quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Falsas valorizações

Aviso: no gancho das parabenizações de Dia dos Profs, resolvi fazer um post de generalizações a respeito de escola pública.

Há poucos dias, conversando com uma pré-adolescente rica e bastante erudita, me veio uma expressão que tem me perseguido. Eu disse para ela que meus alunos, em geral, não acham que devam usar o cérebro para a escola. 

Eles não pensam, claro, exatamente assim. Eles falam que são burros e, ao mesmo tempo, só tentam "ser espertos". Ser esperto é, para os guris, não ser passado para trás por ninguém, passar pessoas para trás quando necessário, encontrar caminhos alternativos (mas diretos, nada de dois ou três passos) para conseguir o que se quer, ser o mais (ou um dos mais) engraçados do grupo e transar com o máximo de gente, assegurando as mais gostosas apenas para si - óbvio, ideal nunca atingido e, então, desdenhado. Para as gurias, a lista é muito parecida, mas inclui vencer brigas com as rivais, ser bem bonita e fingir mais perfeitamente que não se importa com isso, além de poder esnobar o máximo de guris com o mínimo de esforço aparente. Nenhuma dessas habilidades exige conhecimento acadêmico. Na verdade, elas não dependem nem mesmo de alfabetização. Tirar boas notas, ter conhecimento básico de matemática (quatro operações), geografia (saber que "Porto Alegre" não é um estado), história (até saber que todos os anos "antes de Cristo" vieram antes dos "depois de Cristo") e coisas tais não estão incluídas em ser esperto, mas  qualquer ignorância pode servir como status, no sentido de não saber "aquelas coisas chatas" ou "ser burro, ha-ha-ha".

Como eles se acham burros, o que significa não tirar notas boas e, portanto, não "ser puxa-saco do professor" - falta de conhecimento leva a péssimas notas, mas boas notas não indicam conhecimento, só puxa-saquismo - esses alunos pensam que a boa escola, a escola forte, é aquela que os roda, que os expulsa. Os mais radicais se orgulham anos a fio porque acham que um professor abandonou a escola ou a profissão graças às bagunças deles. Uma turma ter feito Fulano chorar também é um orgulho meio envergonhado que é lembrado com sorrisos por muito e muito tempo.

O problema sempre acaba sendo cultural. Algumas raras famílias sabem o que fazer com conhecimento acadêmico, e o efeito disso em seus filhos é patente, mas a questão cultural necessariamente sai do círculo mais imediato deles. Alunos de escolas públicas em geral sentem o efeito mais agudo de uma situação bem maior, sem a boa mediação de pais ou responsáveis fortuitos. 

A escola pensada é uma coisa, e é ela que todo o mundo gosta de defender, da conversa no ônibus ao Domingão do Faustão. A escola de fato é um bicho estranho e revoltante, que ninguém quer e que horroriza quem pára para olhar de frente. Ela não forma tanto, mas forma demais; ela veicula pouco conhecimento, mas conhecimento demais; ela não defende bandeiras o suficiente, mas as defende demais; ela não doutrina os alunos, mas doutrina demais; ela é conservadora, mas muito progressista etc. A escola na verdade não é domada por nenhuma força política, mas todas a querem. Os alunos estão no meio do fogo cruzado, então fazem o que uma criança faz melhor. Elas imitam. Imitam para aprender a viver na cultura em que estão crescendo, cultura essa que, não querendo a escola que as obriga a querer, joga os alunos para todos os lados. Dependendo de onde se olha para a escola, o aluno nunca tem razão, ou sempre tem. Ele deve resistir, mas obedecer, aprender, mas duvidar, criar vínculo, mas manter distância. Eles até mesmo estão certos ao odiar a escola, mas certos ao gostarem dela também. No ideal, como o resto da população, defendem a ideia da escola, mas a odeiam na prática, com ainda mais razão que os adultos, já que, no momento, são eles quem precisa manter e aguentar na pele a farsa paradoxal de todos.

domingo, 22 de setembro de 2013

Devil Inside

(Vídeo só por causa do título)

Se existe uma tendência minha mal posicionada é a seriedade com que costumo levar acordos. Por algum motivo eu respeito pequenas combinações do dia-a-dia, pequenos contratos, busco cumprir os papeis que assumo e trato as pessoas conforme os papeis que decidiram tomar, às vezes até insistiram, duvidando de que eu cumpriria o combinado. Mas eu cumpro. E a maioria das pessoas não. Por isso fico pensando volta e meia "Por que diabos eu busco cumprir essas coisas?"

Logo eu sou tachado como muito certo, muito comportado, muito duro, muito caxias, ou "o único professor que exige X". Estou longe de restringir o problema à minha relação profissional ou ao comportamento geral de professores. É um desvio que tenho com a humanidade mesmo. Ou, para dar o benefício da dúvida para outras culturas, meu desvio em relação ao meio em que vivo. 

O mais engraçado é que as pessoas, por isso, se surpreendem ao descobrir qualquer lado meu que desrespeite regras, etiqueta ou tradição. Logo elas percebem, no entanto, que esse desrespeito tem tudo a ver com minha personalidade, que elas deveriam suspeitar mesmo do tipo de demônio que levo comigo. E então elas se questionam por que alguém assim seria tão caxias. Resposta: porque eu não sou caxias com "as coisas", eu apenas acho que trato é trato. Pensando bem, talvez seja mesmo outro traço demoníaco: o de respeitar contratos e acordos.

domingo, 8 de setembro de 2013

Os poderosos clichês

Eu não lembro se já as comentei aqui no blog, mas o post anterior me fez retomar duas teorias que tenho sobre clichês.

A primeira delas é o que o cansaço que temos com clichês nos leva a subestimá-los, mas eles na verdade representam, em geral, verdades superconcentradas. Essa concentração se dá com o tempo, exatamente como no processo natural de decantação. Muitas histórias ou muitas versões estão sempre sendo aventuradas sobre tudo. Aquelas muito verdadeiras (coloque aqui seu teor de relativismo cultural, a gosto) sobrevivem por mais tempo e dominam as outras. O clichê do herói e da heroína formarem um casal, por exemplo, tem muito de verdadeiro. São duas pessoas que sobrevivem e vivem melhor juntas (tanto que ganham a aventura por isso) postas numa situação de stress, em que a confiança no outro é fundamental, e tudo isso gera uma série de vínculos e dependências que são uma mão na roda para o Cupido. É claro que muita projeção da plateia favorece tal tipo de relação romântica, mas isso é verdade para tudo, não só para os clichês.

Enfim, acho que eles são histórias ou esquemas que se repetiram e repetem muito, por isso mesmo viram clichês. Quem quer resistir a determinados valores precisa então atacar esses clichês, mas tal status não parece ser o melhor alvo. O argumento "isso é clichê", nesse sentido, reforça-o, pois afirma que aquilo aconteceu e segue acontecendo muito.

A outra questão é que clichês precisam ser concluídos. Como eles resultam de um acúmulo de experiência, a resposta pronta não quer dizer o mesmo que para aqueles que tiveram que chegar a ela batalhando e pensando. Assim, o mau cheiro do clichê em geral é reflexo de que a pessoa não o entendeu direito, está vendo-o de fora, precisa viver e até negar aquele clichê para chegar a ele. 

É esse aspecto que me incomodou no post anterior. Exatamente porque estou falando sobre o choque entre minha visão de mundo e a de tanta gente que me cerca, fico pensando quem poderia entender o post anterior no sentido que eu pensava. Estou falando mal de um "sistema", reclamando sobre uma idiotização da vida à Hollywood, tudo coisas que se fala muito, mas em geral num sentido diferente do que eu buscava. Como não tento explicar a minha vida aqui, a leitura do post deve indicar para muita gente o caminho errado. Ele deve ser lido em sentidos opostos aos que eu pensava. Mas, se eu acho justamente que a complicação da Mafalda é de tradução, esses mal entendidos acabam por reforçar meu argumento...

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Mais Mafalda!!!

Um exemplar mais a mão, entre outros possíveis...

Eu sou um fã atrasado de Mafalda. Fiquei sabendo da personagem no início da faculdade, ou um pouco antes. Todo o mundo falava muito bem, ou ficava quieto por não achar, aparentemente, que poderia falar mal ou demonstrar indiferença. Não observava o mesmo silêncio de ignorância como o meu. Consegui ler realmente mais coisa do Quino apenas depois de um bom tempo - afinal, entrar em Letras é também descobrir que toda a literatura que já lemos não é nada nem para uma simples conversa de bar.

Como foi verdade com outras leituras, fui gostando mais e mais, com o tempo. Nunca conseguia, mesmo assim, localizar por que achava essa graça tão particular nas tirinhas. Agora, acho que encontrei: gosto do problema proposto, que é, a meu ver, a dificuldade de se comunicar em outra língua. Mafalda não fala "sucesso" quando abre a boca, nem todas as coisas atreladas a isso geralmente. Ou seja, ela questiona a ordem do mundo, sem confundir as pessoas que realizam essa ordem no microuniverso do dia-a-dia com a ordem em si - ainda que reconheça que tais pessoas possam se tornar meras ferramentas, esquecendo elas próprias outros aspectos de sua existência. Ela pressupõe que exista um ser humano (no sentido rico, variado, do humanismo) no policial, ou até mesmo no político, e sente seu direito de cobrar dignidade e juízo desses indivíduos.

Com exceção do momento em que decidi fazer Letras e de quando me encaminhei a dar aulas, poucos confrontos tive com o discurso do sucesso ou da ordem das coisas - dos desejos que devemos ter, das ordens que devemos seguir sem questionamento possível. Geralmente eu parecia ir nessa direção, porque o que eu queria coincidia com a ordem óbvia. Procurar emprego, por exemplo, faz as pessoas acharem que estamos querendo "crescer na vida" e coisas tais. Mas é possível procurar emprego, sei lá, para se sustentar, sem confundir carreira com vida, nem trabalho com única possibilidade de realização pessoal. Eis que agora sou todo dia confrontado com a exigência ou pressuposição de que eu deveria querer dinheiro, tanto por ele próprio como para fazer coisas que propagandas de margarina e filmes de Sandra Bullock implicam ser o ideal universal. Estou impressionado com a força e a acriticidade desse discurso nessa minha pacata cidade, tão longe de Hollywood... E me surpreende que eu precise desenhar para as pessoas que, a Sandra Bullock, prefiro Mafalda.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O decisivo senso comum

Por mais que se fale mal do argumento de autoridade e da escolástica, se existe uma estrutura milenar firme na Academia é a estrutura de citação. A ideia é que toda pesquisa aproveita pesquisas anteriores e vai além, portanto em parte é preciso demonstrar essa trajetória e esse conhecimento acumulado pelo próprio pesquisador, que vai acrescentar algo e que pode afirmar isso exatamente porque conhece o que veio antes. Outra relevância desse formato é indicar certas "verdades" acumuladas até aqui pela Academia para que não se tenha que partir do zero a cada pesquisa. Não dá para todo astrônomo ter de começar redescobrindo a gravidade. A citação ainda é relevante para quem quer questionar a tradição ou resultados anteriores. Só se dá ouvidos à novidade se a pessoa que acha que descobriu algo novo indica que sabe e entende aquilo que ele está tentando criticar ou reformar. Outro motivo ainda é que afirmar algo que nós não descobrimos pode ser considerado plágio. Se vamos partir de ideias alheias ou coincidentes com outros autores, melhor dar os devidos créditos do que ser processado e descreditado depois.

Pois bem, essas são algumas justificativas para que ainda precisemos ficar citando uma galera em todas as pesquisas. Quando se pensa nisso tudo, dá até a impressão de que se está esquecendo ou subestimando a importância de outra força fundamental: o senso comum.

Pode parecer que a citação funciona contra isso também. Se eu estou contrariando o senso comum, de repente vai ser mais simples se eu indicar que o papa daquela minha área fez o mesmo, argumentou como eu, mas isso não é verdade. O senso comum é capaz de distorcer a leitura que se faz de qualquer citação bem como de apagar a memória justamente a respeito daquela citação do papa. A citação é importante para muitas coisas, mas nem ela enfrenta essa outra força tão poderosa, o que é um irônico enfraquecimento para o argumento de autoridade: mesmo esta perde para o que é aceito sem questionamento algum, para o que é cotidiano, para o que embasa qualquer raciocínio mais consciente.

O mais curioso é que discutir o senso comum é impossível, sem que ele seja localizado em alguns autores muito importantes - ou seja, em papas ou bispos. Assim, para se discutir o senso comum é preciso trazê-lo na forma de citações. Caso contrário, ele é uma forma nebulosa, uma impressão qualquer, algo fácil de se desconsiderar e de, portanto, permanecer exatamente como está. Quando citamos o senso comum, no entanto, ele não será ignorado, já que o próprio corrompe até a leitura das citações?

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Eu não entendo a Legião da Boa Vontade

Sempre que a LBV me liga eles começam falando como Jesus me ama, as crianças me adoram, como todos queriam me agradecer pelo meu grande coração (sic), desejar Feliz Feriado-Mais-Próximo etc. Tudo isso, é claro, fazendo de tudo para que eu não tome a palavra (ou seja, sem nenhuma intenção de ME escutar) e fingindo que eu não sei que eles querem dinheiro. Ora, por que me tratar como criança, e uma criança imbecil, seria o caminho para chegar ao meu bolso? Sério que eles imaginam que eu vá sentir vergonha e POR ISSO lhes doar dinheiro? Não é doação para as crianças que eles querem, mas sim esmola extorquida por vaidade?

Como é que uma "Legião da Boa Vontade" pode passar décadas com a tática de se posicionar moralmente na situação mais detestável possível e então... pedir dinheiro!?

domingo, 11 de agosto de 2013

Por uma cultura mais individualista

Michel de Montaigne
"Nunca houve no mundo duas opiniões iguais, nem dois fios de cabelo ou grãos. A qualidade mais universal é a diversidade." 

Sempre que estou tendo algum tipo de preconceito, ou suspeito que esteja, faço o esforço de esquecer o enquadramento que meu cérebro está dando para a pessoa e olhá-la com radical individualismo. Acho um exercício bem difícil, particularmente quando o cérebro já tirou várias conclusões e formulou táticas para a reação à pessoa baseada nos enquadramentos prontos. Ainda mais difícil, claro, porque tal é obviamente um resultado complexo do instinto de sobrevivência. Por isso se fala tanto que temos bastante preconceito com aquilo que nos incomoda: o cérebro se apressa a ativar as estratégias para resolver o incômodo, o que geralmente envolve destruir o objeto odiado ou sair dali o mais rápido possível (ou seja, não lidar realmente com a situação).

Não estou dizendo que luto contra o preconceito em mim porque acho bonito. Acredito que a pessoa preconceituosa sempre sai em desvantagem das situações. Essa força de fuga ou destruição inerente ao preconceito é inimiga do que considero a postura mais vantajosa na vida: presença de espírito. Além disso, sendo professor, se algum preconceito me toma eu sou tanto anti-ético com o aluno quanto posso sofrer bem mais que o necessário. Vê-lo como indivíduo faz com que encontre mais rápido a solução para os problemas dele e para os meus, resolvendo a relação da forma mais lucrativa e recompensadora para ambas as partes. O mesmo se dá na relação com colegas de trabalho. O preconceito é tão errado quanto contraproducente.

(Acho meio óbvio, mas vou explicar, que nem todo preconceito é terrível. Se achamos que uma pessoa sozinha, vestida de forma que não vejamos muito o rosto, ou andando como quem está meio alterado, pode querer nos roubar ou atacar de qualquer forma, atravessar a rua não é o fim do mundo.)

Voltando, ver as pessoas radicalmente como indivíduos me parece a única verdadeira solução para o preconceito. Tentar lembrar que, por mais que os recortes culturais reconhecidos naquele que nos fala lembrem clichês, existem exceções em todos os grupos, portanto aquela pessoa tem tanto a individualidade na realização desse clichê quanto a responsabilidade, ainda que seja inconsciente em alguns casos, de ser como é, de ceder a si mesmo, digamos, além de não poder escapar, em algum grau, a determinadas características genéticas inescapáveis. Até mesmo o que é inescapável só o é de forma particular. Algumas pessoas ansiosas têm outras características que as possibilitam controlar isso, outras simplesmente têm problemas mais sérios de personalidade a resolver e precisam conviver com a ansiedade a externando. Não vamos, realmente, querer que ela lute contra a ansiedade e deixe outras características se desenvolverem.

Nesse sentido, o maior tributo de nossa sociedade esforçada por igualitarismo ainda vem do Humanismo. Talvez este venha mesmo de ideias em parte desenvolvidas por certa cultura árabe do fim da Idade Média, que passou do norte da África para a Itália, mas o que quero destacar não é a origem em si da postura individualista, apenas que, desenvolvido na nossa cultura europeia (no sentido de ser, por exemplo, responsável por estamos entendendo este blog todo escrito em alfabeto românico), o individualismo foi uma daquelas forças que mais é elogiada em seus primeiros séculos e destratada nos últimos. Creio no entanto que ele seja não só a raiz de nosso igualitarismo, mas nossa última salvação para realizá-lo. Ironicamente, que eu saiba Marx concordaria comigo, aliás, sendo a realização do indivíduo o grande lucro que ele via no desenvolvimento do capitalismo, lucro que ele defendia ser condição sine qua non para uma sociedade que superaria as desigualdades do próprio capitalismo. Muitos dos destratores de nossa "sociedade individualista" devem ter leitura bem diferente de Marx! But I digress... 

Minha questão era só que sejamos mais individualistas. Está ainda fazendo falta. Basta não confundir individualismo e egocentrismo. Bem pensados, eles não têm nada a ver, já que valorizar o indivíduo e defender sua radical independência de todos os outros indivíduos não é lógico, mas alucinatório. O exercício é não subsumir o indivíduo aos grupos em que o enquadramos pela natureza de nossa congnição. Outra coisa é pensar que o mata-mata é uma boa estratégia social. O individualismo não pressupõe, necessariamente, esta postura política, que me parece flagrantemente burra. No entanto, como não ter preconceitos sem olhar direta e violentamente para quem está bem na nossa frente, resistindo à nossa animalidade que quer sempre enquadrar?

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Concern trolling

Nossa, esse era um termo que me faltava. Sei que ele tem pelo menos dois sentidos já, mas o que me interessa é o que especifica a retórica de dizer que um assunto debatido está levando as pessoas a ignorarem outra questão ou que ele deveria ser considerado apenas por quem se preocupou com a tal outra questão, acontece que esta não é realmente do interesse da pessoa que está argumentando isso. Só o que ela quer é mudar o assunto e enfraquecer a discussão que está acontecendo. 

É o uso da velha artimanha do cult: "isso todos estão valorizando agora, mas é muito mais cool pensar como eu, que na verdade sei uma outra coisa, ignorada, com muito mais valor de afetação do que a primeira em questão". No entanto, é esse processo ainda mais esvaziado, e o que está em questão não é ser cool, mas se sentir e se mostrar "humano", termo que também detesto nesses blablablás e que já xinguei muito em algum post antigo. 

O concern trolling é particularmente comum em discursos conservadores de alcance nacional (ou sobre temas nacionais), apesar de me parecer mais recorrente em discurso esquerdista de pequena escala. Boa parte da esquerda toma facilmente o papel de "bom cidadão longamente ignorado", o que muitas vezes pode ser verdade, mas tenta e alimenta bem a prática do concern trolling. 

O que me lembra, em paralelo, que George Carlin era muito bom em desmistificar esses desvios retóricos. Aliás, ele era ótimo também em fazê-los a fim de criar piadas, que pareciam pura fuga do assunto até a punch line, em que finalmente se via que ele não estava fugindo de assunto nenhum. Muitas vezes essa é a falta que bons comediantes mais fazem: deixar um vácuo de figuras públicas que não deixem a hipocrisia desviar preocupações sociais com movimentos retóricos. A educação talvez pudesse suprir esse papel, até certo ponto, mas com ela bem sabemos que não podemos contar. 

domingo, 4 de agosto de 2013

Mitologia cotidiana

Eu ainda me surpreendo quando reconheço alguma força ou atividade no dia-a-dia que demonstra como determinadas mitologias tinham razão a respeito do nosso comportamento. Como é estranho quando vemos algo que encaixa perfeitamente com a descrição de Eros (Cupido), por exemplo, ou com a relação entre Perséfone e Hades. 

Por outro lado, por que isso deveria ser surpreendente, né? Os mitos, incluindo a parte comportamental do que chamamos de religiões hoje, são o resultado de um acúmulo e de uma decantação de séculos de observação, resumidos a um centro condensado do que se falou ou se pensou a respeito. Isso é mais verdadeiro inclusive para as que levaram mais tempo para serem escritas, sobrevivendo com o esquecimento necessário de uma cultura oral. 

Essas histórias justamente sobreviveram porque resumiram, melhor que suas concorrentes, devemos supor, o comportamento humano observado por séculos e séculos. É claro que muita coisa ali está culturalmente restrita, mas algum tronco precisava estar certo. E a gente, em menos de uma vida, fica comparando nossa visão de mundo com esse acúmulo impressionante e nos chocando quando comprovamos verdades que ali estejam. É no mínimo curioso.

Parece-me que isso de ficar julgando se os gregos, noruegueses, judeus, ovimbundus ou guaranis estavam certos é uma grande prepotência, no final das contas. Mas uma prepotência absolutamente saudável! O que não é muito classicista da minha parte, aliás... A única forma de aprendermos com essas histórias é justamente questioná-las e pô-las em cheque, como é verdade com qualquer outra coisa. Se as confrontarmos por nossa individualidade e tivermos simplesmente de capitular no final, bom, teremos comprovado a relevância da trajetória das tragédias... clássicas.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Por que não postar

Quando iniciei este blog, mantinha uma certa neutralidade que sempre me interessou. Tenho uma ideia de neutralidade parecida com o conceito de governabilidade, ainda que não na forma radical que o PT adotou. Ou seja, acho que as coisas só vão para a frente quando a gente não perde o foco e ignora toda discussão ou discórdia que envolve picuinha, vaidade, inveja ou desaforo, ainda que ela venha embalada por mentiras crassas. Se revelar a verdade não vai ajudar a chegar ao ponto que nos interessa, o desvio para esclarecer a bobagem que a outra pessoa diz não me serve. (O quanto o blog era neutro em outros sentidos, ou me achavam progressista ou conservador, é outro assunto que não me interessa propriamente.)

Ao mesmo tempo, o blog era mais mesmo sobre usos engraçados ou bizarros da linguagem cotidiana, particularmente em jornais (muito à mão porque comecei o blog quando estava desempregado, mesmo que estudando), conversas de ônibus (dos quais não dependo tanto mais, porque resolvo quase tudo a pé ou de bicicleta) e discursos políticos - que viraram o próprio problema para eu continuar escrevendo no blog.

Eu praticamente parei de escrever não por causa dos discursos políticos, mas porque minha tese estava atrasada, e eu estava de saco cheio de não terminar nunca. Decidi que todo meu raciocínio para digitar seria focado nela, nem o blog teria vez. Quando parei, no entanto, muitas coisas mudaram. Uma das minhas últimas reclamações no blog foi justamente sobre as pessoas acharem que ficar falando muda alguma coisa. Pois eu paro de escrever e os reclamões de face saem às ruas e conseguem que nossa passagem retroceda no preço!

Depois disso, São Paulo fez movimento parecido, até citando Porto Alegre, mas a polícia de lá lembrou que dá para bater em manifestante e ficar por isso mesmo. Na manifestação seguinte aqui, pancadaria e vandalismo! Novidade herdada do Centro. São Paulo imitou POA, POA imitou São Paulo, cada qual à sua maneira...

Enfim, junho foi o que foi e teria o que comentar sobre cada coisa, mas estava na minha abstinência do blog. O resultado mesmo foi que perdi boa parte da minha neutralidade em alguns assuntos. Não acho que poderia deixar de ser virulento ao mencionar Globo, Record, PDT, pastores e tal. Claro que não era a favor dessa gente antes, mas é diferente o tipo de picuinha a que me ateria no momento. Ao mesmo tempo, o blog tem que ter deixado de ser acompanhado por muita gente, depois de tanto silêncio, o que pode ser bom para tentar começar de outro jeito.

Na verdade, devo dizer, não prentendo começar a escrever muito diferente no blog. Este post foi apenas para exorcizar tudo o que mudou e que deixei de comentar esses tempos todos. Não quero pesar a mão aqui mais do que antes, e posts virulentos tenderão simplesmente a não serem escritos, ou serem deletados antes de postados. Era isso.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Um país violento!

A voz do povo é a voz de Deus. De um deus extremamente violento. Lembremos de algumas pérolas da #vozdarua

Gay, só matando! Homofóbico, só matando! Machista, só matando! Feminista, só matando! Sem-vergonha, só matando! Vagabundo, só matando! Milico, só matando! Político, só matando! Manifestante, só matando! Vândalo, só matando! Petista, só matando! Anti-partidário, só matando! Marxista, só matando! Reaça, só matando! Domingueiro, só matando! Taxista, só matando!

É, definitivamente não somos um povo de boa índole.

quinta-feira, 7 de março de 2013

O pudor da morte

Se tem um sentimento que me impressiona é o pudor da morte. Não acho termo melhor, ainda que a morte não necessariamente esteja batendo à porta, mas nitidamente se trata de um sentimento que não surge se a pessoa passa por mera enfermidade (pelo menos não a maioria das pessoas minimanete sãs). Quando tal pudor aparece, de uma forma ou de outra, a morte está envolvida.

Refiro-me ao fato de que há certa fisgada, certo impacto de um mal particularmente reconhecível que parece assustar o atacado, e de repente mesmo a pessoa mais extrovertida, sentimental, aberta (como gostam de dizer) se esconde, sente vergonha do próprio padecimento. Quer se guardar de quem não viu seu estado e se sente humilhada por quem já o viu. 

Acho incrivelmente curioso como alguém nessa situação luta por fazer força, quer aparentar e de fato estar mais saudável do que realmente está. Pior ainda, nesse estado a mentira do enfermo para si mesmo fica ainda mais evidente, vemos que a pessoa acredita que pode realmente mais do que consegue, e tentando se ocultar o pobre cérebro se expõe ainda mais. Parte do pudor é uma mentira para si mesmo, como se dizer que estamos melhor fosse um remédio viável, por qualquer motivo sempre à mão para nossa frágil mente, que de repente pode tudo, menos se mostrar tão frágil, com a verdadeira fragilidade que sabemos ser de todos.

Acho impressionante, quase preocupante, o impacto num grupo acarretado por quem se sentiu assim avizinhado da morte, de repente se perdendo da sanidade apenas o suficiente para não saber mais tão bem como mentir que é forte. É como se a morte apenas levantasse levemente o capuz, mal olhasse ainda para avaliar se é a hora, e tanto seu alvo se desesperasse para agarrar e fingir a vida, quanto seus vizinhos, que nem mesmo foram vislumbrados pela morte, sentissem a força do abismo que ali apenas se insinua.

Acho, acima de tudo, um tributo a quanto nossa filosofia e nossa visão de mundo consegue, de uma forma ou de outra, esquecer da morte, ignorando o corpo. A mente corre a montar o espetáculo ainda que pressinta a fragilidade das paredes de cartolina, e as pessoas que assistem a esse esforço tão cheio de pudor humilhante temem a consciência de que elas próprias, tanto quanto a quase vítima, não estão apenas na plateia, mas são também personagens sustentadas por uma estrutura de alguma forma ridícula, a qual tende a ser lembrada apenas quando falha.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Excepcionalismo Brasileiro

Um pioneiro da política brasileira
Tudo que falavam mal do filme Lincoln me dava mais vontade de assistir ao filme. Fui atrás, vi e realmente curti muito. Talvez o filme nem me parecesse tão interessante se esse tipo de narrativa fosse mais comum, mas a raridade de filmes sem ação, perseguição, tiros (obviamente aparece o mínimo de violência, pois se está na Guerra da Secessão) e casos de amor dá um gosto todo especial para a produção. Nada contra, na verdade, todas essas características em filmes, mas eu continuo com meu gosto clássico, achando que cada elemento de uma obra de arte deve fazer sentido dentro dela ou ter a graça certa do fortuito que não parece fortuito. Caso contrário, o elemento não deveria entrar.

Lincoln tem, é verdade, amor. Não tem é romance. Tem vários tipos de amor, especialmente o paterno, coisa difícil de ser vista sem frufrus idiotas. De resto, um pouco de amor conjugal, bem pouco. 

O principal no filme são ideias e discussões, e uma baita forçada de mão do presidente, que prolonga o conflito e limpa o chão com a Constituição a fim de usar escravos como sujeitos livres e criar o contexto para passar a emenda que proíbe a escravidão no país. E é isso, bem mais que a falta dos elementos que citei antes, o melhor do filme. Porque ele propõe, a meu ver, um debate bem capcioso, que a maioria vai querer ignorar no filme: os fins justificam os meios? No caso do Lincoln, parece fácil: nossa, quem seria contra ele torcer a Constituição do país feito pano de chão para poder libertar os escravos?

Bem, isso parece fácil dizer agora. A escravidão é uma verdade humana desde que existe Estado, talvez até um pouquinho antes. Durante a maior parte da nossa história, quase o mundo inteiro aceitava seus tipos de escravidão. É óbvio que os escravos não estavam sempre resignados com essa situação, mas, como um elemento da vida em sociedade, era aceito. A decisão de abolição, no século XIX, por mais que trouxesse séculos de questionamento filosófico e ético, ainda estava longe de ser pacífica. Como podemos definir que os fins justificam os meios quando ninguém tem claro, no calor do momento, o que é realmente certo ou errado? E até que ponto os fins podem justificar os meios, e quando estes devem começar a pesar?

O presidente dos Estados Unidos, morto há mais de século, pode justificar os meios pelos fins, jurando que está bem intencionado. O PT pode? O PSDB pode? O Psol pode? Se deixamos de acreditar no sistema político (não me parece que algum brasileiro realmente acredite), podemos passar por cima dos processos todos para conseguir o que é bom? E podemos ter certeza que é bom? E teremos a cara de pau de chamar de democracia, ainda que o efeito seja mesmo bom?

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Renan e as palavrinhas mágicas

Pra quem ainda não tinha entendido.
Situações como os incêndios muito próximos na (ironicamente chamada) Vila Liberdade e na boate de Santa Maria geraram reclamações na internet E ações práticas em respota. Muita coisa precisava e começou a ser feita para ajudar todas as pessoas que sofreram com os dois incêndios. Existiu muita reação vazia, claro, como os fechamentos em massa de casas que, até o dia anterior, estavam esquecidas de qualquer fiscalização mais preocupada. No entanto, houve atitude INCLUSIVE de muita gente que tipicamente só reclama no face desse tipo de coisa, mas não está mesmo envolvido em problemas situações dessa natureza, não trabalha em cargo público nem participa de ONG.

Renan Calheiros, ou qualquer outro político, fazer ou dizer barbaridades também causa muita reclamação em rede social, mas nada de ações práticas. Por algum motivo, nem a proximidade entre as duas situações parece ter destacado para os moralistas de face que se estava apenas reclamando no caso de Renan, não se estava tomando nenhuma medida, de curto, médio ou mesmo longo prazo. Dizer que sente vergonha, que "ele não me representa", que está em luto também por isso faz QUE diferença? Melhor colocando, eu entendo reclamarem, comentarem, fazerem piada, mas é deprimente quando começam a surgir os atos mágicos, as frases de efeito, os insultos de quem jura que o político vá (1) ler e (2) dar bola para esse tipo de coisa!

Espero que logo algum político se dê o trabalho de demonstrar o quanto o poder político está muito acima de meras palavrinhas, o quanto discurso vazio é papa de criança para um político profissional, e tire uma foto com o dedo bem levantado pra colocar no face: Vão tomar no cu!

Talvez isso desse alguma luz para que se entendesse que reclamação é uma coisa, atitude é outra.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Preço completo pela metade do serviço :)

Uma empresa veio fazer uma entrega aqui, mas deixou o produto (bem pesado) na porta do prédio, não querendo subir para deixar no ap. Eles informaram a maracutaia, "espertamente", depois de terem a nota da entrega assinada - afinal, ninguém esperava ou já ouvira falar de prática tão bizarra de entrega. O argumento, se posso chamar assim, era que um dos funcionários tinha se machucado há pouco tempo trabalhando (motivo para deixarem de fazer o serviço?) e já havia acontecido tanto problema com essa tal entrega (que, por exemplo, estava chegando quatro dias atrasada, nesse caso, 50% de atraso) que eles não queriam arriscar mais!!!!

O importante aqui, no entanto, não são os detalhes ou a retaliação dessa atitude. O importante é o raciocínio utilizado. Fiquei pensando em extrapolá-lo.

Digamos que um médico está com dificuldade de nos diagnosticar e prescreve um remédio errado. Não seria curioso se esse fosse o motivo para ele cobrar o resto do tratamento, mas passar a nos tratar ainda pior? Já que cagou antes, vai se dedicar menos...

Imaigine que chegamos numa loja e o atendente nos alcança uma roupa com um tecido que nos incomoda. De repente, ele decide que não vai mais nos atender muito bem, nem nos indicar nada, porque já houve problema naquele atendimento, então é melhor "não arriscar mais". No entanto, deveríamos pagar o preço de uma roupa nova, obviamente. O serviço foi tentado.

Algumas acusações em POA indicam até um funcionamento parecido no Pinguim, um bar grandalhão daqui. Supostamente algumas pessoas têm apanhado por discussões que começam em torno dos 10%. Agora, será que a polícia perguntou aos garçons se não estavam aplicando esse raciocínio dos entregadores? Vai ver eles começaram a atender seus clientes e houve algum problema, então passaram a atender pior, mas queriam o pagamento completo. Lógico!

Será que alguma prostituta que não está conseguindo excitar muito um cliente também para de tentar agradar o sujeito, mas cobra pelo serviço completo? Será que Bruna Surfistinha retratou alguma situações dessas?

A melhor extrapolação, para mim, seria em aula, claro. Quando começar a ter mais dificuldade com algum aluno neste ano, acho que vou diminuir o meu interesse e dedicação a ele, pra não arriscar mais, mas vou querer todo o respeito, o elogio e, claro, todo o pagamento de um serviço bem feito.

Enfim, a mente enlouquece com alegria aplicando essa lógica maravilhosa e tanto profissionalismo...

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Educação pela palavra #fail

Campanhas que começam com "todo X deveria ler isso" realmente me preocupam. Eu fico assustado com o fato de que as pessoas ainda acham que as palavras são o melhor meio de educação, e que ler um texto contrário à ideologia de alguém vai fazer a pessoa repensar suas crenças e suas práticas. É claro que isso é possível, na rara exceção de pessoas que já estão se questionando e, portanto, procurando respostas novas para ocupar o lugar das velhas, prontas a serem aposentadas.

Porém, a probabilidade de uma pessoa assim encontrar um texto desses justo sobre o tema em que está se questionando são suficientemente baixas para eu questionar a utilidade de se publicar isso tanto. 

Tenho visto mais e mais comprovações de que um problema ético não pode ser resolvido assim por palavras, e a palavra "ético" justamente indica o porquê. Bem se sabe que ela vem de ethos, que está ligada à ideia de um comportamento, idealmente bom para a maioria da comunidade. Muitas vezes é traduzida como "caráter" ou até "harmonia", mas isso é porque os gregos entendiam que o caráter se demonstrava no comportamento das pessoas - o que era visível em seu comportamento, cá fora, era a melhor expressão do que elas carregavam dentro (sim, eles tinham aquelas outras associações tão famosas entre aparência e verdade que tantas outras sociedades primitivas mantinham, mas pelo menos a ideia de ethos guarda uma boa tirada).

Enfim, isso é interessante se conjugado a outra ideia grega: a mímese. Esta é mais famosa pela arte, pois se discutiu por séculos qual a relação entre a arte e o mundo real com base na ideia de que o artista olha para o mundo e o copia de certa forma especial. Acontece que a mímese era base para muito mais que a arte, para os gregos. Eles observaram (e alguns, como Aristóteles, registraram essa linha de pensamento) que o ser humano tanto tinha prazer em imitar quanto aprendia muito por imitação, assim como outros animais que guardavam semelhanças conosco. Com o parco conhecimento que tinham do mundo que nos cerca (estou cruelmente comparando os gregos com a ciência atual, sem nenhuma mediação de propósito), eles podiam atribuir, por exemplo, as crianças andarem, usarem roupas ou falarem grego igualmente ao fato de que imitariam os adultos. Alguns adultos, por sua vez, viveriam do prazer dessa imitação que nos é natural, fazendo arte para as outras pessoas, que gostavam de ver a imitação do mundo sendo feita com particular... habilidade artística.

Bom, eles erraram em alguns exemplos, mas de fato a gente aprende coisas demais imitando, e outras tantas simplesmente fazendo (errando e tentando de novo). O comportamento é um elemento fundamental de nosso aprendizado - desde escrever até saber mexer na TV - e a participação do logos nesse processo, em todos os sentidos, não deveria nos fazer esquecer o quanto a mimesis é importante para o nosso ethos - comportamento, caráter...

Alguns didatos populares ainda hoje guardam indícios disso, como "diga-me com quem andas e eu te direi quem és" ou o irônico "faça o que eu falo, não faça o que eu faço".

É claro que tem gente que tem mais estômago que eu para essas grandes causas semi-impossíveis, de modo que a possibilidade de que um em dez milhões de leitores de um texto politicamente correto se questione e melhore sua conduta já é considerada um grande ganho. Então pouco importa que a melhor forma de educar alguém seja (1) dar o exemplo e (2) achar modos práticos de motivar e possibilitar uma mudança de comportamento de um sujeito; se ALGUÉM puder ser mudado pelo verbo, essas pessoas seguirão com as campanhas por textos auto-condescentes e megalomaníacos, de premissa tão errada, obtusa ou utópica. 

Por isso mesmo eu estou comentando isso no blog. Eu não saberia como dizer para essa gente que sua pressuposição inicial sobre pedagogia e ser humano é muito estranha ou restrita. E eu estou cansado de respostas utópicas e absolutamente prepotentes de todo e qualquer militante. Mas creio que posso comentar isso aqui, com os íntimos. Talvez vocês tenham uma boa resposta para o problema, ou possam começar a espalhar "a Palavra" contra a militância verbal, se tiverem estômago e senso de ironia. Mais ainda, talvez vocês saibam onde está o problema da minha visão das coisas e se sintam tentados a criticá-la. Qualquer uma dessas possibilidades me parece ótima e justifica gastar um tempinho escrevendo aqui ;)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Armadura e amor: tudo a ver!

Ironclad (Sangue e Honra no BR) é um filme ok, bem feito, bem atuado, que ainda de quebra mostra de forma mais interessante assunto tratado de forma absolutamente inverossímil no último Robin Hood (o do Ridley Scott, com, a meu ver, o desperdício de Russel Crowe e Cate Blanchett).

Apesar de tudo, o filme tem um pecado, que é tão comum que resolvi desabafar aqui: ele tem uma história de amor. Por quê? Por que todo filme tem que ter história de amor, até quando ele é sobre a resistência de um forte estratégico, sob liderança de um templário, contra a tentativa do Rei João de reverter a perda de poderes que precisou engolir dos barões uns anos antes?!

A única exceção que eu conheço para filme sem romance caído do céu é Volcano, mas talvez por isso mesmo tenham escalado Tommy Lee Jones e Anne Heche. Que eu lembre ela tinha recém declarado que era lésbica, o que pode ter dado certa margem ao roteirista (ou o motivado) para conter o affair inverossímil, mas contra as leis das produtoras, pelo jeito, quando o assunto é protagonistas. Obviamente que o impedimento no caso não eram os 23 anos de diferença entre os dois: no ano seguinte, ela teria um caso com Harrison Ford, 27 anos mais velho que ela, em Seis Dias, Sete Noites.  

Agora, e o que interessa aqui, há enorme diferença para esse último filme: eles terem um caso era central na história, já que ela fora para a ilha onde conhece o personagem de Ford exatamente para "reacender a paixão" de seu casamento. Ou seja, as coisas não estavam bem, e ela teve a sorte/azar de encontrar alguém muito mais interessante que o marido (interpretado por David Schwimmer, que aguentou uma prolongada suspeita de ser gay até revelar com quem era casado havia um tempão: surpresa, era uma mulher!).

Volcano é, então, a grata exceção, apesar de o filme não valer a pena, de uma história em que mocinho e mocinha não precisam descobrir que se amam só porque salvam o dia.  Em parte foi por lembrar dele, e então de Anne Heche, que fiz essa longa viagem pela homossexualidade superdiscutida de vários atores em Hollywood, mas esse assunto em si me interessa para o post porque o templário de Ironclad é (obviamente!) celibatário, obrigado a manter a castidade desde que entrou para a Ordem. A forma como uma ama explica à Senhora (não sei o título específico adequado no caso) do castelo protegido esse celibato, e o comportamento de um guerreiro desse tipo, é tri interessante. Isso passa por dizer que ele não gosta de mulher, sem que pareça uma afirmação de alguma homossexualidade. A meu ver, isso estava claro na cena, mas os produtores ou o roteirista devem ter pensado o contrário!

Fiquei imaginando se não foi um pouco provocação para rolar o casinho o roteirista colocar uma explicação da castidade dessa forma. Será que alguém realmente vai pensar que o protagonista e a protagonista não gostam do sexo oposto se não quiserem se comer lá pelos 70 minutos de filme? Seria esse o medo dos produtores? Porque as desculpas clássicas ("deixar o filme atraente para mulheres" e "todo o mundo gosta de uma história de amor") não funcionam MESMO para roteiros como o de Ironclad.

Se a mulher não quer ver um filme de homens vestidos de armaduras metálicas se retalhando e surrando (já diz na capa: blood will run!), não vai ser uma personagenzinha feminina previsível que vai fazer valer a pena o ingresso. Pior ainda: pela minha experiência, personagens femininas previsíveis são ainda mais tediosas para o olhar feminino e têm mais chances de incomodá-las que de interessá-las, a menos numa comédia romântica.

E todo o mundo gosta de uma história de amor se ela é verossímil e interessante para a história! No caso, o romance é absolutamente inútil. Ele obviamente envolve um abandono de votos do cavaleiro templário, mas isso já está posto desde o início do filme, quando sua permanência na Ordem é discutida. Ele só permanece templário até o fim do filme porque estoura a guerra civil em questão! O herói não aprende nada de novo se apaixonando pela mulher e isso não altera o desenrolar da guerra. Portanto: zero!

Mas veio o bloqueio, o cacoete, ou o que for, e tiveram que fazer a mocinha se interessar pelo mocinho, no caso uma jovem dura e consciente de sua posição e um experimentado guerreiro que lutou na Palestina e voltou! É ridículo, portanto, pensar neles nessa estrutura de mocinha e mocinho. Tirar o romance salvava quase uns 20 minutos de filme, creio, e o faria valer bem mais a pena.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Fantástico há de ser fantástico

"Fantasia? Sei... Tem atores que ganharam Oscar nas melhores atuações possíveis, efeitos especiais nunca antes vistos, bom relacionamento entre todo o cast, as melhores músicas do ano, o figurino mais perfeito que o cinema já produziu, os melhores lanches para os atores no intervalo...?"

Tenho considerado que o maior mérito do filme O Hobbit é não ter sido massacrado pela crítica. Melhor dizendo, acho que isso não ter acontecido indica que o filme é genial. Isso porque a literatura e o cinema de fantasia parecem ter penalidades constantes quando analisados por quem faz crítica de cinema (ou de literatura) para sites e, especialmente, para jornais.

Tenho visto de novo alguns filmes fantásticos (incluindo o próprio Hobbit, que assisti há bem pouco), dessa vez em proporção maior em relação a outros gêneros e, por contexto, tenho checado a crítica a esses filmes. Estou chocado com a idiotice que vejo e leio. O recordista foi um cara que publicou seus xingamentos a um filme (infantil) junto com as palavras de uma criança de oito anos que assistiu ao filme com ele (conforme o próprio cara). O sujeito malhava o filme por todos os lados, aparentemente sem notar que tudo o que a criança dissera, conforme ele próprio citava no texto, eram ótimos elogios. Ele concluía achando que o filme era provavelmente o pior que já fora feito...

Eu passei 2003 muito debruçado sobre literatura fantástica, o que culminou no meu TCC exatamente sobre isso, mas desde então fui ficando distante do assunto (não gosto de pesquisar sempre as mesmas coisas, mudo quase drasticamente de objeto, quando vou começar nova pesquisa). Por isso, talvez, tenha me esquecido de como a tolerância com esse gênero é baixa e como a crítica é cruel, desinformada, superficial, prepotente e apressada. É engraçado como até a ficção científica tem mais respeito, apesar de ter sido considerada inúmeras vezes uma "literatura fantástica com tecnologia". Talvez seja efeito da idade adulta de fãs de Star Wars, Star Trek e, agora, do The Big Bang Theory.

Bem, agora relembrei como, em geral, é estúpida a crítica ao gênero fantástico, da pior forma: redescobrindo todos esses defeitos na prática. O Hobbit, no entanto, mais ou menos escapa deles. Falou-se muita besteira a seu respeito, mas me parece que não foi malhado, o que é muito para o gênero, como disse. Isso, claro, descontando os elogios automáticos a produções que gastam muito dinheiro e os insultos de alguns superfãs de Tolkien. 

Espero que os outros filmes mantenham a ótima média, porque é um saco ter de se explicar por gostar de algo com qualidade enquanto filmes de ação e terror mantêm aparentemente passe livre para serem absolutamente previsíveis, mal feitos e mal atuados... - Nem todos, mas eles podem, enquanto o fantástico não pode nem ser "ok", tem que ser perfeito!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

É proibido caminhar

Na primeira temporada de Mad Men, há um escândalo na vizinha em que mora o protagonista: uma mulher é separada (é o começo da década 1960). Dada a estrita etiqueta da época e determinadas necessidades sociais de uma vizinhança sem internet, as pessoas convivem com a separada, mas em baixíssima tolerância.

Assim, a amiga da esposa do sujeito pode flertar violentamente com ele na frente da mencionada esposa, mas quando esta vê a separada meramente em pé ao lado do seu marido, fica com ciúmes e trata de pedir um favor para ele (favor a ser feito bem longe dali). Como se observa que essa mulher separada caminha pela rua (!), começa-se a especular aonde ela vai, e o fato de ela responder claramente que gosta de caminhar e o faz por lazer apenas piora as especulações a seu respeito.

Parece-me que toda a situação na série motiva pensamentos sobre grandes avanços da sociedade em relação à mulher, mas isso é chover no molhado de conquistas já feitas, o que raramente me parece o melhor aproveitamento de qualquer obra artística. O que é interessante, a meu ver, não é o que já mudou ali, ainda que seja bom lembrar quantos direitos femininos foram conquistados e quão idiotas costumamos (homens e mulheres) ser desde que boa parte da sociedade concorde com a gente.

Ainda assim, o que acho mais interessante é o que não mudou. Ainda hoje, decidimos os grupos que prestam e os que não prestam majoritariamente por motivos idiotas. O apoio de alguns amigos (se não de grande parte da população) é necessário para a ideia ganhar realmente mínimo mérito. Então, racionalizações vêm fazer o seu papel para crermos que não estamos sendo idiotas, mas extremamente lógicos. O próximo passo, ainda hoje, é não perdoar nem por andar na rua as pessoas que discordam de nossa visão.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Ser ou não ser idiota

Às vezes, quando cometo um erro idiota, como trocar uma palavra por outra por associação no post anterior (agora corrigi), e ninguém me avisa, eu fico com uma pulga atrás da orelha. Pode ser que o erro fosse idiota o suficiente para todos pensarem que foi um ato falho, portanto indigno de nota, e também é possível que tenham passado por cima do erro e o cérebro deles tenha cometido o mesmo ato falho ou simplesmente corrigido o que eu escrevi errado, de modo que não notaram o problema ali.

Por outro lado, eu sempre imagino que algumas pessoas notaram, e fico pensando se acharam que meu erro não era mesmo digno de ser comentado, mas era um erro verdadeiro. Ou seja, se pensam que eu realmente não sabia a diferença entre uma coisa e outra. (Podem ainda atribui-lo à pressa de escrever, o que sempre é verdade no meu blog nos últimos anos.)

Essa suspeita (de me acharem idiota ou ignorante para além da verdade) surge porque me parece comum que as pessoas pensem que somos mais burros ou mais inteligentes do que somos. Isso é especialmente perceptível nos implícitos de conversas que temos cotidianamente. Geralmente, aliás, as pessoas acham que somos mais burros do que somos, mas grandes imagens gerais de nossa personalidade podem ser um retrato de que somos mais inteligentes do que na realidade.

Nunca observei se todo o mundo faz isso, mas sei que eu reforço sem querer uma ideia de que sou mais idiota. Faço isso especialmente de duas formas: fazendo perguntas pressupondo um ponto de vista que não é o meu, para testar o quanto as pessoas sabem sobre determinado assunto e se podem me acrescentar algo pontual, mas nunca esclarecendo realmente qual era o meu ponto de vista; e deixando me acharem mais idiota quando percebo isso implícito numa resposta ou conversa, se estou com preguiça ou desinteresse de esclarecer o que estava pensando ou entrar de fato na conversa.

Na maioria das vezes, é verdade, considero vantajoso que nos achem idiotas. Quando necessário, se for, podemos pegar as pessoas de surpresa, e elas abaixam a guarda em muitos aspectos se acreditam que somos menos espertos, perspicazes ou ligados que de fato somos. Ser tratado como idiota, portanto, muitas vezes tem vantagens, mas é preciso cuidar da imagem em um que outro contexto. E às vezes essa imagem não traz ganho algum, então acaba cansando. Mas às vezes, claro, simplesmente somos mesmo idiotas.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Entre o Natal e o Ano Novo

Entre a data de comemoração convertida de um solstício que não tem mais o poder de afetar nosso cotidiano como tinha quando os humanos começaram a comemorá-lo e a data que marca o fim de um ano e o começo de outro, entendo realmente que o segundo seja comemorado e o primeiro não. Afinal, o segundo perdeu o caráter divino que tinha em algumas tradições, mas se baseia num fato: tudo que ainda cicla vai ciclar.

O clima quente vai voltar a ser frio, ou vice-versa, para então retornar ao estado "inicial", o trabalho vai mais ou menos se repetir, em sua estrutura fundamental (se mudamos de emprego não vamos sentir repetição, mas sabemos que ela está lá), as pessoas que saíram da cidade vão voltar e passar mais uns 300 dias fazendo mais ou menos o que fizeram no ano anterior até o momento de sair de novo de férias e comemorar o novo ciclo...

Então, eu entendo que adultos comemorem o Ano Novo. Quanto ao Natal, me parece fazer mais sentido para adultos religiosos (que não sou) ou com filhos (que não tenho). A obrigação de comemorar o Natal como data mágica me incomoda por isso mesmo. Por outro lado, eu entendo a ideia de valorizar uma data como desculpa para encontrar a família, especialmente gente dela que quase nunca se vê. Ainda assim, tem sido mais e mais difícil para mim conseguir comemorar desse jeito, então o quadro geral do Natal fica problemático. Comemoração religiosa, com restrita parentada e a expectativa de frases mágicas em que eu acho que nenhum presente deveria acreditar (não por obrigação de desacreditar, mas porque não condiz com as pessoas, já que convivo com pessoal de religiosidade muito baixa, salvo raras exceções) - especialmente, acho que ninguém deveria achar que eu acredito nessas frases, já que me conhecem há muitos anos.

O Natal, mesmo assim, tem uma força a seu favor quando a questão é respeitar a data alheia: quase todas as pessoas que eu conheço parecem mais sensíveis a que o Natal seja respeitado que a data do Ano Novo. Isso significa que o risco de magoar alguém se ignorando o Natal é maior. Então, se é para comemorar uma data para valer, apesar de todos os pesares, eu me sinto meio forçado a apresentar mais respeito pelo Natal, apesar de respeitar mais o Ano Novo, como data comemorativa.

(Devo acrescentar aqui, a favor do Natal também, que eu curto os momentos em que estou com quem o curte bastante, porque sempre gosto disso. Gosto de falar sobre bandas com quem é muito fã delas, sobre livros com quem é muito fã deles, e assim por diante, mesmo que eu não curta o livro, a banda, a data... Acho interessante e muito bom. O pré-requisito óbvio é que a curtição extrema do Natal, ou do Ano Novo, que esteja sendo manifestada não se baseie em algo que eu considero extremamente equivocado, como esperança no número do Ano ou na bondade humana, mas eu não preciso, de qualquer forma, concordar com o motivo da pessoa, basta que não seja ingênuo de uma forma infantil.)

Nesse equilíbrio todo, o que tem acontecido de fato é que as duas datas terminam no mais-ou-menos. O Natal acaba sendo a data em que passo melhor (mais tranquilo, melhor acompanhado, gastando menos dinheiro...), mas num mal-estar ideológico (meramente por estar gastando energia em algo que não valorizo, o que é o suficiente para alguém pouco festeiro como eu). O Ano Novo, data de pelo menos algum valor para mim, termina por parecer sempre mal comemorado, insatisfatório, sempre lhe falta algo. Afinal, a data é para mim, a ênfase na comemoração (no grupo, na festa em si) teve de ficar no Natal (não tenho recursos nem domínio social para comemorar bem as duas datas).

De fato, a comemoração do Ano Novo não chega a doer, nem a do Natal, mas aurea mediocritas não me parece ser a maior receita de comemorações de férias a que se possa almejar. O equilíbrio entre as duas datas, no fim, acaba provocando exatamente isso. Acho bom dizer, para garantir, que nenhuma das pessoas que passou essas datas comigo E que lê este blog está incluída na lista das minhas incomodações, mas que estas abundam, abundam.

Enfim, hoje é dia 2: hora de eu correr atrás de reparar os danos que tanta "festa" provocou. Boa sorte de 2013 em diante a quem passar por aqui.