Falando sobre tudo de linguagem que chamar a minha atenção: placas, conversas, citações... Deem uma chance lendo aí embaixo e vão sacar o foco.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Jogo livre com o tempo
ou "Jornal Hoje eloquente"
"Nesta época do ano, em que o Pantanal tem uma das maiores cheias da história."
Isso é a natureza brasileira: todo ano faz um recorde, todo ano ela é mais! Uhuuuu!
quinta-feira, 31 de março de 2011
Época mijando na capa
A capa da Revista Época deste mês mostra um cachorro na frente de um prato vegetariano e, após indicar o vegetarianismo como extremo dos luxos com que alguns animais são tratados, põe a pergunta: "Bicho de estimação virou gente?"
Não é disso que vou falar, mas não deixo passar o problema de "por que o vegetarianismo seria essa barreira entre 'animalidade' e 'humanidade'?" Sem pensar muito, já citaria os animais irem a psicólogos como escolha mais óbvia, se fosse para tentar marcar essa estranha barreira entre "nós" e "eles". Quero crer que o vegetarianismo foi escolhido porque é a última moda e eles resolveram que iam fazer uma matéria de capa sobre luxos com animais agora; o motivo da sincronicidade é o meu escolhido.
Agora, o que eu queria comentar mesmo era que esse tipo de capa grita que quem as decide é o pessoal do marketing. Sem diálogo com editores ou jornalistas. Não, precisa ser uma escolha pura e soberana do departamento de marketing. E isso porque revistas como a Época se querem de notícias, e sob nenhum ângulo essa capa é sobre uma notícia.
A matéria de capa apela a duas áreas fundamentais, que vou chamar aqui amadora e genericamente de sociologia e ciência. Pensando-se na primeira, o status dos animais de gente rica na sociedade não é notícia. O vislumbre que ele nos dá de determinada situação de pessoas endinheiras é tema para debate sociológico, mas não vai ser decidido na revista, além de dar pano para manga em discussões de fôlego que não vão ser atingidas pelo jornalista ali, por melhor que escreva ou se informe a respeito. Ou seja, não aconteceu nada para ser contado, algo que tenha valor em si de notícia (o que aconteceu ou acontece é um fenômeno prolongado ainda indefinido). Agora, donos de cachorro fornecerem pratos vegetarianos para seus animais seria notícia, mas não é relevante para sê-lo. Não sem um determinado contexto que o justifique, e o contexto de "ser um novo fenômeno sem explicação clara" não é um contexto.
Agora, se pensarmos na ciência, podemos expandir o problema para realmente todas as capas "científicas" de revistas de notícias. A matéria não fala sobre uma novidade na ciência, mas na relação entre humanos e animais (e novidade superficial, porque é mais do mesmo, de fato). Ou seja, a participação de qualquer cientista justificando o comportamento humano ou animal nesse caso não vai trazer novidades nem sobre um nem sobre o outro. Não vai se acrescentar informação científica significativa, a não ser alguma anedota sobre alguma descoberta pontual que, como acabo de indicar, é uma anedota. Não se trata de uma grande informação relevante para a humanidade ou para a sociedade, tanto que não foi essa informação, mas a picuinha sobre os cuidados "excessivos" com bichos de estimação que ganhou a capa.
Ou seja, a matéria só pode acumular conhecimento batido, talvez anedotas, e não vai informar nada sólido a respeito do problema central: relações de superestima entre animais e humanos.
E isso é a matéria de capa! A matéria de capa?! A matéria de capa.
segunda-feira, 28 de março de 2011
Seven Words #2 - O Retorno da Censura
Na década de 1970, George Carlin criou um sketch em seu stand-up em que ele falava sobre 7 palavras que não se podia falar na TV (shit, piss, fuck, cunt, cocksucker, motherfucker, tits). O assunto nasceu de uma provocação e se desenvolveu como um deboche "contracultural" dos limites que se impõem à expressão individual e das hipocrisias de certos padrões superficiais de vigilância moralista.
Ironicamente, já no século XXI, Carlin chegou a comparecer a um programa de TV em que a palavra "fuck" não seria censurada.
Por outro lado, eis que agora eu penso em rever o vídeo, não sei bem o porquê, e o youtube categorizou o vídeo sob censura! Eu preciso logar no site e assumir que quero ver o vídeo, sem me insultar, para poder assistir a um deboche sobre a censura dos anos 1970!!!! Pobre Carlin. Mas muito, muito mais pobres de nós.
PS: Fora o ridículo de que trancam um link e 20 outros surgem... Ai, paciência!
Serra Pegador
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sexta-feira, 25 de março de 2011
Eis que de repente tenho herdeiros, ainda que não tenha posses
"O Sr. tá pegando a Sora Tal, né, Sor?"
Grosseiro, porém sincero, o aluno não estava tentando puramente comprovar suas opiniões sobre o mundo, experimentando construtivamente o conhecimento prévio pelo acesso à figura do professor... O que ele queria saber era, mais precisamente, as consequências para ele desse suposto fato.
Explico: a dita professora é adotada como mãe por um número bastante grande de alunos, e este que assim me abordava no meio da aula (lá na frente, mas sendo escutado por 1/5 da turma no máximo, naquela situação) era um de seus filhos "mais velhos", ou seja, que há mais tempo se auto-adotara como filho dela (além disso, o aluno já está numa adolescência bem avançada). Ou seja, eu "pegar" a dita professora faria dele (e de muitos outros) meu filho. Eis aí a questão a ser posta, daí sua interpelação.
Agora, por que eu estaria "pegando" a professora...? Porque temos trabalhado bastante em dupla (regozijai-vos, pedagogos da interdisciplinariedade - ela é professora de História). Conforme os alunos, os professores andam sempre em duplas. Como, por diversos motivos, ela fez dupla comigo muitas vezes em trabalhos e funções recentes, além de sermos muito amigos (e ela ser responsável pela biblioteca no turno inverso), só podemos ser um casal.
Por muito menos, sou considerado irmão da estagiária da escola (curiosamente, estudante de História), então, pelo menos, as conclusões errôneas e apressadas a respeito da minha relação com aquela professora indicam algum avanço lógico. Sonho que, até o Ensino Médio, continuem avançando na Lógica, mas muito!
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quarta-feira, 23 de março de 2011
Retomando meu dicionário
Coloco aqui uma ideia implicada de forma irônica em recente conversa. Ela é ridícula, mas merece ser citada, nem que seja para lembrarmos quando nossa defesa da democracia se torna tão distorcida que acaba tendo exatamente isto como implícito:
"Democracia é um sistema em que todos são iguais. Só é possível defender a democracia, portanto, pela ausência completa de critérios."
terça-feira, 22 de março de 2011
A perigosa inocência infantil
Eu realmente gostaria que todas as discussões tivessem FAQs e itens informativos a serem obrigatoriamente lidos antes de a pessoa se meter na conversa, como se oferece na maioria dos (bons) fóruns internéticos.
Pensem neste exemplo rápido: pessoas que discutem educação, mas falam sobre as escolas pelo que lembram de quando estudaram lá. Ora, será que ninguém indicou a esses sujeitos que entendemos o mundo de forma diversa quando somos crianças em relação a quando somos adultos? Quando passei no Vestibular, fui na minha primeira escola, de onde tinha saído com 9 anos, e descobri (mais ou menos conforme imaginava) que um lugar em que costumava sentar para jogar bafo era na verdade um degrau muito pequeno, no qual eu não podia, com 16 anos, sentar de forma confortável. Será que tão poucas pessoas passaram por experiências parecidas, ou são capazes de extrapolar, dessa experiência simples, que há importantes diferenças de ponto de vista entre uma criança e um adulto, e que isso não pára no ângulo de visão que nossa altura nos permite?
Ou essas pessoas realmente ainda pensam como quando eram crianças, e aplicam sua imaturidade decantada para julgar tanto educação quanto trânsito ou política? Bom, pensando bem, esta opção parece a mais provável.
segunda-feira, 21 de março de 2011
Hipócrita para o teu próprio bem
Nunca tinha visto Glee até hoje. O primeiro episódio a que assisti foi "Blame It on the Alcohol", um dos dois que me foram indicados numa discussão recente a respeito de escola. Bom, apesar de ter entendido o porquê da fama do seriado, o que me chamou a atenção é algo que dificilmente deve justificar a preferência da maioria de seus fãs: a relação entre a escola e o moralismo que geralmente se quer encarnar nela está particularmente bem representada.
Parece que um encaixe mal feito entre escola e "sociedade" (situação que caracteriza a instituição, pelo jeito, no mínimo desde os anos 1970) cria uma pressão constante para que não apenas tratemos de assuntos morais com os alunos, mas que cheguemos ao extremo de sermos hipócritas. A maioria dos professores (que conheço) tenta resistir, mas o ataque ou a pressão para que atinjamos a hipocrisia na sala de aula é tão variada e vem de tantos lados que às vezes não vemos saída em determinadas conversas com alunos a não ser ceder e declarar um moralismo simplista e exagerado que não poderíamos, em sã consciência, aplicar a nós mesmos.
Na verdade, essa hipocrisia me parece herança antiga; o que se estabeleceu por aqui mais ou menos nos anos 1970, provavelmente só ganhando peso significativo no seu fim, foi nossa visão de escola aderir a uma verdade bastante difundida no resto da cultura brasileira: não existem posições de autoridade monolítica (nas instituições brasileiras) - o que eu acho bom, aliás. Mas isso faz com que mesmo o mais passivo ser humano seja um aluno com mínimo senso crítico (pelo menos) quando o assunto é "afirmações de professores". O que acontece é que essa nossa fraqueza momentânea, esse ceder à hipocrisia que nos é exigida, vem nos atazanar no futuro, quando descoberta pelo estudante (e, mais cedo ou mais tarde, será). - É possível também que ele ou ela nos largue de mão de vez e nem venha nos cobrar por nossas palavras, o que é pior ainda, claro.
Enfim, há uma coisa estranha entre valores que a sociedade prega sem praticar e as cobranças e fantasias do senso comum (que governa, é claro, muitos professores, pedagogos e diretores ou vices) a respeito de como acreditamos querer educar as "crianças". O episódio do Glee em questão pega o problema do álcool e cria a situação ridícula (no sentido de cômica, além de absolutamente veraz) de adultos (que bebem, dã) querendo que os alunos encontrem uma música (!) para assustar toda a escola a respeito do consumo de álcool, a ser apresentada numa assembleia da escola. É claro que as bobagens de pessoas alcoolizadas e as mentiras que se contam cotidianamente sobre ou para o "controle" do uso de drogas em escolas figuram no roteiro. A série pode ter um aspecto de ficção em todos os detalhes, mas a estrutura e o tema são incrivelmente relevantes e complexos, o que foi uma muito grata surpresa.
Porque nenhum critério é universal
É verdade que nossas salas de aula, em geral, seguem a mesma estrutura desde sua criação, mas o mesmo pode se dizer sobre o sexo.
sábado, 19 de março de 2011
Compartilhando conhecimento acadêmico-sagrado
Livre-se do Exu Tranca Tese!
Educação e egocentrismo
Um charuto é artefato raro, ainda mais de se ver no ônibus. Ainda mais se o sujeito o sustenta na boca sem que esteja, pelo menos, aceso. Agora, pior ainda é quando o cara, que chamou a nossa atenção pelo jeito estranho, completado com chave de ouro pelo charuto na boca, reconhece a gente e vem conversar!
Eu absolutamente não lembrava do cara, mas ele deu indícios rapidamente que comprovavam a veracidade de seu protesto de me conhecer. Ok. Bom, o cara também só falava, ele não dialogava. Ou seja, ainda que eu não lembrasse dele, isso não fez muita diferença.
Seu automatismo linguístico me permitiu observar de forma mais detalhada que ele parecia estar vestido de forma absolutamente oposta à minha. Aparentemente estávamos próximos, ele de sapato, calça jeans e camisa, eu de sapatênis, calça de sarja e camisa polo. Mas, de alguma forma, éramos o exato oposto um do outro. Ele nitidamente fruto da escola em que nos formamos (de onde ele lembrava de mim), eu... bom, não sei o que parecia para ele, mas tinha plena consciência naquele momento de não expressar fisicamente ter me formado lá. Além disso, acabei falando, num milésimo que tive para dizer algo, que tinha feito Letras... aí, já viu!
Bem no fim da "conversa", ele disse que ia para os EUA, queria estudar lá. Conforme ele, formação é algo muito importante e a educação no Brasil "não dá". Fiquei olhando para ele e pensando "Estudo, vá lá, mas 'formação'? Tu não é meio velho para isso?" É claro que isso se pôs assim para mim porque ele se referia propriamente à formação universitária como aquilo que inicia nossas carreiras, mas a escolha da palavra também me encucou, porque há uns dois anos ando às voltas com a ideia humanista de formação pela educação e os traços culturais que herdamos de certos ideais daqueles tempos. Pareceu-me particularmente estranho, ainda por cima, um sujeito que não sabia escutar dizer estar interessado em aprender algo de fontes humanas, como professores. Mas, tomara, não nos veremos mais, e ficará apenas a imagem estranha de um estranho com cigarro na boca passando na roleta e me reconhecendo.
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