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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Mais Mafalda!!!

Um exemplar mais a mão, entre outros possíveis...

Eu sou um fã atrasado de Mafalda. Fiquei sabendo da personagem no início da faculdade, ou um pouco antes. Todo o mundo falava muito bem, ou ficava quieto por não achar, aparentemente, que poderia falar mal ou demonstrar indiferença. Não observava o mesmo silêncio de ignorância como o meu. Consegui ler realmente mais coisa do Quino apenas depois de um bom tempo - afinal, entrar em Letras é também descobrir que toda a literatura que já lemos não é nada nem para uma simples conversa de bar.

Como foi verdade com outras leituras, fui gostando mais e mais, com o tempo. Nunca conseguia, mesmo assim, localizar por que achava essa graça tão particular nas tirinhas. Agora, acho que encontrei: gosto do problema proposto, que é, a meu ver, a dificuldade de se comunicar em outra língua. Mafalda não fala "sucesso" quando abre a boca, nem todas as coisas atreladas a isso geralmente. Ou seja, ela questiona a ordem do mundo, sem confundir as pessoas que realizam essa ordem no microuniverso do dia-a-dia com a ordem em si - ainda que reconheça que tais pessoas possam se tornar meras ferramentas, esquecendo elas próprias outros aspectos de sua existência. Ela pressupõe que exista um ser humano (no sentido rico, variado, do humanismo) no policial, ou até mesmo no político, e sente seu direito de cobrar dignidade e juízo desses indivíduos.

Com exceção do momento em que decidi fazer Letras e de quando me encaminhei a dar aulas, poucos confrontos tive com o discurso do sucesso ou da ordem das coisas - dos desejos que devemos ter, das ordens que devemos seguir sem questionamento possível. Geralmente eu parecia ir nessa direção, porque o que eu queria coincidia com a ordem óbvia. Procurar emprego, por exemplo, faz as pessoas acharem que estamos querendo "crescer na vida" e coisas tais. Mas é possível procurar emprego, sei lá, para se sustentar, sem confundir carreira com vida, nem trabalho com única possibilidade de realização pessoal. Eis que agora sou todo dia confrontado com a exigência ou pressuposição de que eu deveria querer dinheiro, tanto por ele próprio como para fazer coisas que propagandas de margarina e filmes de Sandra Bullock implicam ser o ideal universal. Estou impressionado com a força e a acriticidade desse discurso nessa minha pacata cidade, tão longe de Hollywood... E me surpreende que eu precise desenhar para as pessoas que, a Sandra Bullock, prefiro Mafalda.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Uma citação, pra recuperar o hábito

"Without science, everything is a miracle. With science, there remains the possibility that nothing is. Religious belief in this case becomes less and less necessary, and also less and less relevant." Lawrence M. Krauss - A Universe from Nothing

sábado, 15 de outubro de 2011

Ironias da vida e da pós-vida

"I was an Irish Catholic.. and I had to quit the Catholics... because they were after my soul!" 

George Carlin

sábado, 27 de agosto de 2011

O valor da ignorância

Para fazer uma analogia no meio de uma conversa um tanto descompromissada, lembrei de um cientista dizendo que as afirmações de OVNIs têm seu fundamento argumentativo na ignorância: "Olha lá! O que é aquilo? Não faço ideia do que seja, só pode ser um alienígena de outra galáxia querendo isso e aquilo!" Ele também ressaltava o aspecto "não identificado" da sigla, concluindo que as opiniões dessas pessoas deveriam terminar no "não faço ideia," em vez de se partir daí para uma "conclusão".

Essa minha amiga é particularmente apegada a duas coisas: ideais alternativas sobre a realidade (formas de se construir o mundo além do racional-metódico-matemático, ou seja, ela é um tanto relativista) e apegar-se a analogias para as discutir em vez de seguir a conversa aproveitando apenas aquilo que se aplica ao verdadeiro assunto. Portanto ela pulou com tudo sobre a minha analogia para afirmar que outras formas de se entender o mundo, no caso, a crendice popular (não usou esse termo) tinha dignidade a ser respeitada. Eu contra-argumentei que a questão não era se havia diferentes formas de se ver o mundo, ou que algumas delas sejam suficientes, interessantes ou bonitas conforme o local em que nos colocamos; o problema apontado pelo físico era que, no momento em que uma forma de conhecimento não científica é afirmada como verdade científica (caso exato da cultura acerca de OVNIs em revistas e diversos grupos) tem-se uma enorme catástrofe de conhecimento.

Agora, devo dizer que essa valorização da minha amiga me parece bem mais comum do que aparenta. A enorme maioria das pessoas que conheço (ela incluída) não acredita em OVNIs. Daí a dizer que essas pessoas ou eu não acreditamos em coisas sem fundamento científico é bem diferente. Como disse, até aí tudo bem, desde que não afirmemos essas posições como verdades práticas absolutas, mas é o que geralmente fazemos. Existem coisas que a ciência não explica, mas a maioria de nossa ignorância poderia ser resolvida por uma boa ciência, dura ou humana. Quando se diz que algo é cultural ou genético, quando se diz que determinados costumes são bons para o cérebro ou para o corpo, quando se afirma uma série de coisas sobre religiões (ou sobre o mundo com base em religiões), todo o mundo fala como se dissesse algo com o mesmo status de verdade que a gravidade. 

Como não conseguimos vencer todos os nossos preconceitos, estudar todas as áreas de conhecimento ou atentar para tudo que existe no mundo com o mesmo nível de dedicação, cuidado e sutileza (como a maioria dos seres humanos é capaz de muito pouca sutileza), geralmente aceitamos que existe um grau de ignorância aceitável, desde que a pessoa não tome posições fortes nas áreas que ignora. Existem apenas alguns problemas nessa aceitação: o que não entendemos é a enorme maioria dos aspectos de nossa vida, de fato tomamos posições fortes nas coisas que não entendemos e ninguém é capaz de determinar até onde a ignorância pode ser inofensiva. Quanta política, economia, educação, engenharia, biologia, geografia, história ou o que for podemos não entender sem que nossas decisões baseadas em tal ignorância sejam graves? Acaba-se em geral elencando autoridades midiáticas de nossa preferência, o que pode também ser bastante desastroso.

Há uma discussão muito em voga atualmente que transita por esse problema: quão preconceituoso alguém pode ser sem que isso afete os alvos de tal preconceito? O quanto se pode confiar que uma pessoa preconceituosa vá respeitar a liberdade de pessoas agirem contra suas crenças na mesma medida em que espera que suas crenças preconceituosas sejam respeitadas como liberdade?

O problema, em todos os casos, envolve curiosamente questões estéticas: há tanto um problema de quão bonito se quer que o mundo seja (ou seja, qual o ponto de conforto que nossa ignorância nos garante) e quão bonita é a expressão de uma cultura que entende mal o mundo (ou seja, o quanto devemos valorizar uma cultura, aceitá-la em sua vida e produção, mesmo que saibamos que suas crenças são infundadas). Nada indica que um conhecimento mais profundo do mundo poderá servir também como uma base igualmente confortável quanta nossa posição primeira. Um dos aspectos em que ignorance is bliss. A maioria das pessoas não quer o conhecimento se ele ameaçar um grave caso de pânico ou depressão. Do meu ponto de vista, ignorar o conhecimento por esse medo já é viver em pânico, um que está anestesiado pela auto-afirmação de nossa certeza no que desconfiamos que possa não ser verdade.

Por exemplo, parte das idealizações de Nietzsche a respeito dos gregos foi justamente assumir que eles eram superficiais por opção. Que eles "entenderam" que não havia uma experiência transcendente real, uma existência metafísica que negasse o mundo, de modo que sua religião, cultura e filosofia se posicionavam na parte bela e incrível da existência sem mencionar o extremo vazio que a subjaz. Não havendo nada de transcendente, os gregos "optaram" pelo estético, pela aparência, pela vida como ela se lhes apresentava, em vez de sonhar com um pós-vida maravilhoso e estável ou com deuses puramente perfeitos e imateriais.

A ideia do Nietzsche parece mais absurda se não conferimos o quanto pessoas que mentem para si indicam saber que o fazem, se forçamos um pouco. No mínimo, sabem que não questionam determinadas coisas por medo. Idealizações à parte, existe uma coisa que Nietzsche defendeu e que sempre me pareceu também uma conclusão necessária, algo que indica o problema em tudo isso: é preciso se ir até o ponto de que não há retorno.

Do meu ponto de vista, a ingorância sempre pode ser nociva. O conhecimento carrega consigo uma ética necessária: o constante desenvolvimento do que se sabe. Por mais bonita que nossa fantasia sobre a vida possa ser, e por mais que o esquecimento seja importante para a nossa vida como animais, não consigo aceitar que o desconhecimento seja aceito como um valor com o mesmo peso que o próprio conhecimento - que é o que se está fazendo quando se diz que um grupo pode desenvolver sua explicação para um fenômeno baseado em suas crenças, sem que se busque explicações lógicas para o mesmo fenômeno, e que tal confusão não pode ser questionada. É verdade que as mitologias, que as identidades nacionais ou etnológicas ou que outras construções sobre a vida possam ser agradáveis ou bonitas, mas no fim ainda se está optando pela ignorância. Ainda se está defendendo, noutros casos, que um grupo saiba menos do que aqueles que "valorizam" aquela determinada cultura. 

O próprio conhecimento sofre com isso também, pois sua evolução depende de trânsito e de trocas. Todo grupo "aceito" em suas crenças é um grupo que deixa de contribuir. De nada adianta que mais cedo ou mais tarde se conclua que uma anedota perdida lá no meio daquela cultura era superficialmente "verdadeira" (por exemplo, se associar a possibilidade de que a primeira vida na Terra tenha se gerado em poças no barro com o mito de Adão ser formado do barro). Seria como dizer que um esquizofrênico é dono de verdade científica já que a unidade de nossa personalidade é uma ilusão construída cerebralmente.

Não podemos atacar tudo que não sabemos ao mesmo tempo. Mas, mais cedo ou mais tarde, fica gritante demais, para mim, que a valorização de qualquer afirmação sobre a realidade acaba sendo a escolha entre se apoiar o conhecimento ou a ignorância. Até que ponto podemos e devemos acatar ou defender a ignorância só porque ela nos agrada?

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Pelo amor de Deus

O pior de ouvir um político justificar suas ações com base em Deus é que se ele se justificasse baseado em justiça, moral, ética, dever, coerência... ninguém acreditaria. A (enorme) maioria da população suporia simplesmente que era balela e que na verdade ele estava apenas fazendo onda para ganhar votos, além de ter tido algum lucro, financeiro ou político, em sua decisão. Mas, quando o político fala que fez algo por Deus, um monte de gente acredita! Quem o critica pode facilmente ser jogado num saco que engloba críticos de Deus, da religião na política ou do partido específico do fulano. Além de se supor, nesse acúmulo bizarro de críticos variados num só grupo, que seja impossível acreditar-se em Deus sem se acreditar em políticos, tal movimento retórico busca alavancar moralmente o tal político ainda mais.

Ironicamente, parece que quase todos os brasileiros acreditam que coisas estranhas como justiça, moral, ética ou senso de dever deveriam nortear nossa política. Pouquíssimos brasileiros parecem crer que Deus deveria fazer o mesmo. Pior ainda, um Deus que mais se preocupa com homossexualismo do que com todos os valores acima, feliz em virar a cara para corrupção, estelionato e miséria a fim de dar o que é de César a César, Marco Antônio, Cleópatra, Otávio, João, Maria... desde que esses nomes, é lógico, refiram-se a parentes, por sangue ou casamento.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Sem passado... somos presentes

Se tem uma coisa muito "pós-moderna" do meu discurso é que realmente sustento que o passado não existe, a não ser como construção atual. Isso geralmente é mal interpretado (por defensores e detratores) para se dizer que o passado não existiu, não foi um fato, ou que nenhuma versão a respeito dele possa ser mais verdadeira que outra simplesmente porque todas seriam versões. Do meu ponto de vista, isso é mais ou menos como raciocinar da seguinte forma: uma pessoa andando de bicicleta nunca estaria totalmente equilibrada, porque ela está sempre construindo esse mesmo equilíbrio. Se o equilíbrio é um ato contínuo, nunca há equilíbrio de fato, e daí se conclui que uma pessoa caída no chão e um ciclista em movimento suave e elegante estão pedalando igualmente mal.

Não: "o passado só existir como construção atual" quer dizer que o passado precisa ser "atualizado", para entrar em questão, para ser. Ele precisa ser referido, sendo sempre, SEMPRE, atualizado por algum motivo. Obviamente, ele só é atualizado, então, para servir esse motivo. Talvez algum chato encontre uma situação limite em que ele pudesse ser atualizado só por ser, não sei se é possível, mas tenho ótimos motivos para crer que, se atualizado apenas por isso, o passado evocado seria também imediatamente esquecido. O passado é sempre um argumento, é isso. Portanto sua existência só nos interessa em relação ao presente, e mesmo a pesquisa científica do passado é uma luta para justificar o presente ou para questionar esse presente e a teoria que o justifica. 

Por isso mesmo precisamos sempre ser lembrados do passado (relevante - mas "passado relevante" é meio redundante: não seria lembrado se não fosse, de alguma forma, relevante). Não adiantou se inventar o gauchismo, por exemplo (particular invenção de passado, já que "invenção", aqui, como bem se sabe, é muito literal, longe de depender de um pós-modernismo lexical). É preciso que a cada, ano, a cada jogo regional, a cada notícia sobre relações políticas entre RS e Brasília, a cada gaúcho no noticiário nacional, enfim, a cada momento que for possível ele seja ser reafirmado. O mesmo para o nacionalismo, o anti-colonialismo, o ódio a ditadores, o horror com o Holocausto... 

Agora, não é porque o passado de fato ocorreu (mais ou menos inacessível ao nosso conhecimento) que a afirmação "o passado só existe como construção atual" não o fragilize severamente. Sim, o passado sai quase paraplégico dessa afirmação. Porque isso significa que o passado não justifica ações atuais. Não por si. O que o passado faz é dar uma desculpa "racional" para que justifiquemos ações que queremos fazer agora, seguindo o que sentimos no presente, seja esse sentimento racionalmente confeccionado ou não. Não é perder um filho que justifica o choro, mas a dor, presente, da falta do filho. É ela que evoca o passado, para embelezá-lo e engrandecer a dor presente, dar-lhe mais cor num masoquismo que pode nos parecer totalmente justificável, mas que nem por isso dá solidez ao passado. Para dar um exemplo meio extremo, um psicopata que não chorasse a dor da perda de um filho ainda seria capaz de reconhecer o fato de que tinha um filho e agora não tem mais. Ele não choraria porque lhe faltaria a dor, mesmo que tivesse conhecimento sobre o passado. Ele esqueceria em segundos o fato (estaria na memória, mas não seria conscientemente atualizado a cada milésimo), desinteressado pela falta de relevância presente para aquilo.

É óbvio que podemos reconhecer os sentimentos de outras pessoas em relação ao passado, como podemos entender por que um pai ou mãe está chorando a morte de um filho, mesmo tempos depois, e podemos lhes dar seu tempo ou respeitar sua expressão de sofrimento; não estou falando contra a empatia. Mas o passado como argumento não é apenas filosófica ou subrepticiamente falso, chega a ser, em casos mais graves, pernicioso. Assumir que ele só é evocado para justificar interesses presentes é dizer também que ele é usado para ocultar esses interesses. O conflito é atual, o interesse é atual, a justificativa é passada? Não, a justificativa é um apego, um sentimento, um interesse, todos sempre atuais. Nossos sentimentos não vêm do passado, mesmo que assim os associemos, eles nascem e se formam hoje, aqui e agora

Novamente, isso não quer dizer que o passado não tenha existido. Mas ele só existe (presente) como racionalização, teoria, desculpa ou justificativa mágica. "Dívida histórica" (negra, colonial, palestina, israelita) é um conceito mágico. Existe uma herança direta de uma série de problemas que deve ser resolvida dentro dos conflitos atuais e de necessidades que podem ter raiz no passado, mas essa raiz precisa ser traçada materialmente, só interessando por suas consequências atuais. Se lidamos com consequências atuais do passado, é porque estamos ligados a conflitos atuais. O passado, religioso, combatente ou crimonoso, nada pode cobrar do presente. Parece tautológico, mas precisa ser dito: o passado não existe mais. Seria uma grande ajuda deixar de mistificar conflitos presentes com as máscaras do passado.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Moral sem Deus: um problema dos outros

Godkiller, godsavior
O grande verbo do pensamento, para mim, é encafifar. Certas coisas me deixam encafifado, outras não, mas aquelas têm esse poder à revelia de minha vontade ou proposição inicial. Isso chega ao ponto de eu herdar questões de outras pessoas: um sujeito menciona uma dúvida na minha volta, mas ele mesmo não tem vontade de pensar a respeito no momento. Não importa, se me deixou encafifado, lá vou eu, às vezes semanas a fio, tentando matar a charada, independente da curiosidade ou não do provocador ingênuo. Isso é particularmente verdade quando o problema é ético, moral, pedagógico, linguístico, artístico ou existencial. Agora, o mais curioso é que, às vezes, eu consigo até mesmo esquecer que herdei a questão, já que problemas encafifadores são importantes em si mesmos para mim. Se a pessoa que provocou meu raciocínio foi outro ou não, em geral pouco importa.

Mesmo assim, acho interessante descobrir quando o problema foi gerado por outrem, porque às vezes ele não nasceu meramente de outra pessoa, mas por aquela pessoa chegou a mim um problema gerado por outro grupo, um grupo a que não pertenço, e que tende a gerar aquela pergunta para um grupo a que eu realmente pertença (p. ex., um problema classicamente proposto por militantes para cínicos). É significativo, nesse caso, descobrir que aquilo que me encafifava não é apenas um acidente com que trombei individualmente, mas que essa trombada individual é tecnicamente como aquele "outro" grupo tenta prender, atacar ou anular o "meu" grupo. Foi com uma descoberta dessas que me deparei nesta semana.

Um problema me encafifara (há alguns anos): "como fundar uma moral sem um absoluto transcendente, como Deus", supondo que a pessoa concorde que uma moral é necessária, ou seja, que o relativismo cultural absoluto e o oba-oba não são conclusões que podemos aceitar para a vida humana na Terra? Eu tinha a minha resposta para a questão (e optei, sim, por uma moral), quando comecei a ler (há poucos dias) "Em que crêem os que não crêem", uma conversa pública entre Umberto Eco (representando os ateus, o que achei um tanto estranho, por mais que ele não acredite num Deus pessoal) e o cardeal Carlo Maria Martini.

O livro traz, depois da "conversa" (bem entre aspas), comentários de outros pensadores sobre exatamente esse problema moral, motivo das últimas "cartas" entre Eco e Martini. Logo de início colocaram um pós-moderno radical (interessante), depois um spinoziano e assim por diante. Ora, o pós-moderno coloca uma coisa que me fez me sentir muito idiota por ter esquecido: quem põe o problema da moral sem o Absoluto metafísico são os monoteístas; não são os ateus que se propõem esse problema. Mesmo historicamente isso foi assim, eram os monoteístas em crise, pressentindo o ateísmo em tocaia nas suas mentes, que levantavam a questão.

Nossa, como eu posso ter me esquecido disso? Eu realmente considerava o problema válido para ateus, não para religiosos, mas ele surgiu na minha cabeça primeiro por Pascal, e então decentemente por Kant. Depois, sempre foram monoteístas que me surgiram com ela, até recentemente um católico num almoço e, por fim, no livro, o cardeal, propondo-a para Eco! 

Isso é interessante para o lado sociológico da discussão, não tanto para a lógica de sua solução, mas foi engraçado que eu tenha deixado passar que, no fundo, pensada assim, essa pergunta é outra modalidade, bem mais sutil e delicada, do velho argumento "medo" a favor da religiosidade (a ideia aqui não é simplificar, só mostrar um outro ângulo). Ela é um pouco mais daquele "imagina se" que propõe um mundo sem religião apenas para assustar, ou que coloca a possibilidade da religião para o ateu apenas para indicar que é mais seguro seguir o caminho monoteísta, nem que seja só para garantir. Tecnicamente eu acho que Pascal e até Kant não ficaram muito longe disso, pelo menos no sentido de que Deus acaba sendo "útil", fundado no homem, para eles, ainda que fossem crentes. Como Nietzsche disse, Kant matou Deus, só que foi necessário que Nietzsche viesse para proclamar o crime. E foi tal assassino um dos que pôs o problema da moral sem Deus de uma das maneiras mais complexas e convincentes.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Julgamentos

Expressei por implícito, ontem, não acreditar em Deus, num almoço entre colegas. Imediatamente um teísta veio me dizer (um pouco, bem pouco, perguntando) que é impossível um ateu afirmar uma moral universal por não ter um fundamento metafísico para sua conduta. Eu disse qual era a minha postura a respeito e parece que satisfiz suas dúvidas. Mesmo assim, foi irônico no dia seguinte ver o pastor Terry Jones administrando sua ignorância moralista ao aprontar mais uma das suas.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Porque viver é contraditório

"Então ele viu a luz e subiu a escada da vida"

Da série Eufemismos imprevistos de adolescentes para matar seu protagonista.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Nas cotas dos outros

Arrisquei hoje no almoço utilizar entre 6 debatedores um argumento contra as cotas raciais que uso apenas se estiver conversando só com uma pessoa. Na verdade, é sobre o conceito de "dívida histórica", mas ele se desdobra numa crítica maior às próprias cotas. 

Não uso o argumento em debates grupais pela extrema facilidade com que termos que utilizo, como "metafísico", poderiam ser imediatamente mal-interpretados e causarem reações de horror, além de críticas violentas por pelo menos dois minutos, até que eu conseguisse acalmar os ânimos e fazer com que escutassem o que eu estaria efetivamente dizendo, negando as pressuposições sobre o que imaginariam que eu estava dizendo. Como é infinitamente mais comum que uma pessoa esteja disposta a escutar que 2 ou mais, especialmente se se está a todo momento competindo pelo turno da fala e pelo argumento mais poderoso, sempre imaginei que minha crítica não veria jamais o dia de se arriscar ao apedrejamento da discussão acalorada de um grupo. No entanto, hoje arrisquei, talvez por estar muito confortável na conversa. A reação foi aquele alvoroço, incluindo o equivalente étnico de "tu fala isso porque não é contigo" (com o pressuposto de que a escravidão É, não FOI - ops, já me arrisco a mal-entendidos, fiquemos por aqui na questão).

Bom, o argumento funcionou, acabei fazendo com que entendessem as falhas que eu queria expressar no raciocínio de "dívida histórica", mas eu estava discutindo cotas na Dificuldade 1, ou seja, a negra e a mulata presentes estavam do meu lado do debate. Talvez seja a hora de aumentar o nível de dificuldade.

Comemoração à parte, no meio da conversa uma das minhas amigas acrescentou um comentário interessante (partindo da questão de as cotas serem afirmadas como "políticas provisórias"): minha amiga foi das pessoas que cadastrou a primeira leva de porto-alegrenses para o Bolsa-Escola. Nesse cadastro, estava claro e explícito que o programa era provisório. As transformações que os programas sociais sofreram até virarem o Bolsa-Família (que os dois proto-presidentes pretendem manter e defender, é claro) fizeram com que essa "provisoriedade" nunca pudesse se realizar, pois há novos e novos cadastros em novos e novos programas. Os novos programas evitam a dissolução dessa "solução social", e a promessa de décimo-terceiro para os beneficiados apenas comprova que a política "provisória" acabou efetivada.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Do aborto

Eu fiz um post sobre o comentário de Luiz Bassuma, Nunca poderemos dar ao estado o poder de matar!", em que critiquei tal expressão moralista como retoricamente vazia, porque o Estado tem o poder de matar e funciona, em grande parte, pelo domínio desse mesmo poder, em detrimento do poder dos cidadãos de matar. Ele falou isso discutindo o aborto, atual mania do horário eleitoral, então achei que o post poderia dar a impressão de que defendo a posição radical de que o SUS deveria fazer todo e qualquer aborto, desde que a mulher peça, só que eu não defendo isso. Como fui interpretado assim, ainda bem que a Leo teve coragem de não só criticar meu blog pelo monitor e virar a cara, mas efetivamente comentar no post falando contra a proposta que tramitou como proto-posição de campanha, até ser derrubada definitivamente pela que existe agora no PT: a Dilma tem as opiniões pessoais dela, mas o partido seria contra. Graças a isso, resolvi fazer este post esclarecendo umas coisinhas.

Como disse, eu estava criticando a forma como Luiz Bassuma apresentava a questão, que me parecia simplesmente irreal. Se o Estado pode matar um criminoso, um assaltante, ou quem seja, o Estado pode matar. Que esse poder não justifica diretamente que ele mate um feto, eu concordo, mas eu não estava dizendo que o Estado deveria poder matar um feto, apenas que, se pararmos para pensar na situação atual, ele tem exatamente esse poder. 

Se só um órgão do governo pode dizer quem tem o direito ao aborto, nossa situação atual, então o Estado tem o poder de matar durante a gestação, e esse poder seria do cidadão se uma nova lei liberasse aberta e indiscriminadamente o aborto, desde que feito com dinheiro público. Liberar o aborto e não bancar é o mesmo que discriminar por classe, porque a cirurgia, para ser bem feita, custa dinheiro. Não me parece que ninguém acredite que o aborto não seja prática de gente com grana (não estou nem falando dos propriamente podres de ricos) atualmente, o que significa também que liberar e não pagar com dinheiro público é mais ou menos manter as coisas como estão, apenas barateando um pouco o processo para quem já consegue pagar. 

Por outro lado, se a liberação barateasse muito, o aborto se tornaria exatamente aquilo que a Leo comentou como resultado da liberação no SUS: ele viraria "método anti-concepcional" no sentido mais cotidiano do termo. Bom, ele efetivamente funciona assim para quem pode pagar. E se o "pobre" não tem a desculpa de não ter usado camisinha, de não ter tomado pílula, ou seja lá o que for, o "rico" tem? Existe um caminho tortuoso de argumentação que pode seguir daí, mas não vou usá-lo porque acho que a questão, posta por aí, está errada. Discute-se a partir da lei atual, e a realidade, como bem disse a Heloísa Helena, é usada apenas como argumento para defender a liberação geral no SUS. Ou seja, a argumentação pula de lei para lei, usando a realidade como um dado que não poderia receber outro tipo de tratamento ou solução. Pois bem, eu gostaria que a coisa toda fosse lida de realidade para realidade, tratando a lei apenas como trâmite entre esses dois momentos. Como as coisas são e estão? Quais os reflexos sociais da nova lei, se fosse implementada em sua forma mais literal? Quantos abortos são feitos e quantos efetivamente seriam feitos?  Qual a relação entre o custo das novas operações e os gastos públicos com as mortes ou malefícios resultantes dos abortos feitos em casa por mulheres que não querem seus filhos, mas não podem pagar por uma cirurgia? Quantos casos de aborto (por estimativa) não são relatados à polícia (por todos os motivos que imaginamos e por quantos mais não podemos nem supor), e quais as consequências disso para essas mães, e para as crianças? Que políticas públicas poderiam ou deveriam mudar, caso a regra fosse alterada? Quais os problemas da atual legislação, problemas reais, práticos, que justificam sua alteração? Seria possível uma meia-alteração, sem reprisar a situação atual, como eu disse acima? 

A nova lei tem cara, para mim, de uma sublimação da vontade de tantos governantes de simplesmente trancar a reprodução na marra. Não vamos cortar o barato de todo mundo nem impor números de filhos, o que não seria condizente com a imagem do político legal, vamos deixar que eles mesmos matem quantos filhos quiserem, desde que antes do nascimento. Bom, se essa é a intenção, então vamos discuti-la, e renegar, se for o caso, isso ou suas variantes. Mas que se discutissem consequências e problemas reais. Não entrar com platonismos a respeito do valor da vida em relação ao Estado, ou meter Deus na história. Óbvio que o Ser Supremo vai entrar na conversa, mas que não se fique nisso, nem se romantize o que o Estado quer com a gente.

Para registro: por essas e outras, eu não tenho uma opinião fechada a respeito do aborto. Considero o tema absolutamente espinhoso e complicado, de modo que não acho nada tão firme nem a favor nem contra a prática, em todos os pormenores por que se desdobra. Eu não consigo nem expressar bem, acredito, exatamente quais as minhas críticas a essa questão toda de debater a liberação no SUS. Por isso, não posso defender as propostas do PT a esse respeito, mas não conheço tantos argumentos contra, já que poucos querem discutir a questão de verdade, a sério (não estou falando do teu comentário, Leo, mas, como era o caso, do Bassuma ou do programa eleitoral do Serra). Só o que interessa agora é qual opinião dá mais votos.

sábado, 24 de julho de 2010

Deus brasileiro

Quanto a Brasil e religião, eu sempre gostei de nosso sincretismo, por outro lado sempre odiei a importância do futebol na vida nacional porque ele me parece reforçar o pior do raciocínio religioso, a crença absoluta em essencialismos, absolutamente contrários à razão. Achava até estranho que o efeito político do treinamento religioso (da mentalidade metafísica) propiciado pelo futebol não se manifestasse de forma mais violenta na política nacional. Mas meu medo se tornou realidade: a casa onde nasceu o Lula virou ponto turístico...

domingo, 4 de julho de 2010

domingo, 20 de junho de 2010

Só nos falta a igreja

Hoje o Dunga fez mais uma para ser odiado. Falou, na frente de um monte de repórteres (!), que cada Copa é diferente, até porque as equipes são diferentes e o trabalho a ser desenvolvido, portanto, também. Ora, ele está achando que há lógica e trabalho no futebol, quando toda a imprensa sabe que só há essencialismo e mágica.

Por que os jogadores agradeceriam a Deus por TODOS os lances positivos, se não fosse porque não há absolutamente mérito humano nas partidas? Como um torcedor poderia achar que um time é superior aos outros, se periodicamente os jogadores e técnicos trocam de clube, sem o conhecimento de que existe algo sobrenatural na camisa tal, no estádio tal, que transcende à lógica e ao olhar humano? Mas, mais grave ainda, como a imprensa poderia viver sem comentários como "Kaká fala em expulsão injusta; últimos vermelhos terminaram em título"?

Os vermelhos dos outros foram menos abençoados que os nossos em cinco Copas não por trabalho ou esforço, mas porque Deus é brasileiro, ou seja, gosta de futebol e escreve certo por linhas tortas.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Eagle Eye ou A Espoliação Cultural e o Cético

Pensei várias vezes em dizer no blog, em algum lugar, que 95% do que publico aqui é deboche, ironia ou citação de caráter ridículo autoevidente - até porque já fui mal interpretado numas coisas um tanto chatas. Pensei em aproveitar e fazer aqui o contrário, dizendo que este post não é nada dessas coisas, nem é pra ser curto como demanda a preguiça do leitor médio de Internet. Quem procura o costumeiro aqui deveria ler de "Tri selado!" pra baixo.

Este texto é de fato uma reunião de comentários sobre a agressividade em momentos de luto, escrito porque não quis deixar que passasse batida a morte da minha sogra (mãe da namorada - quem me conhece e chegou a ler até aqui não precisa se assustar: não casei sem avisar), uma mulher com quem pude conviver de verdade apenas durante poucas horas. Publico, claro, para que seja lido, mas não com o mesmo convite irrestrito que a maioria dos outros textos do blog. Não se trata, por fim, de um momento de intimidade expresso na dor, portanto os abutres que incidentalmente tenham caído aqui podem alçar voo.

Acompanhei, em algumas horas mais de perto que em outras, suas últimas duas semanas de vida de modo particularmente atento, em especial se se considerar que nossa relação até então se resumia, basicamente, a um dia de convívio. Boa parte do que tenho a dizer não se refere a ela, portanto, com uma exceção: vítima de câncer, ela resistiu à morte até o último momento, suportando qualquer natureza de dor, sempre evocada pelos familiares e presentes como motivos para que ela aceitasse o fim que se aproximava e descansasse. Considero essa resistência também um tipo de agressividade, a vontade irrestrita e intransigente dos seres vivos para permanecerem vivos, que sempre me faz lembrar o constante esforço do corpo para simplesmente existir, mesmo em nossos momentos de mais desatenta saúde. Sempre me chama a atenção que nossas células ininterruptamente trabalhem (o que inclui, às vezes, a reprodução delas próprias), pois lembro que o conjunto de seu esforço resulta num ser geralmente preguiçoso e distraído (sei que a carapuça serve, mas não me refiro apenas aos seres humanos). Há uma ferocidade em nós (para mim atraente) que nos leva, conscientemente ou não, a agarrar a vida, seja ela com sentido ou sem, boa ou má, por todos os instantes que ainda pudermos. Talvez seja o caráter unívoco da resposta negativa que nos motive também conscientemente a reforçar essa vontade premente: viver é sempre uma riqueza de possibilidades (ainda que dúbias), enquanto sua negação é apenas o véu plenamente opaco da morte. No caso de um estado terminal, se já vamos para lá mesmo, por que não demorar um pouco mais aqui, não?

Enfim, pouco mais posso falar sobre a agressividade natural dela, apesar de ter-se asseverado à minha volta muitas vezes que ela era osso-duro com suas vontades. Menos mal, ela tinha obstinação carismática, até onde pude ver.

Quanto aos circundantes, as possibilidades de agressividade são milhares. Em primeiro lugar, é claro, há a revolta contra a impossibilidade de se alterar o destino fatal de um ente querido. Em segundo, o potencial, estranhamente rico, de se irritar com os outros visitantes ou companheiros que querem bem aquele que morre. A maior parte desse potencial parece desenvolver-se da mesma fonte que a primeira irritação: as pessoas ainda não aceitam que alguém querido morra, mas, frustrada a vontade de dominação a respeito do fato em si, a mesma vontade se volta aos espólios de memória a respeito do morto, o que vou chamar de espoliação cultural, sem saber se o termo já foi cunhado.

No caso da minha sogra, que trabalhou em postos de saúde, a espoliação cultural variava de quase imperceptíveis comentários de ex-pacientes até os pressupostos inconciliáveis das decisões feitas pelas amigas e irmãs da morta durante o funeral. O fenômeno manifestava-se já no hospital, quando seu estado era extremamente grave, e alguns comentários que tinham por pressuposto uma imagem dela feria (ou quase) a imagem que outra pessoa tinha. As esquivas eram naturais: a maioria lembrava que esse momento de dor excessiva não é chão em que se fundamentem julgamentos a respeito de ninguém, portanto as possíveis incomodações eram deixadas de lado, ou o esforço para tal existia. A religião, no entanto, parece perfeita para provocar esse tipo de choque, pois a mera pressuposição de que determinado ato litúrgico pode ser feito (ou sua realização ser efetivada sem que todos os parentes mais próximos sejam questionados a respeito) fere a noção ou o conhecimento que outros presentes têm a respeito da religiosidade da própria pessoa que morreu. Quando se está no funeral, aliás, a espoliação passa a correr solta, aproveitando-se de que o morto não pode mais frustrar cabalmente a imagem que cada um faz dele; o embate de memória está oficializado, dele nascendo, enfim, parte importante da racionalização que fará cada um aceitar o ocorrido.

Se a espoliação parasse por aí, no entanto, eu provavelmente não escreveria este post, mas a religião provoca uma inversão curiosa, quando muitas batalhas de ego e apego já foram travadas e o funeral já cansou bastante a todos. O clérigo que oficializa a cerimônia e fala, cita e reza, durante todo o processo final, age como se o morto fosse o resultado trágico e o espólio fossem os vivos, os entes queridos, todos que estão tristes pela morte. Não considero isso esperteza maldosa, nem sacanagem, nem característico de uma religião em particular. Estou dizendo que isso é próprio do ato de se oficializar uma morte religiosamente, e não estou afirmando de forma alguma que é algo errado. Não vamos simplificar para moralizar já que não estamos na TV. Mas o que o clérigo faz é reforçar uma inclinação já preparada anteriormente pelos próprios parentes e conhecidos em direção a uma ideologia em particular, a respeito da morte, claro, mas especialmente, e por meio disso, a respeito da vida, pois é para quem fica que ele fala.

Estritamente, separar "conteúdo" e "ideologia" é discutível, mas digamos, por força de expressão, que seu ato é tão mais ideológico quanto o conteúdo é redundante: tudo que ele vai dizer já foi expresso, de forma mais detalhada e tão repetitiva quanto um mantra, por quase todo mundo que visitou a pessoa no hospital ou no funeral. O sincretismo religioso brasileiro é ótimo para isso, pois garante que a religião do clérigo escolhido tenha sido bem coberta pela análise, no mínimo, daqueles que sofrem mais e daqueles que mais se preocupam com estes.

O cético, porém, sofre essa espoliação de forma diferenciada. Enquanto o brasileiro típico ginga no sincretismo para acomodar as asserções do oficiante, o cético sente todas as esperanças traçadas pelo clérigo desenharem o pós-vida maravilhoso que seu ente querido não terá. Todas as afirmações sobre "seguir vivendo", "estar melhor", "olhar por nós" etc. solificam a extrema e derradeira perda de quem parte. Ainda que essa perda não seja total, pela inevitável presença que será experimentada por força da memória, o cético ouve retumbar em si o vazio de palavras que acredita serem ocas e chora o que ainda pode por sofrer, mais uma vez, a mesma tortura que antecede por tantas horas ou dias o enterro em si.

Não só o cético chora, é claro, pois o discurso religioso tem aí, acredito, um valor maior que seu caráter aparente de consolo (como disse, todos os consolos que ele possa oferecer já foram expressos, com exceção do efeito retórico de eles serem pronunciados por alguém "desinteressado", alheio ao morto): a cerimônia religiosa permite que se chore ainda mais quando se tem conforto ao lado. Aceitando-se que a morte está consumada, o luto precisa ser vivido, e quanto mais dor fica no funeral (cheio de ombros dispostos), mais saudável é a volta de todos às suas vidas. O cético que chora, portanto, por um caminho torto, sofre uma catarse análoga à dos fiéis.

Ainda que pensando assim, foi nisso que encontrei minha agressividade em momento de luto. Tendo passado dias tentando apaziguar as manifestações de luto (de outrem) que buscavam se expressar pela agressividade (não creio que toda forma de extravasamento seja aceitável ou produtiva) e pensando que o clérigo fazia bem o seu papel, ainda assim não podia deixar de me irritar sempre que seus movimentos retóricos, pela negativa, faziam minha cética chorar.

terça-feira, 8 de junho de 2010

"Desistindo" ou "Pedindo uma resposta à la House"

Fiquei sabendo que uma aluna abandonou os estudos porque um colega, conforme ela, atrapalhava demais a aula e não era tratado conforme as mesmas regras impostas aos outros. Senti uma pena de não estar ouvindo isso da boca da própria aluna, para poder lançar-lhe um violento "MAS CONTA OUTRA, TCHÊ"!

Ainda que esteja relativamente acostumado a ouvir desculpas das pessoas para não estudar, para não conseguir uma melhor formação ou um diploma (ainda que obviamente necessário, como o de ensino fundamental), chego quase a me surpreender com certas respostas. Mesmo que a situação pintada pela aluna fosse verdade (como será que todos os outros os colegas - que não abandonaram as aulas - aguentam uma situação tão escabrosa?!), de onde ela pode tirar que isso seria uma boa desculpa para se parar de estudar? "Porque UM aluno atrapalha, porque UM aluno é tratado de forma diferente, EU não devo receber meu diploma, o conhecimento ofertado até lá nem a bolsa do governo a que tenho direito se não falto às aulas..."

A coisa mais bizarra do conhecimento, particularmente na área de Humanas, é que ele não tem valor explícito. Só sabemos o quanto algo vale quando o aprendemos e vemos a diferença que ele promoveu na gente, em todos os aspectos de nossa relação com o mundo e com nós mesmos. Mesmo a escrita só ganha valor em muitas facetas quando já se é bem alfabetizado. Analfabetos em geral sabem defender o conhecimento das letras apenas com o quase mágico "é preciso saber escrever para se conseguir um emprego melhor". É fácil, portanto, que as pessoas que não valorizam o conhecimento o suficiente para ir atrás dele não façam ideia de como pensam as pessoas que foram atrás. Desculpas esfarrapadas dessas viram motivos oficiais de abandono dos estudos, e é a gente que precisa ouvir essas (e outras) como se escutasse algo sério, e não uma coisa que merecia ser respondida apenas pelo venenoso sarcasmo do House.

domingo, 7 de março de 2010

Blog e docência no divã

Até onde entendo, na nomenclatura freudiana, eu seria um neurótico. Ou seja, uma pessoa como a média da população socialmente funcional, alguém que passou por Édipo de forma suficiente (aparentemente não há como ganhar A com estrelinhas nessa prova), com a quantidade devida de recalques e perversões (nomenclatura não tão grave quanto aparenta), enfim, com a formação de um superego forte (bem forte, no meu caso, dizem) - estou, é claro, sendo retórico, sim, aqui; se psicólogos se reviraram lendo, por favor, me digam o porquê, mas também peguem a ideia e sigam adiante com boa vontade.

Este blog, de um neurótico, não poderia deixar de ser neurótico também, ou seja, de sofrer os efeitos de um superego, conhecido nas mídias como "autocensura". O que no início foi crucial para sua formação (assim como foi na minha personalidade), exigência mesmo de forçar a mão no "retórico" para chegar ao efeito que queria sem necessariamente usar as palavras mais simples ou diretas, é agora um entrave. Pelo jeito, meu blog precisa de terapia.

Sempre ouvi muitas frases sem sentido ou raciocínios idiotas e engraçados por todos os lados, e foi, em parte, minha mania de debochar deles que fez com que algumas amigas insistissem que eu fizesse um blog, mas agora a maioria das idiotices que ouço são tão contextualmente imbricadas e tão ligadas a meus chefes ou contratantes diretos que tem ficado difícil transformá-las em posts sem desrespeitar minha autocensura.

Por algum motivo obscuro, eu, que dou muito menos valor a palavras que a ações (numa desproporção gigante se comparada a meus colegas de Letras em geral), sou menos constrangido em enfrentamentos práticos que em acusações verbais ao léu, de modo que os riscos que tomo na prática não aliviam o superego do blog. Provavelmente porque sei o quanto as pessoas gostam de se iludir com o poder das palavras, confundindo seu caráter "performativo" com as velhas palavras mágicas ("Cuidado, dizer aluno implica violentar a cultura do educando, e dizer o nome do Canhoto atrai!"). Se eu escrevesse algo grave aqui, as palavras poderiam ser evocadas em sentido desproporcional, eufemisticamente puxando a luta para frases soltas num blog, desviando a atenção de onde a crise realmente está. E isso é justamente uma das coisas que mais odeio nas discussões médias da humanidade, o que só consigo chamar de argumentação eufemística, fundamentalmente hipócrita: o que está em jogo fica esquecido para que se use todas as armas numa disputa verbal que seria vazia não fosse ela representar refratariamente a luta real. Como pessoas evocando a história de uma palavra para discuti-la num contexto em que o sentido dela é atual, outro, mascarando a verdadeira disputa e tentando usar dicionários filológicos como se fossem enxadas (pior, acreditando que ambos são a mesma coisa).

Em discussões, eu sou objetivo demais para isso. No blog, sou objetivo de menos. E relações de emprego envolvem demais justamente esse nível de disputa, com o abuso de poder, no meu emprego atual (mesmo que eu não seja ainda um dos mais prejudicados), aplicado particularmente para forçar que sigamos eufemísticos, com um leve relaxamento da hipocrisia para ameaças de demissão a cada reunião. Essa demonstração de poder francamente não me impressiona, e fico feliz de ver como também não impressiona grande número de meus colegas, de forma que a parca força retórica disso tudo me deixa ainda mais intrigado com o fato de que quem "manda" com tanto gosto, nesse caso, está realmente tão iludido quanto eu imaginava.

O caso ainda piora por um detalhe que já indiquei, mas que talvez tenha sido lido como redundância ou ênfase: mencionei "meus chefes ou contratantes" querendo dizer que o abuso vem de uns ou de outros, conforme o momento, ou seja, meus chefes e meus contratantes não são os mesmos, não na prática. Essa estrutura esquizofrênica obviamente não casa bem com minha estrutura neurótica, pois afinal a vantagem de estruturar a personalidade assim é justamente não sofrer fracionamentos. Alguns colegas meus, experientes professores do estado, conseguem apelar para a estrutura perversa: lidar com as regras mais ou menos como House (com ainda mais descaso). Outros abandonam o barco. Demitem-se cansados, irritados e ressentidos. Outros ainda procuram meios-termos, categoria em que me encaixo, ao que parece, mas da qual não sou ótimo representante, porque estou tentando forçar que os esquizofrênicos sejam neuróticos, ou seja, tentando unificar o discurso de chefes e contratantes, entre os quais, se eu fracassar, devo ter de escolher radicalmente um lado contra o outro ou me tornar um gênio da matemática hollywoodiano.

Mas como passar as besteiras que ouço para o blog respeitando sua forma, sem apelar para a repetição de críticas às asneiras sobre o sacerdócio do professor, discurso de que os próprios contratantes desistiram, e que mesmo assim um colega materializou com o uso direto da palavra, em nossa última reunião, evocando o exemplo de Madre Teresa de Calcutá (a psicologicamente violenta fundamentalista católica)? Felizmente, o papo empresarial de que nós (contratantes, contratados e chefes) somos uma família acabou.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

La Culture

Viajar bastante de ônibus garante, entre outras coisas, a experiência dos mais diversos odores urbanos. Dentre estes, destacam-se, é claro, os fedores humanos, mas mais ainda aqueles que, não sendo propriamente humanos, apegam-se à nossa raça de forma aparentemente tão tenaz e dos quais muitas pessoas não fazem questão de se livrar.

Hoje, por exemplo, sentou ao meu lado (para toda a viagem, já que quase sempre vou de fim-da-linha a fim-da-linha, sempre em ônibus lotados) uma jovem fedendo a ração de cachorro. O cheiro primeiramente intrigou meus sentidos, e foi apenas após um minuto de investigação displiscente que me convenci de que realmente o que sentia vinha dela. O odor de ração não é me realmente desagradável, talvez por ter convivido cedo com cachorros, por outro lado o fato simples de vir de um ser humano, formando aquela aura quente tão comum em toda pessoa que fede, tornava-o desagradável, apenas para em seguida meu olfato contra-argumentar que não, não se trata de um cheiro que me seja desagradável.

Do conflito nasceu a luz (como querem os marxistas). Oposição máxima de conceitos reunida no Um (agradável e desagradável em um só cheiro), ironia romântica (confluência de opostos: cheiro que relembra a infância e fedor humano), finalidades sem fim (no sentido kantiano, o cheiro, o contexto, sua emanação, as memórias, tudo parecia apontar para um significado a respeito do qual minha mente racional não era capaz de decidir), apropriação (cheiro de comida canina num ser humano), inserção no cotidiano: estava eu presenciando uma obra de arte pós-moderna. Considerando a cidade cultural em que vivo, era claro ser aquela guria extremamente desagradável aos sentidos (mas tão rica em significado e prenhe, nitidamente, de crítica social) uma prévia da Bienal B. Mais tranquilo por saber que meu nariz era insultado por uma obra de arte (Vênus de Milo está para a Grécia como essa moça está para o Brasil), baixei a cabeça e li até chegar em casa, recorrentemente interrompido pelo odor da arte pós-moderna.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Coerência metafísica de mercado

Os metafísicos em geral, e particularmente aqueles que acreditam em dívida histórica ou preconceito por etimologia, vão me apoiar nessa...

"Despótes" era um termo grego que designava o chefe de família, e daquela patriarcal sincera, não a modalidade burguesa. Portanto, quando uma empresa vem com aquele papo que assola a administração (pelo menos a brasileira) dos anos 1990 pra cá sobre "pertencemos todos à Família Empresa Tal" e, depois, age despoticamente com seus empregados, estão, bem mais do que o suspeitam, sendo coerentes. Não hipócritas.