Às vezes se discute (particularmente na Letras, concedo...) se a literatura é dominada pela política, ou o quanto a valorização estética da literatura, da arte em geral, de fato, deve às nossas alianças e crenças políticas. Países que valorizam bastante a língua tendem a valorizar muito a própria literatura também, do que a França é o exemplo típico, e isso gera uma série de discussões e análises especializadas que dão mais facilmente a impressão de não depender nada de se ser de esquerda ou direita, mas mesmo nesses casos tende a ser relativamente fácil encontrar, no fim das contas, certas crenças ou valorizações que denotam uma estranha "interferência", uma certa relação complicada e subreptícia entre o campo da política e o da literatura.
A semana passada deu dois bons exemplos para os defensores da tese: Chico Buarque e Paulo Coelho. Bom, sendo sincero (como quer o título do blog), o Chico não é assunto só da semana passada, mas vem se estendendo há um tempo. Esbarrei no caso dele de novo na semana passada, como vou explicar.
O caso do Paulo Coelho é o mais simples e óbvio. Mas me chamou a atenção pela forma como surgiu na minha frente: um colega apontou para a foto do escritor no jornal e disse "Tu acredita nesse cara? Vê se esse cara pode se chamar escritor!?", a que uma colega acrescentou com um tom que mesclava levemente medo e escândalo: "Tu viu que proibiram a obra dele no Irã?" Eu fiquei intrigado, porque só poderia ser política, ou religião, ou ambos, porque ambas se mesclam de forma particular no Irã. E eis que era política da mais simples e direta possível, sem um argumento religioso precisar se meter no meio, o que é difícil para a diplomacia internacional daquele país, pelo jeito. Para quem não ficou sabendo, o melhor resumo que conheço do drama até então está
aqui.
Este, no entanto, é um exemplo muito simples, direto e extremo. O caso do Chico é mais interessante. Desde que ele disse que apoiaria a Dilma, tem virado assunto mais do que era comum nos meses anteriores. Não digo só na mídia, apesar de que tenho essa impressão também, mas vejo surgindo nas conversas mais ingênuas e sem pretensões. Absolutamente do nada alguém acha que é hora de falar mal do Chico. Só que não falam mal dele politicamente. Ou até falam, mas é detalhe. Vejo pessoal falando mal de suas músicas e de seus livros, sem argumento ou razão aparente (suspeito, não?). Não é que todo mundo deva gostar dele, é que todo mundo parecia gostar dele antes de seu apoio à Dilma. Quantas vezes não ouvi falarem que Chico era unanimidade? Bom, depois de apoiar uma presidente em eleição que dividiu o Brasil, não mais.
Agora, também não é que as pessoas que não gostavam dele "tenham finalmente tido a coragem de falar". Não: o pessoal apela para nada. De repente todo mundo esqueceu o que é eu-lírico, verossimilhança, ritmo, efeito, metáfora, mímese. O Reinaldo Azevedo, aliás, reclamou de uma imagem de uma música dele ser de Shakespeare! E tachou de plágio!? (Além de a reclamação ser bizarra e a "descoberta" merecer as aspas, para dizer o mínimo das duas, não existe nada mais seguro que ser acusado de plagear Shakespeare.) De repente o Reinaldo pára de criticar o governo para vir com esse papinho? Eu esperia mais, se não concordasse com a tese que alia estética e política intimamente.
Mas não estou comentando só a postura de "intelectuais" ou acadêmicos, quero dizer que as pessoas estão esquecendo seus instintos amadores para esses assuntos que têm nomes complicados na estética. Porque a gente pode nunca ter pensado em verossimilhança interna, mas ninguém acha absurdo que o Super-Homem saia voando para salvar a Lois Lane, se estiver vendo um filme chamado "Super-Homem". Ou, num caso mais aplicado, ninguém que preste atenção em três letras de músicas brasileiras vai achar que um intérprete não pode cantar uma música em que o eu-lírico é feminino sem caracterizar uma saída do armário.
Primeiro foi aquela "moralização do Jabuti", em que uma notícia mal saiu e, sem verificação ou conferência alguma, já tinha lista na Internet querendo que o Chico desse lição de moral na banca e entregasse o prêmio. Não estou dizendo que prêmios literários não devessem ser éticos. Deveriam, claro, imaginem um mundo maravilhoso em que isso fosse verdade sobre algum prêmio literário. Mas quantas vezes vocês já viram campanha pública para que o Jabuti fosse ético antes de o Chico se posicionar pró-Dilma? Com certeza não em 2008, quando confusão semelhante ocorreu. Aliás, entre o pessoal envolvido com o Jabuti, o Chico é mais um caso num histórico. Essa briga não é de agora. Se era para moralizar, por que não se começou logo com a campanha "Galera, devolvam os Jabutis"?
Bom, no caso, a retórica de campanha estava muito animada e pulou sem mediação das eleições para os reclames literários. Não pegou. Daí, o pessoal começou a questionar a estética do Chico. Não sei se o disfarce convenceu alguém. Eu acho difícil de engolir. E é claro que muitas de suas letras são ostensivamente politizadas. Ele não é exatamente um compositor tão arte pela arte como, digamos, Tati Quebra Barraco, autora de músicas voltadas ao cotidiano como "Dako é Bom", uma artista que, ao que me parece, não abriu seu voto. Letristas como ela não provocam abaixo-assinados virtuais reclamando postura ética, é claro.
Agora, na verdade, do meu ponto de vista, as pessoas não estão fingindo questionar a estética do Chico, estão mesmo fazendo isso. Porque eu concordo que nossos gostos tenham relações íntimas com nossas filiações políticas. Em geral isso não é tão claro quanto no caso do Paulo Coelho ou do Chico, mas os dois exemplos são bons para se começar a conversa (não estou dizendo, por exemplo, que todo o mundo que curtia o Chico e votou no Serra agora odeia as músicas do cara).
E é claro que o Chico não vai ser afetado drasticamente por essa recente tachação de "machismo", "mau-gosto", "plágio", "homossexualismo", "falta de voz" ou o que mais quiserem indicar em suas músicas como grande descoberta ou insight genial de crítica. Porque ele não é o verdadeiro alvo dessas pessoas. Quem tenho visto se manifestar a respeito, do que o Azevedo é o exemplo mais óbvio, está falando mal do Chico para criticar quem votou na Dilma. E é assim que a literatura sai da Academia para a vida. De vez em quando ela xinga a polícia, apoia um governo, louva um presidente, e então é algo a se debater. No resto do tempo, a única literatura que interessa, e não interessa disputar seu valor neste post, é a que vende um monte (e o Chico vende, mas não se compara), de preferência virando filme ou trilha-sonora. A literatura mais cult, digamos (permitam-me essa divisão grosseira por motivos didáticos), só vira assunto quando toma partido. E é quase engraçado quando a reação direta a essa tomada de partido se quer uma crítica "desinteressada" ou, com um eufemismo muito maldoso, "honesta".