terça-feira, 28 de junho de 2011

Os choramingos dos heterossexuais

Depois de uma bobagem sobre campanha contra o preconceito contra ateus, seguimos valorizando mais agendas imbecis dessa modalidade, ao que parece. Além do twitter apresentar num mesmo dia trends na linha de "orgulho branco" e "orgulho hétero", volta e meia uma campanha pró-status quo aparece, última das quais é o "Dia do Orgulho Heterossexual", proposto (em regime de urgência!) pelo deputado federal Eduardo Cunha (PMDB) - não sem precedentes, pelo jeito, do DEM.

Alguns vão perguntar: "heterossexual é status quo ainda, com toda essa campanha pelos direitos homossexuais?" Sim! Toda essa campanha ainda faz estardalhaço exatamente porque tudo que não tem carimbo de "hétero" não está em pé de igualdade, nem de direito, nem de respeito, nem de valor com a simbologia hétero. É verdade que é politicamente incorreto manifestar preconceitos a esse respeito, mas quem acha que homossexualidade é assunto super-aceito hoje, só porque está sempre sendo defendido (e atacado, observem melhor!) na Internet e na TV, desculpem, mas precisa sair mais na rua, conversar com pessoas e presenciar não meramente homos ou héteros em seus grupos, mas as situações de convívio entre eles (fora de baladas, de preferência). Eu não sou a pessoa mais capacitada para falar sobre direitos dos homossexuais, mas a "defesa" militante do heterossexualismo, séria, no Planalto, parece-me uma coisa burra, hipócrita ou maldosa. Já que ferem coisas que me parecem meramente lógicas, lá vai minha opinião.

Em primeiro lugar, não conheço um homossexual que ache que o mundo seria melhor se todos achassem lindo, melhor ser gay. A heterossexualidade não precisa se sentir ameaçada, coitadinha. Confundir respeito com homoditadura é um dos indícios mais óbvios de o quanto ainda se teme a homossexualidade em si - ou de quanta má-fé as pessoas conseguem reunir para escandalizar e polarizar discussões que, dessa forma, nunca vão mesmo se resolver. Mal se fala em respeito e já se imagina que se quer trocar 6 por meia dúzia, virar um status quo excludente em outro. 

Em segundo, exatamente por ainda gerarem rebuliço e reações violentas, esse pessoal PRECISA de passeatas, campanhas e tudo o mais. É uma das formas mais importantes de manifestação pública e de ação política que temos hoje em dia. Sem muita campanha, sem forçar deputados e senadores a trabalharem, ninguém consegue nada, e o preconceito, institucionalizado ou não, vai ficar exatamente onde está. 

Fazer campanha, criar dia do Homem, do Heterossexual ou do Branco é mais do que fazer papel de ridículo, barateando a nossa cultura. É replicar aquilo que se critica nas minorias ao mesmo tempo em que se traveste a luta alheia. Não é liberdade de expressão, não é valorizar a tradição, não é defender a família, não é recuperar valores: é acusar o golpe, indicando quão fraco se é, o quanto realmente se tem medo. Não se atura que outros queiram os nossos direitos, como se estes fossem um objeto físico, que não tem porções para todo o mundo. Por que o casamento gay realmente tiraria o valor do casamento hétero? Onde está essa fonte esgotável de valor que só pode aderir a um tipo de relação se outro tipo não o tiver? De onde vem essa mesquinharia que acha que um grupo que escolhe um dia para gritar aos quatro ventos suas insatisfações com nossa cultura precisa ser revidado com um dia para gritar o que já está pronto e estabelecido em toda a nossa organização? É como se, sempre que acabasse uma greve, os governantes saíssem em passeatas pela mesma quantidade de dias, em prol de seu direito de governar.

Orgulho de ser hétero? Sério? Parece-me que o "orgulho gay" não quer dizer "uau, adoro ser gay!" Quer dizer "Eu assumo que sou gay, com orgulho [em oposição a todas as forças que querem que eu reprima minha sexualidade ou a esconda]". Olha só! É um orgulho por oposição a uma ocultação forçada. É exibir porque querem que encondam e porque isso afronta, no entendimento geral, um elemento fundamental da saúde de qualquer indivíduo, sua sexualidade. Algum heterossexual se sente socialmente reprimido em sua heterossexualidade? Mesmo? Onde? Quando? "Um carinha que me falou tal coisa no facebook"? "Um gay que me xingou no twitter"? Por favor...

Uma crítica que não acho precisar explicar: que porra é essa de achar que as manifestações homossexuais são campanhas de conversão?!

Se alguns homossexuais exigem coisas ridículas, erradas ou ilegais, qual a resposta, então? A resposta é apontar e debater, resolver, encontrar o meio justo de reformar uma estrutura legal que não sustenta mais a sociedade tal qual ela se encontra hoje. Cadê a coragem dessa gente de ouvir os outros e tentar resolver os problemas onde eles se manifestam, como eles se manifestam? Cadê o corajoso que vai ser sério e honesto, que vai aprender a ler antes de dar opinião sobre a agenda alheia? Cadê o ético que não vai abanar com um espalhafato para os eleitores mais conservadores, mas vai realmente buscar novas soluções para problemas novos?

Espelhar as medidas dos militantes (logo vão querer criar o "Kit Hétero") é polarizar a discussão exatamente onde ela menos funciona, no campo simbólico, na bandeira. É fazer pirraça contra um movimento que não nasceu do oportunismo ou do mau-caratismo, mas de uma opressão cotidiana que ainda não acabou. O convívio hétero-homo está longe de se resolver, mas essa babaquice de se sentir acossado pelos reclames alheios e criar "castelinho da família tradicional" é ainda mais nociva que ridícula. 

Para "resolver" a separação da sociedade em cada vez mais minorias, vão criar mais uma bandeira?! Dia do Hétero, o caralho!

25 comentários:

carla m. disse...

O ponto é exatamente esse, como se nao bastasse ser o opressor, ainda querem ter orgulho disso.

Leo disse...

"não conheço um homossexual que ache que o mundo seria melhor se todos achassem lindo, melhor ser gay"

pois eu conheço poucos que NÃO pensam isso...

Tigre disse...

Que acham que o mundo seria melhor se as pessoas PREFERISSEM ser gays?

Leo disse...

tu conhece algum gay que acha que ser gay é uma opção?

Tigre disse...

Não, mas o que estou dizendo é que as pessoas (essas que critiquei no post) agem como se qualquer homossexual que defenda a bandeira estivesse de fato defendendo uma "homopreferência". Isso não é o discurso dos gays, mas dos contra-gays que estou "reproduzindo".

Rerisson C. disse...

Parei na metade da leitura (vou continuar) para comentar:

“não conheço um homossexual que ache que o mundo seria melhor se todos achassem lindo, melhor ser gay”

Eu conheço.

Rafa Guerra disse...

Hummmmm... entendo a sua linha de pensamento, mas não concordo com ela.

Está havendo, sim, uma inversão de valores, e não uma tentativa de igualdade. Olha, eu não sou religiosa. Para falar a verdade, nem gosto de religião, apesar de acreditar em Deus. Não acho q os homossexuais vão p/ o inferno, mas sou contra esse circo todo de "orgulho gay" e totalmente contra a PL 122. Para mim, é o absurdo dos absurdos. Mas, o fato d'eu pensar assim, me transforma numa "homofóbica". Estamos sendo divididos entre bons e maus. E eu, q nunca maltratei ninguém, estou do lado dos maus.

Tigre disse...

Mas, Rafa, se estamos sendo separados entre bons e maus, em que hastear a bandeira hétero dessa forma caricata, como eleger um Dia, vai ajudar?

Além disso, esse problema se dá em duas frentes: leis e discussões amplificadas em certos meios. Tais discussões sofrem de problemas de lógica e debate que são bastante sérios, mas que não se limitam a esse problema da homofobia. Se a discussão não está prestando, não é porque gays estão querendo dominar o mundo, mas porque uma série de debates sociais nossos são desfuncionais. O problema é outro, nesse caso, nada tem a ver com sexualidade. As distorções que explodem na discussão da homofobia são sintomas de outra coisa. Ao mesmo tempo, essas defesas virtuais não refletem um "homoataque" no dia-a-dia. Cotidianamente, ao menos no que vejo, a homofobia vai de vento em popa.

No campo das leis, a discussão deve ser mesmo sobre as próprias leis. Erigir símbolos é o mesmo que oferecer o cercado e ver quantos eleitores vêm. Se a tática não funcionar, se muda. Não se encontra uma forma igualitária de tratamento criticando-se uma lei com um gesto simbólico caricato, e é isso que provocou meu post: há uma desvio duplo nessa discussão toda. Nessa "defesa" da heterossexualidade.

Tigre disse...

E de valores que ela supostamente carrega.

Rerisson C. disse...

“Por que o casamento gay realmente tiraria o valor do casamento hétero?”

Porque é uma ofensa à inteligência humana; não destroi a família; destrói neurônios.

Tigre disse...

Lógica? Casamento é uma relação civil, com consequências civis. E o casamento hétero há de engolir uma lógica sem contexto para uma que lide com o mundo tal qual ele é.

Rafa Guerra disse...

O meu comentário foi sobre a minha percepção da coisa toda. Da tentativa de imposição da onda colorida tanto pela mídia quanto pelas leis ou pela própria sociedade.

Quanto ao dia do hétero, acho ainda mais ridículo do q a parada gay. Lamentável.

Rafa Guerra disse...

Tigre,

o q vc acha dessa fala do ministro do STF?

"Com efeito, a ninguém é dado ignorar - ouso dizer - que estão surgindo, entre nós e em diversos países do mundo, ao lado da tradicional família patriarcal, de base patrimonial e constituída, predominantemente, para os fins de procriação, outras formas de convivência familiar, fundadas no afeto, e nas quais se valoriza, de forma particular, a busca da felicidade, o bem estar, o respeito e o desenvolvimento pessoal de seus integrantes."

Rerisson C. disse...

“De onde vem essa mesquinharia que acha que um grupo que escolhe um dia para gritar aos quatro ventos suas insatisfações com nossa cultura precisa ser revidado com um dia para gritar o que já está pronto e estabelecido em toda a nossa organização?”

Concordo. Isso mostra o grau de desorientação e incompreensão do que está acontecendo. É entrar na “briga” aceitando as regras e a agenda do outro grupo. Nesse caso, as supostas vitórias específicas são é uma derrota geral.

Tigre disse...

Pois é, Rafa, a questão é o tipo de exposição que temos às campanhas de cada lado nessa briga toda. Acho que a forma como te respondi pode ter dado a entender o tom errado, mas eu tinha entendido que teu comentário não era a favor do Dia.

Tigre disse...

Diria, Rafa, que estou no segundo tipo de família. E que nunca entendi a minha no primeiro tipo. Aliás, não conheço ninguém que tenha casado para manter o patriarcalismo ou com o fim primeiro de procriar.

Rafa Guerra disse...

Pois é... eu tmb.
São essas coisas q me irritam. O homossexual é bom, ama o companheiro e o respeita. O heterossexual não presta, não se preocupa com o companheiro e só casa com segundas intenções.

O PL 122 fala em "desconstrução da heteronormatividade". É uma coisa q está sendo imposta aos poucos. Não me parece nem um pouco inofensivo.

Tigre disse...

Ok, mas esse discursinho não é problema exclusivo da questão de homofobia. Quando é que vamos atacar a retórica poliqueira, e as práticas poliqueiras, em vez de supor que cada grupo misturado nela está agindo em nome do mal maior?

Rafa Guerra disse...

Ô meu filho (como dizem os baianos), perdoe minha ignorância, mas não sei se entendi o q significa "poliqueiro" hahaha.

Em todo caso, eu sei q as pessoas não agem em nome do mal maior, agem em nome do bem maior. E, por incrível q pareça, isso se mostra ainda mais perigoso.

Mas explique aí o poliqueiro q agora eu fiquei curiosa.

Tigre disse...

haha. Era "retórica politiqueira", desculpa.

Rafa Guerra disse...

Mentira... procurei até no dicionário e no Google! kkkkkkkkkkkkk E o pior é q achei no Google hahahaha, mas continuei sem entender hahahahahaha

Tigre disse...

Google e seus milagres. Até quando a gente erra ele indica sentido.

Lastannë disse...

Depois de assistir ao discurso da deputada do Rio (e missionaria cristã, segunda a própria) Myrian Rios onde ela diz que não quer um empregada homossexual pq tem dois filhos e ele poderia "praticar pedofilia" os com meninos, dia do orgulho hetero nem me afeta mais.

Tigre disse...

Esse é um drama grave. A casca que a gente vai criando com cada golpe.

carla m. disse...

Pois é, mas só é golpe quando nos afeta.

E eu sou super hetero e super contra a heteronormatividade. Mas enfim, vai ver que só eu sinta com profunda tristeza a dor de ver todo dia meu melhor amigo e seu companheiro terem de esconder seu casamento, só por que ele não existe na lei. Ou o fato de ter de repreender minha prima e sua namorada por estarem de mãos dadas na rua, já que isso representa risco de vida a elas.

Não sei quanto tempo até criar essa "casca" que protege contra os golpes. Também não sei se quero tê-la. Dores geram prevenções quanto à causa, e eu prefiro continuar atenta do que ignorar. Claro, se for possível suportar.

Engraçado como são os olhares, sempre falam muito dos lugares.