quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Bolsa Isonomia no Enem

Novo projeto do governo:

O governo deve resgatar horas e horas de exclusão social. Se você tem entre 16 e 104 anos de idade, prestou Enem em território nacional ou indígena, tem 75% de presença na prova e inscreveu-se após a recriação da CPMF, tem direito a dois salários mínimos por mês até conseguir trabalho digno, segundo sua própria opinião. A prova deve ter sido realizada pela maior e mais súper híper ultra especial gráfica, que é perfeita mesmo que erre feio sempre e às vezes perca umas provas na estrada. Se o fiscal não avisou sobre as pegadinhas do Caderno Amarelo, da Numeração Azul e do Ladrilho Rosa, segundo testemunho isento e oral de você mesmo, o próprio concorrente-reclamante, também pode requerir 13o, a ser pago até que, jovem, adulto ou vivente da melhor idade, exija o término da Bolsa.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

TOP opiniões políticas no cotidiano

"Imagina se eu ia votar na Dilma, que se veste daquela forma brega"- entre os dois turnos, numa fila na Renner.

"Eu não gosto dessa mulher [Yeda, descendo do carro oficial a 5m], acho ela muito antipática" - transeunte na Feira do Livro de Porto Alegre.

"Político é que nem comida, cada um tem um gosto (e não se discute)" - jornaleiro no Centro.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Boa estima para dar e vender

"O meu marido tem uma camisa idêntica à tua. O que indica obviamente que és uma pessoa de bom gosto, pois eu obviamente só poderia estar casada com uma pessoa de bom gosto."

domingo, 7 de novembro de 2010

Uma amadora politicamente correta

O egocentrismo nem sempre é um fator cultural negativo. Nem que seja indiretamente, ele guarda um potencial de renovação social, pois, não importa a que grupo de "excluídos" pertençamos, pensar com tanta força que somos o centro do mundo, no mínimo ao longo da juventude, faz com que todo o resto do mundo seja um Outro. E então, mesmo que se suponha que a pessoa já introjetou "exclusões sociais gravadas na linguagem cotidiana", ela ainda pode produzir frases dizendo que o esporte nos "ajuda a se manter inteira(o)".

sábado, 6 de novembro de 2010

Enem - melhor que o último (se serve de consolo)

"Tudo ocorreu de forma tranquila e a realização do exame foi um sucesso", conforme José Joaquim S. Neto, presidente do Inep (mais que uma sigla, um trocadilho de bandeja).

Sua opinião, no entanto, foi feita após a confirmação da inversão de cabeçalhos e antes de se saber se o problema de perguntas repetidas pode ser evitado para as provas seguintes. Além dos problemas, ele obviamente não tem como saber o resultado geral dos alunos, ou seja, o nível de rendimento dos enemandos. Mas, fora isso tudo, sim, grande sucesso.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Mobilidade social

Imaginem quantas pessoas teriam de mudar de profissão se seguíssemos à risca esta dica de Umberto Eco:

"Defina sempre um termo ao introduzi-lo pela primeira vez. Não sabendo defini-lo, evite-o. Se for um dos termos principais de sua tese e não conseguir defini-lo, abandone tudo. Enganou-se de tese (ou de profissão)."

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Sensível verão

Assumimos que o verão chegou quando sentimos na pele que esquecemos de mudar a estação do chuveiro.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Arte-luxo-lixo

Na Feira do Livro de Porto Alegre:

"Escuta, quem é que organiza essa feira, hein? Eu preciso perguntar: porto-alegrense vive de quê? De historinha?! Eu estou procurando em toda a Feira livros de Engenharia e nada. Como é que tu me explica isso?"

Alunos em manutenção

Eu não sabia: nas escolas municipais de Porto Alegre, os alunos não são reprovados, nem retidos, nem rodam. Eles são... mantidos. Além do óbvio envolvimento do espírito politicamente correto, no passado, existe agora uma questão técnica para o termo. Há algum tempo, a Secretaria Municipal seguia o sistema de Ciclos. Como parte disso, a reprovação foi extirpada das escolas. No entanto, o resultado foi desastroso e acabou-se chegando a uma meio-termo que está muito mais para o sistema seriado hardcore que para uma versão dos Ciclos. De qualquer forma, por herança terminológica dessas alterações, ninguém podia reter alunos quando a forma quase seriada de Ciclos foi escolhida, a não ser uma escola, que previa isso em seu estatuto. Então essa escola retém alunos e as outras, sem previsão legal para reter, reprovar ou rodar, "mantém" os alunos.

Existe pelo menos uma outra consequência importante dessas transformações: como ainda se diz que as escolas funcionam em Ciclos, a repetição não voltou apenas com outro nome, ela tem uma importante restrição, a de que o aluno só pode ser mantido uma vez a cada ciclo. Ou seja, no caso de matérias específicas, como a minha, entre os 7a e 9a anos, só se pode "manter" um aluno uma vez. Isso obviamente exclui a ideia de se defender a manutenção de um aluno no 9a ano, pois é considerado criminoso rodar alguém no último ano (ou seja, só pode ser aplicado a alunos criminosos) e a pessoa não poderia ter sido mantida nenhuma outra vez no terceiro ciclo (o que é raro entre criminosos). Portanto, é necessário prever o futuro do aluno para se decidir se é mesmo a hora de "mantê-lo", com a finalidade de "proporcionar novamente um crescimento do qual ele não soube tirar proveito". Lindo.

PS: A nomenclatura escolhida talvez também seja um reforço contra o medo da evasão escolar.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

100% desaprovado

Parece-me muito estranho que certos produtos queiram se vender indicando que não têm mercado. Volta e meia, particularmente entre o pessoal de higiene bucal, criam uma propaganda que indica que tantos por cento da população tem determinado problema e não faz nada a respeito. Ora, quem tem um probleminha médico e "não faz nada a respeito" justamente consegue conviver com ele numa boa, não acha que isso é motivo para se incomodar e gastar mais, até porque sempre temos alguns probleminhas médicos leves com os quais convivemos no dia-a-dia. Não é à toa que quem se entope de remédio é mal visto, este não é o comportamento usual do grupo considerado saudável da população. Pois bem, os outros tantos por cento, os que fazem algo a respeito, já "fazem algo a respeito"! Não precisam de um novo produto porque deram um jeito! Ou seja, quem deveria se atrair pelo produto mesmo?

Mas lógica e consumo não têm a ver, é claro. Tanto que a tática é sempre reciclada, o que indica, espero, que tenha resultado. Por outro lado, é também triste que essas propagandas funcionem...

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Mijando na América

Hugo Chávez é realmente um chefe de Estado. Sua primeira reação à eleição de nossa futura presidente foi tentar marcar território mandando "um beijo para a minha querida Dilma"... Mais um a subestimar a nova "mulher no poder" ou um seguidor de "a tenteada é livre"?

O mês perdido

Eu me lembro de ouvir muito sobre a enorme perda de tempo de um segundo turno quando ele redunda no mesmo resultado que o primeiro. Nesta eleição, em que não ouvi comentários do tipo, foi mais o que senti. Mas não como mera perda de tempo, perda de perspectiva. Ainda que o primeiro turno tenha herdado coisas ruins que deram certo na reeleição do Lula, como a mitificação de sua história e de sua pessoa ou a fuga de debates quando as intenções de voto indicam gigantesca vantagem, prefiro que herdemos, para a próxima eleição, as táticas do primeiro turno que as do segundo. As coisas continuarão mais ou menos onde estavam em termos eleitorais se a vitória da Dilma no segundo por menor diferença faça com que os marketeiros confiem mais nas táticas do primeiro turno, o que considero uma das vantagens de ela ter, enfim, ganho a eleição. Ou seja, se seu governo não for mesmo o Governo do Mal, como queria o Serra, pelo menos não regredimos no que diz respeito à campanha eleitoral, o que não é pouco, como pode parecer. 

Quando Lula ganhou a reeleição, o que os votos disseram, no mínimo, era que ele tinha carta branca para sapatear nos brasileiros, se quisesse, pois um cara que está saindo de um escândalo como o Mensalão (sendo suspeito de diferentes formas) e é aceito com aquela margem de votos só pode escutar das urnas uma voz lhe confirmando o ser mítico que seu marketing afirma. Para nossa sorte ele não era o bebum desmiolado que chegou a se pintar.

O que o segundo turno desta eleição diria (e a vitória do Serra o diria com mais força do que um resultado que acabou pior para a Dilma que o do primeiro turno)? Que Bem e Mal são descrições políticas apuradas? Que os evangélicos não são uma força politica relevante, mas sim decisiva, foco central de uma campanha? Principalmente: que discutir impostos, previdência, trabalho, educação, segurança pública, reforma política é totalmente irrelevante em oposição a se decidir se o que acertou um candidato era mesmo uma bolinha de papel. Não é que se deva atacar presidenciáveis, mas que, no mínimo, a coisa era pra menos.

Para mim, o resultado desse segundo turno foi piorar as propostas dos dois lados. A Dilma sai pior dele que do primeiro, pois só o que ela parece ter feito foi ajudar a regredir o debate sobre o aborto (e sua trajetória nas últimas décadas) para o não-debate, a posição proibitiva de debate que Serra e Dilma tomaram no fim da eleição, em que eles nem podiam mais falar a palavra aborto, e a competição era a de quem valorizava mais a "Vida". Se Serra comprou os termos que o PT dava para a campanha, nisso, pelo menos, foiram os marketeiros do PSDB (ou vários eleitores do PV) que conseguiram dar as cartas. Grande vantagem! A religião, tão poderosa e importante Religião, que se queria fundamental para os nossos valorosos governantes, deixa-nos este grande saldo: enquanto ela virou ferramenta de marketing, suprimiu qualquer discussão minimamente esforçada sobre outra coisa que não ela própria. Afinal, além de promessas numéricas, o que se falou sobre trabalho, saúde e educação, ou até mesmo sobre MST e infraestrutura? E de onde surgiu a ideia de que só é possível ter valores se se tem religião?

Fim da campanha, os carros já sendo desligados, e os programas de governo, prometidos para antes da campanha, são lançados silenciosamente, num momento em que ninguém mais queria ler, já que a grande consequência desses "debates" acima foi que não só os PSDBistas tinham medo do PT, dessa vez também os PTistas (não só os militantes) estavam com medo do "Brasil com Serra". Surpresa, surpresa: tivemos a prévia do que seria o bipartidarismo no Brasil, duas trincheiras de gente com medo que não aturam uma palavra do outro lado e, como todo animal acuado, atacam com pedras aquilo que temem e não entendem.

PS: Um ponto positivo do segundo turno foi ver os "analistas" da BAND argumentando que a Dilma tinha ganho por influência das pesquisas incompetentes e mal feitas que previam 12% de vantagem apenas para ver o resultado final ser exatamente este!