um racismo anterior, mais ou menos como a lógica de cotas raciais, né? Mas a expressão na verdade é usada para se referir a racismo contra loiros de olhos claros, ou, em casos mais genéricos, simplesmente contra "brancos".

Ou seja, o termo racismo realmente ficou tão associado ao preconceito contra negros que as outras raças não sofrem racismo propriamente, podem apenas sofrer o genérico "preconceito" (quando recebem o direito de "sofrer" algo). Racismo mesmo, só contra negros. O que faz pensar se as pessoas não consideram que existe apenas uma "raça", a negra; os outros seriam mais ou menos marcados por nacionalidade, classe ou cultura, como os "ricos", os "estrangeiros", os "muçulmanos"... Enquanto o racismo é um termo preciso, resta aos outros o termo amplo, preconceito. É como se "racismo" fosse informativo, como uma idade definida, "29", digamos, e aos outros restassem termos com a imprecisão de "acima dos 30".

Mais do que isso, um inglês tendo preconceito com um brasileiro "branco" não parece evocar a expressão "racismo ao contrário" (ou suas parentes, "racismo às avessas", "racismo invertido" etc.). Ela é particularmente usada quando o preconceituoso em questão é um negro. Ou seja, o termo também aplica uma certa noção de movimento: racismo é o preconceito que sai do branco e atinge o negro, o "ao contrário" é um tipo estranho de racismo que faz o movimento de volta. Por essa via, o termo deixa claro que reconhece o racismo que chamaremos aqui de clássico. O invertido é a modalidade que picou de volta para o grupo que tradicionalmente seria o ofensor.

Como nosso uso de linguagem é simplificadamente instrumental, ou seja, os conceitos nos interessam em geral como ferramentas simples para o dia-a-dia, não muito como conceitos mesmo, com profundidade, nuances e história, é compreensível que a maioria das pessoas os transforme em cunhagens simplórias, em que rapidademente (em menos de uma geração de politicamente correto) um termo muito usado já comece a perder seu traço etimológico, ainda que vindo de uma palavra que também segue em uso. O que acho bem menos compreensível é que pessoas que trabalham com esses termos, que vivem das ideias e das discussões relacionadas, para quem o problema do racismo não é nem alheio nem puramente um elemento prático do cotidiano, façam essas confusões.

Da mesma forma, o senso comum explica muita confusão ativa, incluindo que algumas pessoas não entendam que devem buscar não ter preconceitos com loiros assim como buscam não ter com negros. No entanto, esse senso comum não pode justificar nem o racismo clássico nem o "invertido" em profissionais do governo que trabalham com programas de "respeito à diversidade" e assemelhados. Por exemplo, que não aceitem uma loira coordenando as atividades dessa área, ou que o façam, mas com desrespeito e estranhamento, é um dado absolutamente preocupante. E não me refiro a uma situação ambígua, aberta a mal entendidos, em que o desrespeito profissional possa apenas ter parecido tocar na "cor"; falo dos casos em que o fenótipo é explicitamente referido. 

O respeito à diferença que não se livra de revanchismo alucinatório preocupa tanto quanto a realidade persistente do racismo, porque indica quão simploriamente também essa campanha é levada na organização infinitamente emburrecente de planos de governo voltados à educação em sentido amplo. Só para reforçar, eu realmente acho que esse tipo de campanha é necessária, mas também acho que nenhum governo brasileiro parece ter entendido ainda como fazê-las. Pelo que tenho notícia, alguns programas de valorização da "cultura negra" funcionam, no entanto não se parece ter entendido como se conseguir os mesmos resultados quando o assunto central não é o valor de um ou de outro, mas sim respeito mútuo, o que pode ser implicado nos casos de valorização de determinada cultura, mas não é a mesma coisa. Bem como, por motivos óbvios, preconceitos abundam facilmente como efeito colateral de programas que buscam simplesmente valorizar uma cultura, especialmente por haver muitas vezes um traço localista nessas atividades. Parece fazer parte de nosso instinto entender que algo ser bom é igual a isso ser superior a outras coisas, de modo que essa questão sempre precisa ser explicitamente trabalhada para que tiros não saiam pela culatra. A maioria desses mal entendidos na prática não parece provocar muita violência, mas isso é suficiente? Que não haja "muito" preconceito contra o outro? (Infelizmente me parece necessário indicar aqui que não estou igualando as diferentes formas ou intensidades de preconceito, nem indicando que deveria haver um Dia do Branco, logo depois do Dia do Hétero, ok?)

Talvez seja tarde para espalhar que "racismo" era um termo potencialmente capaz de referir qualquer preconceito por cor de pele ou traço fenotípico, mas nunca me parece que seja tarde para que se peça profundidade teórica de pessoas que profissionalmente lidam com determinados conceitos. Se a própria profissão de alguém implica o valor de um conceito, então, como ser educador de "políticas públicas", o que o tal senso comum está fazendo no próprio comportamento dessa pessoa?

Parece que esse sujeito sabe fazer campanha de respeito mútuo com alguma eficiência.
Mas seus alcances fizeram menos sucesso que sua carreira para modelo, em estampas de camisetas.

sábado, 30 de julho de 2011

Falsas Igualdades

Precisamos de uma nova regra: toda dicotomia é burra. José Paulo Cavalcanti Filho, por exemplo, em seu novo artigo "Democracia também é não informar", iguala sem limites nem nuâncias Wikileaks e News of the World, simplesmente porque ambos divulgaram informações sigilosas. A "semelhança" da informação (ser sigilosa) faz com que curiosamente o autor passe por cima de um detalhe que menciona o tempo todo: o bem público envolvido em revelar determinada informação.

Só para começo de conversa, no caso do jornal inglês, temos informações privadas divulgadas em prol do lucro. No caso do Wikileaks, a relevância da informação é julgada moralmente por quem a publica, bem como se busca evitar a publicação do que possa representar risco à vida (ainda que possa, para alguns, ter havido casos em que o escrutínio foi duvidoso). Ignorando completamente a natureza da informação e a finalidade da publicação, José Cavalcanti afirma tranquilamente: "um exame isento dos casos revelará que há, em ambos, uma mesma questão de forma e uma mesma questão de substância".

Acho que entendemos forma e substância de forma muito diferente. Porque não sei como pode ser verdade que nos dois casos a informação deveria ser sigilosa pelo bem coletivo, se uma publicação visa em primeiro e último lugar o bem mercadológico do produto, o enriquecimento de seu produtor, e o outro visa problemas sociais, econômicos e políticos que dizem respeito a populações de diversos países. A importância de Assange não surgiu de ele publicar babado forte, mas de ter comprovado que havia uma relação de má-fé entre governo e população, bem como por ter provado que uma série de decisões internacionais e nacionais vinham sendo realizadas com manipulação consciente de informação. Ou seja, a questão não foi que Wikileaks passou a publicar coisa que deveria ser mantida em sigilo pelo bem de todos, muito pelo contrário, indicou uma quebra no contrato democrático pressuposto entre eleitores e eleitos. Mais ainda, o site indicou cumplicidade de determinados jornais com esses interesses.

A moralidade de tudo isso pode ser discutida, e se alguma informação revelada pelo site pode ter levado a alguma morte inocente vai mesmo ser posto em julgamento sempre que os governos puderem levantar a questão. Agora, como isso é comparável a espionagem de tabloide? Se a natureza do dado publicado, a finalidade e a revelância moral da publicação são ignoradas, como se está fazendo uma análise "rigorosa", Sr. ex-presidente do Conselho de Comunicação Social?!

É verdade que nem toda informação pode ser revelada a qualquer hora, mas também o fato, utilizado por José Cavalcanti, de que, em determinados países (como os EUA, que são cada vez mais exemplo pior quando o assunto é transparência governamental), determinadas informações não podem ser reveladas nunca em nada indica que essa postura de sigilo eterna seja moral, correta, ética ou superior. Apenas indica o porquê o Wikileaks balança tanto com a política internacional. Mais ridículo ainda é comparar a lenda da fórmula secreta da Coca-Cola e um pretenso problema de royalties com as consequências da ação de gente como Assange. Mesmo News of the World, causando dano a vítimas de crimes em prol de tentar desenvolver determinada notícia, em nada se presta à analogia.

Na conclusão, a Grande Dicotomia: "Ou não deve haver nenhum limite à informação, caso em que WikiLeaks e News of the World devem ser tidos como mensageiros do bem. Ou podemos (e mesmo devemos) admitir limites democráticos a esse acesso à informação, sugeridos sempre pelo interesse coletivo – caso em que Murdoch e Assange acabam sendo vilões muito parecidos.
 "Os leitores podem escolher. Um lado ou outro. Só não podem é louvar o WikiLeaks e mandar ao inferno o New of the World. Apenas por não ser razoável. Nem coerente. E isso basta."

Isso é retórica de referendo: finge liberar opção ao leitor quando decide a priori as opções, só duas aliás! Não há nada pacífico em colocar o tablóide e o Wikileaks no mesmo saco. É possível, mas a escolha é mais do que problemática, e seria ruim de fato se algum leitor realmente ficasse apenas entre as duas opções simplificadoras oferecidas. Literalmente, se aceitamos que existem "limites democráticos " ao acesso à informação (como afirma Cavalcanti), se o Estado os manipula as ferramentas para esse limite por má-fé, e se Wikileaks os denuncia, o site não é nem vilão, nem parecido com News of the World. Mais ainda, para algumas organizações internacionais, Assange age a favor de Direitos Humanos, sob critérios que diríamos ter News of the World agido contra. Cavalcanti não precisa concordar, mas nem considerou por que é possível se ler dessa forma o problema?!

O leitor talvez decida mesmo louvar um e mandar o outro para o inferno, mas não cabe a Cavalcanti atestar o que esse leitor pode ou não, quando sua exigência de coerência se baseia em tamanha simplificação. Esta é tentadora e, com imaginação, pode ser aplicada de fato a qualquer matéria - tudo é comparável a tudo, se quisermos muito. No entanto, para que serve simplificar o mundo a ponto de nublar todas as questões relevantes envolvidas num problema? Ajudar não ajuda, nem conquista qualquer tipo de "honestidade coerente", só aplaina o pensamento, o que não nos parece grande ganho para um veículo de discussão sobre imprensa, como o site em que o artigo foi publicado. Que vantagem se tira de escrever um texto assim para esse veículo? Talvez, no entanto, a mídia de publicação também seja dado irrelevante para o autor, já que tanto ignora para poder assemelhar Assange e Murdoch.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Mais e mais do mesmo

Conforme a SUPER deste mês, visão no escuro, superforça e outros poderes fenomenais serão logo possibilidades genéticas para cada um de nós.

Sono.

Por que será que evoluções como educação, respeito, igualitarismo ou mesmo asseio pessoal são alterações genéticas tão pouco dignas de receber verba?

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Direito de greve, R.I.P.

"No STJ, o governo sustentou que 'ao direito de greve por parte do prestador do serviço, corresponde o direito de suspensão do pagamento pelo empregador (em sentido amplo)'. Haveria, na hipótese, lesão à ordem pública, na sua modalidade administrativa, porque 'a autoridade pública está interditada na sua capacidade de exercer as suas prerrogativas e os seus deveres de gestão da coisa pública em conformidade com o direito'." - 16/07/2011

Pergunto ao leitor, o que o primeiro "direito" do parágrafo anterior quer dizer? Do meu ponto de vista, trata-se de um termo hipócrita e tautológico. Em Santa Catarina, como no Rio Grande do Sul, como onde quer que se faça greve, sejam servidores municipais, estaduais ou federais, o discurso é sempre o mesmo: há direito de greve, mas o governo pode cortar o ponto (oposto do dito na segurança legal por greve) e o não-corte do ponto, quando é mantido, precisa ser citado no documento que encerra a greve, como "uma das conquistas". Em outros casos, como parece que será o de Santa Catarina, o ponto é efetivamente cortado, e em todos, com corte de ponto ou não, as "conquistas" são em geral inferiores ao moralmente devido e envolvem muito rearranjo de contas, de modo que os servidores (ou outras áreas fundamentais da cidade, como saúde) perdem algo para tudo que se conquista na greve, o dinheiro acumulado ilegal ou injustamente não é mexido, bem como os investimentos para inglês ver (como a Copa). Nenhum político sofre as consequências por quaisquer desrespeitos ou abusos de antes ou de depois da greve.

Os professores de SC ganharam um aumento, perderam dinheiro por outros lados, mas, mesmo com a troca ridícula, a que muitos não queriam aceitar, a greve não se sustentou mais, especialmente por já ter acumulado 2 meses sem aulas (o que desgasta os professores - muito para eles próprios -, não os políticos, tenhamos clareza). Nesse sentido, o corte do ponto funcionou. Tática de guerrilha: atacaram a comida do exército. Por que não se chama isso de terrorismo de Estado, mesmo? Ou se chama?

O direito de greve (parece-me o único sentido lógico) implica por diferentes ferramentas um impedimento de que o contratador retalie contra aqueles que façam greve. E por que essa proteção? Ora, porque obviamente o elo fraco é o empregado. O empregador tem tanto, tanto, tanto poder que é preciso em geral que milhares de pessoas parem de trabalhar e reclamem e gritem por dias, semanas ou meses a fio para que o contratador mexa um dedo. É óbvio que sua retaliação deve ser impedida por lei, ou em pouco tempo voltaríamos para o trabalho escravo (generalizado).

Como é possível, então, que aquela afirmação lá no alto seja repetida por todos os lados, em todo o Brasil? Como o trabalhador tem direito de greve e o governo tem o direito de puni-lo pela greve? Isso é o mesmo que dizer que alguém é livre para fazer o que quiser, mas, se desobedecer, vai para o inferno. Essa oposição transforma a expressão "direito de greve" na tautologia "é claro que todo o mundo tem o direito de greve, se isso implica decidir sair nas ruas e reclamar em vez de trabalhar: o sujeito é livre!" O que é importante, o que seria um direito socialmente relevante, seria o de fazer isso e não sofrer uma punição incapacitante em seguida. Os trabalhadores de SC (só para seguir com o mesmo exemplo) concorrrem a perder algo como 50 dias de salário

Preciso citar de novo: o governo alega "lesão a ordem pública" por estar sendo impedido de "exercer as suas prerrogativas e os seus deveres". É de chorar que isso seja argumentado com o rosto sério, como se não fosse a incompetência administrativa que provocasse greves, além de ser triste (a ponto de ser melancólico) que a contradição abissal de "ao direito de greve por parte do prestador do serviço corresponde o direito de suspensão do pagamento pelo empregador" não jorre pelas mídias, por todos os "certames intelectuais" da Internet, além de, é claro, por grupos de políticos, como uma causa justa, a ser levantada por uma bancada de __________ (não há representação política para ESSA luta), que processasse uma administração que abre a boca a fim de pronunciar esses abusos.

Todo esforço passado, requiescat in pace.