Quando escrevi o post "Newspeak indeed", no dia 10, fiz a seguinte frase: "Quem não leu '1984' leia, antes que o Programa Nacional de Direitos Humanos o tire das livrarias".
Não coloquei vírgula depois de "1984" porque achei que tudo que vinha até ali era sujeito de "leia". Por outro lado, isso me parecia possível apenas por manias das gramáticas, já que o sentido que eu queria dar para a frase não parecia estar de acordo com essa análise sintática (para mentes estruturantes como a minha, sintaxe e semântica são irmãs siamesas). Lembrei ainda dos gramáticos que querem dizer que o sujeito, se estiver presente, ficaria marcado depois do verbo em caso de imperativo. Aí pioraria tudo, porque a oração inicial, se posta depois do verbo da principal, sem vírgula, ficaria parecendo objeto direto ("Leia quem não leu '1984'")!
Era claro o problema: usei "Quem não leu '1984'" como vocativo, portanto adicionei uma vírgula. Mas ainda parecia haver algo estranho, e lembrei que, pela Gramática Normativa, não exite oração subordinada substantiva vocativa (ao menos conforme todas as minhas). Foi o que bastou para que eu pensasse em várias frases em que usaria orações como vocativos, períodos em que uma oração claramente não poderia ser considerada sujeito da outra.
Na verdade, o tilt me parece estar no fato de que a Gramática não considera o vocativo como algo que tem conexão sintática necessária com o resto da frase (daí estar obrigatoriamente isolado por vírgula). Por isso, ele nunca poderia ser uma oração subordinada, mesmo que esta faça papel de substantivo. Assim, aquela minha oração seria uma coordenada assindética simplesmente, mas isso resolve o problema da explicação coerente gramática-normativamente ignorando absolutamente as consequências semânticas (por exemplo, a oração perderia seu potencial de sujeito da principal, o que todo vocativo guarda no modo imperativo, ao que me parece). Seria bem típico de Gramática Normativa, mas não me convenceu.
Tudo isso por olhar a frase com cacoetes de revisor e achar importante pensar a respeito por neuras de professor. Mas deve ter sido por resquícios de interesses de linguista que eu passei várias vezes, durante os dias seguintes, lembrando da frase nos contextos mais estranhos e simplesmente filosofando a respeito. Enfim, é nisso que dá passar muito tempo em ônibus com sono demais para ler e conforto de menos para dormir...
PS: Linguistas profissionais que queiram dar seus apartes, mesmo que me façam parecer muito idiota, estão convidados a comentar sem restrições.
Falando sobre tudo de linguagem que chamar a minha atenção: placas, conversas, citações... Deem uma chance lendo aí embaixo e vão sacar o foco.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Ossos do ofício
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Alpha
Nada mais zen que tirar xerox em repartição pública, pelas mãos de funcionário público, pago por dinheiro público. Cada folha é uma lenta experiência a ser observada entrando e saindo da máquina, entrando e saindo, entrando e saindo.
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terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Princípios de XP
Bati o olho numa página do Diário Gaúcho e vi uma vírgula errada. Como foi mesmo numa piscada, não consegui conter o comentário. O professor do meu lado, interessado em saber pelo menos se defender em português, ficou olhando para a frase buscando entender por que a vírgula não deveria estar ali. Apontei a conexão necessária entre as três partes da frase e disse que, por isso, não podiam ser separadas por vírgula. Ele aceitou a explicação! Indiquei em seguida o que provavelmente quem escreveu tinha em mente, justificando que a vírgula seria necessária ali se houvesse um "a" funcionando como pronome demonstrativo depois (não usei nomenclatura). Ele entendeu! Será que finalmente estou preparado para dar aula?
La Culture
Viajar bastante de ônibus garante, entre outras coisas, a experiência dos mais diversos odores urbanos. Dentre estes, destacam-se, é claro, os fedores humanos, mas mais ainda aqueles que, não sendo propriamente humanos, apegam-se à nossa raça de forma aparentemente tão tenaz e dos quais muitas pessoas não fazem questão de se livrar.
Hoje, por exemplo, sentou ao meu lado (para toda a viagem, já que quase sempre vou de fim-da-linha a fim-da-linha, sempre em ônibus lotados) uma jovem fedendo a ração de cachorro. O cheiro primeiramente intrigou meus sentidos, e foi apenas após um minuto de investigação displiscente que me convenci de que realmente o que sentia vinha dela. O odor de ração não é me realmente desagradável, talvez por ter convivido cedo com cachorros, por outro lado o fato simples de vir de um ser humano, formando aquela aura quente tão comum em toda pessoa que fede, tornava-o desagradável, apenas para em seguida meu olfato contra-argumentar que não, não se trata de um cheiro que me seja desagradável.
Do conflito nasceu a luz (como querem os marxistas). Oposição máxima de conceitos reunida no Um (agradável e desagradável em um só cheiro), ironia romântica (confluência de opostos: cheiro que relembra a infância e fedor humano), finalidades sem fim (no sentido kantiano, o cheiro, o contexto, sua emanação, as memórias, tudo parecia apontar para um significado a respeito do qual minha mente racional não era capaz de decidir), apropriação (cheiro de comida canina num ser humano), inserção no cotidiano: estava eu presenciando uma obra de arte pós-moderna. Considerando a cidade cultural em que vivo, era claro ser aquela guria extremamente desagradável aos sentidos (mas tão rica em significado e prenhe, nitidamente, de crítica social) uma prévia da Bienal B. Mais tranquilo por saber que meu nariz era insultado por uma obra de arte (Vênus de Milo está para a Grécia como essa moça está para o Brasil), baixei a cabeça e li até chegar em casa, recorrentemente interrompido pelo odor da arte pós-moderna.
Hoje, por exemplo, sentou ao meu lado (para toda a viagem, já que quase sempre vou de fim-da-linha a fim-da-linha, sempre em ônibus lotados) uma jovem fedendo a ração de cachorro. O cheiro primeiramente intrigou meus sentidos, e foi apenas após um minuto de investigação displiscente que me convenci de que realmente o que sentia vinha dela. O odor de ração não é me realmente desagradável, talvez por ter convivido cedo com cachorros, por outro lado o fato simples de vir de um ser humano, formando aquela aura quente tão comum em toda pessoa que fede, tornava-o desagradável, apenas para em seguida meu olfato contra-argumentar que não, não se trata de um cheiro que me seja desagradável.
Do conflito nasceu a luz (como querem os marxistas). Oposição máxima de conceitos reunida no Um (agradável e desagradável em um só cheiro), ironia romântica (confluência de opostos: cheiro que relembra a infância e fedor humano), finalidades sem fim (no sentido kantiano, o cheiro, o contexto, sua emanação, as memórias, tudo parecia apontar para um significado a respeito do qual minha mente racional não era capaz de decidir), apropriação (cheiro de comida canina num ser humano), inserção no cotidiano: estava eu presenciando uma obra de arte pós-moderna. Considerando a cidade cultural em que vivo, era claro ser aquela guria extremamente desagradável aos sentidos (mas tão rica em significado e prenhe, nitidamente, de crítica social) uma prévia da Bienal B. Mais tranquilo por saber que meu nariz era insultado por uma obra de arte (Vênus de Milo está para a Grécia como essa moça está para o Brasil), baixei a cabeça e li até chegar em casa, recorrentemente interrompido pelo odor da arte pós-moderna.
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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Mais dinâmicas matrimoniais
Um aluno chega para se matricular. Ele comenta em determinado momento que a mulher dele já está matriculada; ela não tem podido aparecer, mas vai vir. Pergunto o nome e, com a reposta, comento em que turma ela está. Proponho que fique na mesma, porém ele reage com surpresa e reclama: "Não! Que isso?" Colocá-lo na mesma turma da mulher? Não!
Tudo bem, coloco na segunda melhor opção (era extremamente útil colocá-lo na turma da esposa por diversos motivos administrativos e táticos que não vêm ao caso e não têm a ver com eles).
Finalmente a esposa aparece e assiste a uma noite de aulas. No fim dessa noite, o "casal" vem falar comigo e o esposo pede para mudar de turma. A outra é muito bagunceira, e ele precisa ir para a da esposa (parada logo atrás dele) para poder estudar direito.
Tá bom...
Tudo bem, coloco na segunda melhor opção (era extremamente útil colocá-lo na turma da esposa por diversos motivos administrativos e táticos que não vêm ao caso e não têm a ver com eles).
Finalmente a esposa aparece e assiste a uma noite de aulas. No fim dessa noite, o "casal" vem falar comigo e o esposo pede para mudar de turma. A outra é muito bagunceira, e ele precisa ir para a da esposa (parada logo atrás dele) para poder estudar direito.
Tá bom...
domingo, 10 de janeiro de 2010
Gramática Normativa Aplicada
Em caso de ênclise, o pronome átono vem separado do verbo por um traço, como na seguinte placa encontrada no Leopoldina:
"Vendem/se casas"
"Vendem/se casas"
Newspeak indeed
O desenvolvimento do tal Programa Nacional de Direitos Humanos formará uma Comissão Nacional da Verdade?!?!?! Depois o Ministério do Amor, o da Paz...? Quem não leu "1984", leia, antes que o Programa Nacional de Direitos Humanos o tire das livrarias.
Futebol eloquente [10]
"Roberto Carlos é especialista em copas."
Zero Hora de domingo...
Zero Hora de domingo...
sábado, 9 de janeiro de 2010
Perguntas impróprias
Sempre tem um para fazer pergunta em sala de aula justamente daquilo que não vimos, não sabemos, não lembramos, escolhendo sem querer o obscuro no mar de perguntas pertinentes para as quais estaríamos preparados. Mais curioso é quando o perguntador certeiro vem de fora, não é um aluno. Um técnico da área da saúde, que chegou na escola de repente e foi confundido imediatamente com um pai de santo (da braba) pelos alunos, perguntou para mim, no meio de sua argumentação: "Viu no Diário Gaúcho o sr. aquele de 80 e poucos anos que virou médico?" Pô, eu não sou a pessoa mais informada do mundo, mas perguntar sobre Diário Gaúcho é covardia.
A grande vantagem de um perguntador certeiro desses vir de fora é que a mentira cai bem melhor, especialmente que sua pergunta era quase retórica. Como eu pretendia apoiar a ideia geral do que ele argumentava, foi um "sim". Infelizmente é bem menos tranquilo mentir para alunos.
A grande vantagem de um perguntador certeiro desses vir de fora é que a mentira cai bem melhor, especialmente que sua pergunta era quase retórica. Como eu pretendia apoiar a ideia geral do que ele argumentava, foi um "sim". Infelizmente é bem menos tranquilo mentir para alunos.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Dos "elogios" [X+1]
Não é sobre matemática ou lógica este post. Ninguém se assuste. Acontece que eu costumava receber elogios dos quais, em geral, não gostava nada, mas compreendia pelo contexto que a pessoa pretendia me elogiar dizendo seja lá o que fosse. Teriam dedicada a eles uma sessão de meu blog, se este fosse mais velho. Esses "elogios" decididamente entre aspas rarearam com o tempo, mas de vez em quando ainda aparecem, como hoje, por exemplo. Então, X é o número dos "elogios" que recebi antes de começar o blog, e hoje adiciono o primeiro de minha era blogueira, torçamos para que novos sejam raros:
"O Sr. mentiu pra mim. O Sr. não é professor, é diretor. O Sr. vai ser diretor de colégio."
"O Sr. mentiu pra mim. O Sr. não é professor, é diretor. O Sr. vai ser diretor de colégio."
Pedreiros
Levaram até agora para expulsar Arruda da Loja Maçônica. Bah, como a maçonaria vai tentar convencer alguém que são uma organização que quer o BEM, hein? Que feio...
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