Entre Lava-Jato, "CPI do Mensalão", "Mensalão do PSDB + DEM", Zelotes e Petrobrás, o Brasil inteiro está sob investigação por corrupção. Há muito, admitimos a culpa de tudo e de todos. E o que se pretende oferecer como solução? Voltar ao passado, de não muito diferentes formas.
1 - Ditadura;
2 - Confiar no PT com paciência e perdão;
3 - Confiar no PSDB + velhos comparsas da economia da miséria;
4 - Confiar em pastores.
Haverá país mais deprimente? Com certeza, porque sempre existirão os que já estão em ditadura e os que vivem em guerra civil. Mas isso em si não o cúmulo da depressão? Que por pior que o Brasil seja, ele não é o pior. Não é, mas está tentando chegar lá.
Falando sobre tudo de linguagem que chamar a minha atenção: placas, conversas, citações... Deem uma chance lendo aí embaixo e vão sacar o foco.
Mostrando postagens com marcador vergonha alheia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador vergonha alheia. Mostrar todas as postagens
sexta-feira, 3 de abril de 2015
quarta-feira, 5 de março de 2014
Feriado - ou outros motivos para nos irritarmos com o Carnaval na prática
No décimo quinto episódio da série original de Jornada nas Estrelas (ou seja, em 1967), temos o choque cultural entre Spock e os demais membros da tripulação frente à ideia de descanso. A Enterprise orbita de um planeta que parece absurdamente tranquilo e paradisíaco, e Kirk "ordena" descanso geral, uma oportunidade para descerem no planeta em busca de diversão e atividades recreativas. Spock não entende a noção de fazer algo para descansar, se o descanso seria justamente fazer o mínimo possível, a fim de gastar menos energia. Os tripulantes humanos riem da cara de Spock, de sua incorrigível "lógica que não nos entende".
Acontece que não há nada essencialmente humano na associação entre "descanso" e "porra-louquice", me parece. A ideia de feriado é que foi muito distorcida, a ponto de se pensar que descanso é sinônimo de atividade extenuante fora do comum.
Em primeiro lugar, creio que a ideia de feriado vem de dia sagrado, e um dia sagrado é um momento de intensa e importante atividade, o que entenderíamos hoje como mais trabalho. Numa festa religiosa, a comunidade está envolvida em contribuir com a natureza, vista de forma divina, a fim de que a ordem em que a comunidade saiba viver se perpetue. É, portanto, nos tristes termos atuais, um dia de vital trabalho comunitário, em que as pessoas não podem desrespeitar mais horários ou uns aos outros, mas sim devem agir de forma estrita e calculada para não irritar o deus ou os deuses trazendo ruína para seu mundo. É um dia ainda mais regrado que o dia "comum" (que também tinha seu caráter sagrado, diga-se de passagem). Não conseguir mandar um bode expiatório para o deserto, significava conviver com o pecado entre a tribo, ou seja, morte e destruição desenfreada.
Só uma comunidade totalmente centrada num trabalho bitolado e alienante (e não em si mesma, ou seja, no usufruto de uma vida boa em comum) pode distorcer, como conseguimos, uma situação destas a ponto de entender que feriado, férias, descanso é quebrar todas as regras, fugir de si mesmo, ignorar o mundo e os outros, o que inclui quaisquer noções associadas obviamente àquela atividade "chatíssima e supra-ordenada" (por uma entidade impessoal, mas que no fundo é outro humano), o trabalho!
O desafio de inverter esse comportamento nem é grande, portanto. Não é preciso, como Spock, compreender o sentido da palavra "descanso" e aplicá-lo na prática. Longe de mim querer que o vaidoso ser humano seja lógico.
Bastaria as pessoas terem vidas em que reconhecessem maior sentido, que as tornassem mais felizes. Bastaria a gente levar o individualismo a sério, talvez (como a humanidade quase sempre levou a comunidade a sério): se é pra viver preocupado primeiro com o próprio umbigo, que seja a regra constante, de fazer o que se gosta e o que realiza cada um. Um grupo de humanos felizes, bem, realizados, não precisa desrespeitar os outros nos poucos dias em que acha que pode ser alegre. Não precisa, portanto, se matar na vontade de encontrar alguma gota de alegria num mundo de extenuante e entediante trabalho, em que as regras não lhe fazem sentido e que, portanto, geram a ideia de que desrespeito e alegria necessariamente andam juntos.
Um grupo de seres humanos felizes podem descansar quando é para descansar, sem confundir isso com a mania de uma anestesia egocêntrica e destrutiva. E as pessoas felizes que realmente gostam "sair da linha" sempre conseguem fazê-lo sem causar danos. Chega a ser quase impressionante, frente à gigantesca galera infeliz.
Acontece que não há nada essencialmente humano na associação entre "descanso" e "porra-louquice", me parece. A ideia de feriado é que foi muito distorcida, a ponto de se pensar que descanso é sinônimo de atividade extenuante fora do comum.
Em primeiro lugar, creio que a ideia de feriado vem de dia sagrado, e um dia sagrado é um momento de intensa e importante atividade, o que entenderíamos hoje como mais trabalho. Numa festa religiosa, a comunidade está envolvida em contribuir com a natureza, vista de forma divina, a fim de que a ordem em que a comunidade saiba viver se perpetue. É, portanto, nos tristes termos atuais, um dia de vital trabalho comunitário, em que as pessoas não podem desrespeitar mais horários ou uns aos outros, mas sim devem agir de forma estrita e calculada para não irritar o deus ou os deuses trazendo ruína para seu mundo. É um dia ainda mais regrado que o dia "comum" (que também tinha seu caráter sagrado, diga-se de passagem). Não conseguir mandar um bode expiatório para o deserto, significava conviver com o pecado entre a tribo, ou seja, morte e destruição desenfreada.
Só uma comunidade totalmente centrada num trabalho bitolado e alienante (e não em si mesma, ou seja, no usufruto de uma vida boa em comum) pode distorcer, como conseguimos, uma situação destas a ponto de entender que feriado, férias, descanso é quebrar todas as regras, fugir de si mesmo, ignorar o mundo e os outros, o que inclui quaisquer noções associadas obviamente àquela atividade "chatíssima e supra-ordenada" (por uma entidade impessoal, mas que no fundo é outro humano), o trabalho!
O desafio de inverter esse comportamento nem é grande, portanto. Não é preciso, como Spock, compreender o sentido da palavra "descanso" e aplicá-lo na prática. Longe de mim querer que o vaidoso ser humano seja lógico.
Bastaria as pessoas terem vidas em que reconhecessem maior sentido, que as tornassem mais felizes. Bastaria a gente levar o individualismo a sério, talvez (como a humanidade quase sempre levou a comunidade a sério): se é pra viver preocupado primeiro com o próprio umbigo, que seja a regra constante, de fazer o que se gosta e o que realiza cada um. Um grupo de humanos felizes, bem, realizados, não precisa desrespeitar os outros nos poucos dias em que acha que pode ser alegre. Não precisa, portanto, se matar na vontade de encontrar alguma gota de alegria num mundo de extenuante e entediante trabalho, em que as regras não lhe fazem sentido e que, portanto, geram a ideia de que desrespeito e alegria necessariamente andam juntos.
Um grupo de seres humanos felizes podem descansar quando é para descansar, sem confundir isso com a mania de uma anestesia egocêntrica e destrutiva. E as pessoas felizes que realmente gostam "sair da linha" sempre conseguem fazê-lo sem causar danos. Chega a ser quase impressionante, frente à gigantesca galera infeliz.
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
Eu não entendo a Legião da Boa Vontade
Sempre que a LBV me liga eles começam falando como Jesus me ama, as crianças me adoram, como todos queriam me agradecer pelo meu grande coração (sic), desejar Feliz Feriado-Mais-Próximo etc. Tudo isso, é claro, fazendo de tudo para que eu não tome a palavra (ou seja, sem nenhuma intenção de ME escutar) e fingindo que eu não sei que eles querem dinheiro. Ora, por que me tratar como criança, e uma criança imbecil, seria o caminho para chegar ao meu bolso? Sério que eles imaginam que eu vá sentir vergonha e POR ISSO lhes doar dinheiro? Não é doação para as crianças que eles querem, mas sim esmola extorquida por vaidade?
Como é que uma "Legião da Boa Vontade" pode passar décadas com a tática de se posicionar moralmente na situação mais detestável possível e então... pedir dinheiro!?
sábado, 20 de outubro de 2012
Formação continuada: a mesmice não morre
É difícil ser mais bitolado hoje do que se falando em modernidade líquida, velocidade e virtualidade disso ou daquilo. A menos que se esteja conversando com pessoas que nunca pensaram sobre a própria cultura (e não sejam nada instrospectivas ou intelectualistas), poucas afirmações podem ser mais óbvias do que essas. Pior ainda é se falar sobre a falta absoluta de verdades, tudo ser relativo, ou - o cúmulo - "hoje a gente vive na era da Internet"!
Não entendo como ainda se aceite que alguém, em 2012, esteja descobrindo a Internet. É tanto uma ferramenta quanto um fenômeno cultural batido. Não bastasse tudo isso, a maioria dos usos dela continua sendo uma recauchutada dos usos de ferramentas mais antigas, portanto grande parte do discurso sobre a Internet é meramente um elogio deslumbrado e ignorante.
Assim, ser convidado a me deslumbrar com a "cultura da nossa época" no sábado é simplesmente uma das piores notícias que eu poderia receber. É de doer ter que fingir que a "multiplicadade" e as incertezas contemporâneas são notícias, apaixonantes ou desesperadoras. Ainda se fosse alguém demonstrar quanta constância há nessa inconstância, quanta verdade há sob esse relativismo, não seria novidade, mas seria de se respirar um pouco.
Mas não, seguimos sendo "continuamente formados" por pessoas que não reciclam o cerne do próprio discurso (ainda que usem exemplos novos) desde 1970 - e o formato dos comentários desde 1990. Os empregadores têm razão: ou atrelam o salário do profissional a fazer "formações continuadas", ou não tem quórum.
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Propaganda eleitoral em Porto Alegre
![]() |
| As alturas dos candidatos indicam aproximadamente as intenções de voto para cada um, mas acho que Villaverde tá se espichando um pouco... |
Fortunati não podia fazer diferente (será que não podia mesmo?), mas foi uma péssima escolha um slogan de "melhorou, vai melhorar"... Porto Alegre melhorou desde que ele virou prefeito? Não consigo pensar em nada que esteja melhor de 2010 pra cá. Ou talvez ele queira dizer que as coisas melhoraram desde que Fogaça, de quem era vice, ocupou a prefeitura? Bom, nesse caso, sua proposta é seguirmos mais 4 anos com as reticências do governo Fogaça? Baita candidatura essa...
Mesmo assim, desde que Fortunati virou vice, Porto Alegre não melhorou! Seria fácil argumentar que piorou, mas, mais do que isso, o grande problema me parece ser que uma coisa ou outra estar melhor (como um eleitor de Fortunati poderia querer argumentar) bate em teclas absurdamente pontuais. É esse o problema que só se agrava em Porto Alegre. O pessoal tem tratado o governo como um lugar pra fazer arremates, apagar incêndios e cumprir horário! Qualquer governante que preste só presta porque tem um projeto sistêmico, ou (o que acho um pouco pior, mas vá lá) uma bandeira um pouco mais restrita, mas fortíssima. Então, não é o caso se um viaduto não está mais desabando ou se começaram finalmente a planejar uma obra que foi proposta há 8 anos. Nem é o caso de se dizer que os alagamentos desses últimos dias indicariam uma terrível administração. O caso é PORTO ALEGRE (batendo no peito e tendo em imagem a cidade toda) mudou, ou não mudou? Não mudou. No pouco que mudou, o saldo é negativo. So sorry.
![]() | |
| Manuela, conceito "comunista de shopping" |
Pior ainda, muito senso comum político parece nascer de gente da nossa faixa etária, ou seja, de toda a galera que cursou faculdade na entrada do século XXI, como ela. Manuela tinha uma vida política bem típica na faculdade, mas nunca cuidou da imagem pessoal. Fofocas mil a seu respeito são corroboradas por exércitos de homens e mulheres entre os 27 e 30 e poucos anos. De alguma forma, me parece que suas indiscrições (associadas à atividade política, aliás), assim como as de seu atual "companheiro", têm pesado em sua rejeição de voto. Não sei como outros grupos a enxergam, no entanto.
E temos o Villaverde! Pobre coitado, é um nerd posto no ataque, na Educação Física. Sua forma contida, seu sorriso de quem não deveria estar ali, sua consciência de ser completo desconhecido de quem lhe descobre candidato a prefeito, seu jeito inclinado para a frente de andar fingindo ser decidido, sua campanha flutuando ao sabor do vento, sua forma de se encolher ainda mais perto do Lula, que mesmo contido aparenta o gigantismo de um Don Corleone pajeando o netinho indefeso... Pobre Villa! Vem, vem cavar segundo turno e apoiar a Manuela, teu destino...
Marcadores:
estética,
imagem,
mídia,
política,
publicidade,
retórica,
vergonha alheia
sábado, 18 de agosto de 2012
Olímpicos, orai por nós
![]() |
| Brasileiros por acaso: melhor equipe de vôlei feminino do mundo. |
Nunca tinha dado bola para as Olimpíadas no século XXI. Até 2000, acompanhei, mas elas pareciam ter perdido o sentido desde então, o que já vinha acontecendo, é verdade. Dei uma olhada nas tecnologias da China, que era a terrível superpotência emergente que iria destruir o mundo ocidental pelo mercado, conforme os analistas de então, mas o fiz mais acompanhando fotos da cerimônia de abertura que realmente assisindo à transmissão. E deu.
![]() |
| Brasileiro por acaso: 3o maior judoca do mundo. |
Estranhamente, quando as deste ano começaram, senti vontade de acompanhar tudo o que pudesse. Passei então a ver sempre que podia, na Record ou nas TVs por assinatura alheias.
Não foi difícil entender de onde meu interesse repentino nos jogos, depois desses anos todos. Já faz uns 4 ou 5 anos que eu vivo praticamente de dar aula, mais do que qualquer outra coisa. Não vinha mais praticando esporte e todo o meu esforço de pesquisar ou escrever virou um rodapé sem remuneração. Não que eu recebesse para estudar antes, mas as exigências de sala de aula são muito maiores do que as de qualquer ganha-pão que eu tivesse antes, de modo que o que eu faço de graça perdeu muito terreno.
E o que significa dar aula? Significa mirar quase sempre no médio, no mais ou menos, no aceitável. Não estou falando sobre políticas inclusivas, cotas ou qualquer outra bandeira. Para um aluno deficiente, por exemplo, atingir a média pode ser um gigantesco desafio. Acontece que o aluno típico também pode e só precisa render muito abaixo de seu potencial. Não importa muito a opinião do professor a respeito; ele é requisitado a fazê-lo por quem o contrata, pelo menos quando é professor público. Existem exceções a isso, mas só ocorrem por mérito de algumas diretoras, localizadas em contextos que as permitam manter uma escola atípica.
![]() |
| Brasileira por acaso: maior judoca do mundo. |
Dar aula é ser exigido ao máximo para exigir o mínimo. Podem frasear de forma diferente se quiserem, duvido que achem um argumento para que não seja só eufemismo para isso.
As Olimpíadas só podiam então atrair minha atenção: uma cultura de exigência máxima, de dedicação extrema, de superação, de desejo de perfeição, além de uma forma absolutamente elegante e honrada de lidar com a competição, uma capacidade de pensar o "vale a pena é competir" e de aceitar os acidentes do caminho que só quem se dedica ao máximo a algo consegue compreender e executar. Entender a derrota, não humilhar nem a si nem ao próximo, é muito mais fácil para quem tenta com toda a dedicação, não para quem se satisfaz sempre com pouco.
Logo, tanta gente (inclusive grande parte de nossos jornalistas e opinadores) que vive da cultura do "até aqui tá bom", "ah, deixa assim que ninguém ia fazer mais mesmo" etc., toda essa gente cai no pau por qualquer medalha de prata e adora exigir resultados dessas pessoas que dão um duro inimaginável. Aliás, sempre que se fala em equipe "brasileira", já está se fazendo um abuso exatamente nesse sentido. O que o Brasil faz para supor que é representado por essas pessoas apaixonadas e esforçadas? Não digo só o governo. Todo brasileiro é quem para se orgulhar em nome do Zanetti, que ganhou ouro nas argolas, a custa de fazer os próprios aparelhos e treinar como era impossível no Brasil até ele próprio criar o jeito? Em que universo bizarro o Brasil se veria espelhado num sujeito desses, como nação?
![]() |
| Brasileiro por acaso: 2o maior boxeador do mundo. |
É óbvio que o governo comete a mesma pressuposição ridícula. A Dilma foi lá tirar foto com os medalhistas. Ora, quem lhe deu estatura de julgar que apenas os medalhistas mereceriam foto com a presidente? Por que os outros não estavam lá também, que chegaram às Olimpíadas apesar de todos os nossos presidentes, incluindo a própria Dilma? E o que eles teriam a agradecer ao governo, tirando, talvez, exceções como o futebol (que de fato se explica por outras vias para se destacar)?
![]() |
| Brasileiros por acaso: 5o maior equipe de basquete do mundo. |
Foi o que fez André Barcinski, um "crítico da Folha" e produtor de TV, que acusou a não mais poder a equipe brasileira do vôlei feminino por ter rezado ao ganhar. Pressupunha ele, como deixou claro no texto, que a equipe representava o Brasil, o que já é muito problemático pelos motivos que acabo de expôr. Partindo disso, declara que foi um ato de intolerância religiosa rezar. Por quê? Porque estavam representando (sic) um país laico que, ao mesmo tempo (supõe ele), não aceitaria manifestações de nenhuma outra crença que não a cristã.
![]() |
| Brasileiras por acaso: semifinalistas mundiais do nado sincronizado. |
Três problemas graves: acha que alguém, nem que seja a nação supostamente levada às quadras, pode legislar sobre a comemoração do time quando as atletas manifestam as suas crenças religosas de forma pacífica (aliás, ele imagina que algumas o tenham feito por pressão, para não ficar deslocadas, baseado em... nada); acredita ainda que liberdade religosa é proibir a manifestação de crenças em todos os aspectos públicos da vida de todo cidadão; considera lógico, por fim, que nenhuma manifestação cristã pode ser permitida porque as outras também não seriam - ou seja, se não se aceita umbanda ou budismo, a solução é proibir o cristão e não permitir aqueles!
Por esse raciocínio, André é "libertário" proibindo um time que é posto abaixo de sua crítica apesar de tudo só porque ele é brasileiro e elas fizeram a bobagem de usar o próprio talento e esforço para representar um país que não as aceita nem apoia, e o time de vôlei todo é considerado "intolerante" porque agradeceu ao seu deus, baseado na crença de que ele teria algum mérito decisivo pela vitória. Eu não acredito em deus algum, mas devo dizer que a crença nele com certeza fez mais parte daquela vitória do que qualquer ato dos Andrés que povoam o Brasil. Se o time vai homenagear alguém, todos os Andrés só fariam bem ficando bem quietinhos nos seus cantos, com muito respeito. Eles têm a liberdade de falar besteiras, é verdade, mas continua sendo uma pena que ninguém com projeção também declarem suas besteiras aquilo que são.
Marcadores:
Brasil,
clichês,
conflito simbólico,
hipocrisia,
liberdade,
mídia,
moral,
religião,
retórica,
vergonha alheia
sábado, 11 de agosto de 2012
Lugar para viver bem
![]() |
| O ponto de interrogação foi a melhor ideia! |
Faz 2 anos que convivo mais diretamente com a análise de apartamentos, por milhares de motivos. (De um jeito ou de outro, todo o mundo quer se mudar?) A dificuldade de encontrar um espaço não só decente para se viver, mas bem distribuído, entra em choque com apartamentos ficcionais, especialmente com aqueles a que nos apegamos. Neles, mesmo que descontemos os planejamentos para o movimento da câmera, ainda encaramos um lugar agradável, pensado para pessoas, não apenas para respeitar ou distorcer a metragem.
Em geral, a ficção não serve de parâmetro para o que acontece ou para o que é exigido de um profissional real. Professores, bombeiros, policias, jornalistas, políticos, arquitetos, piratas... poucos poderiam ser exemplos para ou da vida real.
Isso não quer dizer que alguns deles não possam se tornar ideais para os profissionais de fato, como de fato acontece. Até Indiana Jones foi e é herói de muitos historiadores. E quanto aos arquitetos implícitos? Será que os espaços de seriados e filmes não podiam servir de exemplo, pelo menos um pouco?!
Marcadores:
cotidiano,
imagem,
incompetência,
mídia,
saudosismos,
vergonha alheia,
vida
terça-feira, 17 de julho de 2012
Diversidade e ignorância sobre greves federais
Em reação a isso.
Que ignorância achar que "greve remunerada" é um conceito estapafúrdio, quando é a base mesma do direito de greve. Que ignorância achar que isso sustenta qualquer pessoa que "não queira trabalhar", que poderia automaticamente entrar em greve e receber seu salário. Que ignorância achar que a remuneração do grevista é automática, sem critério algum. Que ignorância não saber que o salário, se sustenta o trabalhador em greve, será integralmente descontado se o mesmo trabalhador não pagar por cada dia de greve depois, situação única da profissão de professor, (justamente esses "vagabundos" trabalham por todos os dias em que ganham salário, diferente de qualquer outra classe que possa fazer greve)!
Que ignorância achar que a maioria dos professores (pior: que todos!) em greve estão na classe A!!!!!
Que ignorância achar que os professores querem automática e necessariamente mais impostos, ou que isso é a única forma de se resolver os problemas dos institutos federais. Que ignorância achar que os professores querem unicamente melhores salários, ou mesmo que isso resuma a maior parte de suas reinvidações (que tal começar pelos prédios de aula literalmente desmoronando?). Que ignorância acreditar que os professores em greve não trazem outras formas de contribuição para suas faculdades ou institutos quando não estão em greve. Aliás, que ignorância não saber que vários deles seguem contribuindo para o investimento nos institutos e faculdades federais, bem como diretamente a seus alunos, durante a greve. Que ignorância crer numa dicotomia professor/funcionário público, assumindo ainda que a única forma de ser funcionário público é aquele senso comum de se atirar nas cordas e que a única forma de ser professor é o clássico mártir ético, que resolve de mãos nuas as incompetências de toda a estrutura que deveria lhe sustentar e que, contraditoriamente, só segue em pé por seus singulares esforços. Que ignorância achar adequado, benéfico ou aceitável reincidir nesses preconceitos e reforçá-los sem, pelo visto, o menor conhecimento de causa, sem nada saber sobre professores, aparentemente, para além dos lugares comuns de debates de esquina.
Quanta ignorância vinda de um sociológo, que andou estudando que sociedade para resumir dessa forma o quadro atual e aceitar tais clichês do senso comum como conceitos para um texto de jornal?
Quanta ignorância selada pelas únicas palavras sábias escritas na página: "Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal.
Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas
brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do
pensamento contemporâneo."
É preciso muita diversidade para caber tanta ignorância.
Marcadores:
Brasil,
clichês,
conhecimento,
Educação,
ética,
hipocrisia,
política,
retórica,
vergonha alheia
terça-feira, 10 de julho de 2012
A sagrada mão privada para limpar a merda pública
Leiam isto antes.
Agora me respondam: que merda é essa?!
Isso é que é comprar discurso do governo! A única opção para resolver a Educação é aumentar impostos ou tirar dinheiro de outras áreas da própria Educação ou da Saúde?! Quer dizer que o governo, em todo o resto, está gastando muito bem? E, óbvio, é culpa dos professores que o governo não fiscalize os gastos dos reitores?
Claro, acabar com o ensino público é a melhor solução! Afinal, as faculdades privadas são direcionadas por determinações ideológicas voltadas ao povo (por pior que isso possa ser executada na pública, pelo menos está em disputa franca sempre) e escutam exigências públicas, elas sim cumprem todos os deveres legais mesmo que não sejam fiscalizadas. Suas bibliotecas são abertas para todos e seus seguranças nunca impediriam certo "tipo de gente" de entrar em suas dependências.
Mas estou me perdendo em bobagens. O problema não é o que uma faculdade privada faz, mas sim que a resposta para o problema de qualquer instituição pública seja sempre acabar com esse seu caráter. Ou seja, qualquer problema não deve ser resolvido pelo governo, mas descartado ou jogado nas mãos da iniciativa privada. Por que a resposta para a irresponsabilidade do governo é sempre tirar mais responsabilidades dele?!
Claro, acabar com o ensino público é a melhor solução! Afinal, as faculdades privadas são direcionadas por determinações ideológicas voltadas ao povo (por pior que isso possa ser executada na pública, pelo menos está em disputa franca sempre) e escutam exigências públicas, elas sim cumprem todos os deveres legais mesmo que não sejam fiscalizadas. Suas bibliotecas são abertas para todos e seus seguranças nunca impediriam certo "tipo de gente" de entrar em suas dependências.
Mas estou me perdendo em bobagens. O problema não é o que uma faculdade privada faz, mas sim que a resposta para o problema de qualquer instituição pública seja sempre acabar com esse seu caráter. Ou seja, qualquer problema não deve ser resolvido pelo governo, mas descartado ou jogado nas mãos da iniciativa privada. Por que a resposta para a irresponsabilidade do governo é sempre tirar mais responsabilidades dele?!
Pior ainda, como sempre, SE fosse possível o governo acabar com o ensino público superior, ele ainda arrumaria a faculdade para entregá-la funcionando à mão privada (milagrosamente achando soluções para o que "não podia ser resolvido" antes) e os impostos (DÃ!) não abaixariam!
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Rio +20 e a política
![]() |
| Uma mulher no poder? Lá de onde eu venho não tem disso não... |
Faltam dois dias para recebermos mais uma vez Ahmadinejad no Brasil! Ele vem por causa do Rio +20. Obviamente seu objetivo é "estreitar relações" com Brasil, um dos grandes países a aceitar seus crimes de Estado e o terrível sistema político do Irã.
É um desafio para mim entender o que a proposta de um "mundo sustentável" tem a ver com perdoar um Estado teocrático daqueles. Mas, na verdade, nem entendi ainda como um país democrático (especialmente se o país se anuncia internacionalmente como democrático) recebe ditadores e assemelhados. Os governantes do mundo, porém, não apenas lidam bem com a situação como a repetem inúmeras vezes, com toda a tranquilidade. Os governos da América do Sul, então, são especialistas nisso (o Brasil tem até uma Associação de Amizade Irã-Brasil!!!). E o discursinho de um mundo diferente, possível somente longe dos EUA, sempre marca presença nas contorções retóricas que permitem esse tipo de amizade. Além do mais, com o que a Dilma já arregou para militares aqui, o que seria cumprimentar e conversar animadamente com a misoginia encarnada, né?
Por outro lado, contorções retóricas as temos para o principal problema: o programa nuclear iraniano. Até que se prove cabalmente que ele é mesmo militar, o Irã pode ser desculpado, por alguns, como inocente. Por isso, Ahmadinejad e seus companheiros não permitem de jeito nenhum que os países interessados analisem direito o que rola por lá. Nada suspeito, né?
O Mensalão também, se não for julgado, segue sendo uma acusação vazia. Para alguns... Curiosamente, para os mesmos que aceitam o segredinho de Ahmadinejad com seu urânio. Assim, nosso governo toma a mesma tática: atrapalha e atrasa a investigação a fim de impossibilitar a acusação cabal.
Aqui, a acusação prescreve, e seguimos com a currupção impune. Lá, a acusação sem provas só tem prazo de validade até o mundo ir pelos ares.
Marcadores:
alarmismo,
Brasil,
clichês,
Direitos Humanos,
ética,
hipocrisia,
moral,
política,
religião,
retórica,
totalitarismo,
vergonha alheia,
violência
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Teocracia americana
Jesus é a favor dos impostos?
Jesus é a favor de uma máquina estatal enxuta?
Jesus restringiria as boas ações a esmolas e ONGs? Só a esmolas? Só a ONGs?
Jesus era a favor do capitalismo mais liberal já imaginado?
Numa demonstração assustadora de ignorância, burrice e anacronismo, os republicanos transformaram de vez a discussão política em teologia. Nem mesmo o que deveria ser o campo do milagre, do absurdo e da superação do que há de mais terrível em nossa natureza escapa à simplificação de que tudo é mercado, tudo é de troca.
Sendo a política uma teologia, as eleições, a escolha do mais perfeito cristão e a corrida por votos, uma teogonia, o que impede ainda os EUA de serem chamados de uma teocracia?
Para os absurdos, ler aqui.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
As verdades relativas dos direitos humanos
![]() |
| Olhando por essas lentes... |
Li há pouco uma daquelas grandes não-notícias que marcam nosso jornalismo: "O governo cubano negou a autorização para que Yoani Sánchez saísse do país".
Não é uma notícia já que não há aí qualquer novidade, qualquer resultado imprevisto, qualquer consequência diferente das 18 vezes anteriores. Como não é notícia Dilma não ter feito nada a respeito (ou mesmo se pronunciado a respeito, que me conste). Yoani disse que ficou decepcionada com a presidente ter ido a Cuba ignorando quaisquer temáticas de Direitos Humanos, mas preciso crer que é mais uma afirmação política obrigatória da blogueira do que sentimento verdadeiro de surpresa.
No entanto, é preciso assumir que, da política externa à Comissão da Verdade (ridícula do batismo à maturidade), Dilma demonstrou como é forte: poucas pessoas poderiam passar por luta armada (direta ou indiretamente) e pelos "porões da ditadura" para depois (tão consistentemente) se abster das causas humanitárias e do problema do sigilo de informações da história do país.
A "abertura" das atividades políticas contemporâneas (fora da categoria "segredo de segurança") que sancionou é também ela uma vergonha, porque óbvia - ainda que sejamos tão paupérrimos politicamente que devamos agradecer quando qualquer presidente chove no molhado, tentando garantir por lei direitos que já temos. A ação atestou que é preciso ser lei para que os políticos assumam que trabalham para o público, e que o povo tem o direito de saber o que diabos eles fazem quando folgam dos desvios e discursos vazios para cuidar um pouco da coisa pública.
Yoani precisa expressar um desapontamento com o óbvio; jornalistas precisam "noticiar" silêncio de Dilma... É como o clima. Precisa estar na primeira página, para o editor do jornal se sentir bem. Mas nem por isso é notícia. Chocante, interessante, instigante, seria mesmo o contrário de tudo isso.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Ajuda Política aos Pobres ou Afunilando no ENEM
![]() |
| Lourival, óculos e uma tirinha verde-amarela. Você não confia neste patriota? |
Agora a lei vai ser (ou está a ponto de ser) que todas as faculdades federais e estaduais tenham a mesma data para fazer seu vestibular. E isso está sendo feito "para ajudar os pobres"!!!!!
Ahã. Mas, vamos pelo menos ler o argumento do deputado Lourival Mendes, do PTdoB do Maranhão (que trouxe para você, entre outras, a proposta do Maranhão do Sul). Conforme o sujeito, as universidades terem várias datas permite que pessoas com maior renda façam vários vestibulares, tirando as chances dos alunos de menor renda.
Hmmm... Pessoas ricas também conseguem estar em vários lugares ao mesmo tempo? Pelo que me consta, a menos que a pessoa vá MUITO mal numa prova, se quem ganhou dele não pega a vaga, há segunda, terceira ou sabe-se lá quantas chamadas para que o pessoal que ficou abaixo pegue aquelas vagas. Mesmo supondo, portanto, que os mais ricos sempre vão melhor que os mais pobres, como parece indicar Lourival, o fato de que eles não podem ingressar em todas as faculdades do país parece tirar uma base importante de seu argumento: eles fazem vários vestibulares, mas têm o poder mesmo de "tirar a vaga" (visão que xinga o mérito de quem passa) de uma pessoa.
Quer dizer, se o pobre ia competir numa universidade que chama muita gente, o rico que ia "passear pelo país fazendo provas" (convenhamos, não são muitos os que podem e tentam vestibulares em tantas faculdades DISTANTES o suficiente para que outros competidores, mesmo pobres, não possam fazer o mesmo deslocamento, se assim o decidirem) pode até não competir em muitas outras, mas vai se concentrar ainda mais naquela competida, ou atirar apenas naquela em que acha que ia passar - como já seria o caso se tivesse tentado em muitas. Quem faz muitos vestibulares (talvez com raríssimas exceções) concentra-se mesmo numa prova ou duas. Não tem paciência, disciplina e constituição para fazer bem todas elas. Novamente: se for bom aluno, suficiente para passar em várias, seguirá "tirando a vaga" daquela faculdade importante em que, agora, coloca todos os seus esforços e energia.
Quer dizer, se o pobre ia competir numa universidade que chama muita gente, o rico que ia "passear pelo país fazendo provas" (convenhamos, não são muitos os que podem e tentam vestibulares em tantas faculdades DISTANTES o suficiente para que outros competidores, mesmo pobres, não possam fazer o mesmo deslocamento, se assim o decidirem) pode até não competir em muitas outras, mas vai se concentrar ainda mais naquela competida, ou atirar apenas naquela em que acha que ia passar - como já seria o caso se tivesse tentado em muitas. Quem faz muitos vestibulares (talvez com raríssimas exceções) concentra-se mesmo numa prova ou duas. Não tem paciência, disciplina e constituição para fazer bem todas elas. Novamente: se for bom aluno, suficiente para passar em várias, seguirá "tirando a vaga" daquela faculdade importante em que, agora, coloca todos os seus esforços e energia.
Mas, vamos um pouco além: alunos mais ricos fazem vestibulares em faculdades particulares, e os mais pobres, em geral, não. Então o pessoal com grana ainda pode tentar atirar para mais lados que os mais pobres, certo? E as faculdades particulares seguem podendo adiantar a data de suas provas, cobrando a primeira parcela dos que passam antes que estes descubram se passaram ou não nas públicas. Assim, todo o mundo sai perdendo mais um pouco, quem tem mais grana continua podendo ser explorado por essa sacanagem, enquanto os mais pobres, dependendo das públicas, poderão tentar um vestibular só e deu! Não passou onde escolheu fazer a prova? Bye, bye, tapinha nas costas...
Então o efeito que o deputado diz querer causar com a lei é de fato pouco provável, não vai ajudar pobre algum. No entanto, que efeito dessa lei é previsível? O que sobra ao estudante além de tentar UM Vestibular? Depender do ENEM, claro: a única outra probabilidade para quem não pode pagar outro vestiba! Ah, quer dizer então que a proposta de Lourival Mendes afunila todo o mundo no ENEM, em especial o pessoal mais pobre. Que legal! Todos vão agradecer pela ajuda, com certeza. Com amigos como o deputado...
Marcadores:
Brasil,
Educação,
ética,
hipocrisia,
Leis,
política,
retórica,
vergonha alheia
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Cinema ou Miss Hollywood?
Quando eu era criança, conhecia só duas experiências possíveis de filmes: assistir diretamente aos filmes e assistir ao Oscar. A maioria das opiniões que escutava era de amigos ou parentes próximos, o que não diferenciava ainda de uma experiência pessoal, mesmo porque quase ninguém tem mais a acrescentar sobre filmes do que "gostei" ou "não gostei". No caso do Oscar, tanto o "gostei" quanto o "não gostei tanto", indicados pela premiação ou pela simples indicação, tinham todo um aval técnico implícito, de modo que mesmo a seleção de quem concorria me indicava algum valor um tanto mais profundo reconhecido nesses filmes, e isso já me dava o que pensar.
Além disso, só no Oscar eu via um crítico de cinema realmente se deter em alguns filmes. Na época eu nem lia muito a revista de cinema que era assinada lá em casa e, quando a lia, ainda me perdia mais no celebrismo, nas fotos e na descrição dos filmes, sem perceber tão bem a parte crítica. Com o tempo isso mudaria, assim como o Oscar seria a principal, mas não única via, com Globo de Ouro e Cannes (sendo inventado e) ganhando espaço.
O crítico de cinema em questão era (Rubens) Ewald Filho. Depois de alguns anos, tanto a festa quanto a imagem do crítico começaram a ser minadas para mim. O peso do dinheiro na escolha do premiado e alguns valores que influenciavam a escolha do juri (não só os valores, mas até o fato de se considerar algum valor moral ou social num prêmio de cinema foram pintados com as piores tintas, claro) manchavam, teoricamente, o Oscar. E por um tempo isso me influenciou sem que eu achasse um norte mais pessoal para pesar as considerações que se mostravam óbvias.
Ewald Filho também foi criticado, geralmente por baboseiras como jeito de falar ou aparência. Diferente da festa, ninguém parecia achar que o crítico precisasse de objeções sérias. Qualquer coisa servia para descartá-lo, como uma celebridade ou um personagem de novela de quem não se gosta.
Não apenas pela falta de critério, as críticas a ele não me afetavam de forma prática nunca, porque eu continuava observando que, dissessem o que fosse a respeito da pessoa, ele era o único a tratar verdadeiramente de cinema na TV, que era minha principal mídia de informação e lazer. Mais do que isso, ele parecia saber muito sobre cinema, enquanto a mulher contratada para ficar bonita do lado dele só sabia falar sobre vestidos, penteados, casos e casamentos dos atores (até diretores eram distantes demais desse mundo para que ela soubesse fofoca, aparentemente). Ewald se interessava pelo cinema, não pelas celebridades, e isso me parecia ainda um valor inestimável, mesmo que ele tivesse dito a maior burrice ou babaquice a respeito de qualquer filme, o que de fato não vi acontecer.
Com o tempo, porém, foi o espaço da mulher do lado dele, fosse qual fosse (produtores de TV pareceram sempre conscientes de que, para o que pediam, não importava mesmo que mulher colocavam do lado) que foi crescendo - e era o crítico, muitas vezes, que era convidado a falar sobre fofocas, não a fofoqueira-profissional-por-uma-noite convidada a falar sobre filmes. A única exceção foi a época em que Marília Gabriela o acompanhou, mas ela, como se sabe, é uma das poucas apresentadoras com Licença para Usar QI, e na época acho que era a única (ela, no entanto, esteve atrelada ao SBT, o que complicava a parceria). Marília podia falar sobre tudo na apresentação, até sobre cinema, vejam só!
Talvez pareça que indico a indústria da moda como uma indústria sem QI. Não é o caso, mas só falar sobre moda (e fofocas) quando o assunto são filmes e estender seus comentários no limite àqueles "gostei" ou "não gostei" desse cabelo/vestido/sapato não é marca de inteligência nem de se conhecer moda.
Talvez pareça que indico a indústria da moda como uma indústria sem QI. Não é o caso, mas só falar sobre moda (e fofocas) quando o assunto são filmes e estender seus comentários no limite àqueles "gostei" ou "não gostei" desse cabelo/vestido/sapato não é marca de inteligência nem de se conhecer moda.
Como dizia, o diferencial do crítico era gostar de cinema, mas parece que se deu mais e mais espaço exatamente para quem não gosta da coisa, e precisa falar sobre indumentária e relacionamentos amorosos para matar o tempo e "entreter o telespectador" (que, pelo jeito, supõem também não gostar de cinema). O que o pessoal que comenta festas de cinema parece pensar é que ninguém vai assistir a premiação alguma, então é melhor não gastar dinheiro na cobertura, nem mesmo pagando para "jornalistas" comentarem ao vivo.
O problema é que a internet é a mídia do momento, tanto no sentido de "atual" quanto no sentido de "ao vivo". Não existe mais desculpa para não se cobrir um programa em tempo real, e a concorrência vai fazer exatamente isso. Resultado: seguem pagando mal (só posso supor, porque as coberturas não merecem salário) para gente que quer falar sobre outra coisa.
Ainda assim, a Folha de São Paulo merece um prêmio. Seus comentaristas no site compararam prêmio pela obra para Morgan Freeman com quadro do Faustão (descartaram Freeman com aquele "não gosto" de adolescente em sorveteria), ficaram falando sobre quem é atraente ou não, fazendo piadas semi-internas e tratando o público de artistas como idiotas porque não os percebiam rindo muito das piadas. Supunham obviamente que os americanos não estivessem entendendo as piadas, não que não as achassem tão engraçadas quanto os "comentaristas" (ou que o microfone não estivesse pegando muito suas risadas, o que é bem comum nessa cerimônia). Sabem como é, igualar artista norte-americano a "burro" é absolutamente natural para uma pessoa contratada a comentar arte norte-americana...
Minha expectativa é baixa, nem sabia que a Folha tinha esse acompanhamento aliás (agora vejo por que nunca ouvira falar a respeito!), mas ainda assim era de assustar.
Minha expectativa é baixa, nem sabia que a Folha tinha esse acompanhamento aliás (agora vejo por que nunca ouvira falar a respeito!), mas ainda assim era de assustar.
Não posso falar sobre o acompanhamento em canais fechados, porque passei obviamente, quando assisto, a aproveitar o acesso direto à cerimônia, sem comentaristas nacionais. Está longe de ser minha conexão única com cinema, bem como não vivo há muito restrito a Hollywood, é claro, mas ainda me impressiona que o pessoal que tenta apresentar pelo menos esse cinema para o grande público continue irresponsavelmente falando sobre outros assuntos ou escolhendo gente que não gosta de cinema para tapar o buraco. Eu esperava que ao menos o cinema que dá enorme lucro merecesse alguma atenção mais séria das empresas de TV, que (por também viverem do lucro) necessariamente veriam valor pelo menos por esse lado. Mas nem isso Hollywood merece, o que me parece dar uma medida do gigantesco desrespeito com o tema e, portanto, com o público para quem ainda acham que precisam fazer uma cobertura.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Os distantes cristãos da Nigéria
![]() |
| O resultado de UM dos ataques a uma das igrejas. |
Anteontem cristãos foram novamente atacados na Nigéria. A onda é tão sistemática e violenta que as autoridades locais da religião estão chamando de depuração étnica e religiosa. Foi feito um ultimato para que as pessoas de crença cristã abandonassem o país, e tal ultimato "expirou" na quarta passada. Mais um detalhe: estima-se que 40% da população (deste que é o país mais populoso da África) é cristã, por enquanto. Também é interessante dizer que o grupo islamita responsável não apenas mata e violenta cristãos, como enfrenta, em grande parte por isso, a polícia e o exército.
Pois bem, quando um grupo assim preparado para violência provoca uma calamidade do tamanho da que está sendo causada na Nigéria (situações desse tipo não existem só lá, é verdade, como bem se sabe, por exemplo, a respeito do Egito), espera-se em geral que haja grande comoção, particularmente se é algo que pode provocar empatia direta em grupos bem representados no "Ocidente" (Europa, EUA, e alguns países como o nosso - ouso nos incluir para estes fins).
Agora, não é só que não tenha visto reação a essa situação, salvo os comentários um tanto isolados de um que outro conservador (desacreditado para retweets e compartilhamentos em massa já por isso). Há também um problema terminológico na notícia acima, o que complica seu efeito por estas bandas. "Cristãos" em geral são entendidos no Brasil como "católicos". Não é que as pessoas não saibam que o termo vai além, mas ele ainda provoca mais associação com o Vaticano que com qualquer outra coisa. "Crente" é o evangélico, de qualquer igreja, "protestante" é o das antigas (anglicano, p. ex.) e espírita é "espírita". Talvez por isso quem noticiou a situação da Nigéria não se preocupou em dizer que "cristão" é esse tão bem representado por lá. Pela proporção, no entanto, imagino que sejam oficialmente católicos mesmo.
Pois bem, "cristãos" estão envolvidos em outros problemas por cá. Até um pastor evangélico engravidou menores (ou seja, não só os padres ficam tachados de pedófilos), mas os tais "católicos" seguem chamando problemas: o papa, pensando que as coisas andavam muito tranquilas no front das uniões de Direitos Humanos, declarou para diplomatas de diversos países que a união homossexual ameaça "o próprio futuro da humanidade".
Todos sabemos como o casamento homossexual é politicamente importante hoje em dia. Ele, como a questão do aborto, passou a significar votos, a favores ou contra, o que, por sua vez, passa pela importância ou valor que se dá às opiniões emitidas no Vaticano sobre a política, a vida e o universo. Desse modo, apoiar ou não cristãos, dar ouvidos ou não às suas reclamações, tem todas as cores do partido de que se participa, em que se vota ou meramente que mais se apoia.
Por tudo isso, "limpeza" étnica na Nigéria não pode ser importante, não por aqui. Não pode virar tema de escândalo internacional, como, por exemplo, um importante líder francês se aproveitar ou não de uma empregada de hotel. Assédio é crime, merece ser investigado, claro. Mas perseguição religiosa não?
É claro que sofrimento sempre há, é claro que injustiças estão por todos os lados, em todos os países, mas o mesmo é verdade, digamos, sobre maus-tratos contra animais. No entanto, o sofrimento dos cães (que eu adoro, por sinal, mas não da forma erótica como geralmente se vê no facebook) pode virar essa espécie de corrente anônima de protesto, uma versão virtual e sublimada dos Occupy (sem liderança, um tanto genérica em sua boa intenção). Já problemas éticos que sejam também políticos e têm enorme magnitude, não!
E eu sei que não tem muito que as pessoas daqui poderiam fazer pelos nigerianos, ao menos não sem uma grande organização que dificilmente se dariam o trabalho de fazer, mas não considero que essas correntes light de facebook tenham significativas consequências para o respeito e a adoção de animais, não na prática, não de fato. O abuso de animais (humanoides ou não) é um pouco mais complexo...
E eu sei que não tem muito que as pessoas daqui poderiam fazer pelos nigerianos, ao menos não sem uma grande organização que dificilmente se dariam o trabalho de fazer, mas não considero que essas correntes light de facebook tenham significativas consequências para o respeito e a adoção de animais, não na prática, não de fato. O abuso de animais (humanoides ou não) é um pouco mais complexo...
É interessante que os sofrimentos bastante reais e efetivos de grandes quantidades de seres humanos não consiga quase nunca tocar as almas sensíveis da mesma forma que o "escândalo da vez". O engraçado é que eu costumo ser considerado um tanto brutal no meu desrespeito ao ser humano, nas minhas críticas à espécie. Às vezes isso é até associado ao meu ateísmo. Só que o que eu (por ateísmo?) não entendo é a compaixão cristã que sofre pelos cães, mas que não enxerga ou não sente o sofrimento de outros cristãos. Tudo bem que a espécie humana não precisa ser preferida, mas será que não dá para valorizá-la como, pelo menos, igual aos cães?
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
A educação que assusta
Eu ia fazer um post sobre a questão da repetência de ano, sobre o sistema que faz com que um aluno passe ou não. Descobri, ao escrever o texto, que tenho medo de publicar tudo que está envolvido nesse processo. Meus textos não costumam ir longe, mas, como os tweeto, às vezes são retweetados, e não sei onde eles vão parar.
Falar a verdade sobre a educação pública é sempre falar mal de muita gente. Tenho certeza de que essas pessoas se sentem totalmente seguras a respeito de que se publique sua hipocrisia e incompetência, mas também acredito que, às vezes, certas informações podem rolar por aí na hora errada. Também sei da importância do sistema de retaliações para a manutenção da engrenagem propriamente política da educação, ou seja, de suas secretarias. Só posso supor que situação seja semelhante em seu Ministério.
O fato é que o movimento dos alunos entre os anos da escola envolve tantas questões logísticas, geográficas e burocráticas que a aprendizagem não poderia estar mais distante do foco que o governo tem nas crianças que dependem deles para aprender sobre o sistema de nossa sociedade, estejamos falando de conhecimento científico e artístico ou da linguagem dessa sociedade, incluindo aí a educação, a ética, o respeito, até mesmo o controle do corpo de acordo com aqueles valores que bem conhecemos, já que irritantemente repetidos pelo Fautão, pelas heroínas da novela das 8 e por candidatos federais.
Mas, como a questão aqui é contar ou não contar, isso mais me faz pensar muito no quanto não temos jornalismo. Tantas e tantas matérias sobre educação ao longo do ano, em todos os estados, e ninguém toca em mais que a ponta da superfície do começo do problema (preferindo em geral gastar tempo e tinta na velha "É culpa dos professores?"). Se soubessem, a maioria dos pais usaria a escola literalmente como uma creche (o que já tentam, só não precisariam mais lutar contra um discurso que lhes resiste) ou os tiraria simplesmente de lá. No momento, o Bolsa Família já não motiva tanta gente a ir. Com o conhecimento da verdade, ninguém mesmo acharia que o Bolsa seria motivo para matricular o filho, mandá-lo para lá toda manhã, em vez de arranjar formas para a criança, direta ou indiretamente, aumentar a renda da família e - seria o ponto de vista deles, e quem poderia negá-lo? - aprender uma profissão (por pior que esta fosse aos olhos de todos que recebem mais que um salário mínimo).
Marcadores:
alarmismo,
Brasil,
burocracia,
conflito simbólico,
conhecimento,
Direitos Humanos,
Educação,
ética,
hipocrisia,
imagem,
imprensa,
incompetência,
política,
retórica,
vergonha alheia,
violência
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Perdido na livraria
Existem duas livrarias por estas bandas: a Cultura e a Internet. No entanto, sem pouso para meu corpo num dia em que todas as ideias úteis eram travadas por acidentes do destino, me vi forçado a "não fazer nada" em algum lugar, de modo que entrei numa outra livraria, por que estava passando. Não era qualquer livraria, é verdade. Tratava-se de uma em que eu lembrava de ter tido boas surpresas, até sua adaptação mais recente, talvez em resposta à proximidade da Cultura, terminar de destruí-la.
Apesar do pessimismo, ainda fiquei impressionado. A literatura estrangeira não está meramente tomada por bestsellers/filmes, até mesmo os bestsellers tradicionais pegaram cacoetes daqueles, como capas inultimente brilhosas, cores sem nenhuma variedade (a volta de um amante, a vida de um espião e os melindres de um vampiro inseguro, pelo jeito, merecem o mesmo tratamento gráfico) e frases de efeito que... bem, talvez isso tenha sido mais influência dos clássicos nos modernos. A prateleira de "Literatura Brasileira" não tem apenas livros desinteressantes ou de culinária, estão lá também livros de piada (não de crônicas, de piada), manuais de vestibular disfarçados e, dominando o conjunto, biografias! O livro do Boni, aliás, tem grande destaque.
A grande surpresa foram mesmo as histórias em quadrinhos! Lá não havia apenas super-heróis, mas clássicos da literatura, da ópera, histórias originais (de humor, tragédia ou o que se quisesse) sobre história de império chinês, grandes heróis de diferentes culturas, dramas cotidianos modernos. Tudo, diga-se de passagem, com arte variada e interessante. A sessão de histórias em quadrinhos era a prateleira mais interessante e rica da loja. Logo ao lado, aliás, da grande sessão de Arte, que acabou me levando a escolher um livro sobre a obra do Dali e sentar para curtir um pouco. Um tanto a mais de estímulo intelectual e prazer do que geralmente meu dia encontra, é verdade, o que talvez indique que fui um pouco injusto no começo do post, falando sobre essa livraria, mas devo dizer que as histórias em quadrinhos e a arte não me diminuíram a incomodação com a parte sobre literatura estrangeira e brasileira. Entenderia uma variedade com certo foco em vendas, mas piadas, biografia (o que menos havia, algo como 30%, era literatura) e SÓ bestsellers na estrangeira? Tinha um Tolstoi lá no meio, é verdade. Pequeno e mirrado. Pobre, o que pode ser irônico, mas com certeza muito injustiçado.
É urgente que sejam criadas as sessões "Livros que Recontam Filmes" e "Coisas Escritas no Brasil". Se não querem literatura, assumam! O público, pelo jeito, nem vai notar a ausência.
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Depois de Deus, a Bolsa - para todos os problemas
Neste post eu havia dito que a mentalidade de "bolsas" era endêmica no país, e se acreditava que garantir apoio financeiro do Estado para qualquer coisa resolveria todos os problemas, em todas as áreas. Nunca achei que alguma opinião postada neste blog seria tão comprovada quanto agora, aqui.
Marcadores:
agressividade,
alarmismo,
assistência social,
Brasil,
Direitos Humanos,
ética,
Leis,
política,
religião,
retórica,
saúde,
vergonha alheia,
vida,
violência
sábado, 26 de novembro de 2011
Propagandas online
"Pintou aquela vontade de casar? Muita calma nessa hora! Descubra com o celular quando você vai se amarrar!"
O que seria de um sociedade centrada no mercado absoluto sem a estupidez?
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
A salvação na caixa do correio; ou O Best-seller de graça
Vocês já ouviram falar em "A Grande Esperança", de Ellen G. White, que tem aliás uma capa superbonita, de papel caro (como de foto, mas que não fica com uma gordurinha do dedo), com uma composição de fotos interessantes e o grande anúncio "Viva com a certeza de que tudo vai terminar bem"? Conforme essa linda capa, trata-se de um livro que, nessa edição, já vendeu internacionalmente mais de 35 milhões de exemplares.
E eu acabo de receber a pérola de graça, pela caixa de correio... Hm, será que devo suspeitar de alguma coisa?
Qualquer frase do livro valia um post, como "Todos os tesouros do Universo estarão abertos aos resgatados por Deus", ou "À medida que passam os anos da eternidade, surgirão mais e mais gloriosas revelações de Deus e de Cristo." Mas uma coisa definitivamente me recomendou ler o livro: segue o Novo Acordo Ortográfico!
Assinar:
Postagens (Atom)















