sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Hitler, 11/9 e respeito (a)religioso?!

A ATEA é a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos. Com certeza não usam a sigla ABAA para não serem confundidos com o ABBA. Preferiram o trocadilho que descarta de sua sigla tanto o "Associação" quanto o "Brasileira" - o que pode ser boa notícia.

Pois bem, os caras inventaram uma sandice sinceramente assustadora. Resolveram começar uma campanha em ônibus de Porto Alegre e Salvador (anunciada hoje e hoje mesmo barrada nas duas cidades - começam as apelações legais) tentando "combater o preconceito contra ateus"! Eu preciso comentar: HEIN?!

De onde poderia vir tal sandice? Ora, de onde saem todas as campanhas sociais que não fazem sentido em solo brasileiro? EUA! Na verdade, a campanha é originalmente inglesa, mas o nosso formato é o americano. Por que digo isso? Porque o próprio discurso dos defensores da campanha é O MESMO (específica e literalmente) que ganhou a grande mídia deles mais ou menos por 2007, quando uma campanha anti-clerical e anti-religiosa (baseada na argumentação de que acreditar em Deus é sempre e unicamente a mesma coisa que acreditar no BogeyMan, organizada institucionalmente com o mesmo motivo, "educar" pelo medo) engrandeceu-se ainda na onda da Guerra contra o Terror. Claro, talvez a coisa tenha até surgido antes, não posso dar certeza de algo do tipo por motivos óbvios. Já a campanha dos ônibus, que é o que começou na Inglaterra, data de 2009.

Aqui está o que estou comparando com o discurso norte-americano, a "argumentação" de Daniel Sottomaior, presidente da ATEA:

"Somos cerca de 2% dos brasileiros, ou 4 milhões de ateus. Mas muitos têm medo de se expor devido ao preconceito de amigos, chefes e familiares. Isso tem que acabar."

O que os defensores do anti-religionismo americano diziam? Exatamente as mesmas palavras com uma interessante diferença: eles computaram ser 20% da população norte-americana. Eu sei que não sou grande matemático, mas me parece ter alguma diferença significativa entre 20 e 2%. Não que alguma porcentagem da população mereça sofrer preconceito, mas, francamente, QUE preconceito ateus sofrem no Brasil? O discurso condescente de algum religioso, a pregação chata de algum crente/fantático (nada que não precise aturar de vez em quando de certos vegetarianos ou militantes), SE quiser ficar para ouvir? A ATEA tem o registro de algumas dessas manifestações "anti-ateias", frases descontextualizadas e torcidas na leitura com os melindres hipócritas usuais dos politicamente corretos. Francamente, eu odiei aquele envolvimento da religião na campanha eleitoral, mas como eles podem, tão perto daquilo, querer dizer que quem sofre preconceito são justo os ateus, os únicos que não foram xingados numa complicação que envolveu de argumentação política a "ódio aos reacionários religiosos"? Não me entendam mal: eu achei que a luta presidencial (ou "briga de travesseiros", como foi bem descrita) só piorou porque foi posta em termos religiosos, e sim a campanha anti-religiosa americana sai de uma esquerda mais à esquerda que os Democratas (deles!), única fonte de algum discurso político norte-americano com o qual sinto conseguir concordar em geral. Mas, por favor, espírito crítico, pessoal!

Não acho que eu tenha passado até aqui o que mais me irritou na campanha, que não é o problema de porcentagem nem a coisa do preconceito que não me convence, então pense-se no que se falou a favor da campanha, que ela seria pela luta contra o preconceito, e vejamos a foto abaixo:


Ao lado dessa imagem há uma foto de Chaplin, que não consegui, com a legenda "NÃO ACREDITA EM DEUS". Depois desses exemplos, como a frase "Religião não define caráter" pode compensar o jogo de imagens? Ou mesmo convencer quando o exemplo mais facilmente é lido indicando o contrário? Não parece um exemplo tão granve? Outro cartaz mostraria a imagem de um avião acertando o World Trade Center com a frase "Se Deus existe, tudo é permitido", trocadilho com a frase do "Irmãos Karamazov". Outro detalhe importante, a frase era de que tudo é permitido se Deus NÃO existe. Intertextualidade com livro que ninguém leu? Muito educativo... Quase tanto quanto resumir "religião" usando atentados terroristas!

5 comentários:

Clark disse...

Acrescento outra ironia involuntária: “ABA” também é uma expressão (aramaica, me parece) que aparece no Novo Testamento para se referir carinhosamente a Deus. Como uma forma carinhosa para “pai”.

Rerisson C. disse...

Bem, agora VOCÊ também já tem uma opção de como se tornar um militante por direitos de minorias!

Rerisson C. disse...

Eu até não tenho nada contra argumentação do tipo “crer em X não define caráter”, embora a referência a Hitler, que via o cristianismo como inimigo não me pareça muito sólida. Mas a campanha me parece mais do que isso. Está por trás a idéia de crer ou não crer em Deus define sim caráter, mas de modo inverso: crer em Deus é que faz das pessoas perigosos; não crer as faz boazinhas.

Me pergunto o que certos militantes ateus fariam se descobrissem que alguns dos maiores assassinatos em massa do século XX foram praticados por ateus militantes, que achavam que varrer a religião da face da Terra era um objetivo bom, que justificava o uso de quaisquer meios?

Tigre disse...

Rs. A diferença é que não me sinto cansado de tentar argumentar meu ponto de vista ou de simplesmente descartar pessoas que não conseguem argumentar o próprio. Não me canso com militantes a ponto de me atrair por largar tudo e absorver a retórica deles.

Até me encaixo, e já tirei proveito retórico disso, em outras minorias mais óbvias e bem representadas. Ateísmo está longe de valer o esforço de um discurso hipócrita autocondescendente no meu caso. ;)

Tigre disse...

Que ateus militantes? Os chineses atacando budistas? Comunistas russos? Acho que eles não compram essas mortes como realmente orientadas por ódio à religião.

De qualquer forma, as lutas religiosas são bem mais famosas, e criticá-las é mais cult.