quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Armadura e amor: tudo a ver!

Ironclad (Sangue e Honra no BR) é um filme ok, bem feito, bem atuado, que ainda de quebra mostra de forma mais interessante assunto tratado de forma absolutamente inverossímil no último Robin Hood (o do Ridley Scott, com, a meu ver, o desperdício de Russel Crowe e Cate Blanchett).

Apesar de tudo, o filme tem um pecado, que é tão comum que resolvi desabafar aqui: ele tem uma história de amor. Por quê? Por que todo filme tem que ter história de amor, até quando ele é sobre a resistência de um forte estratégico, sob liderança de um templário, contra a tentativa do Rei João de reverter a perda de poderes que precisou engolir dos barões uns anos antes?!

A única exceção que eu conheço para filme sem romance caído do céu é Volcano, mas talvez por isso mesmo tenham escalado Tommy Lee Jones e Anne Heche. Que eu lembre ela tinha recém declarado que era lésbica, o que pode ter dado certa margem ao roteirista (ou o motivado) para conter o affair inverossímil, mas contra as leis das produtoras, pelo jeito, quando o assunto é protagonistas. Obviamente que o impedimento no caso não eram os 23 anos de diferença entre os dois: no ano seguinte, ela teria um caso com Harrison Ford, 27 anos mais velho que ela, em Seis Dias, Sete Noites.  

Agora, e o que interessa aqui, há enorme diferença para esse último filme: eles terem um caso era central na história, já que ela fora para a ilha onde conhece o personagem de Ford exatamente para "reacender a paixão" de seu casamento. Ou seja, as coisas não estavam bem, e ela teve a sorte/azar de encontrar alguém muito mais interessante que o marido (interpretado por David Schwimmer, que aguentou uma prolongada suspeita de ser gay até revelar com quem era casado havia um tempão: surpresa, era uma mulher!).

Volcano é, então, a grata exceção, apesar de o filme não valer a pena, de uma história em que mocinho e mocinha não precisam descobrir que se amam só porque salvam o dia.  Em parte foi por lembrar dele, e então de Anne Heche, que fiz essa longa viagem pela homossexualidade superdiscutida de vários atores em Hollywood, mas esse assunto em si me interessa para o post porque o templário de Ironclad é (obviamente!) celibatário, obrigado a manter a castidade desde que entrou para a Ordem. A forma como uma ama explica à Senhora (não sei o título específico adequado no caso) do castelo protegido esse celibato, e o comportamento de um guerreiro desse tipo, é tri interessante. Isso passa por dizer que ele não gosta de mulher, sem que pareça uma afirmação de alguma homossexualidade. A meu ver, isso estava claro na cena, mas os produtores ou o roteirista devem ter pensado o contrário!

Fiquei imaginando se não foi um pouco provocação para rolar o casinho o roteirista colocar uma explicação da castidade dessa forma. Será que alguém realmente vai pensar que o protagonista e a protagonista não gostam do sexo oposto se não quiserem se comer lá pelos 70 minutos de filme? Seria esse o medo dos produtores? Porque as desculpas clássicas ("deixar o filme atraente para mulheres" e "todo o mundo gosta de uma história de amor") não funcionam MESMO para roteiros como o de Ironclad.

Se a mulher não quer ver um filme de homens vestidos de armaduras metálicas se retalhando e surrando (já diz na capa: blood will run!), não vai ser uma personagenzinha feminina previsível que vai fazer valer a pena o ingresso. Pior ainda: pela minha experiência, personagens femininas previsíveis são ainda mais tediosas para o olhar feminino e têm mais chances de incomodá-las que de interessá-las, a menos numa comédia romântica.

E todo o mundo gosta de uma história de amor se ela é verossímil e interessante para a história! No caso, o romance é absolutamente inútil. Ele obviamente envolve um abandono de votos do cavaleiro templário, mas isso já está posto desde o início do filme, quando sua permanência na Ordem é discutida. Ele só permanece templário até o fim do filme porque estoura a guerra civil em questão! O herói não aprende nada de novo se apaixonando pela mulher e isso não altera o desenrolar da guerra. Portanto: zero!

Mas veio o bloqueio, o cacoete, ou o que for, e tiveram que fazer a mocinha se interessar pelo mocinho, no caso uma jovem dura e consciente de sua posição e um experimentado guerreiro que lutou na Palestina e voltou! É ridículo, portanto, pensar neles nessa estrutura de mocinha e mocinho. Tirar o romance salvava quase uns 20 minutos de filme, creio, e o faria valer bem mais a pena.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Fantástico há de ser fantástico

"Fantasia? Sei... Tem atores que ganharam Oscar nas melhores atuações possíveis, efeitos especiais nunca antes vistos, bom relacionamento entre todo o cast, as melhores músicas do ano, o figurino mais perfeito que o cinema já produziu, os melhores lanches para os atores no intervalo...?"

Tenho considerado que o maior mérito do filme O Hobbit é não ter sido massacrado pela crítica. Melhor dizendo, acho que isso não ter acontecido indica que o filme é genial. Isso porque a literatura e o cinema de fantasia parecem ter penalidades constantes quando analisados por quem faz crítica de cinema (ou de literatura) para sites e, especialmente, para jornais.

Tenho visto de novo alguns filmes fantásticos (incluindo o próprio Hobbit, que assisti há bem pouco), dessa vez em proporção maior em relação a outros gêneros e, por contexto, tenho checado a crítica a esses filmes. Estou chocado com a idiotice que vejo e leio. O recordista foi um cara que publicou seus xingamentos a um filme (infantil) junto com as palavras de uma criança de oito anos que assistiu ao filme com ele (conforme o próprio cara). O sujeito malhava o filme por todos os lados, aparentemente sem notar que tudo o que a criança dissera, conforme ele próprio citava no texto, eram ótimos elogios. Ele concluía achando que o filme era provavelmente o pior que já fora feito...

Eu passei 2003 muito debruçado sobre literatura fantástica, o que culminou no meu TCC exatamente sobre isso, mas desde então fui ficando distante do assunto (não gosto de pesquisar sempre as mesmas coisas, mudo quase drasticamente de objeto, quando vou começar nova pesquisa). Por isso, talvez, tenha me esquecido de como a tolerância com esse gênero é baixa e como a crítica é cruel, desinformada, superficial, prepotente e apressada. É engraçado como até a ficção científica tem mais respeito, apesar de ter sido considerada inúmeras vezes uma "literatura fantástica com tecnologia". Talvez seja efeito da idade adulta de fãs de Star Wars, Star Trek e, agora, do The Big Bang Theory.

Bem, agora relembrei como, em geral, é estúpida a crítica ao gênero fantástico, da pior forma: redescobrindo todos esses defeitos na prática. O Hobbit, no entanto, mais ou menos escapa deles. Falou-se muita besteira a seu respeito, mas me parece que não foi malhado, o que é muito para o gênero, como disse. Isso, claro, descontando os elogios automáticos a produções que gastam muito dinheiro e os insultos de alguns superfãs de Tolkien. 

Espero que os outros filmes mantenham a ótima média, porque é um saco ter de se explicar por gostar de algo com qualidade enquanto filmes de ação e terror mantêm aparentemente passe livre para serem absolutamente previsíveis, mal feitos e mal atuados... - Nem todos, mas eles podem, enquanto o fantástico não pode nem ser "ok", tem que ser perfeito!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

É proibido caminhar

Na primeira temporada de Mad Men, há um escândalo na vizinha em que mora o protagonista: uma mulher é separada (é o começo da década 1960). Dada a estrita etiqueta da época e determinadas necessidades sociais de uma vizinhança sem internet, as pessoas convivem com a separada, mas em baixíssima tolerância.

Assim, a amiga da esposa do sujeito pode flertar violentamente com ele na frente da mencionada esposa, mas quando esta vê a separada meramente em pé ao lado do seu marido, fica com ciúmes e trata de pedir um favor para ele (favor a ser feito bem longe dali). Como se observa que essa mulher separada caminha pela rua (!), começa-se a especular aonde ela vai, e o fato de ela responder claramente que gosta de caminhar e o faz por lazer apenas piora as especulações a seu respeito.

Parece-me que toda a situação na série motiva pensamentos sobre grandes avanços da sociedade em relação à mulher, mas isso é chover no molhado de conquistas já feitas, o que raramente me parece o melhor aproveitamento de qualquer obra artística. O que é interessante, a meu ver, não é o que já mudou ali, ainda que seja bom lembrar quantos direitos femininos foram conquistados e quão idiotas costumamos (homens e mulheres) ser desde que boa parte da sociedade concorde com a gente.

Ainda assim, o que acho mais interessante é o que não mudou. Ainda hoje, decidimos os grupos que prestam e os que não prestam majoritariamente por motivos idiotas. O apoio de alguns amigos (se não de grande parte da população) é necessário para a ideia ganhar realmente mínimo mérito. Então, racionalizações vêm fazer o seu papel para crermos que não estamos sendo idiotas, mas extremamente lógicos. O próximo passo, ainda hoje, é não perdoar nem por andar na rua as pessoas que discordam de nossa visão.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Ser ou não ser idiota

Às vezes, quando cometo um erro idiota, como trocar uma palavra por outra por associação no post anterior (agora corrigi), e ninguém me avisa, eu fico com uma pulga atrás da orelha. Pode ser que o erro fosse idiota o suficiente para todos pensarem que foi um ato falho, portanto indigno de nota, e também é possível que tenham passado por cima do erro e o cérebro deles tenha cometido o mesmo ato falho ou simplesmente corrigido o que eu escrevi errado, de modo que não notaram o problema ali.

Por outro lado, eu sempre imagino que algumas pessoas notaram, e fico pensando se acharam que meu erro não era mesmo digno de ser comentado, mas era um erro verdadeiro. Ou seja, se pensam que eu realmente não sabia a diferença entre uma coisa e outra. (Podem ainda atribui-lo à pressa de escrever, o que sempre é verdade no meu blog nos últimos anos.)

Essa suspeita (de me acharem idiota ou ignorante para além da verdade) surge porque me parece comum que as pessoas pensem que somos mais burros ou mais inteligentes do que somos. Isso é especialmente perceptível nos implícitos de conversas que temos cotidianamente. Geralmente, aliás, as pessoas acham que somos mais burros do que somos, mas grandes imagens gerais de nossa personalidade podem ser um retrato de que somos mais inteligentes do que na realidade.

Nunca observei se todo o mundo faz isso, mas sei que eu reforço sem querer uma ideia de que sou mais idiota. Faço isso especialmente de duas formas: fazendo perguntas pressupondo um ponto de vista que não é o meu, para testar o quanto as pessoas sabem sobre determinado assunto e se podem me acrescentar algo pontual, mas nunca esclarecendo realmente qual era o meu ponto de vista; e deixando me acharem mais idiota quando percebo isso implícito numa resposta ou conversa, se estou com preguiça ou desinteresse de esclarecer o que estava pensando ou entrar de fato na conversa.

Na maioria das vezes, é verdade, considero vantajoso que nos achem idiotas. Quando necessário, se for, podemos pegar as pessoas de surpresa, e elas abaixam a guarda em muitos aspectos se acreditam que somos menos espertos, perspicazes ou ligados que de fato somos. Ser tratado como idiota, portanto, muitas vezes tem vantagens, mas é preciso cuidar da imagem em um que outro contexto. E às vezes essa imagem não traz ganho algum, então acaba cansando. Mas às vezes, claro, simplesmente somos mesmo idiotas.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Entre o Natal e o Ano Novo

Entre a data de comemoração convertida de um solstício que não tem mais o poder de afetar nosso cotidiano como tinha quando os humanos começaram a comemorá-lo e a data que marca o fim de um ano e o começo de outro, entendo realmente que o segundo seja comemorado e o primeiro não. Afinal, o segundo perdeu o caráter divino que tinha em algumas tradições, mas se baseia num fato: tudo que ainda cicla vai ciclar.

O clima quente vai voltar a ser frio, ou vice-versa, para então retornar ao estado "inicial", o trabalho vai mais ou menos se repetir, em sua estrutura fundamental (se mudamos de emprego não vamos sentir repetição, mas sabemos que ela está lá), as pessoas que saíram da cidade vão voltar e passar mais uns 300 dias fazendo mais ou menos o que fizeram no ano anterior até o momento de sair de novo de férias e comemorar o novo ciclo...

Então, eu entendo que adultos comemorem o Ano Novo. Quanto ao Natal, me parece fazer mais sentido para adultos religiosos (que não sou) ou com filhos (que não tenho). A obrigação de comemorar o Natal como data mágica me incomoda por isso mesmo. Por outro lado, eu entendo a ideia de valorizar uma data como desculpa para encontrar a família, especialmente gente dela que quase nunca se vê. Ainda assim, tem sido mais e mais difícil para mim conseguir comemorar desse jeito, então o quadro geral do Natal fica problemático. Comemoração religiosa, com restrita parentada e a expectativa de frases mágicas em que eu acho que nenhum presente deveria acreditar (não por obrigação de desacreditar, mas porque não condiz com as pessoas, já que convivo com pessoal de religiosidade muito baixa, salvo raras exceções) - especialmente, acho que ninguém deveria achar que eu acredito nessas frases, já que me conhecem há muitos anos.

O Natal, mesmo assim, tem uma força a seu favor quando a questão é respeitar a data alheia: quase todas as pessoas que eu conheço parecem mais sensíveis a que o Natal seja respeitado que a data do Ano Novo. Isso significa que o risco de magoar alguém se ignorando o Natal é maior. Então, se é para comemorar uma data para valer, apesar de todos os pesares, eu me sinto meio forçado a apresentar mais respeito pelo Natal, apesar de respeitar mais o Ano Novo, como data comemorativa.

(Devo acrescentar aqui, a favor do Natal também, que eu curto os momentos em que estou com quem o curte bastante, porque sempre gosto disso. Gosto de falar sobre bandas com quem é muito fã delas, sobre livros com quem é muito fã deles, e assim por diante, mesmo que eu não curta o livro, a banda, a data... Acho interessante e muito bom. O pré-requisito óbvio é que a curtição extrema do Natal, ou do Ano Novo, que esteja sendo manifestada não se baseie em algo que eu considero extremamente equivocado, como esperança no número do Ano ou na bondade humana, mas eu não preciso, de qualquer forma, concordar com o motivo da pessoa, basta que não seja ingênuo de uma forma infantil.)

Nesse equilíbrio todo, o que tem acontecido de fato é que as duas datas terminam no mais-ou-menos. O Natal acaba sendo a data em que passo melhor (mais tranquilo, melhor acompanhado, gastando menos dinheiro...), mas num mal-estar ideológico (meramente por estar gastando energia em algo que não valorizo, o que é o suficiente para alguém pouco festeiro como eu). O Ano Novo, data de pelo menos algum valor para mim, termina por parecer sempre mal comemorado, insatisfatório, sempre lhe falta algo. Afinal, a data é para mim, a ênfase na comemoração (no grupo, na festa em si) teve de ficar no Natal (não tenho recursos nem domínio social para comemorar bem as duas datas).

De fato, a comemoração do Ano Novo não chega a doer, nem a do Natal, mas aurea mediocritas não me parece ser a maior receita de comemorações de férias a que se possa almejar. O equilíbrio entre as duas datas, no fim, acaba provocando exatamente isso. Acho bom dizer, para garantir, que nenhuma das pessoas que passou essas datas comigo E que lê este blog está incluída na lista das minhas incomodações, mas que estas abundam, abundam.

Enfim, hoje é dia 2: hora de eu correr atrás de reparar os danos que tanta "festa" provocou. Boa sorte de 2013 em diante a quem passar por aqui.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Uma citação, pra recuperar o hábito

"Without science, everything is a miracle. With science, there remains the possibility that nothing is. Religious belief in this case becomes less and less necessary, and also less and less relevant." Lawrence M. Krauss - A Universe from Nothing

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Matando o democrático

Algumas palavras deveriam morrer imediatamente; serem assassinadas e ponto. A palavra "democrática" é uma dessas. A democracia não deve, espero que não morra; ou, para os pessimistas, espero que continuemos brigando para ter mais e mais democracia, apesar de não haver um exemplo perfeito desse ideal...

Enfim, apesar do valor da democracia, chega desse termo. Ele virou bandeira, o que significa que desponta por todos os lados, nos discursos mais cotidianos e babacas, bem como tornando discursos importantes em coisas cotidianos e babacas também. Quando as pessoas querem que até uma fila de almoço seja organizada democraticamente (?!?!?) - "quem chegou primeiro" de repente é um critério muito autoritário - é porque a palavra chegou num ponto em que até se um político exigir que se ataque alguma infração à democracia, o discurso dele parece mais idiota simplesmente por ter usado a palavra, tão desgastada em pequenas besteiras e muita mentira.

Claro que o mais cansativo é que a palavra costuma ser usada de duas formas idiotas: para dizer outra coisa, que não necessariamente é democrática por excelência, ou para fundar a democracia dentro da democracia.

As duas coisas podem ser exemplificadas facilmente em qualquer escola.

Quando, por exemplo, um grupo de professores está insatisfeito com qualquer coisa, por menor que seja, ataca a direção ou o que for de autoritária, fechada, nazista ou qualquer outro desses termos que atualmente já perderam quase todo o sentido também. Quer-se uma decisão democrática a respeito do tema! Detalhe: direção, por exemplo, é um cargo decidido democraticamente (no Rio Grande do Sul e na maioria do Brasil), por comunidade e pessoal da escola. Trata-se de uma escolha democrática, mas o sistema da escola é justamente ter alguém eleito nesse cargo para que ele cumpra seu dever enquanto os outros profissionais cuidam do resto. Chama-se "representação", e é exatamente o que acontece no nosso sistema político democrático! Quando a presidente faz uma decisão: ela não precisa perguntar cada coisinha para o povo, ela foi eleita para tomar essas decisões. Os eleitores podem intervir, reclamar, mas nada disso indica que ela tomar decisões executivas seja um insulto à democracia.

Há uma coisa que as pessoas esquecem: a democracia pode ser, e costuma ser, representativa. Viver numa democracia não é puxar voto sempre que se quer pintar ou não um meio-fio! Quando se acha que se deve realmente discutir isso, e todos os cargos envolvidos devem parar para contar votos da população inteira em vez de tomar suas decisões (obviamente com transparência), os termos "escolhas democráticas" estão sendo usados para o segundo caso que referi: fundar o "democrático" dentro da democracia, porque se está confundindo "pessoa eleita democraticamente cumprir seu papel" com ditadura!

Já o primeiro caso, de se usar "democrático" para dizer outra coisa que não é democracia, acontece em quase todo discurso sobre escolas. Quer-se uma escola democrática! Pois bem, (1) o que isso quer dizer, e (2) isso é realmente o que se quer?

Uma "escola democrática" nunca é o que se quer dizer com a expressão, porque ela seria redundante por um lado, ou inadequada por outro. Como disse, os cargos são eleitos, em algumas escolas todos eles são eleitos. Estou obviamente considerando escolas públicas, únicas que precisam responder a essas agendas.

Mas, digamos que as pessoas quisessem o exagero disso, que realmente não só os cargos de função gratificada, mas até os professores fossem eleitos. Por quem? Pelo poder público? Já o foram, através de concurso. Pela comunidade? De que forma? Por que critérios? Comunidades geralmente analfabetas ou sem letramento são mesmo quem queremos que escolha professores com o dever de formar seus filhos exatamente nisso?

Não estou dizendo que eles não podem tomar decisões importantíssimas a respeito de si, nem que, se o analfabetismo fosse mesmo como diz o governo, as escolhas seriam melhores. Mas (1) o analfabetismo não pode ser ignorado nisso, e (2) segue o problema de que governo algum pode tomar decisões de base, como Educação, conforme o gosto de cada comunidade, distante de qualquer projeto ou planejamento dele.

Agora, saindo um pouco do absurdo completo, quando se fala em democracia na escola se quer participação, especialmente dos alunos. Pois bem, aceitando essa proposta, em si bem complicada, a democracia é mesmo o melhor modelo para isso? Queremos que todos os alunos tenham o mesmo peso de voto que funcionários, professores, diretores etc, do papel higiênico ao livro didático? Eles estão preparados para esse julgamento e essa responsabilidade? Eles podem decidir tudo sobre uma escola, em pé de igualdade com os adultos, sem quase conhecer nada fora de suas comunidades, além de umas páginas redundantes de facebook e as bandas da moda, e tendo apenas alguma noção de leitura e interpretação?

As escolas que conseguem manter máxima participação dos alunos são escolas pequenas, com MUITO pessoal, geralmente particulares, geralmente muito caras. Algumas públicas tentam imitar esses modelos, não sei com que sucesso, mas sei que se tratam de aproximações...

O que se quer com a escola democrática, de fato, é uma escola em que a comunidade participe e os alunos tomem responsabilidade a respeito de algumas coisas, especialmente para terem cuidado com a escola. Pois bem, é possível participar de algo sem mandar na estrutura, até sem voto direto para nada.

Quer-se mesmo é que os alunos tenham algum poder sobre o que acontece e reajam construtivamente a abusos. Ora, uma comunidade em que o poder só pode ser exercido se justificado a quem está sob tal poder é uma comunidade anarquista (da teoria anarquista, não do oba-oba). Isso significa que "democrático" é um termo tão errado para o que se exige da escola nesses casos que até "escola anarquista" seria termo mais correto. Espero que isso indique, mais que nada, as voltas esse pobre termo já deu!

Quando uma palavra é uma bandeira, e só uma bandeira, é simplesmente triste lê-la e ouvi-la para todos os lados. Ela já não comunica nada, a não ser mentira e distorção. Mas não é por serem falsas que as palavras morrem...

domingo, 4 de novembro de 2012

Internetês como analfabetismo

É verdade que o internetês tem sua graça, seu estilo, suas potencialidades, até poéticas - se quiserem. E é verdade que é possível escrever internetês e saber escrever conforme a Gramática Normativa ao mesmo tempo.

Também é verdade que as duas afirmações, como todas as defesas ideológicas do que é obviamente um problema, referem-se às exceções das exceções.

Praticamente não se usa o internetês para se fazer firulas que não se pudessem fazer com a Gramática - nada dessa poesia cotidiana e espontânea com que sempre se sonha; quase ninguém sabia escrever conforme a Gramática já quando ela só competia com uma Norma Culta, sobre a qual tinha extremo poder, quem precisa da Gramática agora, que existe um campo livre de todo e qualquer domínio dela?

O problema do internetês nem é, aliás, seus potenciais, o problema é do que ele é sintoma. Observe-se o que se escreve na internet, particularmente o que pessoas com menos de 20 (para ser mais extremo) escrevem, e compare-se isso a textos até o fim da Idade Média. O internetês é a escrita de uma cultura oral.

Nossas regras mais cotidianas, como pontuação, separação de palavras, uso de minúsculas e maiúsculas, vêm de problemas que as cópias de textos foram gerando conforme se perdia noção do contexto original (em muitos casos, tratava-se de uma defasagem de séculos). É realmente possível escrever quase sem regras, quando o texto é praticamente uma anotação para servir como apoio à fala, quando as duas pessoas que se comunicam compartilham de quase todas as referências em questão, quando todos sabem exatamente os mínimos detalhes do contexto relevante ao texto. Soma-se a isso o clichê e a frase-feita.

No momento em que o texto passa a ser útil por mais que um dia, ou seja, no momento em que a tecnologia da escrita passa a ter algum valor de acordo com todo o seu poder, esse texto de mera anotação moral passa a não satisfazer mais. E o internetês é só esse texto. Muito pouco dele pretende ser útil por mais que um segundo.

O único detalhe é que escrever assim é a única forma reconhecidamente necessária para uma multidão de gente. Assim, a famosa língua que brota suas regras das necessidades de comunicação em grupo, sem um poder autoritário por trás como é o caso da Gramática Normativa, não gera o estilo rico, delicado e bonito dos sonhos de um Marcos Bagno (em que ele inconscientemente só parece supor pessoas minimamente treinadas na língua culta como ele próprio), mas sim um texto tão pobre quanto possível, tão isolado quanto possível. As riquezas que as novas ferramentas permitem não entram em uso sem, como no caso da Gramática, o poder de algumas pessoas muito talentosas, tradicionalmente chamadas de poetas. O detalhe é que esses poetas não podem afetar o internetês da mesma forma, porque seus usos e estilos não podem ser ensinados nem passados adiante; isso dependeria de um sistema de regras e controle, como na tão temida e (blergh) adulta Gramática.

Dessa forma, só o que resta são pequenas firulas que só parecem grande coisa a uma leitura de quem não tem noção tanto das capacidades da língua quanto de reconhecer os trejeitos da fala em toda suposta novidade do internetês. E os motivos não são misteriosos: uma sociedade de cultura puramente oral é uma sociedade analfabeta; uma sociedade analfabeta só tem cultura oral.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Clarice se destaca

Estou novamente redescobrindo Clarice Lispector (não, não é redundância). Ela é dessas autoras canônicas (como Cruz e Sousa, Oswald de Andrade...) odiadas de forma semi-velada por uma massa grande de leitores "informados", que se tornam, por isso, difíceis de ler. Parece que tudo se atravanca no caminho, seus textos tendem a ser adiados ou cortados de cadeiras da Letras, grupos de estudo, análises e assim por diante...

É muito mais fácil, então, Clarice ser lida de forma um tanto mais cotidiana, por fãs ou interessados, até porque cai bem elogiá-la em jornal, quando faz aniversário e tal. Mas isso pouco me interessava porque eu estava envolvido com Letras, não podia fingir ser outro tipo de leitor, nem acho que deva. Além disso, minhas listas A, B e C de leitura estão lotadas de livros, e muitos deles nascem de obrigações. Autores mal-quistos, mesmo que canônicos, tendem a não ser obrigação, ainda que gostemos deles...

Pois bem, acabo de ler um conto que representa bem o valor da autora, no entanto. Trata-se de um dos primeiros, " A Fuga". O que me chamou a atenção em primeiro lugar é que já representa bem muitas das personagens por que ficaria famosa (ou odiada) depois: trata-se de uma mulher que perdeu o navio, literal e simbolicamente. E isso é um ato, ou a ausência de um. Já explico a ênfase no "ato":

Aí está a grande diferença, pra mim, entre Clarice e quase todas as autoras "femininas" que são jogadas no mesmo saco, particularmente as cronistas que são comparadas a ela. Clarice Lispector não escrevia sobre mulheres sentindo pena de si mesmas e aproveitando fugas simbólicas. Com essas personagens, a autora (a meu ver) escrevia sobre a falência dessas fugas simbólicas, sobre o fato de que elas não bastam, de que acreditar, esperar, manter um coração assim ou assado não são NADA! Isso na década de 1940! Tem gente (muitas mulheres, justamente) ainda hoje achando que às mulheres só cabe a fuga simbólica. Vida real é pra ser triste e desconsolada...

"A Fuga" é aquele típico conto bem escrito, com movimentos de narrativa que autores como Paulo Coelho confundem com erro gramatical e que não se centra no anti-clímax que virou clichê para esse tipo de literatura bem depois dela (em grande parte por causa dela), mas também não se centra nas viagens da personagem ao longo do conto. Trata-se de um conto inteiro, talvez deva dizer inteiriço, que não enche mursilha para destacar um sentimento de que a mulher é especial, de que cada uma pode fazer a diferença, ou qualquer coisa do tipo. Só o que cabe ao leitor, como sempre, é reagir ao que leu, é pensar a respeito, é tomar posição. A personagem não é um exemplo nem serve para acalentar os desejos procrastinadores ou as consciências mágicas que querem sofrer no seu lugarzinho e achar que isso as faz especiais. 

Se quer só sentir o coração cálido e pensar que é um floquinho de neve, Clarice não serve. Ela é literatura canônica porque é sobre a realidade, não sobre a mascarar, e os mascaramentos de suas personagens são o ridículo, o humano, a que se reage, tentando sempre sair daquelas amarras com que insistimos em nos prender, homens e mulheres, do século XX ou depois. Quem não vê isso, não precisa lê-la, quem achar alguns contos piores que outros, beleza! Agora, não me digam que ela é fraca, que não é. Ou, se querem dizer, provem! Duvido!

sábado, 20 de outubro de 2012

Formação continuada: a mesmice não morre

É difícil ser mais bitolado hoje do que se falando em modernidade líquida, velocidade e virtualidade disso ou daquilo. A menos que se esteja conversando com pessoas que nunca pensaram sobre a própria cultura (e não sejam nada instrospectivas ou intelectualistas), poucas afirmações podem ser mais óbvias do que essas. Pior ainda é se falar sobre a falta absoluta de verdades, tudo ser relativo, ou - o cúmulo - "hoje a gente vive na era da Internet"!

Não entendo como ainda se aceite que alguém, em 2012, esteja descobrindo a Internet. É tanto uma ferramenta quanto um fenômeno cultural batido. Não bastasse tudo isso, a maioria dos usos dela continua sendo uma recauchutada dos usos de ferramentas mais antigas, portanto grande parte do discurso sobre a Internet é meramente um elogio deslumbrado e ignorante.

Assim, ser convidado a me deslumbrar com a "cultura da nossa época" no sábado é simplesmente uma das piores notícias que eu poderia receber. É de doer ter que fingir que a "multiplicadade" e as incertezas contemporâneas são notícias, apaixonantes ou desesperadoras. Ainda se fosse alguém demonstrar quanta constância há nessa inconstância, quanta verdade há sob esse relativismo, não seria novidade, mas seria de se respirar um pouco. 

Mas não, seguimos sendo "continuamente formados" por pessoas que não reciclam o cerne do próprio discurso (ainda que usem exemplos novos) desde 1970 - e o formato dos comentários desde 1990. Os empregadores têm razão: ou atrelam o salário do profissional a fazer "formações continuadas", ou não tem quórum.

domingo, 7 de outubro de 2012

Bom domingo de eleição

Como nenhum político pode representar o interesse de todos os eleitores, cada um deles tenta representar o interesse pelo menos de certos grupos (ou nos convencer que o fazem, claro). Alguns grupos são representados por mais de um, outros por nenhum, mas o importante é que nenhum político realmente vai trabalhar pelos interesses de toda a população.

Nosso desafio, como eleitores, antes de ser o de julgar o que é melhor para a maioria, é tentar entender pelo menos quem vai nos favorecer, não desfavorecer. De uma forma ou de outra, nós também não podemos beneficiar a todos com o nosso voto.

Por essas e outras, quando vamos eleger alguém, votamos uns contra os outros. Isso quando não votamos contra todos.

Bom domingo de eleição.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Poema do mau cotidiano

Às vezes eu paro o que estou assistindo,
ou deixo muda a música que ouvia.

É uma propaganda política que passa
entrando estridente pela janela.

Ela deve ser honrada com o silêncio,
como uma má notícia.