sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Cuidado formal não tem hora

Banheiro masculino da Letras, mensagem em posição que indica escritor sentado na privada: "JESUS (CORAÇÃO) VOCÊ" (eu que não sei colocar símbolos aqui, não é o cara que não sabe desenhar um coração).

Não há escrita de banheiro que ignore o contexto em que se encontra. Pelo contrário, toda pichação de banheiro se quer entendida exatamente como algo "escrito no banheiro", o que nos leva à irresistível conclusão de que o pichador queria muito dizer ao mundo: "Jesus te ama no banheiro". É claro que, pela posição da mensagem, ele poderia querer dizer ainda "Jesus te ama na privada", ou coisa pior. No entanto, essas frases têm claro sentido ambíguo, portanto pichá-las na beata capital gaúcha poderia causar mal-entendidos que não contribuiriam para o espírito cristão. Mesmo assim, essa alma iluminada não quis deixar Jesus mal, sob suspeita de não estar em todos os lugares; mais ainda, não quis deixar nenhum espírito abandonado na depressão de sentar numa privada UFRGSiana. Samaritano, o pichador resolveu a crise com uma só tacada. Colocar a frase em contexto acabaria com a necessidade do ambíguo "no banheiro"; sentar-se na privada, escrever de lá, da posição do Outro (derradeira prática cristã), iluminaria o momento potencialmente mais triste da semana daquele que ali sentasse.

Ora, quem chega a tanto percebe a linguagem, está atento ao caráter formal do texto, pensa a materialidade do que escreve. Para transcender a mera frase de adesivo, presentificar o milagre de Cristo e indicar simbolicamente ao leitor os poderes divinos, o mensageiro escreveu com giz branco no azuleijo branco. A mensagem ficava visível mesmo para mim, que a contemplei de pé, graças ao uso demorado de bastante giz para cada parte da mensagem e ao contraste com a sujeira generalizada e entranhada na parede. Assim o branco no branco se tornou visível, assim temos simbolizado que a mensagem de Cristo supera qualquer barreira para chegar ao espírito aberto (perdão pelo trocadilho inevitável) e que ela aflora lá mesmo onde O críamos ausente. Para terror de um pichador tão cuidadoso, ainda não se trata do melhor contexto, pois este leva seu verdadeiro poema de fé a construir mais uma nova conclusão problemática: Ele está no meio de nós.

Aguardamos novas táticas para se espalhar a Boa Nova. Obrigado.